Degeneração, subalternidade e favela: Anália, ‘uma mulher de cor preta’ no Rio de Janeiro pós-abolicionista

Pedro Felipe Muñoz, Allister A. Teixeira Dias

Resumo


Este artigo analisa a história de Anália: mulher, negra, pobre, favelada, diversas internações no Hospício Nacional de Alienados (HNA) e condenada a 15 anos de prisão, após cometer um assassinato em 1937. Em sua vida, Anália esteve em conflito com diferentes discursos hegemônicos, como as normais culturais e de gênero de sua época. Em uma das internações no HNA, “uma mulher de cor preta” foi o nome registrado no seu prontuário, o que identificamos como um ato discursivo típico do racismo cultural no Brasil pós-abolicionista. Em diálogo com os estudos subalternos, conectamos o caso Anália ao cotidiano das classes populares, sobretudo à exclusão social e racial, assim como às expectativas de gênero das mulheres negras, no Rio de Janeiro pós-abolicionista. Por fim, relacionamos esse caso e as favelas ao modelo brasileiro de governamentalidade e ao projeto urbano do Rio de Janeiro.

Palavras-chave


Psiquiatria; Gênero; Crime; Raça; Favelas

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DOI: https://doi.org/10.12957/revmar.2021.57276

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