Os versos amargos de Cora Coralina
Figurações da “criança” e do “menor” entre a poesia e a ditadura militar no Brasil
Mots-clés :
História e Poesia, Cora Coralina, Ditadura Militar, Questão do MenorRésumé
Após o golpe de Estado em abril de 1964, foi lançada pelo governo militar em 1 de dezembro a Política Nacional do Bem-Estar do Menor (PNBEM) com as concepções e propostas voltadas para o segmento infantojuvenil pobre. Este texto, todavia, parte de uma crítica externa a essa engrenagem institucional por meio da atuação da poeta goiana Cora Coralina (1889-1985) em favor dos direitos das crianças e jovens durante a ditadura militar. A partir do conceito “partilha do sensível”, proposto pelo filósofo francês Jacques Rancière e da metodologia da análise do discurso de Michel Foucault, aciona-se um arquivo literário e problematiza-se: como a poesia de Cora Coralina disputou significados sobre o menor marginalizado na cena pública? Articulam-se três aspectos conclusivos; a) a emergência de temas sociais sensíveis como a marginalização de crianças apareceu de forma mais incisiva na poesia de Cora Coralina nos anos 1970; b) o uso da linguagem poética foi uma estratégia de sensibilização sobre direitos humanos e esteve alinhada à atividade epistolar por meio da qual buscou se comunicar, cobrar medidas e convencer autoridades públicas e intelectuais sobre problemas do país; c) a sua poesia buscou influenciar o debate público e participou da disputa sobre problemas nacionais como a criança marginalizada e menorizada.
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