O ALERTA DE LEÃO XIV NA ENCÍCLICA MAGNIFICA HUMANITAS SOBRE ALGORITMOS E HUMANIDADE

2026-05-27

Autoria: Glaucia da Silva Brito e Luis Fernando Lopes

A divulgação da Encíclica Magnifica Humanitas, por Leão XIV, na manhã de 25 de maio de 2026, já começou a mobilizar pesquisadores das áreas de educação, tecnologias e ética digital em diferentes países. O documento, que rapidamente passou a circular em grupos acadêmicos e redes de pesquisa, vem sendo apontado como um marco importante para os debates contemporâneos sobre inteligência artificial, humanismo, formação humana e os impactos das tecnologias na sociedade. Nesse contexto, a Encíclica insere-se explicitamente na tradição da Doutrina Social da Igreja ao retomar, em chave contemporânea, a herança inaugurada pela Rerum Novarum e reelaborada por documentos posteriores da Doutrina Social da Igreja (DSI).

Um dos trechos que mais começou a repercutir entre pesquisadores da educação e das tecnologias encontra-se no nº 47 da Magnifica Humanitas, quando Leão XIV dirige-se explicitamente às universidades e instituições acadêmicas. No texto, o pontífice afirma:

Ao propor estas reflexões, desejo, em primeiro lugar, ajudar os fiéis leigos, bem como os demais homens e mulheres de boa vontade, a redescobrir a sua tarefa de levar ao quotidiano, às relações familiares, ao trabalho e à participação social, os princípios que pretendo recordar, deixando-se animar pela intenção de encarnar o amor de Deus na trama concreta da história. Gostaria, ao mesmo tempo, de encorajar as universidades e instituições académicas a dar novo impulso a estes princípios, repensando-os em conformidade com os nossos dias para se enfrentar eficazmente a revolução digital (Leão XIV, 2026, Magnificat Humanitas, nº 47).

A passagem chama atenção por inserir, de forma direta, a “revolução digital” no centro das preocupações éticas, educativas e sociais da Igreja. Mais do que uma referência genérica às tecnologias, o documento convoca universidades, pesquisadores e instituições formadoras a revisitarem os princípios humanistas da Doutrina Social da Igreja à luz dos desafios contemporâneos impostos pela algoritmização da vida, pela inteligência artificial e pelas transformações digitais que atravessam o trabalho, a educação e as relações humanas.

Dessa forma o documento não pretende apenas oferecer um pronunciamento circunstancial sobre a inteligência artificial, mas propor um caminho interpretativo para o discernimento moral, político e antropológico dos avanços tecnológicos em nosso tempo. O eixo interpretativo central da Encíclica consiste na afirmação de que a técnica não é neutra. Essa formulação, sustenta que toda tecnologia incorpora as visões de mundo, os interesses, os regimes de poder e as escolhas normativas daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam.

A tecnologia pode curar, conectar, educar, cuidar da Casa comum; mas também pode dividir, descartar, gerar novas injustiças. Na teoria, em si mesma, ela não é uma solução para os problemas da humanidade, assim como não é, em si mesma, um mal; todavia, na prática, não é neutra, porque tem o rosto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam. Por isso, a primeira escolha não é entre um “sim” ou um “não” à tecnologia, mas entre edificar Babel ou reconstruir Jerusalém: entre um poder que pretende dominar o céu ou um povo que unido, na presença de Deus, começa o trabalho de reerguer os muros da convivência fraterna. (Leão XIV, 2026, Magnificat Humanitas, nº 9).

A reflexão proposta pela Encíclica vem fortalecer a ideia de que as instituições educacionais, especialmente universidades e centros de formação, já deveriam estar debatendo de forma mais consistente os impactos éticos, sociais, políticos e pedagógicos das tecnologias digitais e da inteligência artificial. O texto papal não inaugura o problema, mas explicita uma urgência que há anos atravessa as pesquisas em educação e tecnologias: a necessidade de compreender que as tecnologias não são neutras e que seus usos produzem efeitos concretos sobre a formação humana, o trabalho, a cidadania, a produção do conhecimento e as formas de participação social.

Nessa perspectiva, a inteligência artificial não aparece simplesmente como instrumento eficiente, mas como mediação histórica capaz de intensificar desigualdades, ampliar formas de controle, naturalizar exclusões e consolidar novas assimetrias epistêmicas, econômicas e políticas. A Encíclica desloca o debate da oposição simplista entre tecnofilia e tecnofobia para um exame mais denso dos critérios éticos, humanísticos e sociais que devem orientar o desenvolvimento e o uso das inovações tecnológicas na contemporaneidade.

REFERÊNCIAS

LEÃO XIV, Papa. Carta encíclica Magnifica Humanitas. Do Santo Padre Leão XIV sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. Dado em Roma, junto de São Pedro, a 15 de maio do ano 2026, segundo do meu Pontificado. Disponível em: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/encyclicals/documents/20260515-magnifica-humanitas.html#Por_uma_ecologia_da_comunica%C3%A7%C3%A3o_ Acesso em: 26 mai. 2026.

Sobre a autoria:

Glaucia da Silva Brito é professora Dra. Pesquisadora Sênior na Universidade Federal do Paraná atuando no programa de Pós-graduação em Educação (PPGE). Professora Dra. Pesquisadora no Centro Universitário UNINTER atuando no programa de Pós-Graduação em Educação e Novas Tecnologias (PPGENT).

Luis Fernando Lopes é professor do Departamento de Pedagogia (DEPED) da Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO), Campus de Irati PR. Participa do Grupo de Pesquisa Educação e Formação de Professores na mesma instituição.

Como citar este artigo:

BRITO, Glaucia da Silva; LOPES, Luis Fernando. O alerta de Leão XIV na encíclica magnifica humanitas sobre algoritmos e humanidade. Revista Docência e Cibercultura, Maio 2026, online. ISSN: 2594-9004. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/re-doc/announcement/view/2156. Acesso em: DD mês. AAAA.

Editores/as Seção Notícias:

Edméa Santos, Felipe CarvalhoFrieda Maria Marti Marcos Vinícius Dias de Menezes e Mariano Pimentel