O tempo anacrônico da dizimação indígena

Estudo de três documentários sobre genocídios perpetrados contra a população Yanomami

Auteurs

Mots-clés :

Genocídio, Yanomami, Documentário, Enunciação, Estético-política

Résumé

O artigo discute o tema do genocídio em três documentários brasileiros que expõem o drama vivido pelo povo indígena Yanomami na Amazônia. Ao longo deste artigo, são apresentados alguns desses ataques e desafios à sobrevivência recente desse povo, um dos originários mais populosos de recente contato na América do Sul, cuja concentração territorial não segue a lógica das fronteiras internacionais entre o Brasil e a Venezuela, já que ambos os países partilham territórios dessa etnia. No Brasil, estão distribuídos pelos territórios dos estados de Roraima e Amazonas, na Região Norte do Brasil. Selecionaram- se os documentários Davi contra Golias – Brasil Caim (1993), A Última Floresta (2021) e O rastro do garimpo: povo Yanomami (2023), devido aos modos distintos como esses empíricos enunciam a situação de violência e dizimação a que os Yanomami têm sido submetidos, a partir de um pluralismo de vozes que agenciam relatos divergentes, entre vozes dos que são considerados perpetradores da violência e o clamor das vítimas, que nessas ocorrências podem assumir a postura da testemunha que reivindica e/ou do esteta- político que cria seu próprio fluxo narrativo, entre experiências, denúncias e confrontações. Servem ao propósito das discussões, os estudos promovidos por José Emilio Burucúa e Nicolás Kwiatkowski (2014), sobre a representação de massacres, bem como de Lior Zylberman (2020, 2024), sobre as tipologias de espaços de massacre e de perpetradores de violências em documentários. Ainda, mobiliza-se uma incursão que permeia a história sob a ótica Jacques Rancière (2009, 2018, 2023) e Georges Didi-Huberman (2014, 2015, 2016, 2020), sobre como a manifestação do presente incorpora o passado e posiciona reflexões ao futuro, diante de uma partilha do sensível que pretende selecionar outras formas de se revelar corpos que sofreram e sofrem com os lastros da colonização.

Téléchargements

Les données relatives au téléchargement ne sont pas encore disponibles.

Bibliographies de l'auteur

Júlio César Rigoni Filho, Universidade Tuiuti do Paraná

Doutorando em Comunicação e Linguagens pela Universidade Tuiuti do Paraná. Mestre em Comunicação e Linguagens pela Universidade Tuiuti do Paraná; Mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná graduado em Tecnologia em Big Data e Inteligência Analítica e em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

Kati Caetano, Universidade Tuiuti do Paraná

Professora do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Linguagens da Universidade Tuiuti do Paraná. Professora Titular aposentada da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Doutora e Mestra em Linguística pela Universidade de São Paulo. Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq.

Références

ALVES, Bruna. Os riscos à saúde causados pelo uso de mercúrio no garimpo. BBC News Brasil, 8 fev. 2023. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c7246ee619qo. Acesso em: 29 abr. 2024.

ARAÚJO, Fabrício; LIMA, Leanderson. Júnior Hekurari, que denunciou morte de menina Yanomami, sofre ameaças de garimpeiros. Brasil de Fato, 6 maio 2022. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2022/05/06/junior-hekurari-que-denunciou-morte-de-menina-yanomami-sofre-ameacas-de-garimpeiros. Acesso em: 13 maio 2024.

BRITOS-CASTRO, Ana; ZURBRIGGEN, Sofía. Narrar(nos) desde el cuerpo territorio. Nuevos apuntes para un pensamiento situado y metodologías en contexto. Ánfora, n. 29, p. 43-70, 2022.

BURUCÚA, José Emilio; KWIATKOWSKI, Nicolás. “Cómo sucedieron estas cosas”: representar masacres y genocídios. Buenos Aires: Katz, 2014.

CAETANO, Kati; PIERONI, Geraldo. A conscientização do corpo-território: sedução e violência em perspectiva indígena. Anais do [...]. Encontro Anual da COMPÓS, 32. São Paulo, COMPÓS, 2023. Disponível em: https://proceedings.science/compos/compos-2023/trabalhos/a-conscientizacao-do-corpo-territorio-seducao-e-violencia-em-perspectiva-indigen?lang=pt-br. Acesso em: 17 out. 2024.

CAETANO, Kati. Mulheres indígenas, agentes de mudança. Revista Acta Semiotica, n. 3, v. 6, p. 124-138, 2023.

CÂMARA dos Deputados. O que é marco temporal e quais são os argumentos favoráveis e contrários. Portal da Câmara dos Deputados, 29 maio 2023. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/966618-o-que-e-marco-temporal-e-quais-os-argumentos-favoraveis-e-contrarios/. Acesso em: 29 abr. 2024.

CHAVES, Kena Azevedo. Corpo-território, reprodução social e cosmopolítica: reflexões a partir das lutas das mulheres indígenas no Brasil. Scripta Nova – Revista Electrónica de Geografía y Ciencias Sociales, v. 25, n. 4, p. 51-71, 2021.

COSTA, Helouise. Um olhar que aprisiona outro: o retrato do indio e o papel do fotojornalismo na revista O Cruzeiro. Imagens, n. 2, p. 82-91, 1994.

CRUZ HERNÁNDEZ, Delmy Tania. Una mirada muy otra a los territorios-cuerpos femeninos. Solar, Revista de Filosofía Iberoamericana, n. 12, v. 12-1, p. 35-46, 2017.

CRUZ HERNÁNDEZ, Delmy Tania. Mujeres, cuerpo y territorios: entre la defensa y la desposesión In: CRUZ HERNÁNDEZ, Delmy Tania; JIMÉNEZ, Manuel Bayón (Org.). Cuerpos, territorios y feminismos: compilación latinoamericana de teorías, metodologías y prácticas políticas. Quito: Bajo Tierra, 2020.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Pueblos expuestos, pueblos figurantes. Buenos Aires: Manantial, 2014.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Diante do tempo: história da arte e anacronismo das imagens. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2015.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Remontar, remontagem (do tempo). Caderno de Leituras, v. 1, p. 01-07, 2016.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Imagens apesar de tudo. São Paulo: Editora 34, 2020.

FOUCAULT, Michel. Segurança, território, população: curso dado no Collège de France (1977-1978). São Paulo: Martins Fontes, 2008.

GABRIEL, João. Assassinatos de indígenas quase dobram e conflitos aumentam 567% sob Bolsonaro. Folha de S. Paulo, 26 jul. 2023. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2023/07/assassinatos-de-indigenas-quase-dobram-e-conflitos-explodem-sob-bolsonaro.shtml. Acesso em: 29 abr. 2024.

GÓMEZ, Zandra Pedraza. Modernidad y orden simbólico: cuerpo y biopolítica en América Latina. Aquelarre, p. 93-108, 2006.

HARVEY, James. Jacques Rancière and the politics of art cinema. Edimburgo: Edinburgh University Press, 2018.

KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2016.

MINISTÉRIO dos Povos Indígenas. Institucional. Portal do Governo Federal do Brasil. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/povosindigenas/pt-br/acesso-a-informacao/institucional. Acesso em: 29 abr. 2024.

MINISTÉRIO Público Federal de Roraima. Massacre de Haximu. Portal MPF-RR, 12 jun. 2024. Disponível em: https://www.mpf.mp.br/rr/memorial/atuacoes-de-destaque/massacre-de-haximu. Acesso em: 23 abr. 2024.

PAJOLLA, Murilo. Bolsonaro estimulou avanço de garimpeiros sobre os Yanomami; relembre casos e declarações. Brasil de Fato, 6 maio 2022. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2022/05/06/bolsonaro-estimulou-avanco-de-garimpeiros-sobre-os-yanomami-relembre-casos-e-declaracoes/. Acesso em: 29 abr. 2024.

PIMENTEL, Carolina. Relatos apontam 30 casos de jovens yanomami grávidas de garimpeiros. Agência Brasil, 2 fev. 2023. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2023-02/relatos-apontam-30-casos-de-jovens-yanomami-gravidas-de-garimpeiros. Acesso em: 29 abr. 2024.

RANCIÈRE, Jacques. O conceito de anacronismo e a verdade do historiador. In: SOLOMON, Marcio. (Org.). História, verdade e tempo. Chapecó, SC: Argos, 2011.

RANCIÈRE, Jacques. Figuras da história. São Paulo: Ed. Unesp, 2018.

RANCIÈRE, Jacques. El tiempo de los no-vencidos. Revista de Estudios Sociales, n. 70, p. 79-86, 2019.

RANCIÈRE, Jacques. Mal-estar na estética. São Paulo: Editora 34, 2023.

RANCIÈRE, Jacques; BASSAS, Javier. As palavras e os danos: diálogo sobre a política da linguagem. São Paulo: SOFIE; Editora 34, 2024.

ROCHA, Ana Angelita da. Corpo-território como argumento curricular de resistência. Revista Teias, v. 20, n. 59, p. 56-71, 2019.

SANTOS, Fabiane Vinente dos Santos; FERREIRA, Maria Assunta. O corpo-território: feminismos decoloniais, saúde e estratégias dos movimentos de mulheres indígenas na amazônia brasileira. (Syn)Thesis, v. 15, n. 1, p. 30-44, 2022.

SOUZA, Haroldo Epifânio de; OLIVEIRA JÚNIOR, Zedequias de. Degradação e violência na Terra Indígena Yanomami: análise do contato entre o indígena e o garimpeiro. Revista Brasileira de Meio Ambiente, v. 10, n. 3, p. 225-238, 2022.

TACCA, Fernando de. O índio na fotografia brasileira: incursões sobre a imagem e o meio. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v. 18, p. 191-223, 2011.

UOL. Natureza 'nômade' dificulta proteção dos yanomamis (sic), diz Aras. Portal Uol, 15 fev. 2023. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/ansa/2023/02/15/natureza-nomade-dificulta-protecao-dos-yanomamis-diz-aras.htm. Acesso em: 23 abr. 2024.

VALENTE, Rubens. Baixo orçamento, culpa terceirizada: como a Funai de Bolsonaro respondia à crise Yanomami. Agência Pública, 15 maio 2023. Disponível em: https://apublica.org/2023/05/baixo-orcamento-culpa-terceirizada-como-a-funai-de-bolsonaro-respondia-a-crise-yanomami/. Acesso em: 26 abr. 2024.

ZYLBERMAN, Lior. Los victimarios en el cine documental. Una posible taxonomía. Kamchatka – Revista de análisis cultural, n. 15, p. 161-192, 2020.

ZYLBERMAN, Lior. Genocidio y cine documental. Aproximaciones a la representación de los espacios de exterminio. Dixit, v. 38, 2024.

Téléchargements

Publiée

2025-11-21

Comment citer

RIGONI FILHO, Júlio César; CAETANO, Kati. O tempo anacrônico da dizimação indígena: Estudo de três documentários sobre genocídios perpetrados contra a população Yanomami. Revista Maracanan, Rio de Janeiro, Brasil, n. 40, p. 1–30, 2025. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/maracanan/article/view/84380. Acesso em: 30 nov. 2025.