O enlutado é um duplo:
Ensaio e emoção metafísica no espelho de Fidelino de Figueiredo
Palavras-chave:
Fidelino de Figueiredo, Ensaio de Luto, Emoção Metafísica, Morte e EscritaResumo
Examinando o livro Diálogo ao espelho (1957), de Fidelino de Figueiredo, como ensaio de luto, este artigo visa compreender como a escrita ensaística podia funcionar como modo de enfrentar a dor e o sofrimento advindos da perda de um parente próximo. Como forma experimental de escrita, mais livre, híbrida e heterogênea, o ensaio aproximava-se assim do potencial da poesia de transfiguração de emoções intensas, dilacerantes, ao menos na argumentação do intelectual português. O objetivo principal, por outro lado, é antes examinar o que Fidelino de Figueiredo “fez do ensaio” – retomando o sentido da interrogação de Michel de Certeau sobre “o que Freud fez da história” – do que suas concepções acerca dessa prática de escrita. A escrita ensaística do pensador português é também analisada em sua similaridade com aspectos dos Ensaios, de Michel de Montaigne, e das teses “sensacionistas” de Bernardo Soares, semi-heterônimo de Fernando Pessoa. Por fim, Diálogo ao espelho permite problematizar o ensaio por meio daquilo que José Gil chamou de “emoção metafísica”, um tipo de emoção vinculada ao mistério, sobretudo ao mistério do não controle do caráter trágico da existência, das inquietudes da condição humana, suas fragilidades diante do teor insondável da história.
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