O BATON DO MAESTRO: LIDERANÇA, APRENDIZAGEM E VISÃO EM CONTEXTOS EDUCACIONAIS
Autoria: Ana-Paula Correia
1. Introdução
Algumas semanas atrás, assisti a uma apresentação da Orquestra Sinfônica de Columbus nos Estados Unidos. Foi uma daquelas tardes de domingo em que som, silêncio e luz convergiram em algo inesquecível. Embora meu conhecimento de música seja limitado, fiquei cativada pela figura do maestro — cujo movimento tinha o poder de unificar dezenas de músicos em um único organismo vivo feito de som.
Enquanto observava, não pude deixar de pensar sobre o papel do líder — não apenas no contexto das orquestras, mas também em contextos educacionais e de pesquisa. Os gestos do maestro tornaram-se metáforas de comunicação, confiança e propósito coletivo. Percebi que, de muitas maneiras, eu também já estive num pódio, conduzindo um conjunto de profissionais em busca de conhecimento, inovação, aprendizagem e desenvolvimento pessoal.
Com base em mais de vinte e cinco anos como professora, designer educacional, pesquisadora e docente — e, mais recentemente, sete anos dirigindo um centro de pesquisa com mais de 60 colaboradores em uma grande universidade pública nos Estados Unidos — aprendi que liderança não é uma performance solo. Assim como uma sinfonia, é um ato colaborativo de implementar uma visão compartilhada.
2. Regência como metáfora da liderança: A arte de sincronizar mentes
O maestro não produz nenhum som, ainda assim cada nota carrega sua influência. Seu papel não é dominar, mas alinhar — traduzir visão em ritmo e ritmo em ação. Michael Tilson Thomas, um maestro famoso nos Estados Unidos, disse certa vez que reger é “tentar fazer muitas pessoas concordarem sobre onde é o agora.” (Public Broadcasting Service, 2020)
Essa definição me toca porque captura a essência da colaboração na sua forma mais imediata. Reger não se trata apenas de manter o tempo ou moldar a expressão musical, mas sim em criar um sentido compartilhado de presença. Cada músico deve alinhar sua atenção, emoção e intenção com as de todos os outros no conjunto. Nesse momento, o agora torna-se uma experiência coletiva, não individual.
Esta visão resume o que entendo por liderança bem-sucedida muito além da música. Em qualquer empreendimento colaborativo — uma sessão de orientação com alunos de pós-graduação, as atividades incluídas num projeto de pesquisa, uma aula na faculdade — o sucesso muitas vezes depende da capacidade das pessoas de sincronizar seu foco e energia. Fazer com que todos concordem sobre o agora significa cultivar consciência, ouvir profundamente e responder em tempo real aos sinais sutis dos outros. É um lembrete de que liderança, como regência, é menos sobre controle e mais sobre tempo compartilhado, confiança e conexão.
No meu papel como diretora, trabalho diariamente com pesquisadores, gestores de projeto, designers educacionais, técnicos, professores e alunos de pós-graduação. Cada pessoa traz um instrumento distinto: sua expertise, seu estilo e seu ritmo. A minha tarefa, tal como a do maestro, é garantir que todas essas contribuições individuais se harmonizem em algo coerente e significativo.
Uma orquestra sem coordenação vira ruído; uma organização sem visão compartilhada perde direção. O baton do maestro, assim como a visão de um líder, oferece tanto de estrutura quanto de inspiração.
3. Lendo a partitura: Visão e interpretação
Toda sinfonia começa com uma partitura. Ela define a estrutura com notas, compassos e dinâmicas, mas a interpretação da partitura transforma-a em arte. Da mesma forma, líderes educacionais lidam com “partituras” institucionais, como planos estratégicos, prioridades de pesquisa e expectativas sociais. No entanto, o verdadeiro desafio está na interpretação — transformar essas estruturas em realidades vivas que realmente conectem as pessoas.
A liderança na educação exige fidelidade à partitura, mas também coragem para improvisar. Exige sensibilidade ao tempo: saber quando acelerar, quando conter-se e quando deixar a música respirar. Líderes bem-sucedidos entendem que a excelência não resulta de controle rígido, mas da confiança no conjunto.
Assim como um maestro estuda o papel de cada instrumento, um líder educacional deve compreender os diferentes talentos dentro da sua organização. A verdadeira medida da liderança é a capacidade de interpretar a complexidade e guiá-la rumo à harmonia.
4. A orquestra como comunidade de aprendizagem
Uma orquestra é mais do que um grupo; ela funciona como um sistema dinâmico de aprendizagem. Os músicos aprimoram suas habilidades por meio dos ensaios: um ciclo contínuo de feedback, escuta e ajuste. Cada erro é uma lição, e cada repetição é uma oportunidade de aprofundar a compreensão.
Isso reflete a natureza de uma organização que aprende. Na educação e na formação, a aprendizagem não se limita ao ensino formal ou ao estudo isolado. Ela emerge por meio da colaboração, do diálogo e da experimentação. Cada instância é um ensaio para o próximo concerto, oferecendo uma oportunidade coletiva de aprender fazendo.
Líderes educacionais desempenham um papel essencial em sustentar esse ritmo de crescimento. Devem cultivar ambientes onde a curiosidade floresça e o erro seja visto não como um ponto final, mas como prelúdio à inovação. Assim como um maestro que escuta atentamente cada seção, líderes devem se sintonizar com o pulso organizacional, lendo sinais sutis de moral, criatividade e impulso.
5. Dissonâncias criativas: O valor do conflito produtivo
Mesmo os grupos mais harmoniosos enfrentam tensões. Músicos discordam de interpretações; pesquisadores debatem metodologias; líderes divergem quanto aos estilos de liderança. O verdadeiro indicador de sucesso não é a ausência de conflito, mas como ele é gerido de forma saudável.
O estudo de Murnighan e Conlon (1991) sobre um quarteto de cordas em Inglaterra oferece lições atemporais sobre como grupos coesos lidam com a tensão e o conflito. A pesquisa revelou que os grupos mais bem-sucedidos não eliminam o conflito. Em vez disso, aprendem a gerenciá-lo de modo que o desacordo possa existir sem prejudicar a harmonia ou a produtividade. Como os músicos do quarteto dependiam fortemente uns dos outros, a forma como lidavam com conflitos — seja por confronto aberto ou por compromisso ponderado — impactava significativamente tanto o desempenho quanto a longevidade do grupo.
Em centros universitários de pesquisa, como nos quartetos, a interdependência é constante. O desacordo é inevitável. Mas quando líderes cultivam segurança psicológica — permitindo que indivíduos expressem opiniões divergentes sem medo — a dissonância torna-se uma fonte de criatividade e não de destruição.
Na minha própria experiência de liderança, algumas das inovações mais produtivas surgiram a partir de conflitos saudáveis. Quando abordados com respeito e curiosidade, os conflitos podem aumentar o foco, desafiar suposições e levar a descobertas inesperadas. O segredo está em transformar a discordância em diálogo, garantindo que cada voz continue fazendo parte do conjunto.
6. Confiança: A nota silenciosa por trás de tudo
Se a visão é a melodia da liderança, a confiança é a nota sustentada na melodia. A confiança une grupos, permite assumir riscos e sustenta a colaboração. A confiança não pode ser imposta; deve ser conquistada por meio de consistência, transparência e empatia.
Numa orquestra, a confiança é mútua. Os músicos dependem do maestro para guiá-los, e o maestro depende de sua habilidade de liderança para oferecer um concerto empolgante. Da mesma forma, na liderança educacional, a confiança fundamenta o engajamento interno e as parcerias externas.
Quando as pessoas confiam em seu líder e não seguem apenas as diretivas, elas se comprometem. Elas se entregam ao trabalho, inovam, colaboram e persistem diante dos desafios. Uma vez estabelecida, a confiança permite que a organização não apenas funcione de maneira eficiente, mas também se expresse — que faça música, em vez de apenas produzir som.
7. Liderança visionária: Vendo além do presente
O maestro precisa estar sempre um compasso à frente, antecipando o que vem a seguir enquanto vive plenamente o momento presente. A liderança visionária exige a mesma consciência: compreender os desafios atuais e imaginar o futuro que já está chegando.
Michael Tilson Thomas exemplificou essa qualidade ao reinventar o lugar da música clássica na vida contemporânea, recorrendo a formatos inovadores e à tecnologia para tornar a música sinfônica mais acessível. Sua abordagem reflete o que a liderança educacional visionária deve incorporar hoje — uma visão de futuro fundamentada numa compreensão profunda das audiências e relevante para um mundo tecnologicamente avançado.
Na minha própria prática como líder, isso significou antecipar as mudanças tecnológicas, especialmente as relacionadas à inteligência artificial (IA), e preparar nosso centro de pesquisa para esses novos desafios. Desenvolver a alfabetização e a fluência em IA não é apenas uma iniciativa técnica; é um ato de responsabilidade. Demonstra que a liderança não deve apenas navegar no presente, mas também orquestrar a preparação para o que está por vir.
8. Reflexões finais: Harmonia, confiança e a promessa do amanhã
Quando as notas finais da Orquestra Sinfônica de Columbus desapareceram no silêncio naquela tarde, encontrei-me refletindo sobre aquela quietude — a respiração coletiva que paira após a criação. Naquele breve silêncio antes da explosão de aplausos, havia presença, conexão e o reconhecimento compartilhado de algo belo realizado em conjunto.
A liderança, como a música, é efêmera. Ela vive em momentos de alinhamento, na confiança entre as pessoas e na coragem de imaginar o que vem depois.
À medida que olho para o futuro do nosso centro de pesquisa e para a evolução da educação e da tecnologia, lembro-me de que a liderança, tal como na música não é sobre controle, mas sobre composição. É sobre encontrar harmonia no meio da complexidade e criar uma visão compartilhada que ecoe para além do presente, ao mesmo tempo em que eleva e desenvolve os talentos do grupo.
As minhas reflexões sobre as lições aprendidas como líder na educação e na formação, bem como a minha jornada como líder educacional, irão continuar. Como uma sinfonia contínua, essas reflexões examinarão como podemos construir e sustentar organizações que aprendem, se adaptam e inspiram.
REFERÊNCIAS
MURNIGHAN, J. K., & CONLON, D. E. The dynamics of intense work groups: A study of British string quartets. Administrative Science Quarterly, v. 36, n. 2, p. 165–186, 1991.
Public Broadcasting Service. Michael Tilson Thomas documentary. American Masters, 23 Out. 2020. Acesso em 1 Out. 2025.
Sobre a autora:

Ana-Paula Correia, PhD
Professora Titular na área de Tecnologia Educativa e Diretora do Centro de Educação e Formação para a Empregabilidade, na The Ohio State University, Estados Unidos.
Orcid: https://orcid.org/0000-0003-0806-7835
Como citar este artigo:
CORREIA, Ana-Paula. O Baton do Maestro: Liderança, Aprendizagem e Visão em Contextos Educacionais. Notícias, Revista Docência e Cibercultura, Fevereiro 2026, online. ISSN: 2594-9004. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/re-doc/announcement/view/2107. Acesso em: DD mês. AAAA






