Pedagogias de medicalização do corpo na revista Veja

Michelle Pizzato Buker, Carin Klein

Resumo


O artigo parte do interesse pela análise das pedagogias da medicalização do corpo veiculadas na revista Veja, compreendendo-a como instância pedagógica importante, no sentido de orientar e posicionar os sujeitos em relação aos ensinamentos ali divulgados. Ancoradas pela perspectiva teórica dos Estudos Culturais e de autores/as que se aproximam da perspectiva pós-estruturalista, procuramos identificar e interrogar algumas discursividades veiculadas pelo discurso midiático, na medida em que atuam fortemente na produção de imperativos para os corpos, a fim de ensiná-los como se tornarem belos, magros e “saudáveis”, mesmo que para isso seja necessário o consumo de medicamentos, suplementos, cosméticos ou cirurgias plásticas. Utilizou-se como metodologia de pesquisa a análise de reportagens, capas e materiais publicitários advindos da inserção de palavras-chave no acervo digital da revista. Verifica-se a produção de processos de naturalização da medicalização como forma de prevenir e evitar, a qualquer custo, a gordura, o envelhecimento, a obesidade, a feiura e/ou os comportamentos que desviam do que se institui como norma. As análises sugerem ainda que aqueles que não conseguem emagrecer ou cujos corpos se desviam dos padrões de uma normalidade utilitária estão fora do padrão, sendo vistos como os inábeis para cuidar de si, o que os faz despontar como as novas figuras de anormalidade. Obrigações e regras sobre como cuidar do corpo podem tornar-se imperativos, e a adesão (ou não) a eles pode servir como critério de avaliação do valor dos indivíduos no cenário contemporâneo.

Palavras-chave


pedagogias da medicalização, representação, norma, corpo, revista Veja.

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DOI: https://doi.org/10.12957/sustinere.2020.44788

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