Da barbárie à memória: imagens urbanas como espaços de resiliência

Hércules da Silva Xavier Ferreira, Luana Campos, Pedro Gustavo Morgado Clerot

Resumo


Nos anos 1998, 2005 e 2017, ocorreram três mortes criminosas em três espaços próximos entre si, na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. Três jovens de classe média foram brutalmente assassinados e ganharam homenagens póstumas, de uma escultura e dois grafites respectivamente. E no ano de 2018 a vereadora Marielle Franco foi assassinada, ensejando similar compreensão social e ressignificando o local de ocorrência do crime, e muitos outros, com intervenções artísticas. Tais espaços e seu entorno, assim como tantos outros que pontuam as cidades brasileiras, bem poderiam receber a alcunha de polígono da violência ou circuito da dor, por retratarem pessoas mortas. Diante desta realidade, a pesquisa aqui apresentada trata de uma reflexão analítica à luz dos conceitos de “recolhimento” e “distração” de Walter Benjamin, com a proposta comunicológica de Vilém Flusser, tendo ainda por base a poética da ausência de Fernando Catroga e os estudos culturais sobre a memória de Aleida Assmann, como uma proposta para a devida compreensão dessas práticas de intervenções urbanas enquanto fenômeno e sua função social. Por fim, as análises realizadas permitiram inferir que essa forma de ressignificação do sofrimento gera espaços de resiliência, uma vez que materializam a memória da perda no ambiente urbano, por meios de marco artístico, retratando uma última imagem positiva do falecido, para que outros transeuntes vejam e sejam afetados pelo conhecimento de seus nomes e suas histórias.


Palavras-chave


Memórias Traumáticas; Turismo da Dor; Lugares de Memória; Resiliência

Texto completo:

PDF

Referências


ADORNO, Theodor W. Industria cultural e sociedade. São Paulo: Paz e Terra, 2002; BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: Obras escolhidas I. São Paulo: Brasiliense, 1987.

ASSMANN, Aleida. Espaços da recordação: formas e transformações da memória cultural. Campinas, SP: Ed.Unicamp, 2011.

BARROS, Anna. Espaço, lugar e local. Revista USP, São Paulo, n. 40, p. 32-45, fev. 1999.

BASSO, Keith H. Wisdom Sits in Places: Landscape and Language Among the Western Apache. Albuquerque: University of New Mexico Press, 1996.

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: Obras escolhidas I. São Paulo: Brasiliense, 1987.

BINFORD, S. R. A structural comparison of disposal of the dead in the Mousterian and the Upper Paleolithic.Southwestern Journal of Anthropology, v. 24, n. 2, 139-154, Summer 1968.

CARVALHO, Ronaldo Cerqueira. Rio de Janeiro - uma cidade conectada por túneis. Instituto Pereira Passos - Armazém de DADOS, Rio de Janeiro, v. 4, p. 1-57, 2004.

CASTRIOTA, Leonardo. Lidando com um patrimônio sensível. O caso de Bento Rodrigues, Mariana MG. Arquitextos, São Paulo, ano 20, n. 230.00, jul. 2019.

CATROGA, Fernando. O culto dos mortos como uma poética da ausência. ArtCultura, Uberlândia, v. 12, n. 20, p. 163-182, jan.-jun. 2010.

FERREIRA, Soraya Venegas; ARCO, Débora Galeano. De pichação à manifestação artística: Um estudo dos graffitis de ACME 23 no âmbito da folkcomunicação. Revista Internacional de Folkcomunicação, v. 12, p. 55-73, 2014.

FLUSSER, Vilém. Comunicologia: reflexões sobre o futuro: as conferências de Bochum. São Paulo: Martins Fontes, 2014.

NORA, Pierre. Entre Memória e História: a Problemática dos Lugares. Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados de História, São Paulo, v. 10, p. 7-28, out. 2012.

SOTRATTI, Marcelo Antonio. A ideologia espacial na patrimonialização e gestão de bens culturais em áreas gentrificadas. Boletim Campineiro de Geografia, Campinas (SP), v. 6, p. 303-323, 2016.

VIEIRA, Sidney Gonçalves. Cidade, memória e hipermodernidade: apontamento para enteder a cidade contemporânea. In: KNACK, Eduardo. R. J.; FERREIRA, Maria L. M.; POLONI, Rita J. S. (orgs.). Memória & Patrimônio - Temas e Debates. Porto Alegre: Editora FI, 2018.

XAVIER, Janaína; et al. O princípio de falso histórico brandiano aplicado na demolição e reconstrução do patrimônio ferroviário de Artur Nogueira. Anais do 3º Simpósio Científico do ICOMOS Brasil. Belo Horizonte, MG: Even3, 2019.




DOI: https://doi.org/10.12957/revmar.2020.47751

Apontamentos

  • Não há apontamentos.


Indexadores

                 

         

              

              

 

Divulgadores