Notícias: O Amor na "Quarentena": entre cartas e despedidas no ciberespaço

 

Por Vagna Brito de Lima 

Doutora em Educação (2017) pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), realizou Estágio Científico Avançado de Doutoramento pelo Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE-CAPES) de 1 de setembro de 2015 a 31 de agosto de 2016 na Universidade do Minho em Portugal. Mestra em Educação (2012) pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Possui Especialização em Gestão Escolar (2006) pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) e em Metodologia do Ensino Fundamental e Médio (2003) pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA). Graduada em Licenciatura Plena em História (1995). Membro do Grupo de Estudos e Pesquisa em Políticas Curriculares- GEPPC/UFPB/CNPq do Centro de Educação da Universidade Federal da Paraíba. Professora da educação básica na rede pública estadual do Ceará com experiência no ensino superior. Atualmente, coordenadora da formação docente e educação a distância da Seduc-CE.ORCID 

Inicio o presente texto solidarizando-me com tantas pessoas que perderam seus amores nesse período pandêmico, que se alonga desde o começo de 2020. A exemplo da amiga Betânia Gomes, que chora o luto de sua mãe, a Sra. Maria Aparecida, em decorrência da Covid-19; do amigo Sérgio Presley, que se foi deixando áudios agonizantes; do amigo Antônio Dóri, que não teve tempo para se despedir da sua esposa Neuverina; do amigo Thomaz, do Canto Mineiro, que não vai poder ver os filhos crescerem; dos amigos Carlão e Aldízio, que muito contribuíram com a educação cearense, sem falar nos incontáveis colegas professores e professoras de todo o Brasil e do mundo. As partidas são inúmeras!  Já somam-se quase 500 mil mortes só em nosso país.

Para esta escrita, autobiográfica, sou movida pela saudade que já sinto do amigo Ed, do professor Edvaldo Albuquerque dos Santos, que não resistiu à Covid-19 e partiu no último domingo (13 de junho de 2021). Ed, presenteava-nos, amigos, alunos e ex-alunos, com cartas e fotografias nas ocasiões de Natal e final do ano. Suas cartas são verdadeiros regalos, posto que, para além do amor investido, são temáticas, artísticas e icônicas.

Imagem 1 - Carta compartilhada na rede social Facebook

Fonte: Arquivo pessoal, 2017. 

Anualmente, eu aguardava a carta impressa juntamente com uma fotografia que trazia a mensagem do que havia marcado o Ed durante o ano. Em 2020, não foi diferente! 

Imagem 2 - Fotografia de carta recebida 

Fonte: Arquivo pessoal, 2021. 

Como ele próprio disse, "sou um problema humano… sou daqueles que sonham..." (SANTOS, 2020). Ed sonhava um mundo melhor em humanidades, um lugar em que todos tivessem direito à vida com dignidade, bem como uma educação de qualidade, socialmente referenciada.

Assim, Ed presenteava-nos, ano a ano, com cartas, fotografias, arte, sorrisos e, sobretudo, amor! Ele emanava simplicidade e amor. 

Imagem 3 - Fotografias de cartas recebidas ao longo dos anos 

Fonte: Arquivo pessoal, 2021. 

Em setembro de 2020, publiquei neste canal de comunicação o texto “O AMOR na ‘QUARENTENA’: das cartas ao ciberespaço” (2020), desde lá até aqui muitas foram as perdas, como já mencionei. E, mesmo reconhecendo que "nos momentos mais críticos, muitas despedidas foram realizadas por meio da tela de dispositivos móveis usando 'a rede'" (LIMA, 2020), por mais que presencie as relações socioafetivas ocuparem o ciberespaço, nessas circunstâncias, não tenho como assimilar os funerais, cerimônias importantes para a despedida dos entes queridos.

Todos nós, em algum momento das nossas vidas, passamos pela dor do luto,  tema pouco refletido, posto que, culturalmente, somos instigados a pensar sobre o bem viver. O Brasil é um país que não garante nem a qualidade de vida, como pensar em uma "boa morte"? Contudo, atualmente, a sociedade vive um luto coletivo em decorrência da crise sanitária provocada pela pandemia do novo coronavírus. Portanto, na direção de alargar o entendimento sobre a temática, o recém-lançado livro "Notas sobre o Luto", da escritora Chimamanda Ngozi Adichie, é uma referência a ser considerada, bem como, conhecer o movimento "Vamos falar sobre luto?" e a Irmandade da Boa Morte, criada na Bahia por mulheres negras desde o século XIX.

Na mesma direção, cabe citar ainda, o livro “A morte é um dia que vale a pena viver”, da médica Ana Cláudia Arantes (2019), que fala um pouco sobre como chegamos ao final das nossas vidas, levando-nos a repensar a nossa existência como um processo de preparação para uma morte livre de pavores, medos, abandonos e angústias, ou seja, como término natural de uma caminhada. Uma abordagem que, no tempo presente, faz-se necessária, considerando que milhares de famílias estão enfrentando esse processo e que ele não pode mais continuar sendo considerado um tabú.

É com o sentimento de pesar, luto sem o ritual da despedida, que convido aos amigos, às amigas, aos ex-alunos e aos alunos do querido Ed a enviarem uma última carta para ele, se possível, com uma fotografia juntos, assim como ele fazia ao final de cada ano. Do lado do destinatário, há um grupo composto por familiares e amigos dispostos a fazer a curadoria do material para compor uma publicação, e, desse modo, compartilharmos o luto e a despedida, entre bit, afetos, cartas, fotos e sentimentos. 

 

Referências 

ARANTES, Ana Claudia Quintana. A morte é um dia que vale a pena viver. Rio de Janeiro: Sextante, 2019. 

LIMA, Vagna Brito. O AMOR na "QUARENTENA": das cartas ao ciberespaço. Notícias, Revista Docência e Cibercultura, setembro de 2020, on-line. ISSN: 2594-9004. Acesso em: 15 jun. 2021. 

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Como citar este artigo:

LIMA, Vagna Brito. O Amor na "Quarentena": entre cartas e despedidas no ciberespaço. Notícias, Revista Docência e Cibercultura, junho de 2021, online. ISSN: 2594-9004. Disponível em: < >. Acesso em: DD mês. AAAA.

 

Editores/as Seção Notícias: Felipe CarvalhoMariano Pimentel e Edméa Santos