Genealogias da observação
Atualizações de “Vigiar e Punir” na obra de Jonathan Crary
DOI:
https://doi.org/10.12957/mnemosine.2025.97479Palavras-chave:
vigilância, espetáculo, tecnologias visuais, genealogia, subjetividadeResumo
Neste artigo se problematiza a tese de “Vigiar e Punir” em que Foucault situa no passado o regime do espetáculo dissociando-o do sistema moderno de vigilância. Duas grandes atualizações desse diagnóstico podem ser apontadas. Uma primeira considera como a vigilância se juntou a tecnologias da imagem, com indivíduos expondo-se e sendo observado de modo mediado, enquanto a outra regride ao século XIX para delinear sobreposições entre os dois regimes escópicos. Trabalharemos a segunda vertente através de alguns escritos de Jonathan Crary sobre mídia, arte, ciência e técnica no século XIX. Começando por expor o método genealógico comum aos autores, pontua na obra de Crary o estatuto do sujeito como observador. Portanto, em sentido reverso à situação investigada por Foucault sobre a constituição do sujeito como observado. A seguir, examinamos como a genealogia dos castigos desenvolvida em “Vigiar e Punir” resulta num modelo de subjetividade voltada para si distinto da permeabilidade entre espaço interior e exterior característica do observador apontada por Crary. Pode-se concluir que a discrepância provém de um deslocamento no projeto genealógico: ao invés de se efetuar um estranhamento da prisão através do estudo de mecanismo de observação dos indivíduos, é o realismo das tecnologias visuais que é posto em xeque pela problemática da disciplinarização dos corpos dos observadores.
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