“Autobiografias” de Angola: algumas considerações acerca de um gênero

Madalina Elena Florescu

Resumo


Este artigo discute a textualidade como categoria do discurso antropológico e o tratamento da autobiografia nas ciências sociais. A conceptualização do texto como um tecido de palavras urdido no quadro de um conjunto de conceitos e convenções - desde os mais ritualizados até os mais informais – é contrastada com uma ideia do texto como artefato no qual o passado é legível não só como palavras, mas também como rasgos. Em seguida, é problematizado o pressuposto de uma diferença radical entre memória histórica e memória autobiográfica que está na base de uma oposição entre biografia, como método em sociologia, autobiografia como literatura. A metáfora do “palimpsesto” é usada como ferramenta de análise de uma autobiografia de Angola cuja historicidade é legível na relação entre palavras e rasgos, interrogando os limites entre conhecimento subjetivo e conhecimento objetivo.


Palavras-chave


Textualidade; Autobiografia; Historicidade; Angola

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DOI: https://doi.org/10.12957/revmar.2017.27121

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