NOTAS SOBRE VIDA E PESQUISA: QUANDO A ESCRITA ESCUTA O SOM
Autoria: Luciana Velloso
Tenho pensado muito em como a música se faz cada vez mais presente em diferentes esferas de minha vida; daí minha necessidade de estudar mais sobre ela e, com isso, acabo me colocando como parte desse estudo que ressoa no meu corpo como a batida do surdo e o rufar da caixa.
Entendo a música como linguagem - um de meus interesses de pesquisa junto com outras linguagens artísticas, que entram pelas brechas de espaços mais institucionalizados, a partir de iniciativas desenvolvidas por ‘praticantespensantes’[1][2] (Oliveira, 2012; Andrade, Caldas e Alves, 2019), que acreditam no que há para além da razão, e que é possível educar (e não domesticar), olhos, ouvidos, tato, olfato e paladar.
Nesse sentido, a proposta é de valorização da intuição e da sensibilidade, em consonância com a ideia de musicalizar a vida, poetizar a vida, sentir o cheiro da vida, tornar a vida bela. Ouvir o som do mundo, que por si só está cheio de música, e por isso ficar feliz. Só pelo simples fato de ouvir o som das folhas nas árvores ou do vento nos ouvidos. Ouvir a música do mundo e fazer dela poesia, como nos convida Rubem Alves (2018).
Recebo e aceito o convite para questionar e compreender os processos pelos quais a visão foi se constituindo como o sentido mais valorizado pelas sociedades europeias, desde os gregos e o quanto metáforas oculares foram se atrelando à ideia de produção de conhecimento (Schafer, 2011a e 2011b).
Seguindo as pistas de Santos (2024, 2020), em minhas caminhadas ubíquas que conectam os territórios físicos com o ciberespaço, pude refletir sobre o quanto a ação física de tocar percussão ressoava em minhas reflexões sobre o fazer pesquisa, muito em função das possibilidades que a música oferecia a mim em termos de forjar vínculos com equipamentos culturais, interações e territórios simbólicos. Nenhuma experiência percussiva passava por mim sem me atravessar.
Procurando alguma definição que fosse, por mais que definições me pareçam inócuas, me veio então em mente esta, justo em um dia quando voltava de uma roda de samba na qual “me convidei para tocar”, ao ver que um dos instrumentos sobrava. Agradeço ao grupo que me acolheu[3] e me ajudou a pensar a solução do meu dilema enquanto tocava com eles naquele dia. Defini do seguinte modo: “A percussão é a linguagem que fala o que não cabe na minha escrita”. Acho que esta tentativa de definir o indefinível me parece a mais adequada. Por isso a minha necessidade/urgência de seguir tocando e escrevendo.
Eu me identificava muito com Howard Becker, que antes de se tornar um sociólogo consagrado, foi músico de jazz profissional. Ele tocava piano em bares e clubes noturnos, ambientes que, na época, eram frequentemente vistos como marginais, associados a drogas, boemia e comportamentos “desviantes”. Becker transformou sua experiência de vida como outsider em uma teoria sociológica sobre como a sociedade define quem é outsider (Becker, 2008). Mais do que aproximar a pesquisa da vida, no meu caso, vida e pesquisa não se dissociavam. Eu de fato não me via mais sem a música, ou o teatro, o cinema e demais linguagens. Elas faziam parte do que eu era.
Muito destas minhas inquietações foram despejadas, de forma catártica e terapêutica, em meu livro (Velloso, 2025). Mas outras eu não conseguia traduzir textualmente, daí a música e, no meu caso, a percussão especificamente, foi o que sempre me ajudou lá aonde a escrita não chegava.
Aqui parei para questionar uma suposta objetividade científica à qual as academias costumam recorrer, mesmo reconhecendo toda a magia que a música exerce, e que é preciso deixá-la de lado quando vamos exercer funções de pesquisadores em um laboratório. Não creio que seja possível deixar meu “eu musical”, de lado, quando me volto para minhas pesquisas, mesmo que eu não costume habitar um laboratório. Este meu “eu musical” segue falando por mim através da percussão, lá onde a objetividade pensa se fazer presente.
Às favas com a objetividade! Prefiro o elogio à subversão acadêmica, como já escrito por nós em outros momentos (Velloso, Santana e Gomes, 2025). É onde reside o “desacademicização” que tanto tenho pensado ser alternativa a quem imagina que posso deixar de lado este meu “eu percussivo”. É nesses ‘espaçostempos’ que proponho “desacademicizar a academia”, não no sentido de nos afastarmos dela, mas, ao contrário, trazer para o seu interior os tantos saberes do senso comum e da vida cotidiana, que muitas vezes são desconsiderados ou vistos como algo “menor”.
É nessa direção que se inscrevem as experiências com a música, desenvolvidas nos espaços formativos de graduação, junto ao meu grupo de pesquisa “Sociabilidades, Cibercultura e Educação” (SoCib), , entendidas não como adorno pedagógico, mas como gesto epistemológico e político de anúncio de outras formas de produzir conhecimento. Uma proposta de trabalho que potencializa o que já ocorre nos cotidianos, já que expressões musicais vindas do samba, por exemplo, embalam até mesmo o sono das crianças “filhas da UERJ”, como narrado por uma de nossas praticantes Julia. A Julia engravidou na UERJ e lá o Vicente nasceu, frequentando junto com ela as aulas. Ela colocava música para niná-lo nas tantas noites que passavam tendo de coabitar os muros de concreto daquele espaço, contribuindo para lhe dar mais vida. Vicente adormecia ouvindo samba. E numa dessas iniciamos nossas atividades do Samba Pedagógico, que posteriormente iria se consolidar como o projeto de Extensão “Artistagens Musicais e Audiovisuais na tecitura de conhecimentos em rede.
Como não dissociava prática de pesquisa e extensão, o Artistagens se tornou uma das formas possíveis de fazermos a música, especialmente o samba de raiz, marcar presença nos tantos espaços da UERJ. Fizemos rodas de conversa e rodas de samba (não necessariamente em ordem), vivendo o samba que pulsava nas canções de tantos como Jovelina Pérola Negra, Beth Carvalho, Alcione, Jorge Aragão, Arlindo Cruz, dentre outros. O samba se faz em roda e é na roda que as hierarquias tradicionais se desconstroem. Minhas amigas percussionistas que conheci no grupo de percussão que também integro, a Fina Batucada, puxavam o som e ele seguia sendo levado por discentes, funcionários desde técnico-administrativos ao pessoal da limpeza. De forma democrática, lúdica e potente. Pois a vida pulsa nos corredores, o som ali se faz presente. Samba que tem em seu circuito a marca de ser uma manifestação que prima pela sua democratização. Que permite a “chegança” tanto de eruditos quanto de pessoas com níveis de escolaridade outros, dialogando com Candeia, em sua canção “Testamento de Partideiro”[4] quando diz que “o sambista não precisa ser membro da academia/ Ao ser natural em sua poesia, o povo lhe faz imortal”. O convite é para subverter a lógica e ver com os ouvidos, com o tato, com o olfato. Múltiplas linguagens e sentidos sendo acionados para seguirmos artistando a vida.
Com efeito, sinto decepcionar o grupo do laboratório: não posso, pois, deixar de lado meu “eu musical e percussivo”. Isso seria renunciar a parte de mim, e me fragmentar, de tal modo, que não me interessa. Sigo, então, tentando deixar que minha escrita ainda atada aos moldes acadêmicos aprenda a ouvir o som, dado que a mão que digita essas palavras no teclado é a mesma que, há alguns momentos, marcava o surdo com a maceta, e que também segura as baquetas e faz a virada da caixa quando a bateria precisa vibrar. Porque vida e pesquisa caminham lado a lado, sem que se tenha precisão sobre onde começa uma e termina a outra. E quer saber... quisera que sempre fosse assim!
REFERÊNCIAS
ALVES, Rubem. A educação dos sentidos: conversas sobre aprendizagem e vida. São Paulo: Planeta do Brasil, 2018.
ANDRADE, Nívea; CALDAS, Alessandra Nunes; ALVES, Nilda. Os movimentos necessários às pesquisas com os cotidianos – após muitas conversas acerca deles. In: OLIVEIRA, Inês Barbosa de; PEIXOTO, Leonardo Ferreira; SÜSSEKIND, Maria Luiza (orgs.). Estudos do cotidiano, currículo e formação docente: questões metodológicas, políticas e epistemológicas. Curitiba: CRV, 2019, pp: 19-45.
BECKER, Howard. Outsiders: estudos de sociologia do desvio. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
LEVITIN, Daniel J. A cura pela música: o poder terapêutico dos sons para cuidar do corpo e da mente. Rio de Janeiro: Objetiva, 2025.
NGHIEM, Dr. Minh Dung. Música, inteligência e personalidade: o comportamento do homem em função da manipulação cerebral. Campinas, SP: Vide Editorial, 2018.
OLIVEIRA, Inês Barbosa de. Currículos e pesquisas com os cotidianos: o caráter emancipatório dos currículos ‘pensadospraticados’ pelos ‘praticantespensantes’ dos cotidianos das escolas. In: FERRAÇO, Carlos Eduardo; CARVALHO, Janete Magalhães (org.). Currículos, pesquisas, conhecimentos e produção de subjetividades. Petrópolis: DP et Alii, 2012. p.47-70.
SACKS, Oliver. Alucinações musicais: relatos sobre a música e o cérebro. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
SANTOS, Edméa. O caminhar na educação: narrativas de aprendizagens, pesquisa e formação. Ponta Grossa, PR: Atena, 2020.
_____. Formação online na pós-graduação stricto sensu. Diários, visual storytelling, narrativas e autorias de uma pesquisadora em movimento nas cidades e no ciberespaço. São Carlos: Pedro e João Editores, 2024.
SHAFFER, Murray. O ouvido pensante. 2.ed. São Paulo: Unesp, 2011a.
_____. A afinação do mundo: uma exploração pioneira pela história passada e pelo atual estado do mais negligenciado aspecto do nosso ambiente: a paisagem sonora. 2.ed. São Paulo: Unesp, 2011b.
VELLOSO, Luciana. 365 dias: escritos de (sobre)vivência. Curitiba: Moura AS, 2025.
Sobre a autoria:

Luciana Velloso /UERJ
Escritora, Psicóloga e Professora Associada da UERJ, onde leciona disciplinas vinculadas ao Departamento de Ciências Sociais e Educação (DCSE) no curso de Pedagogia. Doutora e Mestre em Educação pelo Programa de Pós-graduação em Educação (ProPEd/UERJ). Graduada em Pedagogia e História (UERJ), Ciências Sociais (FGV) e Psicologia (IBMR). Líder do Grupo de Pesquisa "Sociabilidades, Cibercultura e Educação" (SoCib). Integrante do grupo de percussão feminina Fina Batucada, da Escola de Música Villa Lobos. Autora da obra 365 dias: escritos de (sobre)vivência (2025), além de capítulos de livros e artigos diversos em sua área de especialização e afins.
Como citar este artigo:
VELLOSO, Luciana. Notícias, Revista Docência e Cibercultura, janeiro, 2026, online. ISSN: 2594-9004. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/re-doc/announcement/view/2097. Acesso em: DD mês. AAAA.
[1] Em consonância com o que defendem Andrade, Caldas e Alves (2019), indico que este termo e tantos outros que tenho assim grafado é porque, há muito, percebo que as dicotomias necessárias à criação das ciências na Modernidade têm significado limites ao que é preciso criar na corrente de pesquisa a que pertenço. Com isto, serão grafados deste modo os termos de dicotomias herdadas: juntos, em itálico e entre aspas.
[2] Deixo registrado o agradecimento ao pessoal espaço localizado no Centro do Rio, que sediou a apresentação musical em que pude tocar percussão mesmo não integrando oficialmente o grupo local.
[3] Deixo registrado o agradecimento ao pessoal espaço localizado no Centro do Rio, que sediou a apresentação musical em que pude tocar percussão mesmo não integrando oficialmente o grupo local.
[4] Para acessar a letra completa: https://www.letras.mus.br/candeia/237922/ Acesso em 27 de jan. 2026.






