AS CONVERSAS DE BAR E O AGIR COMUNICATIVO
Autoria: Ana Cristina Souza dos Santos
Cruzamos a praça em direção a um belo Casario formado por bares, cafés e restaurantes. Era sábado à noite e havia um leve frescor marcado pelas águas de março que vão deixando o verão. O espaço estava movimentado por pessoas que buscavam por conversas despretensiosas até reflexões profundas.
Encontramos Elida e Renata, um casal de amigas. Brindamos o encontro e a possibilidade de beber uma caneca de chope e ganhar outra, ou seja, felicidade em dobro.
As conversas foram permeadas sempre com os fatos do cotidiano e as questões familiares. Foi aí que apareceu a história da preocupação da Renata com a busca de uma nova escola para a filha mais velha que estava concluindo o ensino fundamental naquele ano. Renata disse que a filha desejava estudar em um Instituto Federal que fica a 50 quilômetros de sua casa, mas que não deixaria por ser muito longe, preferindo a escola cívico-militar, mais próximo de sua residência. Nesse momento questionei se elas sabiam o que era e como funcionava uma escola cívico-militar. Elida respondeu que elas pensaram nessa escola pela disciplina e Renata enfatizou que tinha informações que a escola pretendida pela filha tinha muitas greves.
A conversa tomou um tom mais acalorado na minha fala, típica de uma “professora militante”, carregada por argumentos ético-político-pedagógicos e destacando a importância e o sentido da greve na reivindicação por melhores condições de trabalho, salários justos e na defesa da Instituição Pública. Por fim, perguntei se elas não consideravam cruel colocar uma adolescente crítica, criativa, uma menina negra criada por um casal homoafetivo em uma escola daquele modelo, extremamente conservadora, onde se tinha relatos de serem conduzidas por dirigentes que faziam uso de discursos de ódio. Plantei ali uma semente que foi regada por duas solicitações da Renata: indicação de outras escolas para cursar o ensino médio e; um serviço de transporte seguro para filha até a escola desejada por ela, caso conseguisse ser selecionada.
Daquele ponto encadearam-se outras questões, pois conversa é isso, uma rede de conexões que formam essa complexidade que somos nós e que é a vida. De repente estávamos falando da Deputada Érika Hilton e da celeuma envolvida no fato de ter sido escolhida para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos das Mulheres.
Era consenso entre nós que Érika Hilton nos representava, pois ela agia a favor dos direitos das mulheres e havia uma compatibilidade intelectual de opiniões e de comportamentos muito próximos aos nossos. Entendíamos que representação não se trata de uma simples relação com o nosso corpo físico, nossa biologia ou com as nossas singularidades. E então veio novamente a questão enfrentada por essas amigas em outros grupos sociais sobre a Deputada: “Mas ela não é uma mulher! Ela não nasceu com o cromossomo XX.”
O diálogo foi atravessado por alguns conceitos, o de sexo como uma categoria biológica, definindo a diferença entre macho e fêmea, e a definição de ser mulher ao conceito de gênero. Biologicamente, Érica Hilton não é do sexo feminino, mas ela é uma mulher trans.
Resolvemos buscar o que as mídias sociais vinham falando sobre a definição de Mulher. Encontramos uma fala da jornalista Jessica Senra que apresentava a definição de mulher como uma construção social estabelecida pelo patriarcado ao dividir as pessoas em dois grupos: homens e mulheres. Assim, a partir de um dado biológico, macho e fêmea, foram atribuídos características para esses grupos. Homens teriam certas características, certos comportamentos e mulheres teriam outros. Homens seriam fortes, corajosos, racionais, deveriam manifestar masculinidade através de mecanismos de violências. Enquanto as mulheres seriam frágeis, sensíveis, emocionais e exerceriam a feminilidade através de doçura e subserviência. Restringiram o espaço dessa mulher ao âmbito doméstico, que reproduzem, que amamentam, cuidam de seus filhos e obedecem aos seus maridos.
Durante essa conversa Elida relatou o quanto foi difícil se entender como uma mulher lésbica. Passou por dois noivados com homens cis e reconhece as marcas do patriarcado em sua vida.
Brindamos com mais um chope e dessa vez a diversidade que a vida nos apresenta em sua complexidade. Elida lançou mais uma questão que movimenta o seu grupo de amigos: “mas como se define o casal de homem e mulher trans que resolvem ter um filho gerado por eles?” Ela sorriu e disse que falou para esse grupo que seria um casal hetero!
Eu também sorri e falei que entendia que naquela situação se assumiria a função biológica para a reprodução, mas não deixariam de ser um casal trans.
Seguimos para despedida daquele encontro dialógico que nos trouxe tantas reflexões e risadas. Despertei no domingo com os raios do sol invadindo o quarto e pedindo para ser contemplado após tantos dias ofuscado pelas nuvens. Seria um domingo perfeito não fosse a triste notícia do falecimento de Jürgen Harbermas, um importante filósofo da segunda geração da Escola de Franhfurt.
Muito conhecido entre nós pela Teoria da Ação Comunicativa, Jürgen Harbermas propôs que a interação social deveria ser no entendimento mútuo através do diálogo racional, em vez de apenas manipulação estratégica e poder. Para Habermas a informação é um elemento de extrema importância para a esfera pública, que é considerada por ele um espaço social onde cidadãos se reúnem para discutir questões de interesses comuns, formando a opinião pública que devem guiar e controlar o exercício do poder estatal. Essas preocupações resultaram dos dilemas vividos pelo filósofo alemão, mais especificamente pelo choque provocado pela revelação dos crimes do nazismo após os julgamentos de Nuremberg, já que chegou a integrar as juventudes hitlerianas, como muitos jovens de sua geração. Tudo isso marcou a sua formação intelectual e moral e suas obras foram dedicadas a pensar a democracia, o espaço público e o papel da razão na vida coletiva.
Para o filósofo, as transformações do capitalismo avançado e a crescente influência dos meios de comunicação de massa vêm ameaçando a democracia, já que os tipos de informação acessados podem manipular a opinião pública.
Lembrei das conversas da noite de sábado, da escuta atenta, crítica e reflexiva que acompanhou todo aquele diálogo. A conversa enquanto uma ação comunicativa só cumpre sua função quando existe disposição real para compreender o outro.
Sobre a autora:

Ana Cristina Souza dos Santos
Professora Doutora e Titular da UFRRJ, Docente do Programa de Pós-graduação em Educação em Ciências e Matemática (PPGEduCIMAT-UFRRJ), atua na área de Didática e Prática de Ensino em Química e Estudos de Currículo. E-mail: anacris@ufrrj.br
Como citar este artigo:
SANTOS, Ana Cristina Souza dos. As conversas de bar e o agir comunicativo. Notícias, Revista Docência e Cibercultura, Março 2026, online. ISSN: 2594-9004. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/re-doc/announcement/view/2127. Acesso em: DD mês. AAAA
Editores/as Seção Notícias:
Edméa Santos, Felipe Carvalho, Frieda Maria Marti, Marcos Vinícius Dias de Menezes e Mariano Pimentel






