O riso diante da TV e do celular: uma transformação radical dos espectadores como desafio para a educação
Autoria: Marco Silva
Como crítico de cultura, comparo dois risos icônicos que marcam duas épocas. Um diante da programação da TV, outro diante dos vídeos curtos na tela do celular. Um é o riso de Beavis and Butt-Head, marco da cultura pop na TV dos anos 1990 criado por Mike Judge, pré web 1.0. O outro é o riso do usuário contemporâneo que rola o feed de vídeos curtos no celular (TikTok, Reels, Shorts). Comparar os dois risos é mapear uma transformação radical na nossa própria expressão psíquica e cognitiva. À primeira vista, ambos os risos parecem manifestações de pura alienação e idiotia. Porém, quando refinamos o olhar crítico, percebemos que eles ocupam polos ideológicos e tecnológicos completamente distintos. Essa reflexão pode inspirar professores e professoras diante dos risos dos seus estudantes.
Beavis and Butt-Head
youtube.com/shorts/6v_gmWRz38s
Usuário de Redes Sociais
instagram.com/reels/DXcCn-SjBki
Quadro 1 – Dois risos, duas épocas: o espectador da TV e o usuário de redes sociais.
1. O riso diante da TV: a ironia apática de Beavis and Butt-HeadO riso gutural, repetitivo e asmático de Beavis e Butt-Head — “Heh-heh-heh-heh” — tornou-se o hino da apatia da Geração X. Sentados diante de uma televisão de tubo, mídia de fluxo unidirecional, os personagens reagiam ao que a programação lhes impunha, sem dialogar entre si nem com o conteúdo assistido. Respondiam por impulsos, comentários fragmentados e gargalhadas sem elaboração crítica, revelando um espectador moldado pela lógica da televisão de massa: alguém que consome imagens continuamente, mas pouco intervém nelas. Recebiam mensagens prontas, assistiam interminavelmente aos videoclipes da MTV e quase nunca produziam sentidos novos. Seu riso que não inaugura interlocução, apenas acompanha o fluxo da programação.
Ainda assim, esse riso comportava uma ambivalência produtiva. Por um lado, ele consagrou-se como ícone de uma comunicação predominantemente unidirecional, símbolo do espectador entretido, anestesiado e reduzido à recepção. Por outro, funcionava como uma postura crítica, ainda que inconsciente, diante do bombardeio comercial da MTV: ao rirem de um videoclipe ultraproduzido, os personagens destruíam a pretensão publicitária da própria indústria que os alimentava, esvaziando a mensagem de valor por meio da ironia apática. Por essa razão, ainda que toscos, eles não podem ser plenamente identificados com o que Pignatari (1988) chamou de “paleolhar da televisão”, isto é, o olhar domesticado do consumidor puro, herdado do rádio e do teatro convencional, que não interfere na mensagem e apenas se deixa anestesiar pelo fluxo do canal.
Nesse sentido, o riso de Beavis e Butt-Head nascia do tédio e do vazio de uma juventude suburbana pré-internet: um riso compartilhado e analógico, que exigia a presença física do outro no mesmo sofá para fazer eco. A ironia da série de Mike Judge está justamente em produzir, por meio do exagero da alienação e da estupidez dos protagonistas, uma crítica mordaz ao próprio modelo comunicacional que a sustenta, expondo a pobreza da experiência do telespectador reduzido à condição de receptor.
2. O riso diante do celular: o espasmo dopaminérgico da abundânciaO usuário de celular na Web 2.0 não está mais no sofá, olhando para uma tela estática e compartilhada; está isolado em sua própria tela vertical, operando em regime de hiperestimulação algorítmica. Seu riso raramente configura uma gargalhada catártica: é antes um sobressalto, um sopro rápido pelo nariz, um sorriso involuntário que dura exatamente os sete segundos de um vídeo fútil, antes que o polegar arraste a tela em busca do próximo estímulo.
Diferente do tédio produtivo de Beavis e Butt-Head, esse riso digital é sintoma de uma ansiedade de consumo. Não se ri da mídia; ri-se com o algoritmo, mesmo sabendo que ele mapeia as reações neuroquímicas do usuário para mantê-lo preso ao fluxo de rolagem infinita. Seria o niilismo algorítmico. Trata-se de um riso mecânico, privatizado e funcional. Menos resposta irônica a um conteúdo e mais engrenagem de um sistema de captura da atenção.
3. Quadro comparativo: do sofá ao feed
Quadro 2 – Comparativo crítico entre os dois regimes de recepção.
4. A inversão do sentidoA comparação revela uma inversão fundamental. Beavis e Butt-Head usavam a própria imbecilidade como escudo contra o mundo exterior: eram “idiotas profissionais”, orgulhosos de sua recusa em se adaptar ao sistema produtivo ou educacional. O usuário contemporâneo, por sua vez, costuma acreditar que exerce agência, curadoria e intelecto ao interagir com as redes sociais no celular. No entanto, ao rir de forma fragmentada, acelerada e automatizada a cada três deslizes de tela, aproxima-se muito mais de um comportamento de laboratório do que os dois personagens suburbanos dos anos 1990. O riso cínico e debochado de Beavis e Butt-Head era reação à televisão que tentava colonizar seus cérebros; o riso do celular é o som da conformidade com o algoritmo dopaminérgico.
5. Da reação à intervenção: um exercício especulativoUm exercício de imaginação crítica ajuda a precisar essa transição de paradigma: como seria o riso irônico de Beavis e Butt-Head transposto para a Web 2.0, operando com o dueto do TikTok ou o remix do Instagram? Nos anos 1990, a dupla era prisioneira da televisão: seu riso era reação quase fisiológica — cínico porque denunciava, sem o dizer, a pobreza intelectual da programação, mas também impotente, pois nada alterava na mensagem. Na Web 2.0, entretanto, dificilmente permaneceriam calados diante da tela: cada vídeo absurdo seria imediatamente objeto de um dueto ou de um remix, e o riso deixaria de ser apenas reação para tornar-se intervenção, acrescido de caretas, efeitos sonoros, cortes inesperados, memes e legendas capazes de transformar por completo o sentido do vídeo original.
Sob esse aspecto, o cinismo da dupla ganharia outra dimensão: continuariam debochando da cultura popular, mas agora como produtores incessantes de versões, paródias e reinterpretações. Há aí uma ironia curiosa: nos anos 1990, Beavis e Butt-Head eram a caricatura da recepção passiva; hoje, seriam provavelmente a caricatura da participação permanente, não porque se tivessem tornado mais críticos, mas porque a arquitetura das plataformas lhes permitiria responder o tempo todo. O que mudaria não seria a gargalhada em si, mas seu estatuto comunicacional: de comentário privado diante da tela a intervenção pública na própria mensagem.
Essa passagem aproxima-se, de modo fecundo, da teoria da interatividade (Silva, 2014). Na televisão analógica, o riso de Beavis e Butt-Head representava a recepção, ainda que irônica, de uma mensagem fechada. Na Web 2.0, a mesma gargalhada converter-se-ia em gesto de autoria: o “Heh... heh...” deixaria de ser apenas um efeito da mensagem para tornar-se um operador de reescrita da mensagem. Em outras palavras, não mais ririam apenas do vídeo, mas ririam dentro do vídeo. É precisamente essa passagem — da reação à intervenção — que simboliza a transição do paradigma da transmissão para o paradigma da interatividade.
6. Implicações pedagógicas: contribuições à formação docenteDiante desse cenário de passividade disfarçada de conectividade, a crítica pedagógica à educação na cibercultura oferece a chave para compreender a dimensão do desafio contemporâneo. O usuário que sorri de forma espasmódica diante do feed exemplifica o que podemos identificar como a ilusão da interatividade na Web 2.0: a arquitetura das plataformas digitais simula a participação, mas entrega apenas uma reatividade mecânica e automatizada. Essa dinâmica esvazia o potencial comunicacional da rede, transformando o sujeito digital em mero receptor de fluxos pré-programados de informação e dopamina. Sem o desenvolvimento de uma formação cognitiva e crítica, a sala de aula e a vida social tornam-se reféns dessa mesma lógica de engajamento superficial, em que o estudante confunde o ato de “clicar e arrastar” com a verdadeira autonomia intelectual.
Superar esse comportamento perigoso para a cibercidadania exige transitar de uma postura puramente reativa para uma pedagogia da mediação baseada na interlocução e na colaboração, na iteratividade que cocria (Silva, 2026). A resposta educativa à inclusão cibercultural não reside na exclusão das telas, mas na sua reinvenção como espaços de coautoria, interlocução ativa e problematização. A didática e o desenho didático dos conteúdos de aprendizagem e de avaliação precisam mobilizar o engajamento coletivo na construção da comunicação, do conhecimento e da formação humana. Trata-se de converter o riso isolado e funcional do feed em experiência coletiva e consciente de criação e de crítica. Somente quando a escola e os professores assumirem o papel de mobilizadores desse ecossistema, tensionando a passividade na hiperestimulação dopaminérgica imposta pelos algoritmos, será possível transformar o sujeito fragmentado das redes sociais em sujeito crítico e autocrítico, capaz de arquitetar seu próprio pensamento para além do próximo scroll.
ReferênciaPIGNATARI, Décio. O paleolhar da televisão. In: NOVAES, Adauto (org.). O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1988. p. 487-492.
SILVA, Marco. A iteratividade interativa como fundamento do letramento em ia generativa na escola básica. Revista Docência e Cibercultura, [S. l.], v. 10, n. 1, 2026. DOI: 10.12957/redoc.2026.95466. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/re-doc/article/view/95466. Acesso em: 21 jul. 2026.
SILVA, Marco. Sala de aula interativa. São Paulo: Loyola, 2014.
Sobre a autoria:

Marco Silva é cientista social, doutor em educação e professor de didática nas licenciaturas da Faculdade de Educação da UERJ. Este texto foi produzido em cocriação humano–IAg. Marco Silva conduziu a concepção crítica, a análise teórica e a síntese argumentativa. Claude e Gemini apoiaram a organização de ideias, a produção de variações redacionais, a exploração conceitual, as sínteses e a revisão, sempre sob a direção e o julgamento do autor humano.
Como citar este artigo:
SILVA, Marco. O riso diante da TV e do celular: uma transformação radical dos espectadores como desafio para a educação. Revista Interinstitucional Artes de Educar, agosto de 2026, online. ISSN: 2359-6856. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/riae/announcement/view/2193. Acesso em: [dia mês ano de acesso]
Editores/as Seção Notícias:
Edméa Santos, Rosimeri Dias, Adrianne Ogêda e Marcos Vinícius Dias de Menezes






















