Notícias: E de repente, a aula foi para o ciberespaço

Por Elvira Sousa Gomes Loiola
Docente em Secretaria da Educação do Estado do Ceará; Docente em Secretaria da Educação do Municio de Quiterianópolis; Licenciada em História e Geografia pela Universidade Vale do Acaraú – UVA; Pós-graduada em Gestão Escolar pelo Universidade Federal de Juiz de Fora –UFJF; Cursista do Itinerário Formativo - Competências Digitais para a Docência.

Introdução

No presente relato, sou provocada a expressar minhas memórias enquanto docente no contexto da pandemia.  Ao discorrer sobre o vivido: sensações, emoções, frustrações, expectativas, desafios, etc. Enfim, um leque de experiências que marcam esses poucos mais de nove meses de aulas em que as aulas foram para um ciberespaço.

Na manhã de 18 de março, o Decreto nª 33.510 que suspendia as aulas presenciais, com validade de 19 de março a 2 de abril, instituído pelo governo estadual, como medida protetiva contra a disseminação do novo Corona vírus – Convid-19. Esta data marcou o dia “em que a Terra parou” para os cearenses. E contrariando o poeta que previamente cito “... e aluno não saiu para estudar, pois sabia, o professor também não estava lá...” (Raul Seixas), a escola não parou, fechou as portas, mas abriu janelas para ser conhecida sob uma outra perspectiva. As aulas assumiram a condição de aulas remotas, ou seja, cada um de sua casa foi chamado a continuar a desempenhar os papéis de quem ensina e de quem aprende, usando o celular e o livro didático como recursos didáticos e de interação.

De um dia para o outro, os profissionais da educação, tivemos que nos reinventar, para aprender/ensinar e ensinar/aprender. O “mundo parou”, mas a escola não pode parar, é preciso mantermos contato com os alunos, diante da angústia, da incerteza, da ansiedade e do medo, não podíamos desistir. No mês seguinte, um repertório de palavras e expressões enriqueceram o meu vocabulário e o fazer pedagógico: ensino remoto; webaula, Google Meet, Classrom, Webinar, dentre outros.

Era o anúncio da entrada abrupta das mídias digitais na educação, embora há anos estivessem disponíveis, mas ainda não incorporada ao fazer pedagógico de maneira estruturada, apenas esporádica. O ano de 2020 marca a educação profundamente, uma pandemia veio nos alertar, que a escola precisava se abrir para o século XXI. 

 

O uso do celular: uma grande ironia promovida pela pandemia!

Com a expansão da internet pelo Brasil e a facilidade de acesso a dispositivo móveis, como o celular, por uma parcela significativa da população. Segundo pesquisa do IBGE de 2015, metade dos domicílios brasileiros tinham conexão à internet, em especial a redes sociais. Consequentemente, essas ferramentas, ultrapassaram os muros da escola, porém não foram incorporadas como metodologias educativas e se tornaram instrumentos de indisciplina, passível de sanções.

No Regimento Escolar, buscava-se leis que regulamentasse a proibição do seu uso no horário das aulas. E foi muito diálogo entre a gestão escolar, docentes, estudantes e família para regulamentar a questão do uso do celular na escola. Essa discussão ficou assegurada pela LEI Nº 14.146, DE 25.06.08 que dispõe sobre a proibição do uso de equipamentos de comunicação, eletrônicos e outros aparelhos similares, nos estabelecimentos de ensino do Estado do Ceará, durante o horário das aulas.

E antes de se chegar uma decisão definitiva, mesmo com a determinação legal, se é que esta existe, o celular passou de vilão a aliado. Se na escola era “proibido”, de casa, o celular ficou sendo o mecanismo de conexão entre nós, professores e o estudante. Aprendemos também uma outra lição, o fato de um estudante interagir em redes sociais ou saber jogar, não significa que saiba usar o celular a serviço da aprendizagem. E que nós, em específico eu não estava preparada para ensinar mediado pelo celular.

 Segundo Orrico e Monteiro (2018, p. 2): 

As tecnologias de informação estão cada vez mais presentes no dia a dia dos adolescentes por meio dos computadores, dos tablets, e principalmente, dos aparelhos celulares, pois eles oferecem inúmeras possibilidades de uso bem como portabilidade que permite levá-los para todos os lugares que frequentam, inclusive para a escola.

 As tecnologias de informação estão cada vez mais presentes no dia a dia dos adolescentes por meio dos computadores, dos tablets, e principalmente, dos aparelhos celulares, pois eles oferecem inúmeras possibilidades de uso bem como portabilidade que permite levá-los para todos os lugares que frequentam, inclusive para a escola.

Durante décadas isso foi negligenciado, e agora é tempo de assumir a responsabilidade, enquanto professora, enquanto escola e adentrar no mundo das mídias digitais a serviço de uma educação mais dinâmica e inovadora.

Para Pacheco, Pinto e Petroski (2015), o “desenvolvimento tecnológico exige que uma nova forma de ensinar e aprender seja incluída no dia a dia escolar “, exigindo de nós, professores, uma reflexão profunda no sentindo de conceber aulas mais atrativas com a inclusão de novas ferramentas e de abordagens didático-pedagógicas.

Corroboro com os autores, preciso de reflexão e ação com uso de ferramentas digitais no meu fazer pedagógico como perspectiva de planejar aulas não somente atrativas, mas também que façam sentido e que promovam a troca de conhecimentos. E tinha iniciado essa jornada, porém de maneira tímida e superficial, para avançar nesse sentido além de iniciativa pessoal é necessário formação continuada e trabalho coletivo com vista uma maior eficiência.

 

Não posso desistir de aprender e de ensinar!

A inspiração por definição vem de fora de nós mesmos, do latim original, inspirare, sugere, algo que “nos respira vida”. Se na antiguidade era associada a uma condição divina, no mundo moderno está associada à criatividade estimulada por uma condição externa. Quanto a mim, digo que a inspiração parte de uma necessidade externa e de uma convicção interna, sou motivada pelo desafio de superar a mim mesma.

E como professora na cibercultura, o contexto pandêmico me impõe essa prerrogativa e como aspirante a aprendiz, me sinto motivada a me permitir re-aprender, ampliar a teoria e adaptá-la à prática.

Segundo Santos (2009, p. 2),  

A cibercultura é a cultura contemporânea estruturada pelas tecnologias digitais. Não é uma utopia, é o presente; vivemos a cibercultura, seja como autores e atores incluídos no acesso e uso criativo das tecnologias de informação e comunicação (TICs) seja como excluídos digitais.

 Há 20 anos no exercício da docência, e ter o presente (contexto e oportunidade de crescimento) de agir nessa interação entre sociedade, cultura e tecnologias digitais a serviço da educação é um legado que a pandemia a mim trouxe e que a há tempos a mim exigia. E se de repente a aula foi para o ciberespaço é de lá que “digitalizada, a informação se reproduz, circula, se modifica e se atualiza em diferentes interfaces. É possível digitalizar sons, imagens, gráficos, textos, enfim uma infinidade de informações” (SANTOS 2009, p. 4). O ciberespaço integra e redimensiona uma infinidade de mídias, com uma pluralidade de interfaces me permitindo uma aula com interações (síncronas e assíncronas).

É nesse aspecto em que me insiro, após algumas vivências com webaulas uso de aplicativos como padlet para apresentação de conteúdo, loom para produção de aulas em formato MP4, me lanço à educação online. Para SANTOS (2009) “A educação online é o conjunto de ações de ensino-aprendizagem ou atos de currículo mediados por interfaces digitais que potencializam práticas comunicacionais interativas e hipertextuais”, portanto é na rede (internet) que a relação ensino/aprendizagem acontece, através de uma interação presencial e remota.

 

Considerações Finais/Conclusão

 Diante da experiência vivida no contexto das aulas remotas, apesar da angústia do início, o compromisso e a vontade de aprender me fizeram participar assiduamente de salas virtuais em palestras, reuniões e colóquios formativos, Webinares com conteúdo de interesse à educação no contexto de pandemia, com foco ao uso das ferramentas digitais a serviço do ensino e da aprendizagem.

Atesto um grande aprendizado, embora ainda há muito a ser aprendido para potencializar o meu trabalho também como educadora na cibercultura. É preciso repensar e incorporar as tecnologias digitais da informação e comunicação (TDICs) no currículo escolar, como processo formativo, para favorecer a autonomia discente e docente no processo de ensino e de aprendizagem. Reconheço o suporte por parte da SEDUC, Crede e Escola para me adequar a esse novo jeito de ser e de fazer escola.

 

Referências

 

ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO CEARÁ. LEI Nº 14.146, DE 25.06.08 (D.O. DE 30.06.08). Acesso em 5 de dezembro de 2020.

ORRICO, Clarissa Ariadne; MONTEIRO, Dirce Charara. USO DO CELULAR EM SALA DE AULA COM FINALIDADE PEDAGÓGICA: CONSTRUÇÃO DE SABERES DE UMA NOVA PERSPECTIVA. Temas em Educ. e Saúde, Araraquara, v. 14, n. 2, p. 284-294, jul./dez., 2018. Acesso em 5 de dezembro de 2020.

PACHECO, Mariã Aparecida Torres; PINTO, Leandro Rafael Pinto; PETROSKI, Fábio Roberto. UNICENTROO USO DO CELULAR COMO FERRAMENTA PEDAGÓGICA: UMA EXPERIÊNCIA VÁLIDA. Acesso em 4 de dezembro de 2020.

SANTOS, Edméa. EDUCAÇÃO ONLINE PARA ALÉM DA EAD: UM FENÔMENO DA CIBERCULTURA. Actas do X Congresso Internacional Galego-Português de Psicopedagogia. Braga: Universidade do Minho, 2009 ISBN- 978-972-8746-71-1. UERJ. Acesso em 4 de dezembro de 2020.

SANTOS, Edméa. PESQUISA-FORMAÇÃO NA CIBERCULTURA. 1ª edição 2009. Edufpi. Universidade Federal do Piauí. PI

SEIXAS, Raul dos Santos. O DIA EM QUE A LETRA PAROU. Acesso em 5 de dezembro de 2020.

 

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Como citar este artigo:

LOIOLA, Elvira Sousa Gomes. E de repente, a aula foi para o ciberespaçoNotícias, Revista Docência e Cibercultura, janeiro de 2021, online. ISSN: 2594-9004. Disponível em: <>. Acesso em: DD mês. AAAA.

 

 

Editores/as Seção Notícias: Felipe CarvalhoMariano Pimentel e Edméa Oliveira dos Santos