Entre a astúcia e a justiça improvisada: Hermes, Robin Hood e a distorção da virtude como ideal ético

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DOI:

https://doi.org/10.12957/principia.2025.92791

Parole chiave:

Virtude, Hermes, Robin Hood, Ética aristotélica, Justiça, Astúcia

Abstract

Este artigo propõe uma análise comparativa entre dois personagens amplamente celebrados por sua astúcia e aparente senso de justiça: Hermes, da mitologia grega, e Robin Hood, da tradição anglo-saxã. Ambos figuram no imaginário coletivo como heróis simpáticos que transgridem normas – o primeiro, por meio do furto criativo e da persuasão; o segundo, ao assumir para si a justiça social, subvertendo o papel institucional do Estado. A partir da filosofia moral, especialmente da ética das virtudes aristotélica, argumenta-se que tais personagens operam dentro de uma lógica de eficácia travestida de virtude: Hermes é exaltado por sua inteligência desvinculada de prudência e justiça; Robin Hood é romantizado por realizar, sob o disfarce da compaixão, um justiçamento moral. Em ambos os casos, a transgressão é convertida em valor, e a consequência ética disso é uma distorção simbólica da própria ideia de virtude. O trabalho recorre ainda a autores como Alasdair MacIntyre e Martha Nussbaum, articulando a crítica filosófica à leitura mitopoética e narrativa. Conclui-se que o fascínio cultural por esses personagens pode ocultar riscos éticos, ao reforçar uma lógica onde o bem é confundido com esperteza, e a justiça, com revanche.

Biografia autore

Lara Passini Vaz-Tostes, PUC MINAS/Pós-graduanda

Graduada em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com conclusão em fevereiro de 2022. Foi indicada ao Prêmio Barão do Rio Branco (Edital 963/2022/SGE-UFMG) e ao Prêmio Messias Pereira Donato (Edital 818/2022/SGE-UFMG). Possui experiência na área jurídica, com ênfase em Direito Cível e Eleitoral, tendo atuado como estagiária no TRE-MG, na Defensoria Pública da União e no escritório R. Santana Advocacia. Trabalhou como advogada júnior no escritório Bernardes Advogados (jul/2023 nov/2023) e como estagiária de pós-graduação no Tribunal de Justiça Militar de Minas Gerais (out/2024 abr/2025).Desde outubro de 2024, cursa pós-graduação lato sensu em Filosofia e Teoria do Direito pela PUC Minas, aprofundando os diálogos entre ética, linguagem e literatura. Escritora e pesquisadora independente, desenvolve projetos autorais voltados à representação de sujeitos neurodivergentes e à investigação estética da escuta, com ênfase em autores como Dostoiévski, Kafka e Paul Ricoeur. Tem textos aceitos para publicação em revistas acadêmicas e coletâneas literárias, articulando criação ficcional e reflexão filosófico-literária com foco na empatia, na alteridade e na permanência ética.

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Pubblicato

2025-12-19

Come citare

PASSINI VAZ-TOSTES, Lara. Entre a astúcia e a justiça improvisada: Hermes, Robin Hood e a distorção da virtude como ideal ético. PRINCIPIA, Rio de Janeiro, n. 48, p. 68–82, 2025. DOI: 10.12957/principia.2025.92791. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/principia/article/view/92791. Acesso em: 4 feb. 2026.

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