Chamada de trabalhos para o Dossiê: Transnacionalismo científico no século XX: cientistas, instrumentos e ideias

Transnacionalismo científico no século XX: cientistas, instrumentos e ideias

Org. Dr. Heráclio Tavares (Pós-doutorando no Instituto de Física da USP)

 

Se analisarmos a ontologia das práticas científicas, perceberemos que ela é estruturada a partir de diferentes características constitutivas. Não há dúvida que o caráter dedutivo das operações matemáticas foi e é utilizado em conjunto com o método indutivo para o estabelecimento do pilar da ciência moderna (CHALMERS, 1993). Podemos questionar como algumas etapas da indução são conduzidas, como faz Ludwik Fleck ao tratar a formação que recebemos do coletivo de pensamento que fazemos parte para sermos capazes de perceber as formas das entidades que analisamos, por exemplo, ao microscópio (FLECK, 1935).

Ampliando o questionamento sobre a indução, a historicidade da ideia de objetividade (DASTON & GALISON, 2010) mostra que foi somente há pouco mais de meio século que o manuseio correto das operações lógico matemáticas passou a assegurar, em grande medida, a validade de enunciados científicos sobre a realidade. Excluímos os sentidos para tratar dimensões subatômicas e elegemos operações matemáticas com resultados probabilísticos como critérios de validação. Critérios estes compreendidos apenas pelos iniciados pertencentes aos círculos de investigação mais restritos à área estudada.

Estes questionamentos aos procedimentos indutivos enriquecem o que sabemos sobre a dimensão interna da prática científica e mostram que, com o tempo, algumas áreas da ciência vêm se ultra especializando, afastando-se ainda mais dos “homens comuns”, dificultando a justificação e apoio social à ciência. No limite, este encastelamento científico dá margem a discursos como o criacionismo e terraplanismo. A história das ciências na sua dimensão comumente chamada de “externalista” pode contribuir, em alguma medida, na oferta de uma possível solução a este problema. Isso não significa defender a simplificação da ciência, mas sim reconhecer que a necessidade de “[...] reconciliação entre exatas e humanas terá um papel estratégico nessa empreitada” (ROQUE, 2019). Neste sentido, como a prática científica nunca é socialmente isolada, podemos ajustar nosso foco de análise para problematizar, por exemplo, aspectos do caráter coletivo da ciência.

A ideia é promover uma aproximação aos não iniciados nos aspectos “internos” da ciência, mas que possuem um interesse legítimo nas conexões “externas” que ela possui. Por mais que existam coletivos de pensamento locais (o laboratório, o departamento, o grupo de estudo etc.) participamos, ao mesmo tempo, de coletivos científicos maiores, de alcance nacional, continental e mundial demarcados, usualmente, por fronteiras de Estados nacionais. Entender as conexões entre os diferentes níveis de coletivos de pensamento que participamos pode trazer à luz uma melhor compreensão das trajetórias dos elementos de ciência que circulam por eles.

Alguns destes elementos como artigos, pequenos instrumentos, modelos, teorias, ou os próprios cientistas transitam pelo mundo e carregam consigo um conjunto de técnicas, de ideias, de métodos que requisitam sua presença para serem mais bem entendidos. Aqui, os elementos de ciência são móveis e portadores de um conjunto de saber-fazer. Outros, devido à sua estrutura e/ou imobilidade, como, por exemplo, aceleradores de partículas, biomas específicos, documentos depositados em arquivos etc. obrigam os cientistas a se deslocarem para utilizá-los como ferramentas de análise ou como objetos de estudo em uma dada etapa de suas investigações.

Esta circulação de elementos de ciência não necessariamente ocorre com intenções estritamente científicas. Por vezes, o interesse científico se mistura ao político, ao militar ou ao que visa o lucro financeiro, o que não impede que estas dimensões atuem em conjunto de uma só vez (KRIGE, 2019). Este é o ponto partilhado entre o iniciado e o não iniciado em ciência, na medida em que os interesses mencionados dizem, ou deveriam dizer, respeito a todos os cidadãos.

Ao longo do século XX, vimos este trânsito de elementos de ciência acontecer com alguns momentos de pico de fluxo. Nos anos 1930, por exemplo, físicos europeus buscavam universidades no continente americano para fugir do nazismo e do fascismo e terem possibilidade de uma vida digna, atuando em suas áreas de formação. Na década seguinte, uma das chaves de compreensão do intercâmbio de cientistas era a nova ordem mundial que se estabeleceu no pós-Guerra, capitaneada pelos EUA, quando o trânsito de cientistas podia estar ligado a interesses geopolíticos travestidos de cooperação. Por fim, mas sem esgotar os exemplos que podem ser mencionados, a concepção de Big Science, que ganhou impulso a partir dos anos 1950 (GALISON & HEVLY, 1992), contribuiu para que o transnacionalismo na ciência ganhasse força na formulação de projetos de pesquisa envolvendo cientistas de diferentes nacionalidades e com grande aporte financeiro.

Temos como objetivo nesta edição de “Em Construção” convidar pesquisadores a enviarem trabalhos que busquem uma melhor compreensão histórica a respeito do transnacionalismo de elementos de ciência no século XX. Se pensarmos nos historiadores das ciências que investigam estes trânsitos, perceberemos que seus itinerários por arquivos em diferentes países seguem a mesma lógica de seus objetos de estudo. Entender como as racionalidades dos historiadores da ciência estrangeiros operam no Brasil e a dos brasileiros em arquivos no exterior é uma área ainda pouco explorada, vinculando-se à História da historiografia da ciência (SECORD, 2013). Relatos curtos de percursos de pesquisas por arquivos, tratando as dificuldades, os métodos, as “descobertas”, potenciais coleções e/ou fundos a serem explorados por nossos pares no campo da História das Ciências também serão bem-vindos nesta chamada, bem como resenhas e descrições de fontes – até quatro (04) laudas – sobre o tema.

Prazo para o envio de trabalhos: 01/12/19

Previsão da publicação: 05/2020

Mais informações de envio: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/emconstrucao/about/submissions#authorGuidelines

 

Referências

CHALMERS, A. F. O que e’ ciência afinal? São Paulo: Brasiliense, 1993.

DASTON, Lorraine; GALISON, Peter. Objectivity. New York: Zone Books. 2007.

FLECK, Ludwik. “Scientific observation and perception in general”. In: COHEN, S.; SCHNELLE, T. Cognition and facts: materials on Ludwik Fleck. Dochdrecht: D. Reidel, 1986, pp. 59-78.

GALISON, Peter. HEVLY, Bruce William. Big Science: The Growth of Large-scale Research. Stanford, Calif: Stanford University Press, 1992.

KRIGE, John (editor). How knowledge moves. Chicago: The University of Chicago Press, 2019.

ROQUE, Tatiana. “Intelectuais de internet chegam ao poder: a luta de classes do saber”. In: Le Monde, 06 de fevereiro de 2019.

SECORD, James. “Knowledge in Transit.” In: Isis, Vol. 95, No. 4, December 2004, pp. 654-672.