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RESEARCH ARTICLES

 

Meanings of work to nursing professionals at a teaching hospital

 

Joyce Mara Gabriel DuarteI; Ana Lúcia de Assis SimõesII

I Enfermeira. Mestre em Atenção à Saúde pelo Programa de Pós-Graduação em Atenção à Saúde da Universidade Federal do Triângulo Mineiro – Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Enfermeira no Hospital de Clínica da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Gerenciamento na Enfermagem e na Saúde. Uberaba, Minas Gerais, Brasil. E-mail: joyceduarte@hotmail.com
II Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Associada e Docente do Programa de Pós-Graduação em Atenção à Saúde e do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Uberaba, Minas Gerais, Brasil. E-mail: ana.assis@reitoria.uftm.edu.br
III Artigo extraído da dissertação de mestrado Motivação no trabalho de profissionais de enfermagem em um hospital de ensino, à Universidade Federal do Triângulo Mineiro, em 2012.
IV Apoio Financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.

DOI: http://dx.doi.org/10.12957/reuerj.2015.6756

 

 


ABSTRACT

Work is central to people's lives. This quantitative and qualitative case study aimed to understand the meanings of work to nursing professionals at a general teaching hospital. The 35 participants were nurses from the administrative team, nursing coordinators, clinical nurses, nursing technicians and nursing assistants. Semi-structured interviews were carried out from May to July 2012. Thematic content analysis of the interviews yielded the following categories: work in nursing, addressing liking, pleasure and satisfaction, particularly highlighting positive characteristics of nursing work; the content of the work, including descriptions of the work as routine, part of daily life or a livelihood; and challenges of the work, with reference to the difficulties and frustrations experienced. The nursing profession needs appreciation, recognition and stimulus for leadership roles.

Keywords: work; nursing; human resources; human resource administration in hospitals.


 

 

INTRODUÇÃO

O trabalho ocupa papel organizador na vida das pessoas. Ele é capaz de oferecer ao indivíduo possibilidade de adquirir formação técnica, política, cultural, estética e artística, além de constituir possível fonte de realização, de desenvolvimento de habilidades, de crescimento e satisfação 1-4.

Marx descreve o trabalho como característica humana, estruturado na forma de processo: o homem primeiramente o idealiza, emprega suas forças, apropria-se dos recursos da natureza e, então, transforma a realidade5.

Os sentidos e significados do trabalho sofrem influência direta de situações vividas cotidianamente pelo trabalhador2,3. A industrialização, a evolução tecnológica, as relações capitalistas modificaram o cenário e as condições de trabalho nas últimas décadas6,7.

O trabalho está presente em diversos segmentos, dentre desses destacamos a saúde. Instituições de saúde geralmente agregam grande quantidade de recursos humanos e, portanto, são diretamente influenciadas pelas mudanças atuais do cenário global que envolve o trabalhador2,6,7.

Diante das particularidades do trabalho em saúde, da complexidade das organizações hospitalares, da importância dos recursos humanos e do profissional de enfermagem no âmbito hospitalar, emergiu o seguinte questionamento: qual o significado do trabalho para os profissionais de enfermagem de um hospital?

Assim, foi proposto como objetivo para este estudoIII,IV: compreender os significados do trabalho para profissionais de enfermagem de um hospital de ensino.

 

REVISÃO DE LITERATURA

O trabalho na área da saúde possui particularidades: exige estreita relação entre trabalhador e cliente, as organizações de saúde geralmente possuem estrutura centralizadora e os processos de comunicação são pouco transversais. No entanto, o atual sistema de saúde brasileiro defende novos conceitos, ações e práticas humanas e participativas1,3.

Entre os profissionais da saúde destaca-se, por seu quantitativo, o profissional de enfermagem4, seu trabalho, em ambiente hospitalar, requer contato ininterrupto com o cidadão que recebe o cuidado e, assim, configura-se como um processo de trabalho de grande exigência6,8, condição que por vezes o expõe a situações de tensão, estresse e dor2,9.

Ademais, frequentemente, o trabalho em saúde e em enfermagem é associado a estresse, jornada extensa, esforço físico, relações interpessoais insuficientes e desvalorização profissional4,9,10.

Diante desse contexto, é descrito como mecanismo capaz de promover melhorias na qualidade de vida no trabalho: a motivação. Maiores níveis de motivação estão relacionados a menor rotatividade e redução do absenteísmo no trabalho; além de contribuir para o aumento da confiança, da satisfação daqueles que recebem os cuidados e, consequentemente, melhoria da qualidade da assistência à saúde10,11.

Segundo a teoria Motivação-Higiene, de Herzberg, Mausner e Snyderman3 os fatores responsáveis por elevar a satisfação, e consequentemente promover motivação, estão relacionados a características intrínsecas do trabalho, como realização da atividade de trabalho, bom desempenho, reconhecimento e/ou possibilidade de crescimento profissional. Enquanto a insatisfação associa-se a condições externas, do contexto e do ambiente de trabalho.

Quando há motivação, há maior estímulo à criatividade e à promoção de habilidades individuais, principalmente quando o indivíduo avalia a atividade realizada como possibilidade de alcance de necessidades pessoais que possam satisfazer também a necessidades da sociedade3.

Portanto, quando se conhece crenças e anseios do trabalhador podem ser planejadas estratégias de promoção da humanização e melhorias na qualidade de vida e satisfação no trabalho.

 

METODOLOGIA

Este foi um estudo de caso com metodologia quantiqualitativa, realizado em um hospital geral de ensino público, que comporta 290 leitos e oferece atendimento terciário a uma macrorregião de 27 municípios.

Na instituição coexistem os vínculos empregatícios: por regime de contratação, orientado pelas leis trabalhistas, e o regime jurídico único, para servidor público. Embora com mesmas atividades e local de trabalho, os profissionais vivenciam discrepâncias quanto à estabilidade e salário. Diante de divergências e incertezas no período em que se propôs o estudo, optamos pela inclusão dos servidores públicos.

Os participantes foram: enfermeiros assistenciais, técnicos e auxiliares de enfermagem, lotados na diretoria de enfermagem, que atuavam nas unidades de internação (clínica médica, clínica cirúrgica, ginecologia e obstetrícia, berçário, ortopedia, neuroclínica/neurocirúrgica, clínica pediátrica, unidade infecção hospitalar e onco-hematologia). Foram excluídos: profissionais em afastamento por licença a maternidade ou doença.

As unidades de internação correspondem a aproximadamente 70% dos leitos da instituição, possuem rotinas de trabalho semelhantes e clientes com necessidades de cuidado similares.

A pesquisa foi iniciada após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (CEP) da UFTM, sob o protocolo nº 2132.

Para a seleção dos entrevistados, foram formados três grupos, reunidos de acordo com atividades exercidas, conforme regimento interno do hospital. O grupo nomeado como coordenação incluiu enfermeiros da equipe administrativa e coordenadores de enfermagem das unidades hospitalares, esse totalizou nove participantes com funções predominantes de gerenciamento e educação. Enfermeiros assistenciais foram reunidos por executarem atividades de gerenciamento da equipe de enfermagem e do setor, educação e assistência direta ao paciente; o grupo reuniu um total de 14 profissionais. Técnicos e auxiliares de enfermagem formaram um único grupo, com 90 participantes, que realizavam atividades de assistência direta ao paciente.

Realizaram-se entrevistas semiestruturadas, durante os meses de maio a julho de 2012, com gravação do áudio e transcrição das falas. O roteiro, elaborado pela pesquisadora, foi submetido a pré-teste. O roteiro final investigava características sociodemográficas, e possuía as seguintes questões norteadoras: O que é o trabalho para você? O que representa o trabalho na sua vida?

O número de entrevistados foi determinado pelo critério de amostragem por exaustão para o grupo de coordenação e pelo critério de saturação teórica para os outros grupos10. Os profissionais receberam números aleatórios e foram sorteados utilizando o programa Statistical Package for the Social Science (SPSS) versão 17.0.

A análise das entrevistas aconteceu concomitantemente à coleta das informações, para atender ao fechamento amostral por saturação teórica. Amostras determinadas por este critério devem seguir uma sistematização para o tratamento e análise dos dados coletados. Esse critério determina o momento em que deve ser interrompida a captação de novos dados, visto que a inclusão de participantes pouco contribuirá para a melhoria da reflexão teórica10.

Os dados sociodemográficos foram analisados por estatística descritiva: frequência absoluta e relativa para as variáveis categóricas e, para as variáveis quantitativas, média, desvio padrão, valores de mínimo e máximo. Foi construído banco de dados em planilha eletrônica e as análises no programa SPSS versão 17.0.

Para atingir ao objetivo proposto, adotou-se a análise de conteúdo temática. A categorização seguiu o processo de classificação, a partir dos temas que surgiam do corpus de análise. A análise foi constituída pelas fases: pré-análise; exploração do material; tratamento dos resultados, inferência e interpretação11.

Foram realizadas 35 entrevistas, sendo sete enfermeiros da equipe administrativa e coordenadores das unidades de internação, 11 enfermeiros assistenciais e 17 técnicos e auxiliares de enfermagem. Os participantes receberam, como pseudônimo, uma letra e um número: enfermeiros da equipe administrativa e coordenadores recebiam letra C; enfermeiros assistenciais a letra E; técnicos e auxiliares de enfermagem a letra T, o número era atribuído de acordo com a ordem das entrevistas.

Com o amparo de outros estudos sobre o trabalho e considerando como referencial a Teoria Motivação-Higiene3, foram captados os temas abordados nas entrevistas e agrupados em três categorias gerais: categoria 1 - O trabalho na enfermagem; categoria 2 - O contexto do trabalho; categoria 3 - Desafios do trabalho.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Considerando o perfil dos 35 respondentes, encontrou-se média de idade de 42,17 anos; 24(68,6%) eram mulheres; 19(54,3%) declararam como estado civil casado; 11(31,4%) não tinham filhos; como escolaridade, a especialização foi apontada por 45,7% dos entrevistados. A média de anos de trabalho na instituição foi de 12,77 anos.

Emergiram das entrevistas três categorias.

Categoria 1 – O trabalho na enfermagem

Foi a categoria que incluiu o maior número de temas. Os entrevistados exaltaram questões subjetivas ligadas ao trabalho, relacionando-o a sentimentos positivos e a características intrínsecas da profissão de enfermagem. Falaram da paixão e do amor pela enfermagem como responsáveis pelo gostar de seu trabalho.

Amo o que eu faço, gosto do que eu faço! (C6)

[..] é uma coisa que eu gosto muito, eu tenho... se eu fosse começar de novo, do zero, começar hoje, eu começaria na mesma coisa que eu estou, entendeu?! Eu gosto muito! (T7)

Ao declarar gostar do seu trabalho, por vezes, os respondentes o associaram ao sentimento de prazer.

[...] é prazer também, porque eu gosto do que eu faço. Eu gosto bastante! (E3)

O gostar e o prazer como sentimentos que descrevem o significado do trabalho foram citados em outros estudos que investigaram profissionais de enfermagem, associados ao cuidado do paciente, a sucesso e a realização12-15. Quando o indivíduo fala do próprio fazer do trabalho, na maioria das vezes, ele o associa a sentimentos positivos4,14.

Os sujeitos também destacaram a profissão ao descrever motivos pessoais que os levaram a iniciar o trabalho na enfermagem ou permanecerem trabalhando nela.

É uma profissão que, no momento, eu não trocaria por outra. Eu gosto muito da Enfermagem. [...]. É uma profissão que eu me dou bem, eu me satisfaço com ela. Não vejo que e preciso trabalhar em outras coisas. (T2)

Os participantes falaram sobre o desejo de progredir na profissão; assim como identificação, realização e satisfação profissional como determinantes para continuidade dos estudos na área da enfermagem.

Tanto é que eu comecei em uma categoria, né, na hierarquia funcional, é... baixa e fui acrescendo aos poucos. Porque sempre me despertava, tanto a profissão quanto as coisas que eu poderia realizar. (C2)

O trabalho como fonte de satisfação pessoal e realização pessoal-profissional foi lembrado para descrever o trabalho de forma geral ou destacar a enfermagem.

[...] é claro que é uma realização pessoal também. Eu acho que a gente tem que ter um trabalho para realização pessoal. (T4)

O trabalho como fonte de realização e satisfação, tanto pessoal quanto profissional, foi também citado por profissionais de enfermagem em outros estudos. O trabalho deve estar relacionado ao alcance de objetivos pessoais, há a necessidade de envolvimento e motivação para que seja atribuído sentido à atividade 2,4,15,16.

Os entrevistados atribuíram significados ao trabalho que o exaltavam como fundamental, importante e/ou essencial à vida, assim como o associaram à motivação, parte ou complemento da vida humana.

É uma atividade essencial pro ser humano. (C5)

Uma vida sem trabalho não tem sentido, é um complemento da vida. (T15)

Foi salientado, também, o papel central do trabalho na vida das pessoas ao considerá-lo oportunidade para crescimento pessoal.

Nossa, trabalho é tudo na vida da gente, é através do trabalho que eu penso que a gente melhora como pessoa . (T17)

Em estudo com enfermeiros, o trabalho foi citado como componente central da vida por ser a essência e o fator mais importante para a pessoa14. Quando o indivíduo percebe o local de trabalho como local seguro, este se torna propício ao alcance de realizações e crescimento pessoal10.

Os participantes descreveram experiências comumente vivenciadas e interpretadas como gratificantes, mesmo quando o estresse era também citado como algo presente no cotidiano de trabalho.

O trabalho, digamos que o meu trabalho, que eu exerço, tem dia que eu acho assim, apesar de todo o estresse, é gratificante, principalmente, quando você pega um paciente grave, você consegue com que ele vai embora [...]. (E09)

A ambiguidade de sentimentos é uma constante nas pesquisas que tratam sobre o trabalho. Assim como mencionado pelos entrevistados, foram sentimentos abordados por outros autores estresse e prazer15, prazer e sofrimento2,17. Apesar dessa dicotomia de emoções, os sentimentos positivos recebiam maior destaque mesmo quando a condição estressante imposta pelo trabalho era descrita, associação feita também em um estudo com enfermeiras14.

O trabalho apareceu nas falas dos entrevistados com referência ao fazer o bem, ajudar ao outro, ser útil. Neste sentido, o trabalho em enfermagem referido como caridade foi citado por alguns entrevistados.

Então assim [...] eu acredito que assim, é uma forma de estar ajudando as pessoas em um momento que as pessoas precisam de carinho, de paciência, de dedicação, né, de conhecimento técnico na hora em que ela está fragilizada. (T11)

Ao entrevistar enfermeiros, autores identificaram o trabalho caracterizado como atividade capaz de oferecer prazer, quando associado à sua finalidade. De modo que, o trabalho oferecia satisfação por configurar oportunidade de contribuir para recuperação da saúde do outro14,15,17.

Em nossas entrevistas, os profissionais também falaram do trabalho na enfermagem, caracterizado por cuidado e contribuição à recuperação da saúde das pessoas e da comunidade. Enfermeiras japonesas valorizaram a natureza intrínseca de seu trabalho ao associar grande valor à possibilidade de proteger a vida e saúde do outro no exercício de seu trabalho10.

A possibilidade de se sentir útil e solidário ao outro pode ser fonte de conforto, satisfação e equilíbrio psíquico2. O servir como característica profissional retoma origens da profissão de enfermagem, e se repete no discurso deste profissional até hoje18.

O trabalho como meio que oportuniza a interação com outras pessoas foi também significado que recebeu destaque.

E trabalho é importante[...] para estar interagindo com as pessoas. (E11)

Então pra mim trabalho é isso, ele é muito mais que só um 'ganha pão', ele é uma forma de eu ficar próxima das pessoas. (T11)

O profissional de enfermagem utiliza seu conhecimento científico até mesmo nas situações em que identifica e oferece apoio psicológico ao paciente 18, momentos estes que propiciam o estabelecimento de relações sociais. O trabalho em saúde e enfermagem exige relacionamento entre o cuidador e o ser cuidado6.

As relações sociais no trabalho são resultado da convivência diária em um ambiente comum. A rede social formada é responsável pelo compartilhamento de informações, permite troca de experiências e crescimento pessoal, tendo, portanto, influência sobre o comportamento do indivíduo na organização 4,6,19. Consoante à interação social, houve também referência ao trabalho como uma segunda casa ou segunda família.

Categoria 2 – O contexto do trabalho

Reunimos os temas que tratavam de questões extrínsecas ao indivíduo na – nesta categoria, em que o trabalho recebeu significados objetivos e por poucas vezes associado a sua própria atividade ou profissão.

Faz parte da minha rotina diária. Faz parte da vida, assim como cuidar dos filhos, cuidar da casa. Faz parte da vida, tem aquela rotina do trabalho, o horário, né, de preparar, de vir. (E6)

A associação do trabalho à rotina de vida pareceu não envolver reflexão profunda sobre o real sentimento envolvido na execução dessa atividade. Os profissionais abordaram o trabalho também como meio de não ficar à toa, ocupar a mente e citaram a dificuldade de afastar-se do trabalho, como no caso de aposentadoria e férias. O trabalho preenche a maior parte do dia, em que a pessoa está acordada3.

Eu não me imagino sem trabalhar, você entendeu? Assim... às vezes as pessoas falam assim: ai, eu não vejo a hora de meu aposentar! Tudo bem que eu quero me aposentar, porque eu preciso do dinheiro, mas eu não me imagino sem trabalhar. (T7)

Tal descrição remete ao trabalho como uma necessidade que não permite escolha, como uma imposição. O ser humano precisa libertar-se da concepção de trabalho associado a dever ou obrigação, ponto de vista que configura o trabalho físico como uma maldição e punição ao homem3,20. Associado a esta interpretação, o trabalho é discutido a partir do que se chama de ócio criativo21.

A imposição do trabalho como centralizador da existência humana e as mudanças contemporâneas exigem das pessoas capacidade para administrar diversas atividades. O tempo livre e a atividade profissional passam a ser relacionados à ludicidade e criação. Trabalho e ócio são partes de uma unidade e não há mais a dicotomia trabalho e lazer, emprego e tempo livre21. É necessário que o trabalho passe a significar atividade livre, com base no tempo disponível e reais demandas humanas e sociais. A vida autêntica e com sentido requer a superação das imposições do mercado, do dinheiro e do capital 22.

No último relato, o entrevistado fez referência ao dinheiro. O trabalho descrito como fonte de remuneração, recompensa e status também foi referência frequente nas entrevistas.

É, não sei se é o primeiro... mas é uma forma de sobrevivência. Com o meu trabalho eu tenho sustentado minha família, meus filhos; pude pagar a faculdade para todos, eles se formaram, têm uma profissão, então é um meio de sobrevivência, também. (E2)

Considerando o modelo econômico capitalista vigente, trabalhadores dependem da remuneração de seu trabalho para viver, não podendo ser esta interface desconsiderada. Em qualquer atividade de trabalho, a remuneração terá importância para prover o próprio sustento e sobrevivência da família 10,16,20.

Quando a remuneração é considerada injusta e incompatível às expectativas e necessidade do trabalho, é descrita como fonte de insatisfação, e até de indiferença23,24. Pois ela viabiliza autonomia financeira, aquisição de bens e conquista de uma melhor qualidade de vida16,20.

Categoria 3 – Desafios do trabalho

Diante dos temas apontados pelos profissionais de enfermagem, merecem destaque os relatos sobre os desafios e dificuldades enfrentados no trabalho. Os profissionais descreveram empecilhos vivenciados, bem como as inadequadas condições de trabalho.

[...] lógico que há algumas limitações, às vezes a gente sai frustrada com algumas coisas que a gente deixa de fazer por dificuldade mesmo, por sobrecarga de trabalho. (E7)

A qualidade de vida no trabalho pode ser prejudicada pela sobrecarga de trabalho, que contribui para associação do trabalho à frustração, além de interferir na saúde física e psíquica do profissional. A sobrecarga, por vezes, está associada à falta de quantitativo adequado de profissionais, realidade nos hospitais públicos de ensino no Brasil, e pode contribuir para ocorrência de falhas na execução do trabalho15,17,23.

Enfermeiras italianas indicaram a falta de recursos humanos adequados como responsável por levar a exaustão emocional, enquanto em um estudo brasileiro, enfermeiras apresentavam maiores níveis de esgotamento profissional, diante da sobrecarga emocional4,25.

O sentimento de frustração também esteve presente nos depoimentos em que o trabalho passou a assumir posição secundária na organização da vida, após ser fonte de decepções.

Meu trabalho, não chega a ser tudo. [...] há um tempo era minha vida, eu me dedicava a fundo, vivia para cá, até passar por umas decepções, aqui dentro. Meu trabalho antigamente era minha vida, hoje em dia não, hoje em dia é um meio de alcançar meus objetivos. (T5)

Alguns profissionais citaram o relacionamento interpessoal, com destaque para os conflitos (com outros profissionais da equipe de saúde ou paciente/familiares), falta de colaboração dos colegas e de humanização. A equipe de enfermagem está frequentemente exposta a situações estressantes e o conflito será um estressor adicional.

Se as condições de trabalho e objetivos organizacionais não atendem às expectativas do indivíduo, este pode construir sentimento negativo sobre o significado do seu trabalho. Por isso, é importante adotar medidas que reduzam os fatores que possam prejudicar a saúde do trabalhador3,20.

Outros pontos negativos associados ao trabalho foram referências à desmotivação, falta de motivação, de reconhecimento e de incentivo à qualificação.

Eu gosto, mas ao mesmo tempo que eu gosto, eu acho, também, que a gente não tem valor e não é motivado. Isso, às vezes, atrapalha o andamento da gente; a gente, às vezes, desiste. Entendeu? Desiste porque a gente não tem estímulo, a gente não tem elogio, a gente não tem um curso[...] a gente não é qualificado. (E1)

A qualificação é vista como exigência da profissão e chance de crescimento profissional. A oportunidade para qualificação na enfermagem apresentou correlação direta e significativa com a disposição para contribuir com a organização, em estudo japonês10.

Os significados do trabalho mais valorizados pelos profissionais de enfermagem revelaram-se independentes da atividade exercida (assistencial, gerencial e assistencial ou predominante gerencial) e relacionavam-se ao compromisso profissional e à satisfação por atuar sobre a saúde do outro.

Para que seja possível atuar de forma a proporcionar melhoria efetiva das condições de trabalho de profissionais de enfermagem é necessário conhecer os significados, sentimentos e sentidos que eles atribuem à sua atividade. O compromisso profissional e orgulho pela profissão são valores importantes e que precisam ser cultivados e estimulados. Não se pode fechar os olhos para os problemas apontados, eles precisam ser discutidos e resolvidos.

 

CONCLUSÃO

Diante dos resultados encontrados, conclui-se que os significados atribuídos ao trabalho pelos profissionais de enfermagem destacaram o gostar do trabalho com carga de subjetividade e associação às características intrínsecas da profissão de enfermagem, como o cuidado e o cultivo de sentimentos de prazer e orgulho.

Houve maior objetividade e poucas referências à enfermagem, quando os profissionais descreveram o trabalho como parte da rotina de vida, fonte de sobrevivência ou citaram a relação dicotômica entre trabalho e descanso.

As dificuldades e desafios enfrentados durante a atuação no trabalho, como sentimentos negativos, por falta de reconhecimento e motivação, também estiveram presentes nos discursos dos profissionais de enfermagem, representando outro significado do trabalho.

As atividades de assistência e cuidado ao paciente pautado em conhecimento científico, como principal característica da profissão de enfermagem, merecem divulgação social e valorização. Por serem associadas pelos profissionais a sentimentos de orgulho, realização e satisfação, elas podem ser efetivas estratégias para a promoção da satisfação e reconhecimento no trabalho.

Enfermeiros assistenciais ou na função de coordenação realizam liderança das equipes de enfermagem. Com liderança, o enfermeiro pode atuar sobre a melhoria do bem-estar e clima de amizade na equipe, prover reconhecimento, administrar conflitos e estimular a construção de significados positivos para o trabalho.

É importante que o trabalho possa constituir fonte de sentimentos positivos e favoreça o alcance de realização e crescimento pessoal. A sobrecarga de trabalho e a falta de condições adequadas, reforçam a percepção de reduzido reconhecimento e são questões que precisam ser discutidas e combatidas com ações resolutivas e envolvimento de todos os segmentos - técnicos/auxiliares de enfermagem, enfermeiros, coordenadores, diretoria de enfermagem e gestores.

 

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