Notícias: Letramento racial para todas as pessoas! Inclusive para cientistas ...

Por Edméa Santos
Professora titular-livre da UFRRJ.

O BBB 2021 acabou e entramos noutro, a CPI da Covid. Seria entretenimento se não fosse trágico. Mais de 500 mil brasileiros mortos pelo vírus e pela ausência de políticas públicas e lideranças responsáveis. Todos nós conhecemos ou temos notícias de pessoas que lamentavelmente fazem para dessa estatística. A demora pela compra das vacinas, ausência de campanhas nacionais sintonizadas com a Ciência global e a Fake News em torno de um tal “tratamento precoce”, são apenas alguns temas da atual CPI liderada pelo Senado Brasileiro. CPI esta que se constitui em dispositivo de esperança e expressão de democracia. CPI esta liderada também por personagens golpistas, que direta ou indiretamente são responsáveis por este estado de “democracia em vertigem”.

Dos diversos depoimentos que estamos acompanhando nos últimos meses, destaco o fenômeno que foi o depoimento da médica infectologista Luana Araújo. Eu me emocionei diversas vezes com o depoimento da médica infectologista Luana Araújo, no último dia 1º. de junho, na CPI da Covid-19. Sem elevar o tom de voz e sem tomar posição político-partidária, por mais difícil que isso seja na atual conjuntura, a depoente deu um show de competência técnica e comunicacional. Discorreu sobre pontos importantes sobre a complexidade da pandemia da covid-19 no Brasil e no mundo. Deixou muito clara a inexistência do tratamento precoce, refutou fake news sobre a eficácia da substância hidroxicloroquina para tratamento de covid-19, valorizou a Ciência e sobretudo o trabalho e a importância das políticas públicas de saúde. Sua oratória foi marcada por narrativas científicas, boas analogias, legendas e sobretudo, muito didática. Esta última extremamente elogiada pelos senadores de oposição e até por governistas. Muitas foram as expressões de identificação e admiração que circularam nas redes sociais.

 

Como acadêmica que sou, fiquei muito impressionada com sua competência didática em contrastar métodos e esclarecer equívocos cometidos por senadores governistas que defenderam, com supostos dados de pesquisa, que o uso do “tratamento precoce” era uma tese que dividia médicos e cientistas. Ela falou de “meta-análises” a “revisões sistemáticas da literatura”. Falou sobre “ciência malfeita” e “ciência bem-feita”. Tomou muito cuidado para não criticar diretamente o governo, o presidente da República e suas ações desastrosas e atos anticivilização, nada empáticos, e ignorantes pronunciamentos. Limitou-se a responder “que doía muito” assistir aos depoimentos presidenciais num difícil momento de nossas vidas, em que pessoas morrem por falta de ar...

Ao contrário do que muita gente pensa, inclusive no meio acadêmico, fazer análises contrastivas nos permite revelar a “diferença. O que isso significa? Sem necessariamente fazer juízos de valor ou deslegitimar um saber em detrimento de outro, os contrastes nos permitem visualizar posições éticas, estéticas e sobretudo políticas. Por mais que a médica Luana afirme que sua fala é sempre “técnica” e baseada na “Ciência”, com inicial maiúscula, sabemos que não há “arte do fazer”, ou se seja, técnica, que não seja em si um ato político, uma vez que toda atividade humana é essencialmente política. Dizer que não age e não fala com viés político já é em si um ato político, uma escolha, uma opção de poder.

Mas o que queremos contrastar mesmo? No dia anterior ao depoimento da infectologista Luana Araújo, tivemos o depoimento da dra. Nise, essa sim é doutora porque fez doutorado. No meio médico e do direito, convencionou-se chamar de “doutor” médicos e advogados que não cursaram o curso de doutorado. De todo modo, a então dra. Nise só nos constrangeu. Revelou sua opção pela experimentação irresponsável pelo uso da cloroquina. Foi extremamente constrangida pelo senador Otto Alencar, também médico, que a questionou sobre diferentes pontos da infectologia. Além de não responder ou se equivocar diversas vezes, a então doutora, mostrou muito bem as opções que o atual governo fez em prol da “imunização de rebanho”, do ineficaz “tratamento precoce” e da negligência inicial na gestão de compras das vacinas já disponíveis no mercado. Foi realmente constrangedor, e aqui faço mesmo juízo de valor. Senti-me constrangida, indignada, extremamente triste e envergonhada ao assistir, com quase um país inteiro, a praticamente uma confissão de um crime contra a humanidade. Afinal, muitas mortes poderiam, sim, ter sido evitadas. Evitadas com campanhas federais de prevenção e vacinação em massa. 

 

Sendo assim, acordar noutro dia e assistir ao depoimento da médica Luana me fez esperançar. Não me senti tão entregue ao desgoverno. Afinal, estamos vivos e estamos com tantas gentes como nós. Pessoas educadas, crentes nas e das políticas públicas de saúde e educação, por exemplo. Enfim, o Brasil todo saudou a dra. Luana e pôde mais uma vez compreender por que o atual governo não contou com profissionais realmente capacitados na gestão da saúde pública em nosso país no contexto da pandemia da covid-19.

Por pesquisar com e nas redes sociais, compartilhei depoimentos e recebi muitas marcações de mensagens nas mais diversas e diferentes linguagens. De depoimentos a memes. Prints de tela não deixaram de ser circulados com todas essas narrativas também por troca de mensagens privadas por aplicativos como WhatsApp e Telegram. Das mais variados trocas uma chamou a minha atenção.  No dia anterior ao depoimento da infectologista Luana Araújo, ela dispunha de 61,3 mil seguidores. Um dia após seu depoimento na CPI, esse número avançou para mais de 100.000 novos acessos. Eu, inclusive, faço parte da atual estatística. Passei a segui-la desde então, obviamente para fins de pesquisa com e as redes sociais.

 

Tendo um perfil aberto na rede social Instagram, comecei a navegar por suas narrativas, imagens e sons. Estes são os nossos “dados” e ou material de pesquisa para quem cartografa, etnógrafa e ou pesquisa com os cotidianos na cibercultura.  O ciberespaço, que é a internet habitada por seres humanos e objetos técnicos em processos de comunicação, é o nosso campo de pesquisa. Nossas “fontes” são todos os rastros que os praticantes culturais deixam em forma de narrativas, imagens e sons. Sendo assim, me deparei com a atuação da Luana no Instagram. Encontrei narrativas de viagens, rastros de momentos de sua atividade profissional, lindas selfies com seu marido (que por sinal foi descoberto como o boy da vez). Destaco solos de jazz lindíssimos, com poesias, dicas de livros. Por outro lado, um desses rastros chama a minha atenção e o destaco aqui para falarmos exatamente sobre o tema que marca o título desta notícia: “letramento racial”.

Nossos temas de estudo, pesquisa, estão sempre ligados às nossas implicações científicas, éticas, estéticas, políticas e também libidinais. Ao nos depararmos com as narrativas dos praticantes que vêm ao nosso encontro via empiria, significamos essas narrativas, que evidenciam todo o seu repertório de vida e formação. Nossos leitores do e com o mundo, o nosso mundo é produzido por nossas experiências como sujeitos cognoscentes e sobretudo como praticantes culturais. Minha pesquisa no campo da Cibercultura / Educação se interessa pela compreensão de fenômenos, que passam por questões e implicações interseccionais. Sou uma pesquisadora parda, nordestina, que atuo com lugar de destaque há mais de 15 anos na região Sudeste do Brasil. O contexto científico é marcado pela presença de pessoas brancas, de classe média ou média alta, masculina e quase sempre cis com práticas heteronormativas.

Vale lembrar que, na semana anterior, tivemos também a presença na CPI da Covid-19 da também médica Mayra, que, entre várias contradições, confessou ser dela o áudio que circulou nas redes sociais da internet criticando a Fiocruz por supostamente fazer apologia à figura do pênis em suas campanhas educativas. Mais uma tempestade de memes circulou no ciberespaço, ironizando ou reforçando a posição conservadora, sexista, da então funcionária do Ministério da Saúde. O tema da sexualidade é sempre trazido aos discursos e falas dos apoiadores do atual governo, afinal, os controles também passam pelo controle dos corpos e das diversas sexualidades praticadas. Tudo o que foge ao puritanismo e à heteronormatividade é sempre trazido de forma conservadora, preconceituosa e distorcida. Sendo assim, entendo não ser mais possível pesquisar em nosso tempo sem nos darmos conta de temas que transversalizam classe, raça, gênero e sexualidade, ou seja, com interseccionalidade. 

 

Imagem da campanha educativa que contou com um pênis inflável, disparador para diversos desdobramentos contra a Fiocruz.

De volta ao post trazido por Luana Araújo no último 13 de maio, ele me chamou atenção por duas significações por mim realizadas. A primeira foi a comemoração do dia 13 de Maio. A segunda a sua identificação como uma mulher não negra e não branca, ou seja, mestiça. O trabalho que realizamos com as narrativas que formam o corpus do nosso material empírico não passa por “análises de conteúdo”. Não me interessa colocar na “boca” dos meus praticantes de pesquisa palavras minhas como pesquisadora. Não me interesso por recorrências de palavras e ou análises fechadas. As narrativas me convidam a pensar e problematizar sobre temas, dialogar com reflexões historicamente situadas, pensar como narrativas em si.

Durante todo o depoimento da Luana Araújo, fiquei virtualizando com seria o seu rosto. Notei que seus olhos eram puxadinhos, “de gatinha”, como falo dos olhos da minha filha Nina Sofia. Notei sua pela não branca diferente da pele branca do seu pai, que a acompanhava também como seu advogado. Seus cabelos chamaram também a minha atenção. O biótipo da competente médica não era o de uma mulher branca. Mas por que pensar e me preocupar com o biótipo da depoente? Biótipo que também é o meu. Diferentemente da Luana, eu não comemoro o dia 13 de Maio. Mas comemorei durante toda minha vida escolar. Só com as discussões que participei durante minha vida acadêmica e na formação ao longo da vida, nas mais variadas redes educativas, é que fui me dando conta de quanto a história oficial é corrupta com a história de nossa ancestralidade. Obviamente, não podemos ignorar a luta histórica de séculos do povo negro e de aliados e aliadas abolicionistas são foram os reais protagonistas do 13 de maio, como dia da abolição das pessoas escravizadas.

Em consonância com diferentes parceiros e parceiras críticos (pessoas não brancas cuja ancestralidade passa pela diáspora africana e muitas pessoas brancas, aliadas na luta contra o racismo)  prefiro celebrar o 20 de Novembro ao 13 de Maio. Sabe-se que a lei Áurea libertou os escravos no dia 13 de maio e os jogou ao seu próprio destino no dia 14 de maio. Este ano me dei conta de uma outra significação sobre o 13 de maio, trazida pelo amigo Cláudio Orlando. Uma fala de Lazzo Matumbi, artista baiano que admiro muito. Vale muito a pena conferir. 

 

 

14 de maio é todo dia na vida da grande maioria do povo negro neste país. Obviamente que com a democratização e graças aos movimentos negros, as políticas públicas e de ações afirmativas, temos tido alguns avançados e conquistas em termos de direitos civis no Brasil e em todo o mundo. Por outro lado, nos causou estranhamento acessar esse post de uma cientista que, no dia anterior, dera um show de argumentação em nome do “conhecimento”.  

Também como uma curriculista e curriculeira que sou, sei que o nosso processo formativo, sobretudo na academia, passa por uma discussão fincada,  sobremaneira, nas “epistemologias do norte”. A “neutralidade” científica muitas vezes nos coloca na unidade única de “seres humanos”, sem se analisar criticamente como as sociedades foram construídas, com seres humanos usando outros seres humanos para se estabelecerem no poder, escravizando-os, subjugando-os, invisibilizando-os e praticando diferentes violências. Não é diferente no âmbito das ciências. Fico curiosa em saber se a Luana Araújo sofreu ao longo de sua vida social algum tipo de expressão de racismo. Poderíamos conversar diretamente com a praticante cultural, o que seria muito importante e sei que teríamos belos encontros e aprendizagens mútuas, mas, para este texto, quero continuar conversando com sua narrativa imagética.

 Sou uma mulher parda, assim como a Luana (que se reconhece mixed). Sou filha de um homem afro-índio, mecânico, e uma mulher branca, dona de casa. O que nos difere em termos interseccionais? Eu também fui uma criança diferenciada. Aprendi a ler com 4 anos, mas não era filha de uma professora e um médico/advogado. Aqui temos as nossas diferenças de classe. Por ter pele clara, nunca sofri racismo diretamente, mas sofro xenofobia (uma expressão do racismo) até os dias atuais, por ser nordestina, ocupando uma posição importante na carreira acadêmica, pesquisa e docência universitária. Sou muitas vezes tratada como “aquela baiana”, “aquela exibida”, “aquela que fala mais que a nega do leite”, “aquela que fala e escreve daquele jeito”. Enfim, não tive o meu pai me acompanhando nas rotinas escolares, porque ele estava no seu labor. Era acompanhada pela minha mãe branca, que, por sinal, fez essa tarefa lindamente, com toda sua inteligência, mesmo não sendo uma mulher das letras.

Vejo cotidianamente crianças, jovens e adultos buscando nas cestas de lixo seu sustento, três crianças negras desapareceram no Rio de Janeiro e só muito tempo depois suas ousadas foram encontradas, um cliente foi morto na rede Carrefour e dois homens foram mortos num supermercado em Salvador porque furtaram carne. Qual a cor da pele dessas pessoas? Negra. Eram negros, pardos ou mixed, como se identifica a Luana. A narrativa acima não me autoriza a comemorar o 13 de Maio, porque o dia 14 é todo dia, inclusive em tempos de pandemia de covid-19. Quem mais morre de covid no Brasil?

O Brasil é um país mixed de poder branco, macho e cristão. O mixed é fruto inicialmente de violências, de muitos estupros praticados por homens brancos com a conivência de suas mulheres brancas, muitas vítimas do patriarcado. Uma pessoa parda, quando não participa dos privilégios da classe alta, quando é dominada por pessoas predominantemente brancas, nunca será para esses mesmos brancos uma pessoa branca. Como será muito mais “negra”, se não contar com esses mesmos privilégios. Sendo assim, podemos questionar: não será que precisamos, todos nós, inclusive os cientistas muito bem posicionados, debater sobre a necessidade de mobilizarmos letramentos raciais, inclusive nos processos de formação de médicos e de cientistas em geral?  Afinal, qual é a cor da pele das pessoas que sofrem mais de violência obstétrica e de outras violências praticadas pela ciência? 

Aproveito para partilhar aqui com vocês leitores, algumas fabulosas aulas sobre o tema do “Letramento Racial Crítico”. Vamos aprender com estes colegas e ampliar nossos repertórios. Só assim, poderemos praticar uma Ciência Outra.

A luta continua e ela só pode ser política e interseccional e isso não é um mero posicionamento “técnico”. 

 

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Como citar este artigo:

SANTOS, Edméa. Letramento racial para todas as pessoas! Inclusive para cientistas ... Notícias, Revista Docência e Cibercultura, agosto de 2021, online. ISSN: 2594-9004. Disponível em: < >. Acesso em: DD mês. AAAA. 

 

Editore(s)/a(s) Seção Notícias: Felipe Carvalho