Três papagaios e o Brasil na Segunda Guerra Mundial: disputas representacionais e o cotidiano de guerra

Marina Helena Meira Carvalho

Resumo


As disputas políticas também envolvem disputas representacionais. Este artigo analisa fontes documentais sobre três papagaios, todas elas do período pós alinhamento do Brasil aos Aliados, durante a Segunda Guerra Mundial. Problematiza-se o que elas dizem sobre o contexto político e o cotidiano de guerra brasileiro. O primeiro papagaio é o Zé Carioca, animação criada pela Disney em 1942 como símbolo da brasilidade e da Política da Boa Vizinhança e que ganha grande repercussão na imprensa brasileira. A segunda fonte é uma anedota de um papagaio de um judeu na Alemanha, a qual circulou em uma revista brasileira de variedades, em 1945. O último papagaio, o único dos três que não é obra de ficção, aparece em um relatório do Departamento de Imprensa e Propaganda sobre um crime que foi enquadrado como político.  A análise dessas três ocorrências nos permite iluminar o contexto político brasileiro durante a Segunda Guerra Mundial e, ao mesmo tempo, analisar o quanto uma guerra, chamada de guerra total, adentrou o cotidiano dos brasileiros. Para isso, nos apoiaremos principalmente nos conceitos de representação e batalha representacional de Chartier. Analisaremos como esses três papagaios foram representados e como esses elementos nos informam não objetivamente sobre um contexto estudado, mas sim como seus atores se posicionavam politicamente diante dele. Concluímos que as representações de guerra são em si ações políticas, nutridas de concepções, intencionalidades e visões de mundo. Quando esses três papagaios ganham narrativas de forma indissociadas da guerra, elas acabam por ajudar a moldar a percepção da própria guerra, exprimindo experiências, expectativas e intenções.


Palavras-chave


Batalha representacional. Segunda Guerra Mundial. Guerra total. Política da Boa Vizinhança. Cotidiano

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DOI: https://doi.org/10.12957/revmar.2022.64380

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