Letras sagradas na cidade:
catecismos, manuais e a materialidade da instrução pública na província de São Paulo
DOI:
https://doi.org/10.12957/teias.2026.97736Palavras-chave:
história da educação, instrução pública, cultura material escolar, império do Brasil, doutrinação católicaResumo
Este artigo investiga a intersecção entre a instrução pública e a doutrinação católica na Província de São Paulo durante o século XIX, no contexto do projeto civilizatório do Império do Brasil. O objetivo central é analisar como o Estado subsidiou e instrumentalizou o ensino religioso nas cadeiras de primeiras letras, transformando a instrução pública em uma ferramenta de controle social e moral. Metodologicamente, a pesquisa ampara-se nos teóricos da cultura escolar e da cultura empírica da escola para examinar um corpus documental primário composto por legislações, orçamentos provinciais, livros de inventário e, sobretudo, relatórios e mapas de frequência redigidos por professores entre as décadas de 1820 e 1880. A análise dessas fontes evidencia a forte materialidade da doutrina no cotidiano escolar. Os resultados demonstram que obras confessionais, a exemplo do Catecismo de Fleury e do Catecismo de Montpellier, além de iconografia sacra, foram rigorosamente contabilizadas pelo governo como utensílios escolares indispensáveis. Constatou-se que, a despeito da extrema precariedade material que marcava as escolas nas vilas interioranas e das subsequentes tentativas de modernização pedagógica no final do Oitocentos, a formação dogmática manteve-se inabalável nas rotinas de ensino. Conclui-se que o magistério paulista e o Estado oitocentista promoveram uma escolarização elementar na qual o domínio da leitura e da escrita não visava à secularização ou à emancipação intelectual, mas operava como o veículo primordial para o adestramento comportamental e a submissão moral da infância à ordem civil e religiosa.
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