Mediação algorítmica da evidência histórica: o HTR no Arquivo Nacional brasileiro

Autores

DOI:

https://doi.org/10.12957/intellectus.2026.96527

Palavras-chave:

História Digital, Mediação algorítmica, Evidência histórica, Reconhecimento de Texto Manuscrito, Neopositivismo digital

Resumo

O artigo examina os efeitos da incorporação de sistemas de Reconhecimento de Texto Manuscrito (HTR) sobre a produção da evidência histórica, a partir da noção de mediação algorítmica. Inserido no campo da História Digital, o estudo compreende o HTR como método textual situado e como infraestrutura de aceleração, capaz de reorganizar as condições de legibilidade, exploração e circulação dos documentos históricos. A discussão articula mediação técnica, regimes de temporalidade e crítica ao neopositivismo digital. A experimentação conduzida pelo IBICT em parceria com o Arquivo Nacional brasileiro serve de ancoragem empírica, evidenciando como a automação opera de forma diferencial sobre acervos heterogêneos e como os limites técnicos dos sistemas produzem hierarquias invisíveis de acesso ao passado. O caso demonstra que a reorganização algorítmica da evidência histórica constitui um problema epistemológico central da historiografia contemporânea.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Carolina de Moraes Souza, Universidade de Coimbra

É doutora em História pela Universidade de Coimbra (2023, Distinção e Louvor) e pesquisadora do Centro de História da Sociedade e da Cultura (CHSC/UC). Foi professora no curso de licenciatura em História da UAB/UFSC e professora substituta na Universidade de Brasília. Suas pesquisas situam-se na intersecção entre História Pública Digital, história e historiografia brasileira e epistemologia histórica.

João Gabriel de Moraes Souza, Universidade de Brasília

É doutor em Finanças e Métodos Quantitativos pelo Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade de Brasília (PPGA/UnB, 2020) e professor substituto do Departamento de Engenharia de Produção da UnB. É professor visitante do Programa de Pós-Graduação em Computação Aplicada da UnB e pesquisador nas áreas de ciência de dados e inteligência artificial aplicada à gestão.

 

Referências

ARAUJO, Valdei Lopes de; PEREIRA, Mateus Henrique de Faria (2019). Atualismo 1.0: como a ideia de atualização mudou o século XXI. 2 ed. Vitória: Milfontes; Mariana: Editora da SBTHH, 2019.

ARENDT, Silvia; LOHN, Reinaldo (2022). Nas margens do tempo: a contribuição da UDESC para a história do tempo presente no Brasil. In: MÜLLER, Angélica; IEGELSKI, Francine (orgs.). História do tempo presente: mutações e reflexões. Rio de Janeiro: Editora FGV.

BONALDO, Rodrigo Bragio (2023). História mais do que humana: descrevendo o futuro como atualização repetidora da inteligência artificial. História (São Paulo), São Paulo, v. 42, e2023037. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/his/a/WbLs9ZhxbKKvD69smKVQ3Vh>. Acesso em: 15 jan. 2026.

BUSA, Roberto (1980). The annals of humanities computing: the Index Thomisticus. Computers and the Humanities, Dordrecht, v. 14, n. 2, pp. 83–90.

CERTEAU, Michel de (1982). A operação historiográfica. In: CERTEAU, Michel de. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária.

COHEN, Daniel J.; ROSENZWEIG, Roy (2006). Digital history: a guide to gathering, preserving, and presenting the past on the web. Philadelphia: University of Pennsylvania Press.

EHRMANN, Maud; HAMDI, Ahmed; PONTES, Elvys Linhares; ROMANELLO, Matteo; DOUCET, Antoine (2021). Named entity recognition and classification on historical documents: a survey. arXiv preprint. Disponível em: <https://arxiv.org/abs/2109.11406>. Acesso em: 10 jan. 2026.

FIORMONTE, Domenico (2012). Towards a cultural critique of digital humanities. Historical Social Research, Köln, v. 37, n. 3, pp. 59–76. Disponível em: <https://www.jstor.org/stable/41636597>. Acesso em: 25 jan. 2026.

GIL, Tiago (2024). Sobre big data e neopositivismo digital na pesquisa em História. Almanack, Guarulhos, n. 36. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/alm/a/vbZwHsRnVdLBD7PWW9Qcjts>. Acesso em: 12 jan. 2026.

GUMBRECHT, Hans Ulrich (2015). Nosso amplo presente: o tempo e a cultura contemporânea. Tradução de Ana Isabel Soares. São Paulo: Editora da UNESP.

HARTOG, François (2013). Regimes de historicidade: presentismo e experiências do tempo. Tradução de Andréa Stahel M. da Silva e Ivone C. Benedetti. Belo Horizonte: Autêntica.

INSTITUTO BRASILEIRO DE INFORMAÇÃO EM CIÊNCIA E TECNOLOGIA (IBICT) (2025). Projeto de inteligência artificial para transcrição paleográfica de manuscritos: relatório final. Brasília, DF. Relatório técnico institucional não publicado.

KOSELLECK, Reinhart (2006). Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Tradução de Wilma Patrícia Maas e Carlos Almeida Pereira. Rio de Janeiro: Contraponto; Ed. PUC-Rio.

LOSE, Alícia Duhá; SANTOS, João Guilherme Veloso Andrade dos; JESUS, Leonardo Coelho Marques de; MAGALHÃES, Lívia Borges Souza; XAVIER, Lucia Furquim Werneck (2024). Transkribus: uma ferramenta de paleografia digital mediando pesquisas em fontes inquisitoriais. Revista LaborHistórico, Rio de Janeiro, v. 10, n. 1, pp. 1–22. Disponível em: < https://revistas.ufrj.br/index.php/lh/article/view/63285>. Acesso em: 15 jun. 2026.

MAYNARD, Dilton (2022). Farejar carne humana em meio a bytes: a internet, a história e o tempo presente. In: MÜLLER, Angélica; IEGELSKI, Francine (orgs.). História do tempo presente: mutações e reflexões. Rio de Janeiro: Editora FGV.

MIGNOLO, Walter D. (2008). Desobediência epistêmica: a opção descolonial e o significado de identidade em política. Cadernos de Letras da UFF, Niterói, n. 34, pp. 287–324. Disponível em: <https://periodicos.uff.br/gragoata/article/view/33191>. Acesso em: 12 jan. 2026.

NOIRET, Serge (2015). História pública digital. In: ALMEIDA, Juniele Rabêlo de; ROVAI, Marta G. (orgs.). Introdução à história pública. São Paulo: Letra e Voz.

PEREIRA, Mateus Henrique de Faria, ARAUJO, Valdei Lopes de (2016). Reconfigurações do tempo histórico: presentismo, atualismo e solidão na modernidade digital. Revista da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, v. 23, n. 1–2, pp. 270–297.

PEREIRA, Mateus Henrique de Faria; ARAUJO, Valdei Lopes de (2017). Actualismo y presente amplio: breve análisis de las temporalidades contemporáneas. Desacatos, Ciudad de México, n. 55, pp. 12–27.

PEREIRA, Mateus Henrique de Faria; NICODEMO, Thiago Lima; ARAUJO, Valdei Lopes de (2022). A indústria das fake news como um problema historiográfico: atualismo e política em um presente agitado. In: MÜLLER, Angélica; IEGELSKI, Francine (orgs.). História do tempo presente: mutações e reflexões. Rio de Janeiro: Editora FGV, pp. 115–140.

SILVA, Ana Margarida Dias da (2023). Transcrições automáticas nos arquivos distritais portugueses: acelerar o acesso à informação. Cultura: Revista de História e Teoria das Ideias, n. 41–42, pp. 269–286. Disponível em: <https://revistas.fcsh.unl.pt/cultura/article/view/1226>. Acesso em: 5 jan. 2026.

SILVEIRA, Pedro Telles da (2022). O que é uma ferramenta historiográfica? História da Historiografia, v. 15, n. 40, pp. 219–231. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/hh/a/7cjzV4WPGsd3v7gWLB3jwTg>. Acesso em: 5 jan. 2026.

Downloads

Publicado

2026-07-13

Como Citar

SOUZA, Carolina de Moraes; SOUZA, João Gabriel de Moraes. Mediação algorítmica da evidência histórica: o HTR no Arquivo Nacional brasileiro. Intellèctus, Rio de Janeiro, v. 25, n. 2, p. 50–70, 2026. DOI: 10.12957/intellectus.2026.96527. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/intellectus/article/view/96527. Acesso em: 30 jul. 2026.