Empregadas domésticas negras e a Covid-19: afetos e desigualdades em tempos pandêmicos

Autori

DOI:

https://doi.org/10.12957/sustinere.2025.80173

Parole chiave:

Interseccionalidades, Empregadas domésticas, COVID-19, Mulheres, Pandemia

Abstract

Mulheres negras integram um grupo historicamente explorado e vivenciam opressões intercruzadas de, pelo menos, gênero e raça. Também são cotidianamente subjugadas em razão de um conjunto de vulnerabilidades, conhecidas no cruzamento como “interseccionalidades”. O objetivo dessa pesquisa é compreender as vivências, na encruzilhada destas intersecções, de mulheres negras empregadas domésticas durante a primeira fase da pandemia da COVID-19. Trata-se de pesquisa de abordagem qualitativa, que utilizou a entrevista em profundidade para acessar informações sobre as participantes. O estudo concluiu que apenas o valor oferecido pelo auxílio emergencial, uma política pública implementada durante a pandemia da COVID-19, não foi o suficiente para garantir o isolamento das participantes, posto que tal medida refletiria no padrão de vida das participantes e suas famílias, suscitando a discussão sobre a insegurança laboral inerente à majoritária informalidade das relações laborais referentes ao emprego doméstico. A pesquisa também revelou que, para além de fatores econômicos, outras variáveis também influenciaram na decisão dessas mulheres de permanecerem nos seus postos de trabalho, colocando-as sob constante risco. A vivência dessas mulheres durante o período de lockdown, portanto, foi marcada por intensa instabilidade econômica e familiar. Nesse viés, o estudo, emprega a perspectiva da interseccionalidade para a análise de questões relacionadas ao trabalho doméstico, desvelando histórias de vida de mulheres marcadas pelas manifestações de estruturas sociais que moldaram a formação social brasileira.

Biografie autore

Ana Rebeca Oliveira Cirilo, Universidade Federal do Piauí - UFPI

Mestra em pelo Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas Universidade Federal do Piauí - PPGPP/UFPI. Bacharela em Direito pelo Instituto de Ciências Jurídicas e Sociais Professor Camilo Filho - ICF. 

Rafael Fernandes de Mesquita, Instituto Federal do Piauí - IFPI e Universidade Federal do Piauí - UFPI

Doutor em Administração de Empresas. Professor do do Instituto Federal do Piauí - IFPI - Campus Dirceu Arcoverde e do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da Universidade Federal do Piauí -UFPI.

Ana Keuly Luz Bezerra, Instituto Federal do Piauí - IFPI

Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Federal do Piauí - PRODEMA/UFPI. Professora do Instituto Federal do Piauí - IFPI Campus Dirceu Arcoverde. Professora do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da Universidade Federal do Piauí - PPGPP/UFPI.

 

Fátima Regina Ney Matos, Instituto Superior Miguel Torga - ISMT

Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal de Pernambuco - UFPE. Estágio Pós-Doutoral desenvolvido na Universidade de Aveiro, Portugal. Professora do Instituto Superir Miguel Torga - ISMT, Coimbra-Portugal.

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Pubblicato

2026-01-05

Come citare

Cirilo, A. R. O., Mesquita, R. F. de, Bezerra, A. K. L., & Matos, F. R. N. (2026). Empregadas domésticas negras e a Covid-19: afetos e desigualdades em tempos pandêmicos. Revista Sustinere, 13(2), 706–730. https://doi.org/10.12957/sustinere.2025.80173