“É trêmulo do corpo por moléstias que tem tido”

Reflexões sobre enfermidades e condições de saúde nos anúncios de fuga na Corte escravista (1830)

Autores

Palavras-chave:

Escravidão, História da Saúde e das Doenças, Rio de Janeiro

Resumo

Neste artigo, apresentaremos reflexões sobre as enfermidades que afligiam os corpos escravizados na Corte em 1830, período marcado pela chegada significativa de africanos ao maior porto escravista das Américas. Diversos estudos nacionais e internacionais têm explorado metodologias variadas para compreender as relações entre saúde e escravidão. Alinhado à História Social da Escravidão, este trabalho busca contribuir para essas reflexões ao examinar as condições de saúde dos cativos mencionados nos anúncios de fuga. Para tal, utilizaremos como fonte o Diário do Rio de Janeiro, periódico de destaque na Corte oitocentista. Analisando mais de 200 manchetes, utilizamos a figura do escravizado Fellipe, fugido em maio de 1830, como fio condutor, uma vez que seu anúncio revela nuances sobre as condições de vida e saúde dos cativos evidenciadas em seus corpos. Além disso, adotaremos a metodologia da fabulação crítica proposta por Saidiya Hartman, que nos permite ampliar as leituras históricas e criar narrativas sensíveis sobre experiências negligenciadas nos registros tradicionais.

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Biografia do Autor

Layla Silva Ferreira, Fundação Oswaldo Cruz

Doutoranda em História das Ciências e da Saúde na Fundação Oswaldo Cruz, Casa de Oswaldo Cruz. Mestra em História das Ciências e da Saúde pela Fundação Oswaldo Cruz; graduada em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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Publicado

2025-11-21

Como Citar

SILVA FERREIRA, Layla. “É trêmulo do corpo por moléstias que tem tido”: Reflexões sobre enfermidades e condições de saúde nos anúncios de fuga na Corte escravista (1830). Revista Maracanan, Rio de Janeiro, Brasil, n. 40, p. 1–25, 2025. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/maracanan/article/view/86188. Acesso em: 29 nov. 2025.