MEMES ANTIFEMINISTAS E CONSERVADORISMO EM REDE: UMA ANÁLISE DAS LEITURAS E ENQUADRAMENTOS DOS FEMININOS DESVIANTES

Autores

DOI:

https://doi.org/10.12957/redoc.2023.71816

Palavras-chave:

Ciberespaço, Multiletramentos, Formação leitora crítica, Memes antifeministas, Pesquisa exploratória.

Resumo

O presente artigo caracteriza-se, metodologicamente, pela abordagem qualitativa, de natureza exploratória, consubstanciada pela análise de conteúdo. O objetivo geral consiste em examinar o conteúdo de memes antifeministas coletados no portal aberto do Facebook “Antifeminista" para compreender em que medida os sentidos socialmente depreendidos das representações do feminino feitas pelos ideais ligados ao conservadorismo hodierno apresentam potencial para capitanear possíveis propostas sociais de formação leitora crítica, no contexto da cultura digital, pensando em descontruir estereótipos e leituras restritivas das existências femininas. O marco teórico ergue-se em meio aos seguintes campos conceituais: ciberespaço e cidadania (LÉVY, 2000); multiletramentos (KNOBEL  e LANKSHEAR, 2007; ROJO e MOURA, 2012); formação leitora crítica (DEWEY, 1959; FREIRE, 1989); memes antifeministas (ANJOS, 2017; SABBATINI, 2020). O método de análise dos dados pautou-se no enquadramento das peças coletadas em uma matriz taxonômica adaptada da proposta de Chagas et al. (2017), construída para analisar memes políticos.  Os achados da pesquisa revelam que o enunciador lança mão de uma gama diversa de estratégias linguísticas e discursivas, para persuadir e alimentar o repertório do leitor não crítico, com o objetivo de descredibilizar o movimento feminista e perpetuar relações de dominação de gênero. Assim, os resultados sugerem também que os memes analisados apresentam-se como importantes recursos para nortear propostas e práticas educativas de leitura, que constituam experiências de expansão da consciência e problematizem as enunciações opressivas que transitam nos espaços virtuais.

Biografia do Autor

Quésia Alves de Souza Sanches Domingues, Universidade Federal de São Paulo

Mestra em Educação - Linha de Pesquisa " Linguagens e Saberes em Contextos Formativos - (UNIFESP - 2022). Graduada em Letras - Língua Portuguesa e Literatura (2010) - e Especialista em Psicopedagogia (2012) pela Faculdade Bandeirantes de Educação Superior. Atualmente é professora de Língua Portuguesa na Prefeitura Municipal de São Paulo. Possui experiência no Ensino Médio e Ensino Superior.

Lucila Pesce, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

Doutora e mestre em Educação (PUC/SP), com pós-doutorado em Filosofia e História da Educação (UNICAMP); bacharel e licenciada em Letras (UPM). Professora Associada do Departamento da UNIFESP; professora do quadro permanente do PPGE da UNIFESP. Líder do Grupo de Pesquisa LEC: Linguagem, Educação e Cibercultura (UNIFESP), membro do Grupo de Estudos e Pesquisas Freirianos (UNIFESP) e do Grupo de Estudos "Letramentos e Decolonialidade" (UNIFESP e UdeA - Colômbia). Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq - Nível 2. Membro titular (2021-2023) e primeira suplente (2023-2025) do Comitê Científico do GT 16 (Educação e Comunicação) da ANPEd; membro da equipe gestora do GT 16 da ANPEd (2017-2019; 2019-2021); consultora ad hoc do GT 16 da ANPED de 2007-2017. Membro das redes internacionais de pesquisa REPEM (Rede de Pesquisas em Educação e Mídia, Unirio) e COLEARN (Collaborative Open Learning, The Open University, vinculada à Responsible Research and Innovation - RRI). Áreas de investigação: Linguagem Hipermídia e Processos Formativos; Linguagem e Educação Freiriana; Letramentos e Decolonialidade

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Publicado

2024-04-19

Como Citar

DOMINGUES, Quésia Alves de Souza Sanches; PESCE, Lucila. MEMES ANTIFEMINISTAS E CONSERVADORISMO EM REDE: UMA ANÁLISE DAS LEITURAS E ENQUADRAMENTOS DOS FEMININOS DESVIANTES. Revista Docência e Cibercultura, [S. l.], v. 8, n. 3, p. 01–23, 2024. DOI: 10.12957/redoc.2023.71816. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/re-doc/article/view/71816. Acesso em: 20 jul. 2024.