ENTRE PAUSAS, FLUXOS E RESSONÂNCIAS - AS FÉRIAS COMO TEMPO FORMATIVO DA PESQUISA

19-01-2026

Autoria: Mirian Maia do Amaral

Aprendizagens que brotam do ócio criativo e de seus silêncios

Há um gesto silencioso que se aprende cedo na pós-graduação: o de nunca desligar completamente. Mesmo quando o calendário anuncia férias, o corpo permanece em vigília, como se a pesquisa exigisse atenção contínua, permanente, ininterrupta. Esse gesto, porém, não nasce da pesquisa em si, mas de uma racionalidade produtivista, uma estratégia de sobrevivência dos programas de pós-graduação, que opera por uma lógica da acumulação, na qual o conhecimento é tratado como commodity e o valor é mensurado pela quantidade de produtos (artigos, livros, capítulos de livros, citações) gerados em um ritmo acelerado, que captura o tempo e regula os ritmos, para atender a métricas de alto desempenho. Nesse contexto, mediante métodos de controle compreendidos como sinônimo de competência, produz exclusão, caracterizada por práticas injustas, ritmo de trabalho intenso e cobrança excessiva, que intensifica a competitividade e a falta de integração, acarretando, não raras vezes,  o adoecimento de professores e estudantes - um modelo de gestão guiado pelo produtivismo exacerbado.

Nas pesquisas com os cotidianos, porém, essa lógica não se sustenta. Ao priorizar a compreensão das práticas sociais em sua profundidade e contexto, a pesquisa com os cotidianos requer um tempo dilatado para a observação e a interpretação, resistindo à aceleração e à quantificação redutora. Nessa perspectiva, pesquisar não é operar por acúmulo, mas por tessituras: tecem-se sentidos nas frestas do vivido, nas conversas aparentemente banais, nos atravessamentos entre o dentro e o fora das universidades, entre o físico e o digital, entre o institucional e o ordinário. É nesse movimento que a pesquisa acontece, juntamente com as pausas.

Assim, o produtivismo acadêmico reflete e reforça a mercantilização da vida universitária, ao passo que a pesquisa com os cotidianos, em sua forma ideal, representa uma epistemologia alternativa que valoriza o processo reflexivo, a qualidade analítica e o compromisso ético com o campo como antídotos à mera corrida por produtividade mensurável.

Em resposta à demanda por produtividade constante, mesmo durante o período de férias, o conceito de "ócio criativo", desenvolvido pelo sociólogo italiano Domenico De Masi, apresenta-se não como uma oposição ao trabalho, mas como uma síntese vital. De Masi propõe que a criatividade mais profunda e a inovação genuína emergem justamente da integração harmoniosa entre trabalho, estudo e lazer, e não da sua separação ou da simples inatividade. Nas férias, longe das rotinas e pressões imediatas, a mente encontra o espaço necessário para processar informações de modo não linear, estabelecer conexões inesperadas e incubar ideias.

Portanto, diferentemente de preguiça ou procrastinação, o ócio criativo consiste em um estado produtivo de descompressão e abertura cognitiva. É um tempo estratégico de aparente pausa, em que o trabalho intelectual continua de forma subterrânea e autônoma, frequentemente resultando nos clarões de insight e nas soluções elegantes que a pressão do cotidiano acadêmico muitas vezes bloqueia. Assim, respeitar e planejar momentos de ócio durante as férias configura-se não como uma perda de tempo, mas como um investimento essencial para a qualidade e a originalidade do desenvolvimento da pesquisa.

Rubem Alves,  na obra Retorno e terno (2003), ajuda-nos a lembrar que o pensamento precisa de vazios para criar asas. Assim, o excesso de tarefas, leituras obrigatórias, metas de escrita pode aprisionar o voo. As férias, nesse sentido, instauram um vazio fértil, um espaço de respiro no qual a pesquisa deixa de ser gaiola e volta a ser desejo. Não se trata de abandonar o campo investigativo, mas de confiar que ele continua a agir, mesmo quando não o controlamos.

Larrosa (2004) nos alerta que a experiência não se deixa capturar pela urgência. Algo só nos acontece quando há tempo para que passe por nós, quando não estamos inteiramente ocupados em produzir efeitos. A pesquisa-formação na cibercultura exige essa abertura: estar disponível ao que emerge nas redes, nas narrativas cotidianas, nos encontros inesperados, nas imagens que circulam, nos silêncios que também dizem. As férias ampliam essa disponibilidade, deslocando o pesquisador de uma posição operativa para uma escuta sensível.

Com Alves (2008), aprendemos que os cotidianos são lugares de invenção, resistência e produção de conhecimento. Não há suspensão do cotidiano nas férias; ao contrário, ele se intensifica em outras direções. Mudam-se os tempos, os espaços, os ritmos, mas continuam ativas as tramas que produzem saberes. Nesses movimentos, tornam-se ainda mais visíveis as redes que sustentam a vida cotidiana — redes de saberes, afetos, memórias, práticas e narrativas — que, segundo a autora, se constituem de forma dinâmica, heterogênea e não linear. As férias, assim, ampliam as possibilidades de circulação por essas redes, permitindo que outros encontros, outros ritmos e outras conexões emerjam como matéria viva da pesquisa. É nesse entrelaçamento de redes e cotidianos que o conhecimento se produz, como tessitura coletiva, marcada pela experiência, pela implicação e pela invenção cotidiana.

Na perspectiva proposta por Santos (2019; 2024), a pesquisa-formação na cibercultura não se organiza a partir da linearidade, da previsibilidade ou da separação rígida entre tempos de trabalho e tempos de vida. Ao contrário, ela se constitui nas redes de relações que articulam sujeitos, dispositivos, narrativas, imagens, afetos e saberes produzidos nos e com os cotidianos, em permanente movimento entre o online e o offline. Pesquisar, aqui, é formar-se com o outro, em ato, no fluxo da experiência vivida. Nesse sentido, as férias não interrompem a pesquisa. Elas a reconfiguram.

Na ciberpesquisa-formação, essas tramas se expandem pelas redes, pelos dispositivos, pelas audiovisualidades, pelos gestos ordinários que escapam aos registros formais, mas que alimentam profundamente o processo investigativo. Para a autora, cada itinerância com e nos ‘espaçostempos’ de pesquisa-formação promovem diferentes experiências. Nessa ótica, criamos dispositivos e nos deixamos ser por eles afetados, produzindo conhecimentos na e com a experiência em contexto e na relação cidade/ciberespaço, apropriando-nos dos acontecimentos  que atravessam nossos cotidianos; o que implica refletirmos sobre nossos modos de fazer, ser e estar no mundo.

Nóvoa nos lembra que “Os professores têm de se assumir como produtores de sua profissão” (1992, p. 18), dado que formar-se é assumir a autoria do próprio percurso. Isso implica aprender a regular o próprio tempo, a reconhecer limites, a legitimar pausas. As férias tornam-se, assim, um exercício formativo fundamental: o pesquisador aprende a não confundir compromisso com exaustão, continuidade com aceleração, presença com disponibilidade total. Durante as férias, a pesquisa não exige produtividade mensurável. Ela pede atenção flutuante. Pede que o pesquisador circule por textos já lidos, por imagens arquivadas, por conversas passadas, permitindo que novos sentidos se insinuem. Pede anotações marginais, escritas fragmentárias, registros não sistematizados; o que, mais adiante, poderá se transformar em análise, narrativa, conceito.

Nesse contexto, o trabalho invisível é tão constitutivo quanto o visível. Aquilo que não se escreve imediatamente, mas que reverbera; aquilo que não se publica, mas que desloca; aquilo que não se agenda, mas que insiste. As férias acolhem esse trabalho subterrâneo, esse tempo em que a pesquisa continua acontecendo sem se anunciar como tal.

Cuidar do pesquisador, nesse contexto, não é um gesto periférico, mas epistemológico. Uma pesquisa cansada tende a endurecer seus olhares, a repetir categorias, a perder a potência do encontro. Já uma pesquisa que respira se permite errar, escutar, experimentar, reconfigurar-se.

Viver, aqui, não é um desvio da pesquisa. É parte constitutiva dela. As redes que atravessamos, os cotidianos que habitamos, as experiências que nos tocam — tudo isso compõe a matéria viva do processo investigativo. As férias, longe de serem um tempo vazio, são um tempo outro, no qual a pesquisa se rearranja, se afina e se prepara para seguir.

Não se volta das férias do mesmo lugar de onde se saiu. Volta-se com outros olhos, outros afetos, outras perguntas. E isso, talvez, seja um dos gestos mais potentes da formação: permitir-se transformar para continuar pesquisando.

REFERÊNCIAS

ALVES, Nilda. Decifrando o pergaminho: os cotidianos das escolas nas lógicas das redes cotidianas. In: Oliveira, I.; Alves, N. (Org.). Pesquisa nos/dos/com os cotidianos das escolas. Petrópolis: DP et Alii, 2008, p. 15-38.

ALVES, Nilda. Práticas pedagógicas em imagens e narrativas: memórias de processos didáticos e curriculares para pensar as escolas hoje. São Paulo: Cortez, 2019.

ALVES, Rubem. O retorno e terno. Papirus, 2003.

LARROSA, Jorge. Linguagem e educação depois de Babel. Tradução de Cynthia Farina. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.

NÓVOA, António. Formação de professores e profissão. In: Nóvoa, A. (Org.).  Os professores e a sua formação. Lisboa: D. Quixote, p. 13-33, 1992.                 

SANTOS, Edméa Pesquisa-formação na cibercultura. EDUFPI, 2019.

SANTOS, Edméa. Formação online na pós-graduação stricto sensu. Diários, visual storytelling, narrativas e autorias de uma pesquisadora em movimento nas Cidades e no Ciberespaço. São Carlos: Pedro & João Editores, 2024.

Sobre  a autoria:

Mirian Maia do Amaral – FGV

Doutora em Educação com concentração em Tecnologia da Informação e da Comunicação, pela Universidade Estácio de Sá. Pós-doutora em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ. Especialista em Recursos Humanos e em Administração pela Fundação Getulio Vargas. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Docência e Cibercultura do Programa de Pós-graduação em Educação (PROPED GPDOC-UERJ/UFRRJ) e subcoordenadora do Grupo de Pesquisa Sociabilidades, Cibercultura e Educação (SoCib -UERJ. Possui experiência na área de Educação, em geral, particularmente no que se refere à Formação de professores, à Cibercultura, à Didática e à Educação Online. Atua como docente, orientadora e avaliadora de TCC, de cursos MBA do Programa FGV Management, e como palestrante e consultora, em instituições e empresas públicas e privadas. Autora da obra A ciberpesquisa em educação: autorias e inspirações teórico-metodológicas do GPDOC - Grupo de Pesquisa Docência e Cibercultura (2025), capítulos de livros e artigos diversos em sua área de especialização e afins.


Como citar este artigo: 

AMARAL, Mirian Maia. Notícias, Revista Docência e Cibercultura, janeiro, 2026, online. ISSN: 2594-9004. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/re-doc/announcement/view/2089. Acesso em: DD mês. AAAA.