ARTIGOS

 

A abertura ao trabalho psicanalítico em uma instituição pública: Márcia e a dúvida identificatória

 

An opening of a psychoanalytic work in a public institution: ‘Márcia’ and the identification doubt

 

 

Érica de Sá Earp Siqueira*

Especialista em Psicologia Clínico-Institucional no Núcleo de Estudos e da Saúde do Adolescente-NESA do Hospital Universitário Pedro Ernesto - HUPE/UERJ

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A partir do atendimento psicanalítico de uma adolescente (Márcia) no Ambulatório do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente (NESA), enfocamos a possibilidade de a psicanálise se fazer presente em uma instituição pública. Márcia apresentava, desde o início, uma demanda de análise muito clara, tendo sido ela mesma e não seus pais que procuraram o ambulatório, a fim de ser atendida por um “psicólogo”. Verificamos, a partir do caso clínico, como é possível realizar um trabalho analítico em uma instituição pública, apesar de todas as dificuldades e impasses que o psicanalista encontra. Demonstramos a especificidade e a importância da escuta analítica em um setting institucional. Acreditamos que a escuta analítica em uma instituição pública é algo peculiar, em que o psicanalista se disponibiliza a escutar, de um outro lugar, próprio da Psicanálise, baseado na transferência analítica.

Palavras-chave: Adolescente, Instituição, Psicanálise, Escuta analítica.


ABSTRACT

From an adolescent’s (Marcia) psychoanalytic treatment as an out patient at the ‘Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente’ we have focused on the practicability of psychoanalysis to take place in a public institution. Marcia has shown, from the start, a very clear demand on analysis. She herself, and not her parents, sought the clinic to be seen by a ‘psychologist’. We have verified, from the clinical case, the possibility of having an analytic work done in a public institution, in spite of all the difficulties and stalemates met by the psychoanalyst. The specificity and importance of the analytic listening in an institutional setting are demonstrated. We believe that the analytic listening in a public institution is something peculiar, where the psychoanalyst makes himself available to listen, from another place, pertaining to psychoanalysis, based on analytic transference.

Keywords: Adolescent, Institution, Psychoanalysis, Analytic listening.


 

 

O presente trabalho foi inspirado por um atendimento psicanalítico de uma adolescente no Ambulatório do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente (NESA), a partir da Residência em Psicologia Clínico-Institucional no Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE/UERJ), no ano de 2001 a 2003.

A adolescente, que chamaremos de Márcia, apresentava, desde o início, uma demanda de análise muito clara, tendo sido ela mesma e não seus pais que procuraram o ambulatório a fim de ser atendida por um “psicólogo”.

Vale destacar que o NESA caracteriza-se por ser um setor formado exclusivamente por psicanalistas, logo, inicialmente havia um questionamento sobre como seria possível ser analista em um ambulatório vinculado a uma instituição pública, em que o trabalho analítico deveria ser desenvolvido em até dois anos, período da Residência. Porém, neste percurso, verificamos que há a possibilidade de realizar um trabalho analítico em uma instituição pública, apesar de todas as dificuldades e impasses que o psicanalista encontra. E é a partir desta abertura ao trabalho analítico que será exposto alguns fragmentos do caso clínico a fim de demonstrar a especificidade e a importância da escuta analítica em um setting institucional.

 

Márcia e a dúvida identificatória

Márcia começou a ser atendida no NESA em meados de 2001, quando estava com apenas dezoito anos, tendo sido atendida nessa instituição até o término do período da Residência, em março de 2003. No final do percurso desta, Márcia decidiu continuar o tratamento analítico no consultório particular, já que há uma abertura para que se possam ‘levar’ os pacientes que vêm sendo atendidos pelo residente para o consultório particular do mesmo, caso assim o deseje. Logo, Márcia aceitou o convite e vem sendo atendida desde então no consultório, realizando progressos significativos na sua análise pessoal.

É importante destacar que esta passagem da instituição para o consultório foi facilitada pelo fato de Márcia já se encontrar, aquele momento, em um trabalho analítico. Desta forma, acreditamos que a escuta analítica produz efeitos significativos na vida de um sujeito que deseja realizar uma análise.

A adolescente é fruto de duas culturas totalmente distintas: seu pai é um descendente árabe e a sua mãe brasileira. Eles são separados desde que ela tinha aproximadamente cinco anos, no auge do seu Complexo de Édipo, questão que será melhor abordada posteriormente.

A atitude de separar-se partiu de sua mãe, tendo esta sido criticada veementemente pela família árabe do pai, que não aceita este fato. A mãe é cardiologista e sempre foi independente do seu ex-marido. O pai é engenheiro químico e, segundo a paciente, é bastante rígido e machista. Após a separação, o pai casou-se novamente, tendo uma filha pequena - que tem atualmente quatro anos - com a sua atual esposa, e Márcia diz se relacionar muito bem com a irmã, bem como com a esposa do pai.

Quando deu início ao atendimento no NESA, Márcia namorava um homem mais velho, de quarenta anos, que dava aula para ela no Curso de Engenharia. O seu pai não aceitava de forma alguma o namorado, que, além de tudo, era negro. Segundo a paciente, este fator agravava ainda mais a não aceitação do seu namorado, afirmando que sua família, em especial a família do pai, era muito “preconceituosa”.

Nas entrevistas preliminares, a mãe veio ao atendimento e chegou a dizer para Márcia que achava que ela o namorava por ser “mal-resolvida” com o pai, querendo aproximar-se do ideal de homem configurado pela figura paterna.

Márcia negava a todo custo essas afirmações da mãe e sempre se posicionava, frente a sua família, de maneira hostil, colocando que “não estava nem aí para eles. Acho que eles são muito preconceituosos”.

Quando lhe perguntava como ela se sentia em relação ao namorado, como era a relação deles, ela sempre saía pela tangente, afirmando que “ah, é bom”.

No decorrer dos atendimentos, Márcia pôde ir, aos poucos, expondo o quanto acreditava que realmente não gostava dele e que só o namorava para atingir o seu pai. Chegou a terminar e a voltar com ele algumas vezes durante o seu percurso clínico, tendo rompido de vez em 2003, afirmando que “não tinha mais graça”, pois o pai já nem ligava para o fato de ela o namorar.

Atualmente, não está mais com ele e, inclusive, não consegue falar do momento em que o namorava, afirmando que prefere não se lembrar, pois para ela é como se durante o tempo que esteve com ele, o que perfazia dois anos ao todo, não tivesse significado nada para ela e que prefere “esquecer”, como se não tivesse acontecido nada neste período no que se refere ao namorado.

Da mesma forma, no início dos atendimentos, Márcia não conseguia falar do pai e, quando chegava a falar, chorava durante o atendimento, não conseguindo entender por que isso acontecia. No decorrer do seu tratamento, pôde aos poucos ir incluindo o seu pai em sua análise. Quando, certa vez, ele foi a uma entrevista no NESA, Márcia não quis que ele ficasse, tendo sido entrevistado separadamente.

No início, chegava a afirmar que a sua mãe era, na verdade, mãe e pai. Nos Dias dos Pais, presenteava a sua mãe e não o seu pai, afirmando que ela representava ambas as funções, sendo que isso sequer poderia ser questionado em análise.

Márcia expunha que achava que se parecia com a mãe, mas que, na verdade, era a “cópia” do seu pai e dizia o quanto não gostava de se parecer com ele.

Em 2002, Márcia estava estudando para fazer o vestibular para a faculdade de Engenharia Química numa segunda tentativa, tendo sido aprovada em 2003 para uma universidade pública federal, onde passou a estudar desde então.

A sua inserção na faculdade foi vivenciada por ela como uma enorme “decepção”: queixa-se de tudo, dos professores, da desorganização, do nível de cobrança das provas, e tira constantemente notas baixas, tendo ficado em prova final em muitas matérias e até mesmo repetido algumas. Chega a dizer que pensa em desistir de estudar Engenharia Química, mas que não se imagina fazendo qualquer outra coisa, que não a Engenharia.

Posteriormente ao término do seu namoro, voltou a sair e depois a se relacionar com o seu primeiro namorado, com quem havia perdido a virgindade: “iniciamos a vida sexual juntos”.

Márcia o namorou dos treze aos quatorze anos e meio, ou seja, um ano e meio de relação, sendo que, na época, ele terminou o namoro. Ela afirma que continuou a gostar muito dele, e até mesmo mantinham amizade, pois ele mora no mesmo prédio que ela: “não há como fugir dele, nem que eu queira”. Depois eles voltaram a sair e a namorar, mas ele “pisou na bola” (sic) com ela e começou a ficar com outras meninas, ao mesmo tempo em que estava com ela.

Certo dia, ela o viu com outra e terminou com ele. A partir de então, ele a tem procurado, pedindo que volte a confiar nele, que voltem a namorar, mas ela diz que ele já a magoou muito e que agora ela não quer mais, preferindo ficar sozinha um tempo - mesmo ainda gostando do rapaz - do que vir a sofrer novamente por ele.

Após este término, houve um período em que a paciente se queixava de depressão, afirmando estar “deprimida” e que não tinha vontade de sair de casa, de fazer nada, só de dormir e comer e chorava muito.

Neste período, houve uma noite em que a paciente fez xixi na cama. Acordou e estava com a roupa e a cama toda molhada, não sabia o que fazer. Então foi ao banheiro e limpou-se sem ninguém ver. No dia seguinte, a empregada viu e ela, ao contar o episódio, começou a rir, gargalhar do que havia acontecido. Ao trazer este fato em análise, começou a rir na sessão, dizendo que não sabia exatamente o que aconteceu naquela noite, mas que, a partir dali, ela pôde chorar, limpar suas lágrimas, se permitir ser criança novamente e até mesmo a rir de si mesma, de sua própria ‘desgraça’.

Recentemente, Márcia conseguiu um estágio na área de Engenharia, em uma dessas grandes empresas, trazendo tal fato à análise com muita satisfação e felicidade. Acrescenta que, com o estágio e a faculdade, não encontrará mais tempo para fazer análise. Imediatamente após, diz que gostaria de ficar um tempo “só”, ou seja, sem análise, para ver como ficará.

 

Discussão do caso clínico apresentado

Podemos pensar que as questões de Márcia perpassam pelo Édipo e pela dúvida identificatória, em que a mãe aparece como não sendo suficiente para identificar-se, apelando ao pai para lhe dar aquilo que ela não pode ter. Inicialmente, a mãe aparece como representando ambas as funções: materna e paterna. No decorrer de sua análise, Márcia começa a questionar e se queixar da mãe, passando a ter uma relação melhor com seu pai.

Para Lacan (1958, p.202), o desfecho da menina no Édipo é mais simples: “ela não tem que fazer uma identificação, nem guardar esse título de direito à virilidade (menino). Ela, a mulher, sabe onde ele está, sabe onde deve ir buscá-lo, o que é do lado do pai, e vai em direção àquele que o tem”.

O pai de Márcia aparece como fálico, macho, viril e potente com sua cultura enraizada árabe, com a qual ela tanto se identifica. Mas, ao mesmo tempo que se identifica com ele, não quer identificar-se.

O relacionamento com o seu ex-namorado demonstrava de maneira clara essa busca incessante de tentar recuperar o “pai perdido”, o mesmo possuía quase a idade do pai e exercia a mesma profissão. Quando o pai desiste de “encher o seu saco” para terminar com o namorado, ela resolve então terminar com o mesmo, já que assim “não tinha mais graça”.

A sua escolha profissional também está da mesma forma referida a este pai – Engenharia -, que é sempre objeto de sua queixa, já que não pôde tê-lo por completo. Segundo Alberti (2004, p.40), podemos concluir com Freud que:

a escolha profissional não dá margem para inúmeras possibilidades, ao contrário, implica em um ponto de basta, limitando-se a uma, na medida em que, para o sujeito particular, não há possibilidades, mas insistência de uma determinação que lhe é própria.

Dessa forma, dentro da fenomenologia apresentada, podemos pensar em um diagnóstico clínico de uma neurose histérica, visto que realiza claramente “apelos ao pai”, estando identificada com essa posição fálica, reinvindicando-a a todo instante. Além disso, demonstra como se dá a sua relação com o desejo, sempre insatisfeito.

No percurso de sua análise, Márcia aos poucos pôde se descolar dessa identificação imaginária com o pai, tentando construir as suas relações amorosas de uma outra forma que não a da repetição.

A resistência vem aparecendo na clínica, a paciente afirma que às vezes pensa em sair da análise, expondo que “é muito difícil vir aqui. Seria melhor não saber disso tudo e deixar ali guardado na gaveta.”

O manejo transferencial é o que vai permitir que um trabalho possa ser apontado, no qual o analista deve poder sustentar a pergunta que reaparece na clínica “que lugar eu ocupo no desejo do Outro?” (Che vuoi?) endereçado ao analista, sujeito suposto saber.

O trabalho a ser apontado na clínica psicanalítica seria um pouco o de sustentar a dimensão da falta, da castração, para que o sujeito saia da posição de impotência (“eu não tenho, mas o outro tem”) para a impossibilidade (real e não imaginária). E, a partir desta impossibilidade, poder fazer algo com ela. Segundo Alberti (2004, p. 10), “a adolescência é: um longo trabalho de elaboração de escolhas e um longo trabalho de elaboração da falta (castração) no Outro”.

Na medida em que o sujeito adolescente consegue elaborar a falta no Outro – castração -, remete à sua própria falta, trabalho esse considerado por Freud (1905, p.214) como

uma das realizações psíquicas mais significativas, porém também mais dolorosas, do período da puberdade: o desligamento da autoridade dos pais, unicamente através do qual se cria a oposição, entre a nova e a velha gerações, tão importante para o progresso da cultura.

Ressaltamos a importância dos pais para o sujeito adolescente, mas, para que o sujeito adolescente possa separar-se de seus pais, é preciso primeiro que ele possa contar com eles, como no caso de Márcia, que pôde apelar ao seu pai, contando com ele, que a sustenta em seu desejo.

Interpretamos a sua saída da análise não apenas como necessária em seu percurso clínico, mas, principalmente, como demarcando que um trabalho analítico fora realizado com sucesso, nesse caso. E que talvez sua análise tenha chegado a um fim, naquele momento.

Lembramo-nos do processo descrito por Freud (1905) como o da construção de um túnel, cavando pelos dois lados, nem sempre em uma linha reta, mas suficientemente estruturado para permitir uma travessia possível - análise.

Alberti (2004) ressalta a importância da função do analista, que tampouco é o pai e, se ele não se mantém ao lado do sujeito para sempre, é só porque pode convocar o sujeito a elaborar sua travessia para além do pai, não sem dele se servir, o que, no caso de Márcia, parece ter sido possível.

Sendo assim, destacamos que a escuta analítica é algo peculiar, em que o psicanalista se disponibiliza a escutar, de um outro lugar, próprio da Psicanálise, baseada na transferência analítica, a partir da relação do sujeito com o seu desejo.

A escuta analítica deve ser a mesma em um consultório particular ou em uma instituição pública, já que implica uma construção do analista através de sua própria análise pessoal, estudo teórico da Psicanálise e de suas supervisões clínicas. E ainda está diretamente relacionada com o desejo do analista, baseada na ética da Psicanálise, ou seja, a ética do bem-dizer a relação do sujeito com o seu desejo. É preciso que o sujeito “queira saber”, que suporte saber, que pague um preço pelo seu desejo.

Acreditamos, portanto, que, apesar das particularidades que possam permear um percurso clínico em uma instituição, é partindo dele que podemos tentar realizar um trabalho analítico dentro do tempo específico que a instituição oferece.

Não se trata de moldarmos a instituição pública em uma forma eminentemente clínica, mas de poder realizar um trabalho psicanalítico em uma instituição pública, como demonstrado no caso aqui apresentado.

 

Referências Bibliográficas

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DOR, J. Estruturas e clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Taurus, 1993.

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LACAN, J. J. O Seminário, livro 5 – As formações do inconsciente (1957-1958); texto estabelecido por Jacques Alain-Miller; tradução de Vera Ribeiro; revisão de Marcus André Vieira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

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Endereço para correspondência
Endereço eletrônico: ericasesiqueira@hotmail.com.

Recebido em: 11/10/2006
Aceito para publicação em: 31/07/2007

 

 

Notas

* Graduada em Psicologia pela PUC-Rio. Especialista em Psicologia Clínico-Institucional no HUPE/UERJ. Mestranda em Psicanálise – IP/UERJ.



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