“Eu acho que tem mais é que assassinar”: uma análise semiolinguística do discurso de ódio empregado como opinião em entrevistas do documentário Temporada de Caça
DOI:
https://doi.org/10.12957/matraga.2026.92293Palavras-chave:
Linguística Forense, semiolinguística, discurso de ódio, entrevistasResumo
Embora o Código Penal brasileiro não apresente legislação que tipifique o discurso de ódio contra a população LGBTQIAPN+, a prática da homofobia é abarcada, em uma tipologia guarda-chuva, como um crime dentro das leis antirracistas. Todo esse aparato jurídico, entretanto, parece não ter surtido efeito, uma vez que há, frequentemente, aumento nos números de ataques LGBTfóbicos, seja por meio do ataque físico, seja por meio da violência verbal. O presente trabalho, de natureza predominantemente qualitativa, embora lancemos mão de quantificações, debruça-se sobre dezesseis entrevistas obtidas no documentário Temporada de Caça, de 1988, para evidenciar as estratégias discursivas utilizadas no mascaramento do discurso de ódio dentro do gênero. Para tal, utilizamos a Teoria Semiolinguística de Patrick Charaudeau (2003; 2008; 2015) em relação com alguns postulados da Linguística Forense (Shuy, 1993). De forma geral, foi percebido que o discurso de ódio, no corpus analisado, apresenta-se na forma de uma opinião que é solicitada como se fosse apenas um pensamento individual, mas que carrega uma série de descrições pejorativas que não só incitam a violência contra a população que não segue a heteronormatividade, mas também a representa negativamente enquanto grupo. Além disso, foi verificado que o gênero entrevista parece ter um espaço contratual que favorece a expressão do discurso de ódio, a partir do momento em que o enunciador interpela seu interlocutor a responder com o que ele “acha”.
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