Escrevivências, pesquisa e produção de mundos
Escrevivências, pesquisa e produção de mundos
Ementa:
Este dossiê celebra os 80 anos de Conceição Evaristo como quem reconhece um marco incontornável na história intelectual brasileira. Mais do que homenagear uma autora, trata-se de afirmar a centralidade de um pensamento que, ao emergir da experiência negra, feminina e popular, desestabiliza regimes tradicionais de produção do conhecimento e inaugura outras possibilidades epistemológicas nas ciências humanas. A escrita de Conceição Evaristo ensina que “a nossa escrevivência não é para adormecer os da casa-grande, e sim para acordá-los de seus sonos injustos”. Essa afirmação, ao mesmo tempo poética e política, tem atravessado pesquisas em educação, literatura, psicologia, sociologia, história, filosofia, antropologia, artes e diversos campos de saberes, convocando pesquisadoras e pesquisadores a interrogarem seus próprios modos de escrever, pesquisar e narrar o mundo.
Nas universidades e nos grupos de pesquisa, a escrevivência tem sido mobilizada como gesto teórico-metodológico que recusa a separação entre vida e conhecimento. Ao afirmar que “escrever é uma forma de não morrer”, Conceição Evaristo desloca a escrita do lugar da neutralidade e a reinscreve como prática de sobrevivência, memória e insurgência, dimensão que tem impactado profundamente as pesquisas comprometidas com justiça social, educação antirracista e epistemologias negras.
Este dossiê tem como objetivo receber textos que dialoguem com a densidade do pensamento evaristiano, compreendendo a escrita como território de disputa simbólica, política e epistemológica. Pesquisas inspiradas por sua obra têm mostrado que narrar vidas negras não é um exercício de intimismo, mas um gesto de produção de história, de teoria e de crítica social. Como afirma a autora, “quando escrevo, escrevo também as histórias de quem veio antes de mim e das que caminham comigo”.
Ao tensionar os limites entre ficção, memória, autobiografia e teoria, Conceição Evaristo oferece às ciências humanas uma ética da escrita implicada. Uma escrita que reconhece que “ninguém conta uma história sozinho” e que toda produção de conhecimento é atravessada por pertencimentos, silêncios, dores e afetos coletivos. É nesse sentido que sua obra tem inspirado pesquisas que assumem o corpo, a ancestralidade e a experiência como dimensões legítimas do fazer científico.
Celebrar os 80 anos de Conceição Evaristo, neste dossiê, é reconhecer que sua obra não apenas atravessa a literatura, mas funda um campo de reflexão potente para as ciências humanas contemporâneas. Um campo em que escrever é existir, pesquisar é se implicar e produzir conhecimento é, também, um ato de responsabilidade ética com as vidas negras que insistem em viver, narrar e reexistir.
Este dossiê convida textos que escrevam com Conceição Evaristo! Desejamos textos que assumam a escrevivência como horizonte crítico, político e epistemológico, e que façam da pesquisa um gesto de escuta, memória e transformação social.
Submissões até 20 de setembro de 2026.
Publicação prevista para até 15 de dezembro de 2026.
Editoras convidadas:
Allan Rodrigues (UFMA e UERJ-Brasil);
Luiza Rodrigues (UFF -Brasil);
Thiago Dantas (UERJ-Brasil).
