A televisão morreu quando perdeu o monopólio da autoria! E que mais?
Autoria: Sara Wagner York
A afirmação central do argumento é simples e implacável, gravar na vertical não é uma linguagem, é apenas um formato. A confusão entre os dois é exatamente o que separa quem está fazendo mídia social de quem está apenas redimensionando televisão para caber num celular. Vamos falar disso!
Dois exemplos comprovam isso empiricamente. O Brooklyn Coffee Shop, criado pela roteirista e atriz nova-iorquina Pooja Tripathi, não é uma sitcom filmada em plano vertical — é uma série satírica construída inteiramente a partir dos códigos da própria internet, dissecando com humor seco as microidentidades de bairro, o barismo hipster, o discurso anticapitalista performático, a estética influencer. E o The Ick, produzido a partir de submissões reais do público sobre pequenos gestos que provocam repulsa afetiva instantânea, foi construído sobre um mecanismo ainda mais radical, o espectador não assiste ao roteiro, ele o produz. O programa nasceu sem seguidores, recusou promoção cruzada com outras contas e cresceu exclusivamente pela lógica do envio e da seleção pública de histórias — a audiência não comenta o episódio depois que ele existe, ela decide se ele vai existir.
Esse deslocamento — do espectador que recebe para o coautor que intervém — não é uma novidade de 2026, ainda que sua escala atual seja inédita. Alvin Toffler já havia nomeado essa figura de "prosumidor" nos anos 1980, prevendo a dissolução da fronteira entre quem produz e quem consome. Henry Jenkins, décadas depois, deu a isso um corpo teórico mais fino com a noção de cultura participativa e de convergência: para Jenkins, a mídia contemporânea não se define pelo aparelho, mas pelo fluxo de conteúdo entre múltiplas plataformas movido pela cooperação ativa dos usuários. Axel Bruns radicalizou ainda mais o termo ao cunhar "produsage" para descrever ambientes em que a distinção entre produção e uso deixa de fazer sentido analítico. E Pierre Lévy, já nos anos 1990, havia chamado esse fenômeno de inteligência coletiva — a ideia de que o ciberespaço não distribui informação, ele distribui autoria.
Essa mesma dissolução da autoria solitária, hoje, ganha um terceiro front, o da própria teoria literária, no momento em que um número crescente de pessoas passa a escrever com apoio de modelos de linguagem ou sobre eles como personagem, interlocutor ou tema. O debate reativa, sem saber, uma discussão aberta décadas antes de qualquer IA generativa existir. Roland Barthes, em "A morte do autor" (1968), já havia deslocado a origem do sentido do texto para longe da figura soberana e biográfica do autor, situando-a no encontro entre texto e leitor — uma descentralização da autoridade sobre o sentido que antecipa, sem prevê-la, a autoria redistribuída que essas plataformas operacionalizam hoje. Michel Foucault, em resposta indireta a Barthes, preferiu não apagar o autor, mas interrogar a "função-autor": a posição discursiva que organiza e legitima um texto, independentemente de quem — ou do que — a ocupa. É exatamente essa pergunta que hoje se coloca a quem escreve com ou sobre modelos de linguagem: não se a máquina "escreve de verdade", mas que função essa copresença exerce na legitimação do texto.
Katherine Hayles contribui com outra peça, para ela, a cognição nunca esteve confinada a um substrato biológico isolado, mas se realiza em redes que envolvem sujeitos, textos e sistemas técnicos — de modo que a escrita distribuída entre humano e máquina não inaugura a coautoria, apenas torna visível uma condição cognitiva que já era relacional antes de qualquer IA. É essa mesma linha que sustenta a proposta recente de "autoria híbrida humano-IA" na teoria da comunicação brasileira, segundo a qual um sistema generativo pode ser reconhecido como coautor sempre que contribui de modo significativo para o processo criativo — revisão que exige abandonar a moldura antropocêntrica com que o direito e a crítica ainda tratam a noção de obra.
É essa mesma chave que Mauro Lopes, diretor, editor e âncora de programas na web conceituava ao chamar a tv da web de pós-tv. Lopes sintetiza ao tratar o ambiente digital como "pós-TV" — não uma extensão da grade televisiva para outra tela, mas um regime de produção que sucede a televisão em sua própria lógica de endereçamento. A internet, nesse sentido, não é onde a TV vai parar depois de gravada; é onde a televisão, como forma, deixa de fazer sentido. A conclusão prática de quem viveu dezoito anos de mercado é a mesma que a teoria da cultura participativa formula em termos estruturais, quem trata o público como plateia opera dentro de um modelo de emissão unidirecional que a própria internet tornou obsoleto. E quem o trata como coautor da narrativa constrói pertencimento antes de construir produto. Audiência, depois comunidade, depois oferta — inverter essa sequência é tentar vender antes de ter construído o vínculo que torna a venda desnecessária como primeiro movimento.
Histologicamente, a televisão brasileira consolidou seu império comercial sob a névoa densa e glamourizada das propagandas de cigarro e das campanhas ostensivas de bebidas alcoólicas, deixando um rastro de dependência e custos sociais elevados pelos quais a saúde pública ainda paga um preço alto. No pós-pandemia, sobretudo em 2026, contudo, o cenário da comunicação de massa enfrenta uma mutação perversa desse fenômeno: a mídia e o debate público travam uma batalha contra a sua mais nova e agressiva "droga" de massas — as BETs. Esse mercado de apostas e jogos de azar digitais reconfigurou os regimes de consumo ao mercantilizar os sonhos de uma população empobrecida, operando como uma ilusória e violenta tecnologia de saída da miséria.
A perversidade desse ecossistema se revela na sua própria engrenagem discursiva e na hipocrisia de seus principais emissores. É o paradoxo encarnado por mega-apresentadores da tv aberta, que em fóruns empresariais ataca o Bolsa Família sob a cartilha moralista de que o benefício estatal "desestimula o emprego", mas que não hesita em colonizar a grade televisiva e as redes promovendo a jogatina digital que de fato drena a renda das classes populares. O cinismo dessa pós-TV é chancelado por dados brutais, os relatórios do Banco Central expuseram que bilhões de reais de programas de transferência de renda foram transferidos diretamente para as plataformas de aposta. A autoria de outrora, que vendia estilos de vida associados à fumaça e ao copo, cedeu espaço a uma engenharia hiperconectada que captura a vulnerabilidade social, transformando o desespero da periferia em dividendo de plataformas de azar e combustível para o capital de entretenimento.
Essa mesma virada, pensada não a partir do mercado mas da educação e da cibercultura, já vinha sendo formalizada por Edméa Santos. Em sua obra sobre pesquisa-formação na cibercultura, Santos descreve o praticante cultural como alguém que, ao se conectar ao ciberespaço, não recebe conteúdo mas constitui rede de relação — e é dessa relação, não da emissão, que nascem os "atos de currículo": artefatos coletivos, dispositivos e disparadores de ensino que se produzem em autoria compartilhada entre professores, alunos e os próprios objetos técnicos que os conectam. Mayra Ribeiro e Edméa Santos chegam a cunhar a figura do "ciberautorcidadão" precisamente para nomear esse sujeito que deixa de ser destinatário de um conteúdo fechado para se tornar coautor de um currículo aberto, tecido em rede - isso em 2018! O que Brooklyn Coffee Shop e The Ick fazem no campo do entretenimento, e o que a escrita com IA já faz no campo literário — transformar o espectador, o leitor, em roteirista —, as autoras já vinham descrevendo, no campo da educação, como o modo de produção próprio da cibercultura: não há mais consumidor de conteúdo pronto, há coautoria em tempo real de um texto que nunca se fecha. A televisão terminou não porque perdeu tela, mas porque perdeu o monopólio da autoria e nós temos conversado complicadamente (aos moldes de William Pinar e Maria Luiza Sussekind), sobre isso.
Referências
BARTHES, Roland. A morte do autor (1968). In: BARTHES, Roland. O rumor da língua. São Paulo: Brasiliense, 1988.
BANCO CENTRAL DO BRASIL. Análise técnica sobre o mercado de apostas online no Brasil e o perfil dos apostadores. Brasília, DF: BCB, 2024. Nota técnica elaborada pelo Departamento de Estudos e Pesquisas (Depep). Disponível em: <https://www.bcb.gov.br>. Acesso em: 20 jul. 2026.
BRUNS, Axel. Blogs, Wikipedia, Second Life, and Beyond: From Production to Produsage. New York: Peter Lang, 2008.
FOUCAULT, Michel. O que é um autor? (1969). In: FOUCAULT, Michel. Ditos e Escritos III: Estética: Literatura e Pintura, Música e Cinema. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.
HAYLES, N. Katherine. How We Think: Digital Media and Contemporary Technogenesis. Chicago: The University of Chicago Press, 2012.
JENKINS, Henry. Cultura da Convergência. 2. ed. São Paulo: Aleph, 2009.
LÉVY, Pierre. A Inteligência Coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. São Paulo: Edições Loyola, 1998.
PINAR, William F. What is Curriculum Theory? Studies in Curriculum Theory Series. New York: Routledge, 2004.
RIBEIRO, Mayra Rodrigues Fernandes; SANTOS, Edméa Oliveira dos. CIBERAUTORCIDADÃO: CONTRIBUIÇÃO PARA PENSARFAZER A FORMAÇÃO DOCENTE E DISCENTE NA CIBERCULTURA. Revista e-Curriculum, [S. l.], v. 16, n. 2, p. 565–597, 2018. DOI: 10.23925/1809-3876.2018v16i2p565-597. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/curriculum/article/view/36873. Acesso em: 21 jul. 2026.
SANTOS, Edméa. Pesquisa-formação na cibercultura. Teresina: EDUFPI, 2018.
YORK, S. W. Programa de travesti: educação & mídia. Veranópolis: Diálogo Freiriano, 2026. ISBN 978-6-55203-501-1.
Nota: Conforme nota técnica do Banco Central (2024), o cruzamento de transações via Pix revelou que, apenas em agosto de 2024, 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família transferiram R$ 3 bilhões para as bets (21% do total do programa no mês). O impacto socioeconômico e o uso fraudulento de CPFs vulneráveis motivaram uma auditoria imediata do TCU em 2025.
Sobre a autoria:

Sara Wagner York é psicanalista, doutora em Educação, jornalista, pedagoga e biomédica. Atualmente realiza estágio de pós-doutorado em Semiótica na Universidade Estadual Paulista (UNESP), com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Sua produção acadêmica concentra-se nas interfaces entre educação, semiótica, psicanálise, gênero, diversidade e direitos humanos, investigando as relações entre linguagem, cultura e justiça social. Foi pesquisadora visitante na University of Pittsburgh e professora visitante na Vanderbilt University, além de atuar em universidades brasileiras e internacionais. Desenvolve pesquisas, publicações e atividades de ensino voltadas à educação inclusiva, à produção democrática do conhecimento e ao diálogo entre universidade e sociedade. É imortal das Academias Brasileria de Letras do Cárcere (ABLC) e de Letras e Artes do Estado do Rio de Janeiro (ACLERJ).
Como citar este artigo:
YORK, Sara. A televisão morreu quando perdeu o monopólio da autoria! E que mais? Revista Docência e Cibercultura, Julho 2026, online. ISSN: 2594-9004. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/re-doc/announcement/view/2170. Acesso em: DD mês. AAAA.
Editores/as Seção Notícias:
Edméa Santos, Felipe Carvalho, Frieda Maria Marti, Marcos Vinícius Dias de Menezes e Mariano Pimentel






