O MAST sai do armário - Relatos sobre a “2ª Semana do Orgulho LGBTTI+” no Museu de Astronomia e Ciências Afins

2026-08-04

Autoria: Kaique da Silva Pinto

Em 1969, na região de Manhattan (EUA), as autoridades constantemente aproveitavam do status de semilegalidade que caracteriza os guetos para assediar e extorquir o público que frequentava bares à noite pela região: bixas, sapatões, pessoas trans, enfim, pessoas LGBTI+ pobres, negras e latinas. A mais escandalosa reação veio no bar Stonewall Inn; já era madrugada do dia 28 de junho quando a polícia apareceu e começou uma abordagem agressiva, condicionada a extorsões e prisões. Desde então, o dia 28 de junho passou a ser reconhecido como o “Dia Internacional do Orgulho LGBTI+”. Ainda, vale salientar que a Revolta de Stonewall tornou-se um mito fundador do movimento LGBTI+ moderno, sobretudo pelo imperialismo cultural estadunidense, todavia, é fundamental perceber a existência de experiências de organizações similares em outros contextos e territórios, acima de tudo latinoamericanos (Quinalha, 2023).

Esse acontecimento nos convida a pensar no privilégio social da branquitude/cisnormatividade, que significa viver sem o medo das diversas formas de violência, silenciamento e apagamento de suas identidades, memórias e conhecimentos produzidos. Esse privilégio também se expressa naquilo que é reconhecido, registrado e legitimado pelas instituições. No campo da ciência, por exemplo, o Estado brasileiro não dispõe de bases de dados oficiais e unificadas que registrem a população LGBTI+. As informações sobre identidade de gênero e orientação sexual no meio científico ainda são escassas e fragmentadas. Essa ausência de registros não é casual; ela reflete processos históricos de invisibilização. Por isso, a tomada de consciência histórica e política implica reconhecer que o nosso presente é permeado de passado. E esse passado é o tempo inteiro de moralidade e extermínio para algumas pessoas.

Uma vez li, em algum lugar, que fazer ciência é propor novas experiências e possibilidades. De fato é. Seja nos laboratórios, nas sala de aulas, nos Museus ou nos planetários, os discursos (re)produzidos nunca foram e nunca serão neutros. A neutralidade é um mito que serve apenas para manter os privilégios de quem nunca precisou lutar para ter sua existência reconhecida. Assumir que toda prática é atravessada por questões éticas, estéticas, políticas e sociais é reconhecer que produzir conhecimento também é produzir mundos e assegurar que todas as pessoas possam existir, aprender e participar em condições de dignidade. Na teoria, isso soa potente. Emociona. E até convence. Na prática, significa romper silêncios e tensionar quais histórias merecem ser contadas e quais vidas são consideradas legítimas.

Assim, instituições destinadas à produção e divulgação de conhecimento despontam como potenciais problematizadoras para refletir sobre questões sociais e promover transições com vistas a uma sociedade que nos tire do lugar de antinatureza, e passe para um lugar afetivo que possibilite construir imaginários. Em consonância com o defendido por Eismann et al. (2024), ainda que forjados sob éticas e estéticas coloniais, defendemos e acreditamos que os Museus de ciência e tecnologia (C&T), devem atuar no enfrentamento à invisibilização e opressão de grupos sociais. Ao mesmo tempo, Marandino e Ferrazo (2025), exploram no artigo “Sobre como os museus podem adiar o fim do mundo”, a ideia desses espaços assumirem a responsabilidade de revelar e combater as estruturas sociais que produzem vulnerabilidades e injustiças, de modo a fomentar discussões e incluir dimensões afetivas, morais, éticas e políticas da ciência. 

Em um caminho que a equidade raramente se faz presente, é essencial repensar as palavras - gênero, sexualidade, raça, território - dentro dos espaços contraditórios (como os Museus), para que possamos produzir COM VIDA outras realidades, nas quais viver não seja, constantemente, um ato de resistência.

Sob esses pretextos em mente, o MAST dá luz ao tema ao promover um evento de educação museal, que se faz com pluralidade e no compromisso com vidas LGBTI+. Nesse contexto, em uma ação coordenada pela Coordenação de Educação em Ciências (COEDU) desenvolvemos no mês de junho a “Semana do Orgulho LGBTTI+ no Museu de Astronomia e Ciências Afins - MAST”, estruturada em frentes internas e externas.

A COEDU já havia abordado a temática LGBTI+ em uma ação pontual, no âmbito de ações do Instituto Nacional de Museus (IBRAM), com a Semana Nacional de Museus e a Primavera dos Museus. Contudo, em junho de 2024, com vistas a implementação de uma ação permanente, foi encabeçado por pessoas LGBTI+ e negras parte da equipe do Serviço de Programas Educacionais (SEPED/COEDU), duas atividades com narrativas e epistemologias LGBTI+, atravessadas por um léxico próprio de resistência, humor e pertencimento. São elas a sessão de planetário denominada “Não é só uma fase” e uma edição temática do Programa de Observação do Céu (POC), intitulada de “POC das pocs” (Kunzler; Fonseca, 2025). 

No ano de 2025 ocorreu a primeira edição da babadeira “Semana do Orgulho LGBTTI+ no MAST", que agregou uma programação técnico-científica a de popularização de C&T. Acrescentamos, que esse evento não é sobre representatividade, mas sim sobre inspiração de vida. É sobre fabular criticamente passado, presente e futuro. Dessa forma, buscamos promover um fervo institucional em direção a um espaço de escuta, reconhecimento e dignidade, no qual amplie o diálogo com a sociedade por meio de saberes LGBTI+. As experiências da “Semana do Orgulho LGBTTI+ no MAST" podem ser acessadas no artigo “Novas práticas de popularização de C&T em contexto de Educação Museal: experiências do Museu de Astronomia e Ciências Afins em busca da inclusão social” (Kunzler; Fonseca, 2025).

Partindo dessa iniciativa, que gerou debates internos e externos, sobre aspectos relacionados ao pertencimento, direito à memória e inclusão social, nos questionamos quais expectativas e desejos nos permeiam pela celebração de um Orgulho da nossa cultura bixa dentro de uma instituição científica. A partir daí, as atividades desenvolvidas foram transicionando junto a nossos anseios e saberes, e suscitou o planejamento de uma programação mais robusta.

Em 2026, a equipe concebeu a “2ª Semana do Orgulho LGBTTI+ no MAST", dando continuidade a proposta do ano anterior, tendo início no dia 26 de junho e fim no dia 27 de junho. Essas temáticas vêm sendo discutidas diante de um cenário de avanço do conservadorismo e intensificação das políticas neoliberais, em que 437 projetos de lei tramitam nas esferas federal e estadual com conteúdos em comum: a tentativa de restringir a presença e expressão da população LGBTI+ no espaço público (Otero, 2025).

Em consonância com os outros anos, foram promovidas as atividades “Não é só uma fase” e “POC das pocs”, duas palestras, uma série de postagens temáticas no Instagram do MAST (@museudeastronomia) e uma atividade de Educação Museal Online no Instagram da COEDU (@masteducação), e, por fim, a intervenção artística colaborativa “Constelar corpos - (trans)bordados de (re)existências”.

Tendo isso em mente e compreendendo que os Museus e seus profissionais não estão apartados da realidade. Uma vez que vivenciamos experiências de violências criadas pela branquitude/cisnormatividade todos os dias em nossas vidas e observando a materialização desses efeitos no MAST, tanto presencialmente quanto em suas redes sociais digitais, emergiram os questionamentos: Como os Museus estão inseridos nesse cenário? De que educação em espaços de ciência e tecnologia estamos falando e para quem? Estratégias de resistência para lidar com essas questões em seus cotidianos são factíveis?

Entre os dias 23 e 26/06, quatro postagens foram realizadas a partir de uma produção conjunta entre COEDU e o Serviço de Comunicação (SECOM). Os posts foram os seguintes: Por que instituições científicas e Museus também participam do Mês do Orgulho?; Mitos e fatos: o que a ciência diz sobre sexualidade e gênero?; Vídeo convidando o público para a programação; Quem é AFRO-dite?.

Dado início a divulgação pelas redes sociais do MAST, novamente foram materializados as ressonâncias da desinformação e preconceitos sob a temática LGBTI+, e como aponta Marti (2025) tais dilemas também integram uma relação quase simbiótica entre discurso de ódio e desinformação, e os seguidores da instituição replicam e acreditam nesses discursos. Como alerta Jota Mombaça (2018, 27s): “mesmo que eles nos forcem a defender o óbvio mil vezes, nós precisamos superar sua determinação, sonhando até mais além - acima, por trás, por dentro, contra e em volta do seu mundo”. Ser uma pessoa trans, uma mulher preta dentro de um Museu é um ato de desobediência do que socialmente é esperado de nós. 

Diante disso, destaca-se a repercussão de um vídeo divulgado pelas redes do MAST em que a educadora Kaique Pinto convida o público para o evento. Todavia os comentários realizados se desenvolveram em proporções que chegaram a 30 mil visualizações, somente em 3 dias. Esse episódio endureceu o clima de festividade do evento, e culminou em sensações de tensões e confronto na luta por nossos direitos. Como a nossa história nos conta: o orgulho é e sempre será ferramenta de luta.

Além disso, o episódio mobilizou um ato político pelas redes sociais do Pré-Vestibular Popular Lima Barreto, por conta dos ataques direcionados à educadora e ao evento. A mobilização, que pode ser vista na íntegra aqui, defende uma verdade simples, de que pessoas LGBTI+ produzem conhecimentos e têm o direito de ocupar todos os espaços da vida pública - de dia e a noite. E é na força da diversidade que a luta pela sobrevivência ganha materialidade.

Diante desse contexto, no dia 26/06 o evento começa com uma fala institucional, além de duas palestras. A primeira intitulada “Educação, Gênero e Sexualidade em espaços de ciências, cultura e memória: de que educação estamos falando?”, com a participação de Silvilene Morais, coordenadora do Museu Movimento LGBTI+, sobre os desafios e as potencialidades de incluir debates sobre gênero e sexualidade em espaços de ciência, cultura e memória. A proposta discutiu o papel da educação na construção de ambientes mais inclusivos, diversos e socialmente comprometidos com a população LGBTTI+. Veja a fala institucional e a palestra na íntegra. Em seguida, Marcelle Medeiros - representante do Grupo de Pesquisa Juventude, Educação, Gênero e Sexualidade na Cibercultura (JEGESC) da UERJ, apresentou “Atuação nas redes como estratégia de resistência aos discursos de ódio contra a comunidade LGBTTI+”, na qual foi abordado as possibilidades de atuação educativa no ambiente digital, especialmente no desenvolvimento de estratégias de popularização científica capazes de enfrentar práticas sexistas, LGBTTI+fóbicas e racistas, tanto dentro quanto fora dos espaços museais. Veja a palestra na íntegra.

No @masteducação, a atividade propunha “Quantas cores cabem no céu? e “Pode a ciência ser tão diversa quanto o universo?”, em que foi possível explorar aspectos de instrumentos científicos (espectroscópio de difração) e conceitos físicos e químicos com a semiótica LGBTI+, perante a produção de significados entre a diversidade de cores cósmica e a humana, num exemplo bem evidente de como é possível produzir uma divulgação e popularização da ciência nos Museus de C&T atenta a vidas LGBTI+.

No dia 27 de junho, aconteceram três sessões de planetário: “Não é só uma fase”. A sessão autoral criada e desenvolvida pelas educadoras do SEPED, Kaique Pinto e Isabella Santos-Souza, convida o público a uma experiência sensível e imersiva que celebra a pluralidade das formas de existir e amar, mostrando que o céu também pode ser um espaço para contar histórias de diversidade. Potencializada por uma experiência cênica antes, durante e depois da sessão, a narrativa é composta por uma série de ciclos interligados no céu de 28 de junho de 1969, que associam as fases estelares com as fases e vivências históricas da comunidade LGBTI+. Com a presença de uma linguagem viada, a sessão é conduzida pela deusa do amor, da beleza e da sexualidade AFRO-dite, numa releitura da figura feminina do arquétipo de beleza, evidenciando o aspecto interseccional da proposta. A experiência convida o público a compartilhar memórias e a refletir sobre pertencimento, preconceito, amor e resistência a partir da conexão entre fenômenos astronômicos e experiências humanas.

Finalizando a programação, foi realizado o “POC das pocs: o céu também tem suas Divas”. Em que no tradicional Programa de Observação do Céu, o público foi convidado a conhecer o campus com pavilhões e lunetas centenárias e a observar astros através de telescópios portáteis, focando nos personagens abordados na sessão de planetário “Não é só uma fase”, foram eles: a Lua na fase Crescente (com 96% de sua superfície visível), o planeta Vênus e o aglomerado estelar aberto NGC 4755 (conhecido como Caixa de Jóias), um objeto extremamente brilhante que mostra distintamente a cor muito diferente de suas estrelas.

Em meio à programação do evento (Figura 1), ao longo de dois dias emocionantes, observamos aqui a potencialidade que apresenta a educação museal ao possibilitar a interação entre pessoas de diversas identidades de gênero e orientações sexuais com o público e a equipe de profissionais do MAST, na produção de uma experiência que seja disruptiva em algum lugar para as questões de gênero e sexualidade. A construção dessa experiência e do material produzido contribui para o desenvolvimento de novos materiais, além de inspirar outras instituições a abrirem a porta dos seus armários. 

Também destacamos que é a resistência afinada e disponibilidade da COEDU para o evento, que contou com mais de 150 participantes nos dois dias de evento, que faz tudo dar certo. Em uma conjuntura com várias camadas da ausência de referencial, a Semana do Orgulho LGBTI+ traz à tona novas referências para o campo, com a criação de novos discursos, imagens e projetos que nos apresenta de forma digna, incluindo a responsabilidade para quem está criando. E isso constrói imaginários. Quantas crianças, adolescentes e adultos podem olhar para nós e dizer “eu já passei por isso”, “eu vivo isso”, “eu me reconheço no MAST”. Quem somos e o que sentimos são questionamentos que não encontram respostas num Museu preto e branco, mas sim na grande variedade de cores e possibilidades de existência.

Ao evento vieram pessoas LGBTI+ em maioria jovens, além de famílias e pessoas heterossexuais. Muitas dessas pessoas não conheciam o MAST, e então, puderam saber que os armários, as janelas e as portas da frente estão se abrindo e que o Museu também lhes pertence. Esperamos que este ato político possibilite de uma forma singela manter a esperança por justiça social e epistêmica acesas dentro e fora da instituição. Celebrar o Orgulho pode parecer exagerado para quem não suporta liberdade. Livre pra quem entende o que está em jogo. Para quem enxerga além, inspiração de vida. Do armário ao céu. Do medo ao Orgulho.

Figura 1: Imagens da “2º Semana do Orgulho LGBTTI+ no MAST”, onde se observam diferentes momentos: as palestras com as pesquisadoras convidadas; sessão de planetário “Não é só uma fase”; POC das pocs; participantes do evento; e captura de tela do vídeo postado nas redes do MAST para divulgação do evento.

Fonte: SECOM/MAST (2026)

 

Referências

ÁFRICA NAS ARTES. [Parte 2] Redistribuição da Violência. Youtube, 2 out. 2018. 1 vídeo (5 min 55 seg). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=OVk3X3VQ9p0&t=27s. Acesso em: 13 jul. 2026.

EISMANN, Alejandra Irina; SPINELLI, Patrícia Figueiró; FAGUNDES, Bárbara Gonçalves; SIMÕES, Marta Filipa; SEMEDO, Dulcelena Cardoso. Faz ciência como uma menina! Astronomia sem fronteiras entre comunidades lusófonas. Revista Docência e Cibercultura, Rio de Janeiro: UERJ, maio. 2025. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/re-doc/announcement/view/1820. Acesso em: 12 jul. 2026.

KUNZLER, Josiane; FONSECA, Omar M. Novas práticas de popularização de C&T em contexto de educação museal: experiências do Museu de Astronomia e Ciências Afins em busca da inclusão social. Revista do Museu Catavento, São Paulo, v. 1, p. 116-145, dez. 2025. Acesso em: 11 jul. 2026.

MARANDINO, Martha; FERRAZO, André K. F. Sobre como os museus de ciências podem adiar o fim do mundo. Revista do Museu Catavento, São Paulo, v. 1, p. 94-114, dez. 2025. Acesso em: 13 jul. 2026.

MARTI, Frieda Maria. Museus e Desinformação: por que devemos falar sobre isso? Revista Docência e Cibercultura, Rio de Janeiro: UERJ, ago. 2025. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/re-doc/announcement/view/2012. Acesso em: 13 jul. 2026.

OTERO, Fernanda. Direitos LGBTQIAPN+ sob ataque no Congresso. Fundação Perseu Abramo, 24 jun. 2025. Disponível em: https://fpabramo.org.br/direitos-lgbtqiapn-sob-ataque-no-congresso/. Acesso em: 13 jul. 2026.

QUINALHA, Renan. Movimento LGBTI+: uma breve história do século XIX aos nossos dias. 1. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2023.

 

Sobre a autoria:

Kaique da Silva Pinto é graduada em Licenciatura em Química pela Universidade Federal Fluminense (UFF, 2021) e especialista em Docência, Tradução e Interpretação em Libras (Uníntese, 2024). Atualmente é educadora museal no Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), pelo Serviço de Programa Educacionais (SEPED/COEDU). É também educadora popular e professora de química no Pré-Vestibular Popular Lima Barreto, ativista LGBTI+ e integra o grupo de pesquisa e estudos Museus e Centros de Ciências Acessíveis (MCCAC).

Como citar este artigo:

PINTO, Kaique Silva. O MAST sai do armário - Relatos sobre a “2ª Semana do Orgulho LGBTTI+” no Museu de Astronomia e Ciências Afins. Revista Docência e Cibercultura,agosto 2026, online. ISSN: 2594-9004. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/re-doc/announcement/view/2180. Acesso em: DD mês. AAAA.

Editores/as Seção Notícias:

Edméa Santos, Felipe CarvalhoFrieda Maria Marti Marcos Vinícius Dias de Menezes e Mariano Pimentel