Notícias: Fake News e os Desafios da Educação na Contemporaneidade

Por Telma Brito Rocha
Pedagoga, Doutora em Educação, Professora da Faculdade de Educação da UFBA.

O advento das redes sociais, no início deste século 21, possibilitou a transposição de inúmeras formas de interações interpessoais decorrentes da vida offline para vida online. Indivíduos reelaboraram constantemente suas formas de se relacionar com o tempo e o espaço, criando novas maneiras de socialização em rede. A interação permitida pelo uso de dispositivos e as potencialidades das tecnologias de informação de comunicação contribuem para repensar as dinâmicas sociais, de modo que, “[...] pensar a tecnologia, nesta era do pós-digital, significa implicá-la nas táticas e estratégias do poder” (SANTAELLA, 2016, p.11).

As redes sociais, é um ambiente de entretenimento e um campo vasto de opiniões que são expressadas por internautas de forma rápida e efetiva. Ademais, é também utilizada como um canal de propagação de fake news e, como ressonância destas, a disseminação de ódio provenientes de indivíduos que se mantém – geralmente – em anonimato.

As chamadas fake news – em português, notícias falsas – consistem em mentiras disseminadas no formato de notícia jornalística, ou seja, textos objetivos que seguem regras como lead e pirâmide invertida, veiculadas em sites ou blogs que se alinham com o design de sites dos grandes jornais mundiais. Elas sempre existiram, mas a expressão se generalizou em novembro de 2016, mês da última eleição presidencial norte-americana, bem como, a eleição presidencial no Brasil em 2018. Segundo Santaella (2018, p. 23) afirma que as fake news […] visam influenciar as crenças das pessoas, manipulá-las politicamente ou causar confusões em prol de interesses escusos.

No Brasil, as fake news têm tomado proporções gigantescas. Com a facilidade de veiculação estruturada pelas redes sociais, a população brasileira é, diariamente, bombardeada com diversas informações. Mas, sem um filtro necessário para consumir tais informes, os sujeitos tornam-se reféns das fake news, pois nem todos possuem senso crítico e conhecimentos necessários para apurar e verificar a veracidade das notícias que chegam até eles.

Um exemplo notório foi o caso de Marielle Franco (PSOL), quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro – nas eleições de 2016 – que foi executada a tiros em março de 2018, no bairro do Estácio, região central da cidade. Diversas fake news foram compartilhadas por figuras, como deputados e desembargadores, repercurtidas em jornais nacionais na época. As informações contidas nessas notícias era que Franco namorava um traficante do Rio de Janeiro – conhecido como Marcinho VP – e de que a vereadora estava conjurada com as milícias da cidade. Essas notícias falsas deram base para a produção e disseminação de discursos de ódio contra Franco. Sobre discurso de ódio, Silveira (2017) diz:

O discurso do ódio se caracteriza por qualquer expressão que desvalorize, menospreze, desqualifique e inferiorize os indivíduos. Trata-se de uma situação de desrespeito social, uma vez que reduz o ser humano à condição de objeto (SILVEIRA, 2017, p. 80).

Nesse sentido, o termo discurso é tomado a partir da concepção foucaultiana, na qual o discurso não pode ser resumir ao mero ato de fala. Para o autor, os discursos não estão localizados num campo de exterioridade em relação aos objetos que, supostamente, eles descrevem.

Contudo, mesmo a rede internet sendo fomentadora no que tange a projeção de conhecimento dos indivíduos, também é um ambiente “[...] fértil para a ampliação de aspectos conflituosos de realidade palpável e do relacionamento social, como o ódio e todas suas manifestações” (SANTOS, 2016, p. 8).

Em meio a complexidade contemporânea, alguns professores (as) ainda acreditam que seu papel é ensinar os conteúdos dos saberes específicos de sua disciplina, sem articular os saberes da experiência dos alunos (as), apoiada em uma didática instrumental, aquela que não conecta a cultura e o cotidiano escolar em sua atitude de investigação.

Sendo a didática um campo que investiga os fundamentos, as condições e os modos de realizar a educação por meio do ensino, nesse contexto de aumento das fake news, professores (as) de diferentes áreas do conhecimento, tem função de tornar as informações do jornalismo profissional, artigos de divulgação científica, em conteúdos formativos de suas práticas cotidianas.

A educação precisa compreender os fenômenos da cultura, de que maneira os processos de socialização são influenciados. Estudos nos indicam que as interações mediadas por computadores atuam nos modos de pensar e agir de todos nós. A este respeito, é bastante oportuno entendermos que as tecnologias, os softwares sociais na contemporaneidade têm tornado o ensino mais complexo, com isso, criam desafios didáticos ao trabalho docente, é preciso formação continuada. A seguir algumas dicas que podem colaborar no trabalho pedagógico sobre o tema na escola.

 

Cartilhas digitais sobre fake news

Para checagem de notícia falsa

Cartilhas sobre internet segura

Divulgação científica


Referências

SANTAELLA, Lucia. Temas e dilemas do pós-digital: a voz da política. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2016. v. 1.

SANTAELLA, Lucia. A Pós-Verdade é verdadeira ou falsa? Barueri, SP: Estação das Letras e Cores, 2018.

SANTOS, Marco Aurélio Moura dos. O Discurso de ódio nas redes sociais. São Paulo: Lura Editorial, 2016.

SILVEIRA, Sergio Amadeu. (Org.) ; PRETTO, Nelson Luca. (Org.). Além das redes de colaboração: internet, diversidade cultural e tecnologias do poder. Salvador/Bahia: Edufba, 2008.

 

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Como citar este artigo:

ROCHA. Telma Brito.Fake news e os desafios da educação na contemporaneidade. Notícias, Revista Docência e Cibercultura, abril de 2020, online. ISSN: 2594-9004. Disponível em: <>. Acesso em: DD mês. AAAA.

 

 

Editores/as Seção Notícias: Felipe da Silva Ponte de Carvalho e Edméa Oliveira dos Santos