Apresentação

Erick Felinto

Resumo


Mais do que nunca, pensar em comunicação significa pensar em imagens.  Já se repetiu exaustivamente que vivemos em uma cultura imagética, marcada pela crescente proliferação de telas e tecnologias de produção audiovisual.  E se passamos de regimes analógicos para digitais, isso só fez aumentar a vitalidade da imagem e multiplicar suas potencialidades.  Nesse sentido, o presente número de Logos nos oferece uma amostragem da riqueza que também podemos encontrar hoje no campo das pesquisas sobre o audiovisual.    O crescimento da pós-graduação em comunicação no Brasil parece apontar para um futuro promissor em termos de exploração das artes e formas de comunicação audiovisuais.

Os artigos aqui reunidos dão igualmente prova da força e da amplitude desse campo, congregando temáticas tão diversas quanto a relação entre o espectador e o  documentário ou a cinefilia como forma de consumo contemporâneo.  Ocorre que o audiovisual não é apenas um domínio de pesquisa de crescente popularidade na academia, senão também uma das mais poderosas expressões criativas e comunicacionais do homem, capaz de despertar as paixões mais intensas.  Isso porque, desde sua origem, as tecnologias audiovisuais sempre se caracterizaram como artes do espanto e do maravilhamento.  Numa das lembrança mais marcantes da minha infância, ainda consigo me ver na entrada de um dos belos cinemas da Tijuca (hoje inteiramente desaparecidos, mas tema do cativante estudo histórico de Talitha Ferraz) enquanto espero minha mãe convencer o lanterninha de que tenho mesmo 10 anos de idade – o mínimo exigido para poder assistir à 2001, uma Odisséia no Espaço, obra prima de Stanley Kubrick.  Saí do filme sem entender grande coisa, mas inteiramente seduzido pelas impressionantes imagens do vasto espaço sideral e pela sedutora musica de Richard Strauss.  Desde esse dia, o cinema se tornou, para mim, uma espécie de religião sem deus (ou com muitos deuses).

Nessa cultura das telas em que hoje habitamos, as imagens parecem ter adquirido vida própria.  Elas estão em toda parte, conferindo ao mundo certo sabor de permanente fantasmagoria.  Aliás, tem sido um tema constante do pensamento apocalíptico esse processo de virtualização da realidade por efeito da multiplicação das imagens eletrônicas.  Mas no fundo sabemos que nunca houve para o homem uma realidade que não fosse constituída por imagens.  E as fantasmagorias, boas ou ruins, são aquilo que nos oferece suporte e sustentação para um mundo que, de outro modo, provavelmente se encontraria muito mais esvaziado de sentido.  Se Edgar Morin inicia seu livro Le Cinema, ou l’Homme Imaginaire com a menção a duas grandes tecnologias legadas a nós pelo século XIX – o cinema e a aviação – é também porque as imagens nos transportam a outros mundos, nos alçam em vôos da imaginação e do pensamento.

Da fotografia à arte digital, do televisão ao político, os artigos que reunimos neste numero de Logos compartilham, de diferentes modos, desse sentido de maravilhamento com as imagens.  Afinal, elas acrescentam ao mundo uma dimensão suplementar de sentido.  Mesmo o extraordinário impacto das imagens digitais, percebido com clareza no êxito de blockbusters tecnológicos como o recente Avatar, de James Cameron, não alteraram esse dado básico de nossa experiência com o audiovisual.  De certo modo, é como se estivéssemos ainda nos sentando na sala escura para nos maravilharmos com a ilusão do movimento, lado a lado com os espectadores dos primeiros filmes dos Lumière e de Méliès.  Mesmo a pesquisa e a investigação critica do audiovisual não podem furtar-se inteiramente dessa sensação de espanto com as imagens.  Um saber que não é temperado pela paixão não tem sentido de existir.  E sem uma pincelada de olhar infantil, o que nos poderia ensinar de sempre novo nossa curiosidade com o mundo e nossas estratégias de representá-lo?


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DOI: https://doi.org/10.12957/logos.2010.593

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