ESTUDOS E PESQUISAS EM PSICOLOGIA, UERJ, RJ, ANO 5, N.1, 1 SEMESTRE DE 2005

Resenha

 


Suicdio e Psicoterapia Uma viso Gestltica

Suicide and Psychoterapy: a gestalt approach


 

 

Hugo Ramn Barbosa Oddone

 

 

 

Este livro extremamente paradoxal. J no prefcio, Llian Meyer Frazo nos diz no meu entender, o suicdio, mais do que um gesto que cala, um gesto que fala... e a autora d voz e estilo fala do suicdio, apresentando-nos uma notvel e repito paradoxal figura literria, uma provocao para o debate, um convite para o dilogo.

 Na esteira do livro sobre luto1, Karina Fukumitsu nos comove e nos desperta com este novo texto, exibindo-nos uma realidade cujos dados geralmente so escondidos, proibidos, rigidamente controlados ou manipulados. H uma idia generalizada de que no se devem publicar dados referentes a estatsticas e motivaes para o suicdio, pois geraria na sociedade uma reao, geometricamente crescente, de aumento dos casos. Talvez por esse motivo, h na literatura especializada, sociolgica, mdica ou psicolgica, um grande vazio a este respeito. A referida obra vem preencher esse espao.   

 A abordagem fenomenolgico-existencial, na qual os juzos de valor so colocados entre parnteses (epoch) e onde todo e qualquer a priori so descartados, na tentativa de contatar o que (o fato em si), do modo que ele se apresenta, campeia nesta descrio experiencial, quando nos deparamos, j no incio do livro, com a valente e corajosa confisso da autora sobre suas motivaes pessoais para pesquisar e escrever sobre to espinhoso tema. A fenomenologia, apesar de j ser uma abordagem metodolgica centenria, continua ainda chocando pessoas e instituies e sofre ainda certa resistncia por tratar-se de uma cincia de rigor inovadora e que prope mudanas de paradigmas para a investigao de conhecimento. Mais uma vez, repete-se a histria dialtica e reacionria, que atravs de suas foras conservadoras ceifam toda nova possibilidade existencial... 

O livro consta de trs partes, a primeira descrevendo os estudos sobre o suicdio em si e uma discusso que circunda a experincia da autora; a segunda parte refere-se abordagem gestalt-teraputica baseada na Fenomenologia, na teoria do campo, no humanismo e no existencialismo , apresentando a viso do homem, suas influncias histricas, compreendendo uma observao sucinta, inteligentemente resumida, dos seus conceitos-chaves; e, na parte final, a autora faz uma vvida correlao entre suicdio e Gestalt-Terapia.

 A autora, detalhista e cuidadosa, apresenta-nos uma Gestalt-Terapia mais moderna, integrando ao bojo terico e metodolgico da abordagem todas as suas contribuies mais atualizadas. A Gestalt da autora gil, moderna e basicamente brasileira, pois consegue integrar, prolixa e sabiamente, todos os conhecimentos adquiridos, atravs de pesquisas acadmicas dos mais renomados tericos do pas e das experincias vividas pelos mesmos.

 Segundo Fukumitsu, o suicida no procura a morte, mas a vida. O ato suicida trata-se de um derradeiro grito de confirmao da sua prpria existncia, embora ele aparente extremo desespero e desistncia. Assim, a autora instiga-nos a procurar, por trs da tenebrosa aparncia da tentativa suicida, a mensagem que no pode ser comunicada, o gesto no acenado, a expresso que no emergiu, a resistncia que no pode ser desdobrada em seus dois sentidos, o de contato, mudana e o de conservao. Isto implica, quase sempre, em intencionalidade, nem sempre em ato consciente ou compreendido pelo prprio suicida ou pelos outros. Desvelada esta realidade, podemos partir  caa da paradoxal intencionalidade vital do suicida e, ao mesmo tempo, buscar o sentido de vida (ou at da falta dele), cujo resgate e apropriao o que, no fim do processo, redirecionar e atualizar a qualidade existencial do cliente e do terapeuta.

A incluso dos conceitos bsicos na busca de familiarizar o leitor com a abordagem gestltica parece ser necessria, por dois motivos: primeiro, exatamente porque ainda pouco conhecida da grande maioria das pessoas, inclusive nas faculdades de psicologia; segundo, a Gestalt-Terapia basicamente uma filosofia de vida, que preconiza um mnimo de interferncia na auto-regulao organsmica (Barry Stevens dizia no apresse o rio, ele corre sozinho). Neste sentido, o malogro na nossa sociedade atual caracteriza-se exatamente pela priorizao ou hipertrofia da tendncia entrpica. J a tendncia anatrpica uma fora pujante em todos os organismos vivos, que nos leva, sempre, a uma maior organizao e reticulao da conscincia, a mais vida. Pois, se nos concentrarmos absolutamente no aqui-e-agora, alcanamos uma profunda e poderosa convico: num organismo vivo, o desejo imperante viver. Thanatos no existe, organismicamente. A autora demonstra vividamente esta realidade no segundo e terceiro captulos.

Afirma Fukumitsu no terceiro captulo ... nossas vidas no voltam e no podemos experienciar o futuro, ou seja, nossas vidas so inditas, e, com certeza, devemos viv-las ineditamente... Este fato no justifica o suicdio martiriolgico por causas religiosas ou sciopolticas, to terrivelmente em voga na atualidade como arma de luta do terrorismo poltico (homens-bomba), raro ainda na nossa jovem democracia latino-americana. Neste sentido, prefiro destacar o ineditismo deste livro, que nos conduz com sabedoria e coragem em direo s nossas encruzilhadas e decises existenciais. Com certeza, uma leitura iluminadora.

 

Notas

[1]FUKUMITSU, K.O. Uma viso fenomenolgica do luto: um estudo sobre as perdas no desenvolvimento humano. Campinas: Livro Pleno, 2004.

* Psiclogo, gestalt-terapeuta. Coordenador da Srie Gestalt-terapia da Editora Livro Pleno, Campinas SP. Coordenador do GESTALT-Ncleo Riopretense de Psicologia e Psicoterapia. So Jos do Rio Preto SP.

 

 

 

Referncias Bibliogrficas

Fukumitsu, K.O. Suicdio e Psicoterapia Uma viso gestltica. Srie Gestalt-Terapia. Campinas: Livro Pleno, 2005.

 

 

 

Recebido em: 29/08/2005

Aceito para publicao em: 15/09/2005

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