Notícias: O “novo normal” em tempos de pandemia: A sociedade capitalista em questão

Desfazer o normal há de ser uma norma

Manoel de Barros (Memórias inventadas. Alfaguara. 2018. p. 44) 

Aristóteles BerinoPor Aristóteles Berino
PPGEduc/UFRRJ.
 
Talita CabralPor Talita Cabral
Mestranda/PPGEduc/UFRRJ.

 

A pandemia do novo coronavírus modificou, de maneira inevitavelmente perdurável, inúmeras estruturas e convenções sociais, econômicas, culturais e, até mesmo, linguísticas. Assim, a realidade que conhecíamos antes do início da pandemia, em janeiro de 2020, faz parte de uma roupagem de passado que não nos serve mais agora. Nossos olhares e atenção precisam se voltar para o que vivemos hoje, em um presente permeado de angústias, medo, insegurança, ansiedade e perspectivas e expectativas de futuro; de um futuro que se mostra absolutamente imprevisível.

Comportamentos, atitudes, hábitos e palavras que antes nos eram absolutamente comuns e cotidianos estão dando lugar a novas práticas de vida e novos usos, devido a uma necessidade de adaptação e sobrevivência. Coisas que fazíamos há meses atrás, já não fazemos mais. Objetos que nos eram imprescindíveis há algum tempo, já não são mais. E palavras, que antes sequer utilizávamos, hoje parecem emergir de uma necessidade de comunicação e informação. Precisamos nos manter informados, uma vez que isso é o que pode nos manter vivos.

Assim, a pandemia do coronavírus nos trouxe um novo dicionário de realidade e, nele, temos novas e antigas palavras que ganharam novos conceitos e um viés educativo. O vírus nos trouxe uma necessidade de reeducação social. Para nos mantermos vivos, precisamos nos reeducar com relação à nossa higiene, aos nossos comportamentos e, até mesmo, às nossas relações.

Desse modo, uma expressão que vem ganhando espaço, nas redes e fora delas, tem sido o termo “novo normal”. Estamos na primeira metade do mês de junho e embora o Brasil continue batendo recordes de mortes e contágios diários por coronavírus, muito tem se falado e feito a respeito da reabertura do comércio e da retomada econômica. Isso porque, cabe destacar, a pandemia está desencadeando uma forte depressão econômica em nível global. Sendo assim, temos presenciado uma ansiedade do meio empresarial em antecipar os retornos, em contraposição ao que defendem os médicos, os epidemiologistas e as instiuições de saúde e sanitárias, que insistem na estratégia do lockdown.

Mas o que vem a ser o “novo normal”? O termo “novo normal” é frequentemente utilizado no setor econômico, tendo sido mencionado pela primeira vez em 2009, quando Mohamed El-Erian se referiu às rupturas estruturais causadas pela recessão econômica daquela década. Entretanto, no contexto da covid-19, esta expressão tem sido utilizada para designar o que será do nosso futuro enquanto sobreviventes da pandemia. No Brasil, o biólogo e doutor em virologia, Atila Iamarino, tem sido um importante personagem na difusão de informações e da ideia do que pode vir a ser esse “novo normal”. Em uma live informativa, no dia 17 de abril de 2020, ele menciona a possível reabertura comercial e a retomada econômica, com a condição de que se estabeleça um “novo normal”, em que devemos repensar nosso estilo de vida em sociedade, nossas relações afetivas, nossas formas de lazer e diversão, nossos comportamentos e ações em público, nossos hábitos de higiene, o uso obrigatório das máscaras de proteção, dentre outras questões.

A partir disso, muito tem se falado, no Brasil, acerca do “novo normal” e de que forma ele pode nos ajudar a pensar nesse futuro sobre o qual não conseguimos e, nem mesmo podemos, idealizar. Nesse contexto, observamos uma disputa de narrativa entre diversos setores da sociedade que buscam protagonizar o discurso pedagógico do “novo normal”, ou ao menos, procuram utilizar este conceito como uma forma de difundir seu marketing digital, oferecendo informações que nos educam para um “novo normal”, que condicionam nosso olhar para o futuro e, ainda, que passam ideias de segurança e cuidados para a possível, e provável, convivência futura com o coronavírus.

Assim, é possível notar – nas redes, principalmente, tendo em vista que este é um terreno fértil para as narrativas do “novo normal” – que alguns atores ligados a diversos negócios têm se apropriado deste conceito como forma de atender a seus interesses de mercado. Isso porque o retorno da atividade econômica é completamente dependende do que vem a ser a ideia de “novo normal”. Mirando nas expectativas futuras, e tendo em vista as orientações oficias da Organização Mundial de Saúde para a reabertura com segurança, esses atores buscam protagonizar estas instruções de cuidados, determinando comportamentos e ações de higiene, segurança e saúde, reeducando as pessoas para uma breve retomada de atividades, com ares de “volta da normalidade”.

A exemplo disso, podemos citar a Revista Vogue Portugal de abril de 2020, que trouxe uma polêmica capa (imagem 1) que dividiu críticas e opiniões. Com um casal encenando um beijo de máscaras e com a frase “Freedom on hold” (em tradução literal, “liberdade em espera”), a capa traz, de maneira bastante óbvia, o desejo de disputar o espaço narrativo do discurso educativo do “novo normal”. Para o universo da moda, o que pode ser considerado o “novo normal”, em um contexto de pandemia, em que estamos, prioritariamente, dando ao valor aos serviços e às coisas essenciais? Estamos ansiosos, apreensivos e isolados em nossas casas, onde os acessórios e objetos de moda se tornaram quase que absolutamente obsoletos. Assim, observamos que a capa pode ter sido pensada como uma forma de dialogar com seu público, demonstrando que está seguindo as mudanças do mundo, e está pronta para um “novo normal”. Em um mundo pré-pandêmico, uma capa com este simbolismo não faria sentido e, por esta razão, nem sequer teria sido pensada. O mundo mudou devido à pandemia, a moda também mudou, assim como as relações e nossa ideia de liberdade também mudaram. E é nesse sentido que a capa espera nos educar, para este tipo de mudança.

Capa da Vogue Brasil

Fonte: Capa da Revista Vogue Portugal, de abril de 2020. Acesso: 08 jun. 2020.

Da mesma maneira, a Vogue Brasil, de maio de 2020, em edição comemorativa dos 45 anos da revista no país, trouxe em sua capa (imagem 2) a expressão “novo normal”, com a foto da modelo brasileira Gisele Bündchen usando uma peça de roupa da caríssima marca Prada, causando uma grande polêmica e reiterando o que pensamos acerca da disputa de narrativas em torno da pedagogia do termo. A revista foi acusada de tentar glamourizar o mundo pós-coronavírus, ignorando a triste realidade imposta pelo vírus, que vem adoecendo e matando milhares de pessoas em todo o mundo. Em justificativa, pós-críticas, a revista alegou, em seu Instagram, que o “novo normal” mencionado na capa buscou trazer a ideia de simplicidade que, como acreditam, deverá ser o “novo normal” de um mundo que está se desfazendo de seus “excessos e exageros”.

Capa da Vogue Brasil

Fonte: Capa Vogue Brasil, de maio de 2020.Acesso: 08 jun. 2020.

Sendo assim, cabe ressaltar que tais disputas narrativas pela pedagogia do “novo normal” visam a nos educar para que possamos manter a vida que levávamos antes, com os mesmos consumos, mesmas atitudes, mesmos simbolismos e, ao mesmo tempo, com os cuidados e as orientações que, na verdade, já estamos tendo devido à pandemia. O “novo normal” nos foi imposto com a chegada do vírus. Não foi, de início, uma escolha ou mesmo uma estratégia, mas uma necessidade. Hoje, já vivemos um “novo normal”, em que a máscara de proteção e o álcool em gel se assumem como protagonistas. Desse modo, podemos dizer que a disputa de narrativas assumida por diferentes atores ligados a diferentes tipos de negócios, não passa de uma nova estratégia para se manter o status quo de uma normalidade que, do ponto de vista crítico, nem se pode afirmar que existia. O vírus escancarou nossas desigualdades sociais, deixou nossas piores feridas expostas e provou que, na verdade, nosso “normal” já vinha adoecendo há muito tempo. Nesse sentido, o “novo normal” não garante o retono de algum nível de normalidade, uma vez que o que vivíamos antes poderia ser considerado uma “anormalidade”. Para o líder indígena Ailton Krenak, a pandemia trouxe “a nossa chance de aprender com o que está acontecendo”, para refletirmos e mudarmos os nossos hábitos enquanto sociedade. Segundo ele, “voltar ao normal seria como se converter a negacionismo e aceitar que a Terra é plana”. Sendo assim, é importante que estejamos atentos para estas formas de abordagens que se pretendem educativas e que buscam nos ensinar e, não raro, controlar nossa vida em um possível – e próximo – “novo normal”. Que tenhamos, ao mesmo tempo, consciência da necessidade de ruptura com o que antes também considerávamos como “normal”.

 

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BERINO, Aristóteles; CABRAL, Talita. O “novo normal” em tempos de pandemia: A sociedade capitalista em questão. Notícias, Revista Docência e Cibercultura, julho de 2020, online. ISSN: 2594-9004. Disponível em: < >. Acesso em: DD mês. AAAA.