Os múltiplos e complexos significados da fome no romance O quinze, de Rachel de Queiroz: uma análise histórico-literária

Autores/as

  • Francisco de Assis Guedes de Vasconcelos Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências da Saúde, Programa de Pós-Graduação em Nutrição. Campus Universitário Reitor João David Ferreira Lima, Florianópolis, SC, Brasil. https://orcid.org/0000-0002-6162-8067

DOI:

https://doi.org/10.12957/demetra.2026.91931

Palabras clave:

Fome. Nutrição. Insegurança Alimentar. Privação de Alimentos. Literatura. Brasil.

Resumen

Introdução: O romance O quinze, de Rachel de Queiroz, publicado em 1930, é um marco da literatura da seca no Brasil. Objetivo: Realizar análise histórico-literária do romance O quinze, procurando identificar os significados do conceito de fome, bem como compreender como a autora relatou aspectos do ambiente alimentar, dos hábitos e práticas alimentares no contexto temporal e ambientação da obra. Método: A análise fundamentou-se em referencial teórico-conceitual do campo da Nutrição, complementada por revisão bibliográfica. Resultados: A palavra “fome” foi usada com múltiplos e complexos significados, sendo os mais frequentes: morrer de fome por privação alimentar (em função da seca e da miséria); sensação biológica momentânea por não ter o que comer; ter fome crônica ou de longa duração; fome como sujeito ou ente maligno; e significados hiperbólicos: roncar de fome, chorar de fome, embriagar-se de fome e enlouquecer de fome. A descrição das consequências biológicas e sociais da fome denota a aproximação da autora com os movimentos literários do naturalismo e do realismo social. A autora abordou com precisão a dieta básica das famílias de sertanejos retirantes. Utilizando recursos do realismo literário, de forma simples e coloquial, a escritora procurou retratar as degradantes consequências provocadas pela fome e miséria. Portanto, seguiu a trilha dos romances que inauguraram a literatura da seca. Conclusão: Embora não explicite a determinação histórico-social e política da fome e suas formas de enfrentamento no contexto cearense da seca de 1915, o romance procura abordar a temática dentro de uma perspectiva crítico-social.

Descargas

Los datos de descargas todavía no están disponibles.

Biografía del autor/a

Francisco de Assis Guedes de Vasconcelos, Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências da Saúde, Programa de Pós-Graduação em Nutrição. Campus Universitário Reitor João David Ferreira Lima, Florianópolis, SC, Brasil.

Professor titular do Departamento de Nutrição /CCS/UFSC

Citas

1. Castro J. Geografia da fome (O dilema brasileiro: pão ou aço). 10a Edição. Rio de Janeiro: Antares/Achiamé; 1980.

2. Food and AgricultureOrganization of United Nations (FAO), International Fund for Agricultural Development (IFAD), United Nations Children’s Fund (UNICEF), World Food Programme (WFP), World Health Organization (WHO). El estado de la seguridad alimentaria y la nutrición en el mundo 2024: Financiación para acabar con el hambre, la in seguridad alimentaria y la mal nutrición en todas sus formas. Roma, FAO. 2024. https://doi.org/10.4060/cd1254es.

3. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua. Segurança alimentar 2023. Rio de Janeiro: IBGE; 2024. [Acesso 12 mar 2025]. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv102084.pdf

4. Food and Agriculture Organization of United Nations (FAO), International Fund for Agricultural Development (IFAD), United Nations Children’s Fund (UNICEF), World Food Programme (WFP), World Health Organization (WHO).The State of Food Security and Nutrition in the World 2025 – Addressing high food price inflation for food security and nutrition. Rome, FAO, 2025. https://doi.org/10.4060/cd6008en

5. Vasconcelos FAG. Fome, eugenia e constituição do campo da nutrição em Pernambuco: uma análise de Gilberto Freyre, Josué de Castro e Nelson Chaves. Hist Cien Saude – Manguinhos. 2001;8(2):315–39.

6. Vasconcelos FAG. Tendências históricas dos estudos dietéticos no Brasil. História, Ciências, Saúde – Manguinhos. 2007;14(1):197-219.

7. Abramovay R. O que é fome [eBook]. São Paulo: Brasiliense; 2017.

8. Valente FLS. Fome e desnutrição: Determinantes sociais. Campina Grande: Editora da Universidade Estadual da Paraíba (EDUEPB), 2021.

9. Freitas MCS. Uma abordagem fenomenológica da fome. Revista de Nutrição. 2002;15(1):53–69.

10. Sordi D; Leme AS. Concepções de fome no espaço público brasileiro (1930-2022). Estudos Históricos. 2024;37:e20240308.

11. Teles H, Rech Andrighetti I, Duarte Corrêa L. O Retrato de um Brasil que-passa-fome: a fome como expressão do subdesenvolvimento. Revista de Políticas Públicas. 2022;26(1):147-164.

12. Vasconcelos FAG, Machado ML, Medeiros MAT, Neves JA, Recine E, Pasquim EM. Public policies of food and nutrition in Brazil: From Lula to Temer. Revista de Nutrição. 2019;32:e180161.

13. Jesus JG, Hoffmann R. Insegurança alimentar no Brasil e relação com a pobreza e outros condicionantes, 2004 a 2023. Segurança Alimentar e Nutricional. 2024;31;e024010-e024010.

14. Neves JA, Machado ML, Oliveira LDA, Moreno YMF, Medeiros MAT, Vasconcelos FAG. Unemployment, poverty, andhunger in Brazil in Covid-19 pandemic times. Rev Nutr. 2021;34:e200170. https://doi.org/10.1590/1678-9865202134e200170

15. Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO), the International Fund for Agricultural Development (IFAD), the United Nations Children’s Fund (UNICEF), the World Food Programme (WFP). The State of Food Security and Nutrition in the World 2018. Building climate resilience for food security and nutrition. Rome, FAO. [Acesso 12 mar 2025]. Disponível em: https://www.sdgfund.org/sites/default/files/state-food-security-nutrition-2018-en.pdf

16. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pesquisa de orçamentos familiares 2017-2018: análise do consumo alimentar pessoal no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2020. [Acesso 12 mar 2025]. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101742.pdf

17. Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO), the International Fund for Agricultural Development (IFAD), the United Nations Children’s Fund (UNICEF), the World Food Programme (WFP). The State of Food Security and Nutrition in the World 2022. Repurposing food and agricultural policies to make healthy diets more affordable. Rome, FAO. [Acesso 12 mar 2025]. Disponível em: https://www.fao.org/3/cc0639en/cc0639en.pdf

18. Brito L. A fome: retrato dos horrores das secas e migrações cearenses no final do século XIX. Estação Literária [Internet]. 2013;10B:111-125. [Acesso 12 mar 2025]. Disponível em: https://www.uel.br/pos/letras/EL/vagao/EL10B-Art8.pdf

19. Albuquerque Junior DM. As imagens retirantes. A constituição da figurabilidade da seca pela literatura do final do século XIX e do início do século XX. Varia História [Internet]. 2017;33(61):225-251. https://doi.org/10.1590/0104-87752017000100010

20. Mendonça EG,Alencar MCF. “Esquálidas criaturas de aspecto horripilante": a fome na literatura sobre a seca de 1877-79. Revista Ágora[Internet]. 2021;32(1):e-2021320106. https://doi.org/10.47456/e-2021320106

21. Rocha D. Os retirantes (1879), de José do Patrocínio: texto fundador da literatura da seca. Revista Crioula [Internet]. 2022;(29):95-124. https://doi.org/10.11606/issn.1981-7169.crioula.2022.186490

22. Maia MN,Santos CD. Bocas tortas: naturalismo sertanejo e literatura das secas no Brasil. Terra Roxa e Outras Terras [Internet]. 2023;43 (2):90-102. https://doi.org/10.5433/1678-2054.2023vol43n2p90

23. Maia MN. A colonialidade e a literatura na construção discursiva do sertão. Via Atlântica [Internet]. 2024;25(1):632–674. https://doi.org/10.11606/va.i1.197865

24. Bosi A. História concisa da literatura brasileira. 40 ed. São Paulo: Cultrix, 2002.

25. Queiroz, Rachel.O quinze [recurso eletrônico]. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012. [Acesso 12 mar 2025]. Disponível em: https://arteref.com/wp-content/uploads/2019/05/O-Quinze-Rachel-de-Queiroz.pdf

26. Godói BR. O regionalismo na obra “O quinze”, de Rachel de Queiroz, e a Crítica ao Papel da Mulher Nordestina em seu Tempo e Espaço. Revista de Ciências Humanas [Internet]. 2018;18(2):1-12. [Acesso 12 mar 2025]. Disponível em: https://periodicos.ufv.br/RCH/article/view/8036/pdf

27. Freitas ES, Fofano CS, Luquetti ECF, Dornelas EFG, Barroso RS. Memórias: aspecto marcante na obra “O quinze”, de Rachel de Queiroz. Revista Philologus [Internet]. 2019;25(75 Supl):1876-1893. [Acesso 12 mar 2025]. Disponível em: https://www.revistaphilologus.org.br/index.php/rph/article/view/680/729

28. Freitas RA, Nascimento MP. Geografia e literatura: um elo possível por meio da obra “O quinze”, de Raquel de Queiroz. GEOFRONTER [Internet]. 2020;6(1):1-18. 2020. [Acesso 12 mar 2025]. Disponível em: https://periodicosonline.uems.br/index.php/GEOF/article/view/4873

Recebido: 21 de maio de 2025

Aceito: 24 de novembro de 2025

29. Carmo FC, Pinheiro RGO, Costa JC, Bachur TPR. O Quinze: excerto da literatura brasileira acerca da intoxicação por manihot esculenta crantz. Revista Intertox de Toxicologia, Risco Ambiental e Sociedade [Internet]. 2021;14(2),5-12.https://doi.org/10.22280/revintervol14ed2.498

30. Sarmento ECD, Moura GJB. Topofobia e Topofilia em O Quinze: uma análise ecocrítica da obra de Rachel de Queiroz. Geografia[Internet] 2022;31(1):75-94. https://doi.org/10.5433/2447-1747.2022v31n1p75

31. Bandeira MA, Vieira MS. La novela El quince como resistencia: la memoria de las víctimas de los campos de concentración cearenses. REMHU, Rev Interdiscip Mobil Hum [Internet]. 2023;31(68):201–17. https://doi.org/10.1590/1980-85852503880006813

32. Sarmento ECD, Moura GJB. Conceição em O quinze: uma abordagem feminista e de colonial. ver Estud [Internet]. 2023;31(2):e85691. https://doi.org/10.1590/1806-9584-2023v31n285691

33. Siega PR, Ceribeli MCB. Literatura, violência e fome: pontos convergentes nas linhas d’Os sertões, d’A bagaceira, d’O quinze e Pedra Bonita. Revista Odisseia [Internet]. 2023;8(Especial):77-97. https://doi.org/10.21680/1983-2435.2023v8nEspecialID31989

34. Rovetta IL, Teixeira JBF,Reis LC,Stelet BP. Medicina, Literatura e três histórias: forjando tranças para a formação médica. Saberes Plurais Educação na Saúde [Internet]. 2024;8(2):e143860. https://doi.org/10.54909/sp.v8i2.143860

35. Vieira CF, Nogueira NPA, Silva NAV, Goes ACS. Aspectos Científicos Implícitos na Obra O Quinze de Rachel de Queiroz: Aplicações na Educação em Ciências.Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências [Internet]. 2024;24:e52275-24. https://doi.org/10.28976/1984-2686rbpec2024u867890

36. Candido A. Noções de análise histórico-literária. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2005.

37. Glanz K, Sallis JF, Saelens BE, Frank LD. Healthy Nutrition Environments: concepts and measures.Am J Health Prom 2005; 19(5):330-3.

38. Canesqui AM, Garcia RWD. Antropologia e Nutrição: um diálogo possível. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz; 2005.

39. Patrocínio J. Os retirantes. Belém: Núcleo de Educação à Distância (NEAD), [1879]. [Acesso 12 mar 2025]. Disponível em: http://www.portugues.seed.pr.gov.br/arquivos/File/leit_online/jose_patroc2.pdf

40. Theophilo R. A fome: Senas da sêcca do Ceará. Fortaleza: Gualter R Silva - Editor. 1890. [Porto: 1890, Typ. de A. J. da Silva Teixeira]. [Acesso 12 mar 2025]. Disponível em: https://www.google.com.br/books/edition/A_fome/PndNAAAAYAAJ?hl=pt-BR&gbpv=1&printsec=frontcover.

Publicado

2026-05-30

Cómo citar

1.
Vasconcelos F de AG de. Os múltiplos e complexos significados da fome no romance O quinze, de Rachel de Queiroz: uma análise histórico-literária. DEMETRA [Internet]. 30 de mayo de 2026 [citado 5 de junio de 2026];21:e91931. Disponible en: https://www.e-publicacoes.uerj.br/demetra/article/view/91931

Número

Sección

Alimentação e Nutrição em Saúde Coletiva