Quem cuida da casa?
Perfis sociais e experiências de trabalhadoras domésticas no sudoeste baiano a partir de arquivos judiciais (1974-1989)
DOI:
https://doi.org/10.12957/revmar.2026.96489Palavras-chave:
Trabalhadora doméstica, Teoria da Reprodução Social, Junta de Conciliação e Julgamento, Sudoeste da BahiaResumo
O sertão baiano configura-se como um espaço singular para analisar o trabalho doméstico remunerado, pois revela as tensões entre a expansão de direitos trabalhistas e a reprodução de perspectivas paternalistas, sintetizadas pela noção de “quase da família”. Permitindo deslocar a historiografia do trabalho, que tem focado no eixo Rio-São Paulo, para compreender as dinâmicas específicas de regiões interioranas, este artigo articula a História Social do Trabalho com a Teoria da Reprodução Social e questiona-se quem cuida da casa e sob quais condições o faz, e como as trabalhadoras domésticas transitaram entre o conflito e a negociação nas disputas jurídicas. Para responder ao proposto as fontes são examinadas a partir do cotejamento qualitativo de um corpus serializado de 99 reclamações trabalhistas de trabalhadoras domésticas no sudoeste da Bahia entre 1974 e 1989, formalizadas na Junta de Conciliação e Julgamento de Vitória da Conquista (JCJ-VC). O fichamento da amostragem é organizado em quadros comparativos, extraindo dados de idade, estado civil, jornada e remuneração etc., com o cruzamento de registros da imprensa periódica local. A investigação demonstra que a força de trabalho doméstica era marcada por jornadas extensas, baixos salários, vínculos precários e escolaridade limitada, sustentada pela apropriação privada do trabalho sóciorreprodutivo feminino. A análise crítica dos autos revela ainda que a ausência do descritor étnico-racial é indício do racismo por denegação que naturaliza determinadas sujeitas racializadas no lugar de subalternidade. A singularidade deste estudo reside em demonstrar a agência dessas trabalhadoras que, longe de serem indiferentes às dimensões políticas da realidade social brasileira, emergem como sujeitas que acionaram o instrumento jurídico para reivindicar garantias previstas em lei e reconhecimento, tensionando os limites entre a esfera privada e o espaço público, em plena transição democrática.
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