Os BRICS em tempos de rupturas geopolíticas
Desde a sua formação, a coalizão BRICS tem sido objeto necessário de análises para compreender as transformações na ordem global. Inicialmente focado em pautas de economia política internacional e desenvolvimento, o grupo ampliou sua agenda ao longo das últimas décadas, incorporando temas sensíveis de segurança internacional, governança global e reforma das instituições multilaterais. As declarações das cúpulas de Sanya (2011) e Délhi (2012) marcaram um ponto de inflexão nesse processo, consolidando a percepção de que a cooperação entre Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul iria além dos aspectos estritamente comerciais para abraçar um projeto de estabilidade global. Mais recentemente, a 17ª Reunião de Cúpula, no Rio de Janeiro, consolidou a ampliação da aliança, pela inclusão de novos membros, permanentes ou associados.
No entanto, a conjuntura atual impõe desafios inéditos ao grupo. O mundo contemporâneo é caracterizado por rupturas geopolíticas profundas: guerras e tensões na Eurásia e no Oriente Médio, a permanência do conflito russo-ucraniano, as disputas no Mar da China, o esvaziamento das organizações multilaterais, as novas corridas armamentistas, bem como as crises energéticas e alimentares e o questionamento crescente à arquitetura financeira e de segurança herdada do pós-guerra, são elementos que subjazem à grande disputa geopolítica entre EUA (potência desafiada) e China (potência desafiante). Neste cenário, os BRICS emergem não apenas como um fórum de concertação entre potências emergentes, mas como um ator coletivo que busca ativamente construir uma narrativa alternativa e propor novas instituições — como o Novo Banco de Desenvolvimento — diante da erosão da ordem liberal internacional.
Neste dossiê da Revista (Syn)thesis, periódico quadrimestreal editado pelo Centro de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (CCS/UERJ), convida professores(as), pós-graduandos(as), pesquisadores(as) das Ciências Sociais e áreas afins a refletirem sobre o papel e os desafios do BRICS nesse novo contexto de fragmentação e reordenamento geopolítico. O objetivo central é acolher contribuições que analisem, a partir de perspectivas teóricas e empíricas diversas, as estratégias, os limites e as potencialidades do agrupamento diante das atuais rupturas. Serão bem-vindas análises que abordem, entre outros, os seguintes eixos temáticos:
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A evolução da agenda de segurança internacional no âmbito do BRICS e seu impacto nas dinâmicas regionais e globais;
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O papel do BRICS na reforma da governança global e nas discussões sobre o nexo desenvolvimento-segurança;
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Análises de conteúdo das declarações das cúpulas recentes e os novos consensos (ou dissensos) entre os membros;
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Os desafios da expansão do grupo e a incorporação de novos membros em um mundo polarizado;
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O BRICS como plataforma para a construção de uma ordem multipolar: projetos de integração, conectividade e infraestrutura;
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Tensões e convergências entre os países-membros frente a crises internacionais (conflitos armados, sanções econômicas, mudanças climáticas);
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Dimensões socioculturais, políticas e econômicas que contribuem para compreender processos ou projetos nacionais de desenvolvimento e (re)inserção internacional, incluindo temas sensíveis como educação, sociedade civil, ciência, tecnologia, gênero e sexualidade.
Convidamos toda a comunidade acadêmica a contribuir para este debate essencial sobre o futuro da cooperação Sul-Sul em um cenário internacional em profunda transformação.
O período para submissão será de 10 de março de 2026 a 19 de julho de 2026.