Geopolítica do conhecimento e descolonização epistemológica em Darcy Ribeiro

Adelia Maria Miglievich-Ribeiro, Edison Romera Jr.

Resumo



O artigo apresenta a proposta darcyniana de descolonização epistemológica mediante a eleição da América Latina como ‘lugar de enunciação’ e a afirmação de uma antropologia descentralizada. Darcy Ribeiro expõe uma ‘história alternativa da humanidade’ que rompe com a concepção eurocentrada vigente e abre novas possibilidades de compreensão do desenvolvimento histórico. Ao se tornar ‘cidadão latino-americano’, no exílio iniciado em 1964, seu pensamento desafia a geopolítica mundial do conhecimento e antecipa o atual ‘giro descolonial’. Em sua biografia, o cientista não se dissocia do homem político que explica a persistência do subdesenvolvimento do ‘Terceiro Mundo’ - coetânea à prosperidade do ‘Primeiro Mundo” - e luta pelo direito dos ‘subalternos’ narrarem sua própria história.


Palavras-chave


Darcy Ribeiro; intelectuais; giro descolonial

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Referências


É como se houvesse um saber atópico, um saber-de-lugar-nenhum, que se quer universal, e capaz de dizer quais saberes são locais ou regionais. Assim como cada um, de cada lugar do mundo, tem de assinalar em seu endereço eletrônico o país onde mora e de onde fala – .br (Brasil) ou .ve (Venezuela); ou .mx (México) ou .cu (Cuba) ou .ar (Argentina) ou .co (Colômbia) – aquele que fala a partir dos EUA não precisa por .us ao seu endereço e, assim, é como se falasse de lugar-nenhum, tornando familiar que cada qual se veja, sempre, de um lugar determinado, enquanto haveria aqueles que falam como se fossem do mundo e não de nenhuma parte especifica. [...] E a melhor dominação, sabemos, é aquela que, naturalizada, não aparece como tal (PORTO-GONÇALVES, 2005, p. 9.).

O aspecto mais paradoxal de certa falta intrínseca de autonomia da inteligência do subdesenvolvimento está na consciência demasiado lúcida do subdesenvolvimento: isso leva o “subdesenvolvimento” a considerar “presunçoso”, “ridículo”, levar-se “muito” a sério. Como esse traço se confunde muito com humildade intelectual, que é um traço de autonomia, nem sempre é fácil distingui-lo. Por vezes, ele se revela até entre os mais raramente inteligentes. Em Lobato, acho que se pode lobregar vestígios desse traço. Costumo dizer que Lobato tinha certo pudor do seu país, preferindo manifestá-lo como vergonha de si mesmo. Dava então às coisas mais sérias que dizia um tom de brincadeira, se não de “pilhéria”, e, quando resolveu fazer mesmo a sua obra, fê-la para as crianças, deixando para os adultos o seu riso e o seu sarcasmo ... (TEIXEIRA, 1997, p. 14).

A descolonização, realmente, é criação de homens novos [...]. Este processo inclui não só o enfrentamento, mas o resultado do mesmo, isto é, a dupla consciência da qual falamos aqui: o colonizado toma consciência da sua humanidade, ao mesmo tempo em que o colonizador toma de sua inumanidade. Um sente que se eleva ao nível de homem, enquanto que o outro sente que como seu ato vai rebaixando o seu nível. Um sente-se impelido a construir um mundo novo, enquanto o outro, a destruir o que criou. Um se vê como uma saída aberta a todas as possibilidades; o outro como uma rua sem saída. O colonizado sente-se impelido a continuar sua ação libertadora para passar à criadora; enquanto que o colonizador, como quem reconhece uma culpa, busca apagar esta e começar, se possível, como se nada tivesse feito, partindo do zero. [...] O importante é criar um mundo novo no qual, talvez, queira ou possa incorporar-se o homem ocidental; mas um mundo que não poderá ser o que ele criou ainda que originado de ação subordinadora. Por isso, diz Frantz Fanon, sem rancores, sem ódios: “Pela Europa, por nós mesmos e pela humanidade, companheiros, temos de trocar de pé, desenvolver um pensamento novo, tratar de criar um homem novo”. Fazer o que o europeu não foi capaz de fazer, evitar a desumanização na qual caiu o seu humanismo limitado, só assim, diz o filósofo africano, poderemos responder à mesma “esperança dos europeus” (ZEA, 2005, p.471-3. Os colchetes são nossos).

Na filosofia e nas ciências sociais ocidentais, aquele que fala está sempre escondido, oculto, apagado da análise. A ‘ego-política do conhecimento’ da filosofia ocidental sempre privilegiou o mito de um ‘Ego’ não situado. O lugar epistêmico étnico-racial/sexual/de gênero e o sujeito enunciador encontram-se, sempre, desvinculados. Ao quebrar a ligação entre o sujeito da enunciação e o lugar epistêmico étnico-racial/sexual/de gênero, a filosofia e as ciências ocidentais conseguem gerar um mito sobre um conhecimento universal verdadeiro que encobre, isto é, que oculta não só aquele que fala como também o lugar epistêmico geopolítico e corpo-político das estruturas de poder/conhecimento colonial, a partir do qual o sujeito se pronuncia (GROSFOGUEL, 2010, p. 459).

Você fez um prefácio lindo, inteligente, agudo, subversivo... formidável. E me fez entender coisas. Por exemplo, que a qualidade insólita do nosso pensamento vem da condição de dissents que corresponde, no plano intelectual, à rebeldia dos ‘hippies’. Costumo dizer, na minha vaidade, que nós, intelectuais revolucionários somos o novo sal da terra que dá gôsto [sic] e sentido à vida. Tenho de alargar o conceito para reconhecer que os descontentes somos os anunciadores do mundo novo [sic], seja porque não gostamos dêste [sic] e o manifestamos na conduta, seja porque, sendo capazes de prefigurar um mundo melhor, nos tornamos missionários. É o nôvo [sic] salvacionismo que se expande, no corpo do qual só se salvará quem sentir desespêro [sic] ou tiver fé suficiente para se negar ao cinismo e ao conformismo (RIBEIRO, apud. MATTOS, 2007, p. 219).




DOI: https://doi.org/10.12957/riae.2017.31705

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e-ISSN: 2359-6856

 


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