MASCULINIDADES CONTEMPORÂNEAS ENTRE A VIRILIDADE E A FRAGILIDADE: QUEM TEME O DEBATE DAS RELAÇÕES DE GÊNERO NA EDUCAÇÃO?

2026-06-03

Autoria: Rafael Gonçalves de Oliveira e Tereza Fernandes

“O gênero é um produto histórico, então ele está aberto à mudança histórica” (Robert W. Connell, 1995).

Desde muito cedo os meninos são submetidos a processos de socialização que marcam a sua entrada no mundo dos homens e das suas masculinidades. São estímulos para se tornarem homens sob valores, atitudes e gestos subjetivos, como: braveza, coragem, força física e supressão de sentimentos íntimos e de afeto. Esse conjunto de conhecimentos e ensinamentos são incutidos como traços positivos para se tornarem “homens de verdade” no século 21 (Alburquerque Júnior, 2014).

Este é um fenômeno histórico e uma construção sociocultural enraizada em sistemas interseccionais, dentre eles o patriarcado e o capitalismo que, na atualidade, têm mostrado diferentes faces, materializadas no machismo e na misoginia. Na contemporaneidade cibercultural está presente em sites de redes sociais e plataformas digitais que disseminam discursos de ódio de homens contra mulheres e as múltiplas violências decorrentes.

Esse tema urgente para/na educação é o nosso objeto de investigação em uma pesquisa de doutorado que, de alguma forma, foi abreviada em sua potência e abrangência. O campo de estudo seriam três escolas públicas da rede estadual de educação de Mato Grosso, com professores e estudantes da Educação de Jovens e Adultos (EJA).  O projeto, com outro tema, aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP Humanidades), no final de 2025, havia sido acolhido com suporte necessário para a sua realização, pela gestão escolar.

Com a mudança do tema para as relações de gênero na educação, selecionamos apenas uma escola de EJA para a realização de uma pesquisa-formação (Santos, 2019). Todavia, com a aprovação da Lei nº 13.264 de 14 de abril de 2026, de autoria do Deputado Thiago Silva, sancionada pelo governador do estado de Mato Grosso, Otaviano Pivetta, houve a proibição de todo e qualquer conteúdo sobre “ideologia de gênero” na rede estadual de educação. A gestão da escola ficou temerosa com a continuidade do estudo. Nos foi recomendado que fizéssemos um novo requerimento para a escola, assinado pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), sem, contudo, termos a garantia de que a pesquisa com o tema seria (re)autorizada. O documento, ao que pudemos deduzir, seria para a escola se resguardar em caso de denúncias e/ou represálias.

Tendo em vista que as masculinidades, do modo como veem se manifestando na atualidade cibercultural, afetam sobremaneira as meninas e mulheres, mas, também os meninos e homens, adestrados por grupos masculinistas com discursos machistas e misóginos, uma pesquisa-formação com estudantes e professores supriria a lacuna de formação para pensarmos, juntos, as masculinidades contemporâneas e debatermos sobre os letramentos de gênero para meninos e homens na escola.

Assim, optamos pela continuidade da pesquisa, sem contar com o campo físico da escola e sem os sujeitos professores e estudantes. Seguimos pelas orientações teórico-metodológicas da etnografia na cibercultura, adentrando mais profunda e densamente no universo online dos sites das redes sociais Instagram e Youtube, tendo como sujeitos os praticantes dessas redes, tanto criadores de perfis quanto aqueles que interagem respondendo às postagens, realizando assim, a produção de dados por meio dos discursos, imagens e sons por eles produzidos e que são públicos, postados nas respectivas redes.

A pesquisa e a formação que realizamos não se justifica “porque está na moda” discutir masculinidades, como o curso do ator Juliano Cazarré, que virou uma trend tão viral que ganhou as redes sociais, com diversas imitações de cursos, vídeos, memes e, também, análises de especialistas em relacionamento, reflexões de ativistas, psicanalistas e feministas.

No seu perfil no Instagram (@cazarre), em 24 de abril de 2026, o ator compartilhou um vídeo com o título “Meu Pronunciamento”, sobre o curso “O Farol e a Forja”. Segundo o ator, ele ganhou mais de 400 mil novos seguidores e mais de 5 mil pessoas inscritas no seu curso. Ele destacou ainda que, em detrimento das demonizações e confusões que seu curso gerou, o seu trabalho faz parte de um projeto “silencioso e de longa data” e, parte de um projeto maior “A casa sobre a rocha”, que é uma comunidade, com princípios cristãos e em nome da família estruturada, para homens que querem ser fortes e aprenderem a cuidar de suas casas e das suas famílias, com tais princípios.

Após a grande repercussão do curso e das suas declarações nas redes sociais, a GloboNews realizou um debate, no dia 12 de maio de 2026, com @juliaduailibi, o ator e os/as convidadas/os Vera Iaconelli (psicanalista) e Ismael dos Anjos (consultor de equidade de gênero e raça), no qual, dentre outras questões, o ator apresentou Fake News sérias e preocupantes sobre questões de gênero, masculinidades e altos índices de uma suposta violência de mulheres contra homens no Brasil. A sua participação, nesse programa, gerou reação imediata em diversos perfis nas redes sociais, com réplicas e análises importantes sobre o tema e sobre a disseminação de notícias falsas.

Em outra perspectiva, a nossa pesquisa visa conhecer as práticas ciberculturais relacionadas ao fenômeno da machosfera, conceito criado nos Estados Unidos da América para representar as redes de canais digitais que se conectam para estimular a misoginia sob o pretexto de ajudar os homens a se libertarem da “subjugação feminina”; compreender como se estruturam; que tipo de discursos e práticas elas engendram; que opressões e violências as atravessam; e, como afetam as relações de gênero na contemporaneidade. Como destacam Biroli; Vaggione; Machado (2020), é crescente o neoconservadorismo, a erosão da democracia e os desafios para o debate das questões de gênero na política contemporânea, no Brasil e na América Latina.

Por ora, a imersão nas redes e o mapeamento de perfis tem nos apontado a realidade perversa dos grupos masculinistas existentes no Brasil, seus históricos, motivações e objetivos, enquanto projeto ideológico. Esses grupos masculinistas são dispositivos (Foucault, 2000) de aproximação, de engajamento, de posicionamento, de naturalização, de experiências de meninos e homens em discursos de ódio e arquiteturas machistas que articulam relações de poder para controlar seus comportamentos e ações, mas também, para gerar monetizações às plataformas digitais. São muitas as camadas.

Em decorrência, as violências de homens contra meninas e mulheres perpassam pela sutileza do primeiro contato virtual, cancelamentos, xingamentos, agressões físicas ao receber um não, estupros coletivos e feminicídio. É necessário conhecer a rede que se tece em torno desse fenômeno e entre os sistemas que o estruturam, sustentam e perpetuam suas tecnologias de opressão.

Ao término dos estudos, além de compreender e elucidar a complexidade das masculinidades na contemporaneidade, pretendemos elaborar indicadores para propostas formativas para estudantes e professores nos letramentos de gênero, visando a formação para uma consciência crítica e o fortalecimento de práticas educativas emancipadoras e éticas, pois não tememos o debate das relações de gênero na educação.

 

Referências

ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. Nostalgia da infância, saudades do feminino: em que momentos da vida de um homem o feminismo pode atuar para a construção de outras masculinidades possíveis. In: Eva Alterman Blay (Org.). Feminismos e masculinidades: novos caminhos para enfrentar a violência contra a mulher. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2014 (pp. 105-116).

BIROLI, Flávia. VAGGIONE,  Juan Marco.  MACHADO, Maria das Dores Campos. Gênero, neoconservadorismo e democracia. 2020.

CONNELL, Robert William. Políticas da Masculinidade. Educação & Realidade, Porto Alegre, v.20, n.(2), p.185-206, 1995.

FOUCAULT, Michel. Sobre a História da sexualidade. In: Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 2000.

MATO GROSSO. Lei n. 13.284, de 14 de abril de 2026. Dispõe sobre a proibição da exposição de alunos da rede pública estadual de ensino a propagandas e materiais que tratem sobre ideologia de gênero nas instituições de ensino do Estado de Mato Grosso. Disponível em: [Diário Oficial / Visualizacoes]. Acesso em: 08 mai. 2026.

SANTOS, Edméa. Pesquisa-formação na cibercultura. Terezina: EDUFPI, 2019.

 

Sobre a autoria:

Rafael Gonçalves de Oliveira

Professor da rede pública estadual de Mato Grosso (SEDUC-MT). Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP-Marília). Graduado em História pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT-Cuiabá) e Graduado em Pedagogia UFMT. Mestre em História pela UFMT. Doutorando em Educação PPGE/IE/UFMT. Membro do Grupo de Pesquisa Cibercultura, Interseccionalidades e Multiletramentos (GPCIM). Email:  rafael.im.dois@gmail.com Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1681636139467283 . ORCID: https://orcid.org/0009-0003-9265-1563

Tereza Fernandes

Professora Associada do Instituto de Educação (IE) e do Programa de Pós-graduação em Educação (PPGE) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Pós-doutora em Educação - Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Doutora em Educação - Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) com doutoramento sanduiche na Universidade Aberta - Portugal. Mestre em Educação - UFMT. Membra do Grupo de Pesquisa Docência e Cibercultura (GpDoc/UFRRJ); Grupo Edumídia (UFSC) e Coordenadora do Grupo de Pesquisa Cibercultura, Interseccionalidade e Multiletramentos (GPCIM/UFMT). Email:  tereza.fernandes@ufmt.br. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3787473429290650 ORCID: http://orcid.org/0000-0002-1040-424X. Instagram: @gpcim.ufmt

 

Como citar este artigo: 

OLIVEIRA, Rafael Gonçalves de. FERNANDES, Tereza.  Masculinidades contemporâneas entre a virilidade e a fragilidade: quem teme o debate das relações de gênero na educação? Revista Docência e Cibercultura, Maio 2026, online. ISSN: 2594-9004. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/re-doc/announcement/view/2160. Acesso em: DD mês. AAAA.

 

Editores/as Seção Notícias:

Edméa Santos, Felipe CarvalhoFrieda Maria Marti Marcos Vinícius Dias de Menezes, Mariano Pimentel e Wallace Almeida