O Cinema Virou Palco e a Distância Vira Experiência
Autoria: Sara Wagner York e Matheux Schwartzmann
Naquela noite no Rio de Janeiro, o tradicional pacto de contemplação do cinema foi suspenso para dar lugar à vertigem do tempo presente. Enquanto a banda de K-pop Cortis subia ao palco em Los Angeles - EUA, centenas de jovens ocupavam a sala escura em solo carioca não para assistir a um registro gravado, mas para vivenciar um acontecimento em tempo real. A transmissão simultânea transformou a tela em uma arena híbrida, reconfigurando os limites entre presença e mediação, e revelando como as novas tecnologias e a engenharia de mídia redefinem o comportamento, a pedagogia dos corpos e a própria natureza da fruição estética na juventude contemporânea.
Da Reprodutibilidade à Ubiquidade do EventoSe Walter Benjamin diagnosticou, na era da reprodutibilidade técnica, o declínio da aura pela multiplicação da cópia, o que se testemunhou nesta noite carioca talvez exija um deslocamento categorial ainda mais radical: não mais a obra reproduzida, mas a obra ubíqua.
Conforme aponta Matheux Schwartzmann, "os regimes autográfico e alográfico, tal como propostos por Genette a partir de Goodman (GENETTE, 1994, p. 7), permitem compreender como a mudança do suporte" altera igualmente o estatuto da prática de espectatorialidade ou, em "outras palavras, a escolha de uma mídia implica naturalmente a exploração de sua matéria e a exploração dos princípios que regem" alterando a organização da cena prática (Schwartzmann, 2026).
É, no mínimo, curioso pensar que é precisamente a dimensão digital de um evento ao vivo — sua "difusão democrática" (Schwartzmann, 2026) por meio de transmissões simultâneas e síncronas em salas de cinema — que permite aproximar-se mais da experiência autográfica do espetáculo performático. O espectador pode furtar-se às mediações e curadorias previamente estabelecidas por uma crítica especializada e por uma tradição de fruição ao vivo, construindo sua própria relação com a obra a partir da imersão oferecida pela tela e pelo som ambiente da sala cinematográfica (Schwartzmann, 2026).
A experiência alográfica, na acepção de Nelson Goodman, surge aqui elevada à enésima potência: a identidade do acontecimento já não repousa em nenhum objeto ou instância singular, mas se dissemina, idêntica a si mesma, em cada ponto do planeta onde um telão a atualiza.
O cinema sempre foi a arquitetura da imagem mudo-projetada, o templo da recepção contemplativa. No entanto, hoje à noite, o pacto de espectatorialidade foi sumariamente fraturado. Não fui ao cinema para assistir a um registro documental ou a um espetáculo previamente editado. Eu fui convocada a vivenciar o tempo presente.
Em Los Angeles, a banda K-pop Cortis subia ao palco. No Rio de Janeiro, corpos munidos de ingressos ocupavam a sala escura para consumir não um produto audiovisual, mas a vertigem da simultaneidade, o acontecimento em tempo real, transcodificado a milhares de quilômetros de distância. A experiência semiótica começou muito antes do primeiro acorde — e vou tentar descrever como que experienciei, antes de chegar em casa e telefonar para o meu neto!
A Cena Prática e a Semiose da PresençaNa tela, os integrantes da banda figuravam em vídeos curtos — enunciados hipertextuais que já circulavam nos ecossistemas digitais. Na sequência, instaurou-se uma autêntica pedagogia do comportamento espectatorial: uma espécie de pré-espetáculo didático-cômico ensinava aos adolescentes e jovens como reconfigurar a própria corporalidade naquela arena híbrida. Como sentar, quando levantar, o limiar entre o extravasamento gestual e o respeito ao espaço alheio; em suma, o que fazer e o que evitar.
Do ponto de vista da semiose, há aqui um nó fascinante. O cinema, historicamente ancorado no silêncio e na imobilidade do espectador — a espectatorialidade disciplinar do século XX —, precisou produzir uma metalinguagem tutorial para alfabetizar seu público. Era preciso ensinar os jovens a performar a plateia de um show dentro de um dispositivo concebido para a passividade do olhar. A pedagogia do espaço escolar e a cultura midiática se fundiam ali: a regulação dos corpos operando em consonância com a liberalidade festiva da cultura pop.
Como sinaliza a literatura sobre os modos de regulação dos corpos e identidades na cultura de massa e na educação, os enunciados da mídia frequentemente balizam as margens do aceitável, tutelando o afeto juvenil para que a performance não transborde o enquadramento do consumo (York, 2020).
A Criptografia da Presença: "Put Your Phone Down"Veio a espera. A câmera fixou-se no fundo da casa de shows em Los Angeles, operando como uma moldura-janela para o Pacífico Norte. Inesperadamente, o telão projetou a instrução categórica:
Put Your Phone Down.
(Coloque o telefone de lado).
A ordem, sob a lente da engenharia de mídia, transborda ironia. Para instaurar o regime de proximidade afetiva e imersão sensorial, exigia-se a interrupção da mediação privada (as pequenas telas portáteis) em prol da submissão absoluta à grande mediação pública (o telão). O smartphone — prótese subjetiva da juventude contemporânea — deveria silenciar para que o vetor semiótico da sala de cinema capturasse a totalidade do campo de atenção.
Na sala carioca, o sinal de presença já havia disparado a semiose do afeto. A plateia irrompeu em coros de — CORTIS! CORTIS! CORTIS! Gritavam para uma superfície plana de projeção. Sabiam, no nível racional, que a banda não podia ouvi-los; no entanto, a semiose da co-presença simbólica anulava a distância geográfica. O significante "show ao vivo" operava como uma ilusão de presença tão densa que exigia o grito como resposta corpórea naquela teia que os cinco jovens coreanos produziam.
A Física do Contágio e a Escala do ÍconeA transmissão ao vivo opera como um dispositivo de sincronização temporal. Estamos geograficamente distantes, mas acontecendo no mesmo index temporal. Quando os refletores recortavam a penumbra em Los Angeles, uma onda de luminosidade varria a casa de shows e refletia nos rostos cariocas. Não havia o tato, mas havia o contágio sígnico.
A movimentação de massas a milhas de distância reorganizava, instantaneamente, a cinestesia dos adolescentes no Rio de Janeiro. A tela deixou de ser mero suporte de exibição para converter-se em um dispositivo de modulação de afetos. A fita do tempo já não era a da gravação reeditada: era o tempo ontológico do acontecimento. Se a banda pausava, a sala carioca retinha o fôlego; se a imagem oscilava, a ansiedade se tornava uma experiência compartilhada em escala global.
Contudo, é na fricção da infraestrutura que o mito da presença contínua revela suas costuras. Em momentos críticos, a transmissão oscilou: quadros congelados, oscilações de taxa de bits, descompressão do áudio. Ali, o simulacro de estarem no mesmo lugar colapsava momentaneamente. O glitch técnico operou como um lembrete semiótico violento de que a experiência era, antes de tudo, um feixe de dados trafegando por cabos submarinos e satélites. A mesma engenharia que aproxima é a que escancara a fenda da distância quando a banda de rede falha.
Ainda assim, a juventude permanecia fixada. A resposta reside no que a semiose do cinema oferece em oposição ao estádio: a intimidade pela escala. Entrevistados na saída, os jovens relataram a sensação de uma proximidade quase hiper-real. O rosto do artista, projetado em escala monumental, ocupa o campo visual de forma muito mais ostensiva do que a visão distante e apequenada que se teria do fundo de uma arena real. O ícone hiperdimensionado produz uma ilusão de acesso ao corpo do outro que a própria presença física muitas vezes nega.
A Indústria da Experiência e o Espectador TensionalO mercado audiovisual contemporâneo compreendeu que a cópia e o arquivo perderam o valor de escassez no ecossistema digital. O que se comercializa agora não é a obra, mas o acontecimento. O ingresso do cinema deixa de adquirir o acesso a um texto estético estático para comercializar a inscrição do sujeito em um ritual coletivo e síncrono.
Entretanto, esse fenômeno instaura uma tensão irredutível entre o espectador cinematográfico tradicional (contemplativo, silencioso, regido pela imobilidade da sala escura) e o espectador de espetáculo pop (performático, vociferante, expansivo, regido pelo contágio dos corpos). Ao tentar conciliar esses dois modelos, a sala de cinema contemporânea torna-se um laboratório de novas subjetividades adolescentes. O jovem que grita para a tela não é ingênuo; ele é o operador consciente de um novo contrato cultural, onde a ausência física do emissor não anula a potência performativa da recepção.
Ao cabo da noite, a interrogação que permanece não é sobre a sofisticação das redes de fibra óptica ou sobre o line-up de uma banda sul-coreana em palco estadunidense. A questão é profundamente educacional, midiática e filosófica: se a técnica nos permite habitar a simultaneidade de um mesmo evento em pontos opostos do planeta, onde exatamente termina o dispositivo e começa a experiência?
A resposta não estava selada no palco iluminado de Los Angeles. Estava viva, vibrante e ruidosa na penumbra daquela sala no Rio de Janeiro, onde corpos jovens, sabendo-se inaudíveis para seus ídolos, decidiram que a distância era apenas um detalhe — e converteram a imagem projetada na mais absoluta e ruidosa presença.
ReferênciasGENETTE, Gérard. L’Œuvre de l’art: Immanence et transcendance. Paris: Seuil, 1994.
SANTOS, Edméa. Pesquisando com a mobilidade ubíqua em redes sociais da internet: um case com o Twitter. Com Ciência – Revista Eletrônica de Jornalismo Científico. 10 fev. 2012.
SCHWARTZMANN, Matheux. Pratiques d’édition et de publication dans l’œuvre littéraire: quelques notes sur les régimes de l’imprimé et du numérique. In: KLOCK-FONTANILLE, Isabelle; DE LUCA, Valeria (Org.). Transmission en acte - Hommage à Jacques Fontanille. Limoges: PULIM, 2026.
YORK, Sara Wagner. Tia, Você É Homem? Estudo sobre as Cotas Trans no Brasil. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, 2020.
Sobre a autoria:


Sara Wagner York é jornalista, pedagoga, biomédica, pesquisadora e ativista. Doutora em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), realiza estágio de pós-doutorado em Semiótica na Universidade Estadual Paulista (UNESP), sob supervisão do Prof. Dr. Matheux Shwartzmann, com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP, 2026–2028). Desenvolve pesquisas sobre educação, travestilidades, decolonialidade, semiótica, mídia e epistemologias trans. É a primeira âncora trans do jornalismo televisivo brasileiro, no Brasil 247, onde também atua como colunista. Autora de Programa de travesti: educação & mídia (2026) e da dissertação Tia, você é homem? Estudo sobre as cotas trans no Brasil (UERJ, 2020). É membra da Academia de Letras do Estado do Rio de Janeiro (ACLERJ) e da Academia Brasileira de Letras do Cárcere.
Financiamento: Bolsa de Pós-Doutorado FAPESP, Processo nº 2025/15428-3.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/9084306265158131
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4397-891X

Matheux Schwartzmann é livre-docente em Semiótica do Discurso e professora da Universidade Estadual Paulista (UNESP), onde atua no Programa de Pós-Graduação em Linguística e Língua portuguesa. Doutora em Linguística e Língua Portuguesa, desenvolve pesquisas na área da Semiótica Discursiva, com ênfase em formas de vida, práticas de significação, discurso, cultura e epistemologia semiótica. É presidenta do Grupo de Estudos Linguísticos do Estado de São Paulo (GEL) e tesoureira da Associação Brasileira de Estudos Semióticos (ABES). Linguista não binária, dedica-se também às interfaces entre linguagem, cultura, gênero e produção de conhecimento.
Lattes: http://lattes.cnpq.br/2543121134756718
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2887-3570
Como citar este artigo:
YORK, Sara Wagner; SCHWARTZMANN, Matheux. O Cinema Virou Palco e a Distância Vira Experiência. Revista Interinstitucional Artes de Educar, agosto de 2026, online. ISSN: 2359-6856. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/riae/announcement/view/2190. Acesso em: [dia mês ano de acesso].
Editores/as Seção Notícias:
Edméa Santos, Rosimeri Dias, Adrianne Ogêda e Marcos Vinícius Dias de Menezes




















