Acúmulo de Funções, Colapso do Gatekeeping e a Memória Coletiva do Absurdo

2026-06-13

Autoria: Sara Wagner York

Em agosto de 2018, durante a série de entrevistas presidenciais no telejornal de maior audiência do Brasil, o país testemunhou uma cena que subverteu as premissas básicas da mediação jornalística. Diante das câmeras, um candidato à Presidência da República sacou de sua pasta um livro infantil, associando-o a um suposto e inexistente material de erotização que estaria sendo distribuído em massa nas escolas públicas — narrativa popularmente sintetizada pelo ecossistema de desinformação através de termos grotescos e panfletários. Diante do aparato cênico da mentira performática, o jornalista que conduzia a entrevista, uma das figuras mais centralizadoras da história da imprensa nacional, manteve-se momentaneamente paralisado. Não houve a interdição imediata do absurdo, tampouco o desmentido categórico que a gravidade do fato exigia no milésimo de segundo subsequente. A desinformação fluiu, em horário nobre, sem o devido enquadramento crítico.

Essa parálise, contudo, não deve ser lida meramente como uma falha individual de caráter ou de competência técnica. Ela expõe a anatomia de um colapso estrutural provocado pelo fenômeno do acúmulo de funções. Ao concentrar na mesma figura as atribuições de apresentador âncora, redator e editor-chefe, a arquitetura da emissora eliminou as linhas horizontais de contingência e segurança editorial. O profissional cindido entre as exigências físicas da performance ao vivo e a responsabilidade macro da coordenação de conteúdo tornou-se o principal gargalo de sua própria engrenagem.

Para compreender como a sobrecarga de papéis neutraliza a capacidade de resposta democrática da imprensa, é preciso recorrer à sociologia das rotinas produtivas e às teorias da comunicação. O conceito clássico de gatekeeping, formulado originalmente por David Manning White (1950) e expandido por Pamela Shoemaker (2009), postula que o jornalista atua como o guardião de um portal, selecionando e filtrando o que deve ou não transitar para o espaço público. No entanto, Shoemaker adverte que a eficácia desse filtro é profundamente moldada por constrangimentos organizacionais e pressões temporais. Quando o gatekeeper principal está sob a luz dos refletores, o “portão” cognitivo falha. Como aponta Gaye Tuchman ao analisar os rituais de objetividade e as rotinas informativas, o jornalismo é uma fábrica de reflexos rápidos que, paradoxalmente, engessa a capacidade de reação diante do inédito e do bizarro se o profissional estiver exaurido por múltiplas exigências simultâneas.

Sob a ótica da economia da atenção e da psicologia cognitiva de Daniel Kahneman, a explicação ganha contornos neurológicos. A condução de um programa ao vivo em rede nacional exige o esgotamento do chamado Sistema 1 — o pensamento rápido, intuitivo, focado na postura, na dicção, no tempo cronometrado do bloco e na escuta das instruções técnicas no ponto eletrônico. A tarefa de processar uma mentira complexa, articular um desmentido factual e interdir uma autoridade em tempo real exige o acionamento do Sistema 2 — o pensamento lento, analítico e deliberativo. No acúmulo de funções, a energia reflexiva é drenada pela técnica. A performance engole a crítica, deixando o fluxo informativo vulnerável à captura de agentes dispostos a implodir o debate público - como ocorreu naquele momento.

A Ilusão da Eficiência: O Fiscal se Funde ao Operador

O argumento corporativo que historicamente justifica a fusão de cargos como o de apresentador e editor-chefe orbita em torno da agilidade e da unidade editorial. No entanto, sob a lente da teoria das organizações, essa centralização representa o desmantelamento deliberado dos sistemas de contingência. Em qualquer estrutura de alta responsabilidade pública — seja no controle de tráfego aéreo, na medicina cirúrgica, na política ou no jornalismo de rede —, a segurança do processo reside na separação estrita entre quem executa a ação em tempo real e quem fiscaliza o cumprimento do protocolo.

No jornalismo contemporâneo, esse fenômeno dialoga de forma perversa com o que a sociologia do trabalho aponta como a precarização e a sofisticação do controle produtivo. Ao verticalizar as funções, elimina-se o dissenso criativo e a checagem cruzada. Se o editor-chefe está na bancada, quem está na sala de controle técnico (switchboard) deixa de ser um par editorial crítico para se tornar um mero executor de comandos de corte de câmera. A horizontalidade que permite a um editor gritar no ponto eletrônico — “Corta o microfone, isso é falso!” — é anulada pela hierarquia da estrela que comanda o show. O acúmulo de funções, portanto, gera uma autocracia cognitiva, o erro do topo não encontra barreiras para se propagar.

Em sua obra “Sobre a Televisão”, Pierre Bourdieu alerta para os perigos do que chama de "fast-thinkers” — os pensadores rápidos que destroem o tempo da reflexão em nome da urgência do direto, do ao vivo. Bourdieu argumenta que a televisão impõe uma restrição temporal que favorece o clichê, as ideias recebidas e a passividade diante da performance exibicionista. No caso do acúmulo de funções, essa “violência do tempo” é multiplicada. O profissional não tem os minutos necessários para o recuo analítico, pois sua mente está engajada no gerenciamento dos fluxos técnicos da transmissão. A urgência da forma oblitera a densidade do conteúdo.

A Fenomenologia do Absurdo e a Captura da Bancada

É precisamente nesse hiato de atenção, gerado pela sobrecarga do jornalista multifuncional, que a desinformação contemporânea opera suas maiores vitórias. A estratégia adotada pelo então candidato em 2018 não foi um ato de debate, mas uma intervenção performática. O uso de suportes visuais chocantes e de teor obsceno em um espaço sagrado da oficialidade jornalística — a bancada do principal telejornal do país — funciona como um estupefaciente retórico. É o que se pode chamar de “terrorismo semiótico” (York & Shwartzmann, 2026 - no prelo).

Quando o absurdo é jogado na tela sem o filtro do gatekeeper, ocorre uma inversão de papéis, o estúdio de TV deixa de ser o tribunal do fato e passa a ser o palco da legitimação do delírio. O candidato sabia que a estrutura técnica ali montada estava exausta e centralizada demais para reagir com o mesmo dinamismo de sua provocação. Ele jogou com o tempo de reação de um homem só. Ao mostrar o objeto e alegar sua presença nas escolas, o político não buscava convencer o jornalista, mas capturar o frame, o print*, o corte de vídeo que alimentaria as redes sociais minutos depois.

A parálise do jornalista acumulador de funções, portanto, transformou-se em cumplicidade técnica involuntária. Incapaz de modular a fala do entrevistado ou de contextualizar o documento falso no ato de sua exibição, a centralização editorial faliu diante do país. Ficou demonstrado que a blindagem contra o populismo e a mentira ultrajante não se faz com o brilhantismo individual de um super-homem da notícia, mas sim com a descentralização do poder de intervenção dentro da própria redação.

Conclusão: A Redenção pela Memória Comum

O colapso da mediação jornalística observado naquele estúdio em 2018 deixa uma lição indelével sobre a ecologia dos meios e a preservação do debate público: a centralização e o acúmulo de funções em posições de alta relevância civil não são apenas escolhas administrativas arriscadas, mas vulnerabilidades democráticas latentes. A ilusão corporativa de que a convergência de papéis confere controle e agilidade à informação cai por terra quando confrontada com as táticas da desinformação performática. O populismo semiótico, ciente de que as mentes humanas operam sob limites rígidos de carga cognitiva, ataca precisamente os pontos onde a horizontalidade do debate foi substituída pela verticalização do comando.

Se o jornalismo faliu momentaneamente em seu papel de guardião — ao permitir que a farsa do “kit gay” e de suportes visuais obscenos profanassem a oficialidade do horário nobre —, o desfecho desse episódio revelou uma salvaguarda inesperada. A interdição que faltou na bancada operou-se, de forma descentralizada e orgânica, no tecido da própria sociedade. O ecossistema de mentiras dependia de que o público estivesse completamente alienado de sua própria realidade imediata para que o absurdo se tornasse verdade factual.

Contudo, como ensina Maurice Halbwachs ao teorizar a memória coletiva, a sustentação da verdade social não se dá por decretos institucionais ou pelo peso das grandes marcas mediáticas, mas pelas redes de solidariedade, afeto e vivência cotidiana que unem as comunidades. O cidadão brasileiro que assistia àquela transmissão aciona, ainda hoje, um arquivo vivo e comum de experiências: o rosto da professora do filho, o cotidiano espartano das creches do bairro, o conhecimento concreto de que as salas de aula da educação básica lidam com a falta de giz e merenda, e não com conspirações de erotização infantil. A memória coletiva do absurdo agiu como um anticorpo social. A mentira, embora exposta em rede nacional pelo candidato e tolerada pela parálise do jornalista sobrecarregado, sufocou no bom senso da base.

Assim, a crítica ao acúmulo de funções precisa transcender a esfera das relações de trabalho e da gestão interna das instituições. Trata-se de uma urgência política, proteger o jornalismo da autofagia cognitiva provocada pela sobrecarga de seus profissionais é o primeiro passo para garantir que a imprensa continue capaz de cumprir seu papel constitucional. Enquanto as grandes estruturas de comunicação insistirem na centralização e na precarização de suas linhas de defesa, a sanidade do espaço público continuará dependendo do último e mais vulnerável bastião: a memória comum das mulheres, negros, marginalizados, PcDs e homens que, do lado de fora da tela, teimam em lembrar como o mundo real funciona.

Referências

BENTO, Maria Aparecida da Silva. Pactos narcísicos no racismo: branquitude e poder nas organizações empresariais e no poder público. 2002. Tese (Doutorado em Psicologia Social) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002. 

BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Tradução de Maria Lúcia Homem. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. Tradução de Beatriz de Moura. São Paulo: Centauro, 2006.

KAHNEMAN, Daniel. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

MILLS, Charles W. O contrato racial. Tradução de Jair Inácio Lynch. Rio de Janeiro: Zahar, 2020. 

SHOEMAKER, Pamela J.; VOS, Tim P. Gatekeeping theory. New York: Routledge, 2009.

TUCHMAN, Gaye. Making news: a study in the construction of reality. New York: Free Press, 1978.

WHITE, David Manning. The "gate keeper": a case study in the selection of news. Journalism Quarterly, Columbia, v. 27, n. 4, p. 383-390, fall 1950.

YORK, Sara Wagner; SHWARTZMANN, Matheux. Terrorismo semiótico, 2026. No prelo.

Sobre a autoria:

Sara Wagner York é doutora em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), executa estágio pós-doutoral em Semiótica na Universidade Estadual Paulista (UNESP), com bolsa FAPESP (Processo nº 2025/15428-3). Jornalista, pedagoga e psicanalista, desenvolve pesquisas nas áreas de educação, comunicação, memória, gênero, sexualidade e produção de saberes trans. É autora do livro Programa de travesti: educação & mídia (Diálogo Freiriano, 2026) e integra a Academia de Letras e Artes do Estado do Rio de Janeiro (ACLERJ) e a Academia Brasileira de Letras do Cárcere (ABLC). Seu trabalho investiga as relações entre mídia, subjetivação, arquivo, transepistemologia e justiça cognitiva.

Como citar este artigo:

YORK, Sara. Acúmulo de Funções, Colapso do Gatekeeping e a Memória Coletiva do Absurdo. Revista Docência e Cibercultura, Junho 2026, online. ISSN: 2594-9004. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/re-doc/announcement/view/2161. Acesso em: DD mês. AAAA.

Editores/as Seção Notícias:

Edméa Santos, Felipe CarvalhoFrieda Maria Marti Marcos Vinícius Dias de Menezes e Mariano Pimentel