Ensaio Visual - Contracolonizar a memória Guarani-Kaiowá

Luciana Oliveira

Resumo


Contracolonizar a memória Guarani-Kaiowá

O ensaio* "Não posso saltar sobre suas palavras" coloca em tela a longa e árdua guerra pela terra do povo indígena conhecido como Kaiowá ou Guarani-Kaiowá. Essa luta de re-existência  envolve práticas insurgentes que fraturam a Modernidade/Colonialidade e tornam possíveis outras maneiras de ser, estar, pensar, saber, sentir, existir e viver-com. São 10 dípticos e um texto poético. De um lado, fotografias que fiz em 2012 das crianças realizando o Kotyhu - ritual de dança circular com cantos tradicionais que ativam qualidades, perspectivas e estados de ânima, especialmente a alegria - bem como de algumas cenas ao redor dessa roda. Me coloquei no centro, entre elas, e dessa perspectiva fiz as imagens, buscando que a câmera se incorporasse ao ritual. Optei por captar as fotos com um desfoque que sublinha tanto o caráter etéreo e delicado da imagem das crianças e da própria situação ritual ali instaurada  quanto a vida por um fio naquele território recém reocupado pelos grupos familiares, sob tantos riscos. De outro, imagens do Relatório Figueiredo, documento monumental que testemunha as brutais violências perpetradas historicamente contra esse povo (e outros), compilado pelo procurador federal Jader de Figueiredo Correia , apontando irregularidades no SPI (Serviço de Proteção ao Índio)**. O documento ficou desaparecido por 45 anos sob a suposição de que teria sido eliminado num incêndio no Ministério da Agricultura e reapareceu no contexto das investigações da Comissão Nacional da Verdade (2016). Violações como esbulho de terras, roubo de gado e bens agrícolas dos indígenas, estupro de mulheres, comercio de pessoas, escravização, precariedade dos vínculos de trabalho e venda abusiva de álcool nos arredores dos Postos Indígenas são correntes e estão fartamente documentadas no Relatório. Os responsáveis por estas atrocidades são funcionários do SPI – agentes do Estado brasileiro –, políticos e latifundiários, operando de forma conjunta ou em separado. O documento e os registros, depois de seu muito tempo de silêncio, dizem também do atual contexto de guerra pela terra em MS e das violências que persistem sob a forma da colonialidade do poder, do saber, do ser e da memória. A roda das crianças e a imagem de seu guardião (última imagem do ensaio), que no conjunto dos dípticos afronta com as armas da alegria e da ancestralidade, as violências trazidas pelas imagens do Relatório ocorreu em 2012, em Guaiviry Yvy Pyte Yjere (Coração da terra, próximo ao rio onde viveu uma xamã muito velha e seus arredores). É um dos tekoha Kaiowá no sul de MS dentro dos limites do atual município de Aral Moreira, na fronteira com o Paraguai. Tekoha é o nome em língua Guarani para o lugar onde se pode viver o modo tradicional dos Kaiowá de forma autônoma. O movimento de reocupação ou auto-demarcação dos territórios tradicionais - conhecido como retomada de terras - se iniciou em maior escala a partir dos anos de 1980 com a organização do movimento Aty Guasu (Grande Assembleia Guarani e Kaiowá). Guaiviry Yvy Pyte Yjere foi reocupado em 2011 e ocasionou o brutal assassinato da liderança que conduzia os grupos familiares, o Cacique Nísio Gomes. Atualmente abriga cerca de 40 famílias e 300 pessoas. A re-existência operada por esse povo é contracolonial, seguindo o pensamento do intelectual quilombola Antônio Bispo dos Santos (2015)***. Se a colonização envolve os processos de  invasão, expropriação, etnocídio, genocídio, subjugação e de imposição de uma cultura sobre outra sem relação com o território e transformando a terra em mercadoria, a contracolonização envolve os processos de defesa dos territórios e tudo o que neles vive realizada pelos povos afropintodorâmicos (os povos afrodiaspóricos e os originários, em separado ou em aliança)****. O título do ensaio coloca a impossibilidade de não trabalhar essa memória, ao mesmo tempo em que busca apresentar um modo kaiowá-criança de elabora-la. 


* Esse ensaio é um produto do Projeto de Pesquisa "Regimes de Conhecimento e Formas de Vida na Universidade: experiências e experimentos cosmopolíticos em face de conhecimentos tradicionais e outras epistemologias do (in)visível", financiado pela Prograd-UFMG; Edital Universal Fapemig 2018; INCTI-UNB; Rumos Itaú Cultural 2018-2019 em interface com o "Programa de Extensão Imagem Canto Palavra no Território Guarani Kaiowá", financiado pelo Proext-MEC 2014-2015 e Rumos Itaú Cultural 2018-2019.


**Dados disponíveis em: http://6ccr.pgr.mpf.mp.br/institucional/grupos-de-trabalho/gt_crimes_ditadura/relatorio-figueiredo, onde também se encontra o Relatório Figueiredo na íntegra.


*** SANTOS, Antônio Bispo. Quilombos: modos e significações. Brasília, INCTI/UNB, 2015.


**** Discuti, em chave conceitual e analítica, as relações entre colonialidade, memória e os dispositivos de operação da necropolítica em MS a partir do contraste entre o Relatório Figueiredo e o chamado novo rural brasileiro apresentado na campanha publicitária "O agro é pop, o agro é tech, o agro é tudo"  em:  AUTORX E OUTRO, 2018.



Sobre a autora

Trabalha desde 2012 com a comunidade Kaiowá de Guaiviry Yvy Pyte Yjere e com a organização dos Aty Guasu Guarani-Kaiowá no Brasil com produções em cinema, artes visuais, redes digitais, editoriais e acadêmicas. Desde 2013 é impulsionadora do coletivo Bordados pela Paz Guarani e Kaiowá Brasil com o qual participou, junto com os cineastas de Guaiviry e o filme Ava Marangatu, da exposição How to talk with birds, trees, fish, shells, snakes, bulls and lionsno Hamburger Bahnhof Museum (2018/2019). Ganhou o Prêmio Funarte de Arte Contemporânea (2015). É co-organizadora do livro Ñe'e Tee Rekove/Palavra Verdadeira Viva (2020) junto com o casal de xamãs Valdomiro Flores e Tereza Amarília Flores  e co-autora do livro-objeto Tee: amboe oguahema omburahei ha oñembosarai haguã/Descendentes: Outros que chegam para rezar e brincar (2020) junto com Paulo Nazareth.



Palavras-chave


Comunicação Intermundos, Ensaio Visual, Guarani-Kaiowá

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DOI: https://doi.org/10.12957/logos.2020.54384

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