Notícias: Atividade editorial na Editora da UFBA em tempos de pandemia: contextos, intervenções e permanência

Por Flávia Goulart Rosa
É professora titular da Universdidade Federal da Bahia (UFBA) e diretora da Editora da UFBA (Edufba).

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Por Cristovão Mascarenhas
É mestrando em Letras pelo Programa de Pós-Graduação em Língua e Cultura (PPGLINC) da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Assistente em Administração na Editora da UFBA (Edufba).

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Por Daniel Santos

É bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), coordena o setor de eventos da Editora da UFBA (Edufba).

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O ano de 2019 no Brasil inicia marcado pela posse do presidente Jair Bolsonaro, fruto de uma eleição em 2018 de extrema violência, intolerância e difusão em massa de fake news. Esse contexto trazia em sua essência aspectos de incertezas não só, mas principalmente, ao ambiente da universidade pública. O que se apresentava como possibilidade, no mês de abril, passou a estar entranhado em nosso meio: o Ministério da Educação (MEC) anunciou o bloqueio de 30% do orçamento da Universidade Federal da Bahia (UFBA), justificando que a universidade não havia demonstrado desempenho acadêmico satisfatório, além de promover “balbúrdias” em seus campi, dado que contraria totalmente diversas pesquisas que apontam a UFBA entre as mais bem posicionadas universidades da América Latina, como é o caso do ranking britânico Times Higher Education (THE) Latin America, que na sua edição de 2020, situa a UFBA na 28ª posição. Esse orçamento só foi liberado em sua totalidade no final do ano de 2019 e, nesse ínterim, a universidade atravessou um período de muita dificuldade – demissão de funcionários terceirizados, horário especial de funcionamento nas férias, ações diversas de contenção de gastos administrativos –, mas também de muita resistência.

Essa resistência tem sido contínua, pois 2020 não se introduziu com a leveza que desejávamos. No primeiro trimestre, temos no Brasil os primeiros casos confirmados de infecção por Covid-19, vírus com alto potencial de transmissão, que culminou numa crise sanitária e de saúde pública mundial sem precedentes. Em poucas semanas, para frear a transmissão da doença e na tentativa de achatar a curva do número de casos, diversas medidas foram adotadas para o convívio social, tendo o isolamento como a aparentemente mais promissora. Nesse contexto, a UFBA, através de sua Portaria nº 103/2020, dispõe sobre a suspensão de suas atividades presenciais devido à disseminação do novo coronavírus – o Covid-19. Todos esses acontecimentos afetaram e tem afetado diretamente a produção editorial da Instituição através da Editora da Universidade Federal da Bahia (Edufba) – objeto deste artigo.

Como mencionado, a princípio, todas as atividades presenciais na Edufba foram interrompidas. Essa suspensão apresentava como alternativa o trabalho em home office que, por sua vez, trazia em suas entrelinhas diversos desafios. De fato, as atividades precisavam ser retomadas, o processo de produção do livro necessitava continuar seu fluxo, o setor comercial começava a pensar as possíveis saídas de enfrentamento para o momento, pois, apesar da Edufba ser um órgão sem fins lucrativos, o resultado da venda dos livros produzidos contribui para a manutenção de parte das atividades da Ediotra. Era o momento de se adaptar às novas práticas, aos novos ritmos e ao já tão falado “novo normal”.

Iniciar é sempre difícil e o contexto da pandemia parece ter tornado a nossa adaptação ao trabalho remoto um tanto mais complexa, seja pela situação em si por qual temos passado – bombardeio de informações, crise política, exposição à doença –, seja pelas diversas subjetividades imbricadas nesse processo. Não se sabe, por exemplo, as condições de trabalho desse ser sujeito-funcionário, se há um ambiente adequado, equipamentos de escritório, aparelhos eletrônicos e acesso à internet para o desenvolvimento das atividades virtuais. Todas essas questões precisaram ser ponderadas por uma visão ainda mais sensível da gestão da Edufba, que precisou priorizar demandas, reorganizar prazos e acompanhar o andamento das atividades remotas de uma equipe de mais de 20 pessoas.

São muitas as variáveis que se lida numa situação adversa como esta da pandemia... As práticas da Edufba sempre tiveram como princípio a democratização do conhecimento, portanto, em 2010, ocorreu a implantação do Repositório Institucional (RI) da UFBA e o acervo da editora fez parte da comunidade piloto e hoje disponibiliza em acesso aberto, cerca de 600 livros do seu catálogo. Essa divulgação do acervo em nível mundial, através das redes, impactou numa maior visibilidade para a produção editorial da UFBA, através da sua editora. As práticas do acesso aberto contribuíram também de forma positiva para que se suprisse a falta das bibliotecas, fechadas e sem previsão de retorno. O fluxo do processo editorial compreende várias etapas e para que se mantivesse a produção mesmo com o distanciamento social, a organização e a gestão do fluxo tornaram-se algo imperativo para que assim chegasse a agosto de 2020 com cerca de 50 títulos publicados. Os prazos para a produção de cada livros se ampliaram e alguns projetos especiais surgiram e, com eles, recursos financeiros que contribuíram para a manutenção de atividades administrativas e de produção dos livros, razão de ser de uma editora.

Outra questão importante a ser discutida nesse contexto é a forma como o setor comercial da Edufba foi duramente impactado. Obviamente, o setor do livro não foi o único afetado pela pandemia da Covid-19, mas os índices e os nossos levantamentos, logo no início, apontaram para uma queda elevada no número de pedidos dos nossos distribuidores e vendas diretas; e com a suspensão dos eventos acadêmicos – nossa principal fonte de captação de recurso –, ficamos também impossibilitados de vender as nossas publicações através dessa modalidade. Era o momento de estudar o mercado, observar as vias que pudessem minimizar os danos, para alinharmos possíveis intervenções. Nesse sentido, o ciberespaço ganha destaque e se apresenta como potencial aliado para as novas metodologias.

A Edufba ainda não possui site de vendas próprio, mas já estava inserida no mercado virtual através de algumas livrarias parceiras que se utilizam das plataformas de e-commerce e marketplace. Dessa forma, observamos um crescente número de vendas: no primeiro mês de suspensão das atividades, a quantidade de vendas foi mantida; no segundo, obtivemos um aumento de 50% no valor total das vendas on-line; e, no terceiro, esse número subiu para quase 100% – o que equivale a aproximadamente 800 livros vendidos em um mês por uma livraria virtual colaboradora nossa.

Essas respostas positivas incentivaram a atuação da Edufba em outras ações para uma inserção cada vez mais efetiva dessa editora no ciberespaço. Entre essas, destacamos a participação na Feira da Associação Brasileira das Editoras Universitárias (Abeu) – uma iniciativa da associação com o objetivo de possibilitar a venda de livros impressos e digitais, bem como o acesso a ebook gratuitos – que reuniu dezenas de editoras. Todas as operações foram direcionadas para o site oficial da feira, no qual o participante poderia consultar os livros de cada editora disponíveis para venda, bem como acessar aos links que direcionavam para mesas redondas – em formato de lives – sobre os mais diversos assuntos.  A iniciativa obteve boa adesão das editoras associadas, com bom engajamento do público tanto na participação dos eventos propostos como na venda dos livros.[1]

No âmbito da Edufba propriamente dito, outra iniciativa para enfrentamento dessa conjuntura foi a decisão de realizarmos o lançamento coletivo de nossas publicações na modalidade virtual. O Festival de Livros e Autores da UFBA já acontecia como evento presencial e, em março deste ano, completaria a sua 26ª edição, entretanto, em virtude da suspensão das atividades da universidade e de acordo com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre os protocolos de segurança para prevenção da Covid-19, foi adiado. Dessa forma, sentimos a necessidade de expor para o público os livros que estão sendo finalizados e publicados por nossa editora, com o já consagrado ritual de lançamento, mas, dessa vez, com uma nova roupagem – a virtual. O calor humano dos abraços de afetos aos autores foi substituído pelos comentários – também carregados de muito carinho – daqueles que participaram do evento em formato de live transmitido pelo YouTube, através do canal da Edufba. Na ocasião, os autores tinham a oportunidade de falar sobre o seu livro, bem como de dialogar com as pessoas que prestigiavam o momento e o enriquecia com perguntas para o debate através do chat. Aqueles que se interessassem em adquirir um exemplar da obra lançada poderiam facilmente fazê-lo através do acesso aos links das nossas livrarias parceiras. Numa breve avaliação, o lançamento coletivo virtual da Edufba trouxe excelentes resultados: foi um momento de profícuos diálogos sobre os mais diversos assuntos, evidenciando que, apesar das dificuldades, a pesquisa científica continua viva, necessária e, sobretudo, precisa ser compartilhada![2]

 

Considerações finais

As lições da pandemia ainda se encontram em processo de construção, não se sabe se o trabalho presencial para todos ocorrerá este ano. A universidade buscou alternativas de retomada de um semestre suplementar sem bibliotecas, sem aglomerações usuais do ambiente universitário. A editora em pouco tempo precisou mudar suas práticas de atendimento ao público, intensificar a divulgação de suas obras nas redes sociais e aproximar, mesmo que distante, o autor e o seu público.

Assim, vencendo cada obstáculo, a editora se manteve viva, atuante, produzindo e levando novos e importantes títulos ao público leitor que no isolamento, buscou no livro uma companhia. A crise do mercado editorial já vinha e não era de agora. As grandes cadeias de livrarias arrastaram as editoras à queda de receita, sobretudo por não honrarem com seus compromissos. As editoras continuaram fornecendo livros, mas essas cadeias não prestavam contas. A pandemia apenas agravou essa situação. Por quatro meses, com os shoppings fechados, a possibilidade de acesso aos livros ocorreu apenas através das livrarias virtuais. Reinventar, repensar, usar as redes sociais, unir esforços, compartilhar são palavras de ordem que precisam ser firmadas todos os dias na busca da superação. Os livros resisitirão!

 

Links

 

Lives de lançamento dos livros publicados no mês de julho de 2020

 

Referências

UFBA sobe três posições e permanece entre as melhores da América Latina, segundo ranking THE. Edgardigital, UFBA em pauta, 13 jul. 2020. Acesso em: 11 ago. 2020.

UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA. Gabinete da Reitoria. Portaria nº 103/2020. Dispõe sobre a suspensão das atividades na UFBA, devido à disseminação do novo coronavírus (Covid-19). Salvador, 2020. Acesso em: 11 ago. 2020.

 

 

 



[1] No final deste texto, disponibilizaremos os links de duas rodas de conversas realizadas em formato de live na Feira da Abeu: a primeira, sobre o livro Solidariedade e organizações: pensar uma outra gestão, de autoria de Genauto Carvalho; e a segunda, sobre o tema do racismo com as professoras Ana Célia da Silva, Gabriela Sampaio, Marilda Santanna e Paula Cristina.

[2] No final deste texto, disponibilizaremos os links para acesso às lives de lançamento dos livros no mês de julho de 2020.

 

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Como citar este artigo:

Rosa, Flávia Goulart; MASCARENHAS, Cristovão; e SANTOS, Daniel. Atividade editorial na Editora da UFBA em tempos de pandemia: contextos, intervenções e permanência. Notícias, Revista Docência e Cibercultura, agosto de 2020, online. ISSN: 2594-9004. Disponível em: <>. Acesso em: DD mês. AAAA.

 

 

Editores/as Seção Notícias: Felipe CarvalhoMariano Pimentel e Edméa Oliveira dos Santos