Estudos e Pesquisas em Psicologia
2026, Vol. 26. e92191, doi:10.12957/epp.2026.92191
ISSN 1808-4281 (online version)
PSICANÁLISE
O Não Querer Saber e Ver: População em Situação de Rua e Segregação
Not Wanting to Know and See: Homeless Population and Segregation
El No Querer Saber ni Ver: Población en Situación de Calle y Segregación
Vanessa Ayres Tibiriçá a
, Maria Gláucia Pires Calzavara a
a Universidade Federal de São João del'Rei, São João del'Rei, MG, Brasil
Endereço para correspondência
RESUMO
Este artigo é resultado de uma pesquisa de mestrado que investigou a prática psicanalítica na clínica em contextos de vulnerabilidade social. Parte-se da análise da população em situação de rua enquanto Sintoma Social - manifestação que expõe as fraturas do coletivo e emerge como tentativa de simbolizar o impossível de ser enunciado no laço social. Articulando o conceito de sintoma social com segregação o texto instiga os questionamentos: que verdade insuportável esse sintoma encobre? O que não queremos ver quando segregamos esses sujeitos em situação de rua? E mais radicalmente: que aspecto de nossa própria humanidade recusamos enxergar quando relegamos esses sujeitos às margens do espaço social? Deve-se pensar o sujeito não somente na esfera singular, mas também na esfera social e pública. Por isso, concluímos, que a psicanálise não se limita a ser uma prática clínica, mas se expõe como um campo de reflexão crítica sobre as ideologias que sustentam a segregação e a exclusão.
Palavras-chave: psicanálise, sintoma social, segregação, população em situação de rua.
ABSTRACT
This article is the result of a master's thesis research project that investigated psychoanalytic practice in clinical settings in contexts of social vulnerability. It starts from the analysis of the homeless population as a Social Symptom - a manifestation that exposes the fractures of the collective and emerges as an attempt to symbolize the impossible to be enunciated in the social bond. By articulating the concept of social symptom with segregation, the current work raises questions: what unbearable truth does this symptom hide? What do we not want to see when we segregate these subjects in a homeless situation? And more radically: what aspect of our own humanity do we refuse to see when we relegate these subjects to the margins of social space? One must consider the subject not only in the singular sphere, but also in the social and public spheres. Therefore, we conclude that psychoanalysis is not limited to being a clinical practice, but exposes itself as a field of critical reflection on the ideologies that sustain segregation and exclusion.
Keywords: psychoanalysis, social symptom, segregation, homeless population.
RESUMEN
Este artículo es resultado de una investigación de maestría que investigó la práctica psicoanalítica en la clínica en contextos de vulnerabilidad social. Se parte del análisis de la población en situación de calle como Síntoma Social: una manifestación que expone las fracturas del colectivo y surge como un intento de simbolizar lo imposible ser enunciado en el lazo social. Articulando el concepto de Síntoma Social con la segregación, el texto suscita los siguientes cuestionamientos: ¿Qué verdad insoportable encubre ese síntoma? ¿Qué es lo que no queremos ver cuando segregamos a estos sujetos en situación de calle? Y, de forma más radical: ¿qué aspecto de nuestra propia humanidad nos negamos a ver cuando relegamos a estos sujetos a los márgenes del espacio social? Se debe pensar al sujeto no solo en la esfera singular, sino también en la esfera social y pública. Por eso, concluimos que el psicoanálisis no se limita a ser una práctica clínica, sino que se expone como un campo de reflexión crítica sobre las ideologías que sostienen la segregación y la exclusión.
Palabras clave: psicoanálisis, síntoma social, segregación, población en situación de calle.
A partir de uma pesquisa 1 sobre a clínica psicanalítica com pessoas em situação de rua, encontramos, nas noções de segregação e de sintoma social, reflexões críticas, face à sociedadevigente de nossa época. O processo de segregação social, aliado ao individualismo contemporâneo, não apenas distancia os sujeitos, mas institucionaliza a desumanização do outro, transformando a desigualdade em paisagem urbana invisível. Deste modo, conforme crescem, as cidades se tornam cada vez mais divididas, e, nesse cenário, há justamente uma grande incidência de População em Situação de Rua (PSR), condição que se expandiu nos últimos anos. Mais especificamente, em 2024, o número de pessoas vivendo em situação de rua no Brasil chegou a 327.925 - um aumento de 25% em relação ao ano anterior (Cruz, 2025).
A implementação e o avanço das Políticas Públicas no Brasil voltadas para a população em situação de rua têm sido um tema de crescente atenção nas últimas décadas. A partir da Constituição de 1988, que garantiu direitos sociais e dignidade humana a essa população, o país começou a desenvolver uma série de iniciativas para atendê-los. Contudo, as políticas públicas para o amparo a essa população entraram em vigor somente em outubro de 2004, com a Resolução CNAS n. 145 (2004), que aprovou a Política Nacional de Assistência Social e garantiu o atendimento da PSR nos serviços de assistência social.
No entanto, a despeito das políticas públicas que se referem à População em Situação de Rua e das demais resoluções, bem como das portarias, o que se pode observar é que, ao andar pelas ruas, inevitavelmente nos deparamos com um grande número de pessoas ainda nesta situação. Ou seja, embora haja progressos significativos nas políticas públicas para a população em situação de rua no Brasil, a luta por direitos e dignidade continua exigindo um esforço conjunto de governo, sociedade civil e comunidade.
Essa população de sujeitos na rua enfrenta não apenas a violência física, como a exercida por forças policiais, mas também a violência simbólica, manifestada na invisibilidade, na indiferença, na exclusão, na humilhação e em outras formas de opressão (Broide & Estivalet Broide, 2020; Rosa, 2018). Assim, apesar dos avanços, ainda existem muitos desafios a serem enfrentados, como a falta de recursos, a necessidade de capacitação dos profissionais envolvidos no cuidado e assistência a essa população, e a resistência de algumas comunidades em aceitar a presença de pessoas em situação de rua.
Como bem aponta Rosa (2018), essas pessoas vivem em "situações limítrofes entre a condição humana e a desumanização" (p. 11), um limiar que, conforme Mattos e Ferreira (2004) demonstram, é perpetuado pelas representações sociais construídas a respeito das pessoas em situação de rua que reforçam a ideia de subjetividades vinculadas a preceitos negativos, o que prejudica a manifestação de subjetividades autônomas. É precisamente essa contradição estrutural que nos leva a analisar a PSR enquanto sintoma social, na acepção psicanalítica do termo: um fenômeno que, transcendendo a dimensão individual, revela as fissuras do coletivo. Ao articular os conceitos de sintoma social e de segregação, nosso intento neste artigo é provocar os questionamentos: que verdade insuportável esse sintoma encobre? O que não queremos ver quando segregamos esses sujeitos em situação de rua? E mais radicalmente: que aspecto de nossa própria humanidade recusamos enxergar quando relegamos esses sujeitos às margens do espaço social?
População em Situação de Rua como Sintoma Social: Uma Expressão do Mal-Estar Coletivo
Diferentemente de outros campos do conhecimento, o sintoma para a psicanálise não diz de uma doença, mas sim de um sujeito. Tanto nas elaborações de Freud quanto de Lacan vemos avanços na conceituação do sintoma conforme o progresso de seus trabalhos. Em Freud (1996) o sintoma se apresenta como uma formação do inconsciente, que se constitui visando à realização de um desejo recalcado; é uma formação do inconsciente singular que oculta a verdade e indica uma satisfação pulsional.
Já, em Lacan (2002), na última conferência realizada em Roma em 1974, chamada "A Terceira", ao caracterizar o impossível como dimensão do Real, proclama o sintoma como "o que vem do Real" (p. 9), como "algo que antes de tudo não cessa de se escrever do Real" (p. 15). Dessa forma, o sintoma para Lacan oculta a verdade do sujeito - Simbólico - e aponta para um modo singular de satisfação pulsional - Real. Lacan relata tanto a dimensão simbólica do sintoma, articulada à dimensão significante, quanto o real do sintoma, como um resto do que se repete e que não elabora sentido e representação.
Neste ponto, fundamentado nas concepções de sintoma, principalmente com o sintoma articulado com a verdade, Lacan (2015) no ano de 1974-75 (Seminário 22) afirma que "a noção de sintoma foi introduzida muito antes de Freud por Marx" (p. 15, tradução nossa). O psicanalista considera Karl Marx como o inventor do sintoma devido à sua análise crítica das estruturas sociais e econômicas. Ao fazer esta afirmação, Lacan destaca a importância da dimensão social e política na produção do sofrimento psíquico. Assim, a proposta de Lacan sugere que a prática analítica deve estar atenta às lutas sociais contemporâneas e ao papel do analista como alguém que deve intervir nas questões sociais e não apenas no âmbito individual.
Tanto o sintoma individual quanto o social são cruciais para a compreensão do sujeito em sua totalidade refletindo as complexas interações entre o desejo pessoal e as estruturas sociais mais amplas. A função do sintoma na psicanálise não se limita ao sujeito. Ela também é um reflexo das condições sociais e históricas em que o sujeito está inserido. Segundo Vorcaro (2004), o:
sintoma social situaria assim um campo do particular, entre o universal do mal-estar e o singular do sintoma subjetivo: metáfora partilhada por um grupo do mal-estar, por meio de uma modalidade de gozo inscrita, submetida e provocada pelo discurso dominante de uma época (p. 62).
Por isso, o sintoma social, na perspectiva psicanalítica, não se refere a um diagnóstico médico ou a um problema individual, mas sim a uma expressão de mal-estar que se manifesta em um nível coletivo (Greiser, 2008). Žižek (1996) expõe, de forma sucinta, que o sintoma social se mostra como uma negação interna à universalidade do coletivo; algo que aparece do próprio social, mas como um desequilíbrio que irá expor a incoerência da universalidade. Na elaboração de Žižek (1996), podemos inferir que o sintoma social se refere aos problemas, às contradições e aos conflitos visíveis numa sociedade, que se manifestam de várias formas, como desigualdade, pobreza, agitação política e tensões culturais. Esses sintomas, segundo o autor, não são isolados ou acidentais, isto é, eles são indicativos de questões sistêmicas mais profundas dentro da estrutura social e econômica. O autor também enfatiza o papel ideológico dos sintomas sociais. Ele os coloca não somente como indicadores de problemas, mas também como ferramentas que podem servir para manter o status quo, e que podem ser enquadradas ou interpretadas para apoiar as estruturas de poder existentes (Žižek, 1996).
Desta forma, defendemos que o sintoma social emerge enquanto real da estrutura social. Por isso, muitos, para não lidar com a realidade desse sintoma social, representado aqui pela População em Situação de Rua, acabam ignorando essas pessoas e, desse modo, invisibilizando-as. As ruas se tornam lugares de passagem quase sempre apressados em que as pessoas se ignoram mutuamente, negligenciando as necessidades umas das outras. Os sujeitos que estão em situação de rua vão aos poucos desaparecendo, sendo lembrados apenas quando geram um incômodo à comunidade e um desconforto aos outros que passam por eles.
Frente a esse sintoma social e seu crescente número, a rua pode ser compreendida como uma instituição que reflete e reproduz as condições de marginalização e de segregação. Por isso, a PSR como sintoma aparece em nossa sociedade como uma condição de risco permeada por estigmas e preconceitos. Essas marcas, intensificadas por vulnerabilidades sociais, reforçam a segregação e dificultam que esses sujeitos expressem suas subjetividades de forma autônoma.
Dessa forma, sustentamos que o sintoma social emerge do real da estrutura social, visto que ele surge como um destino ao impossível de se dizer no laço social. Assim como o sintoma individual singulariza o sujeito, o sintoma social particulariza uma sociedade. Vorcaro (2004) aponta que "o que define essa resposta metafórica (o sintoma como sintoma social) seria a inscrição específica da articulação discursiva própria a tal sintoma no discurso social" (p. 64). Logo, esse sintoma é uma manifestação que revela processos sociais e particulares, de um porvir como sujeito, demonstrando que são indicadores visíveis de contradições e de tensões mais profundas, muitas vezes recalcadas numa sociedade. Desta forma, por meio de nossa pesquisa, nos aproximamos de uma possível resposta à pergunta sobre qual verdade esse sintoma social oculta. Observamos que a População em Situação de Rua como sintoma social encobre justamente a verdade de nossa falha e incapacidade como sociedade - ao mesmo tempo que a denuncia. Evitamos olhar para a PSR para não enfrentar nossa própria incompletude como sociedade fragilizada e nossa impotência como sujeitos. Diante disso, consideramos relevante trabalhar o conceito de segregação e elucidar sua relação enquanto prática, como um efeito vivido pelo sujeito que compõe a População em Situação de Rua.
Segregação: Recusa do Intolerável da Diferença?
O conceito de segregação na psicanálise abrange várias dimensões, incluindo aspectos culturais, sociais e individuais. Ela pode ser entendida por meio de diferentes conceitos e teorizações que se interrelacionam, proporcionando também uma análise das dinâmicas sociais e subjetivas que configuram experiências de exclusão e de marginalização. Na psicanálise, o conceito de segregação ganha contornos complexos e multifacetados, extrapolando a mera ideia de separação física. Ele se entrelaça com as dinâmicas do inconsciente, as relações objetais e a própria constituição do sujeito.
Logo, ao contrário do que acredita o senso comum, a psicanálise não trata a segregação necessariamente como algo negativo. Nesse campo, o conceito de segregação é abordado tanto em sua dimensão estrutural quanto como efeito. No texto "Aspectos da Segregação", Sidi Askofaré (2009) nos apresenta a noção de causa e a noção de efeito elaborada por Lacan sobre a segregação. O autor destaca o conceito de segregação em três eixos: o princípio da segregação, o efeito da segregação e a prática segregativa.
Para explorar melhor o primeiro eixo do texto de Askofaré (2009), precisamos relembrar uma colocação de Lacan (1992), em O Seminário 17: O Avesso da Psicanálise. Ele diz:
Só conheço uma única origem da fraternidade . . . , é a segregação . . . Simplesmente, na sociedade . . . tudo que existe se baseia na segregação, e a fraternidade em primeiro lugar. Nenhuma outra fraternidade é concebível, não tem o menor fundamento, como acabo de dizer, o menor fundamento científico, se não é por estarmos isolados juntos, isolados do resto. Trata-se de captar sua função, e de saber por que é assim. Mas, enfim, salta aos olhos que é assim, e fingir que isto não é verdade deve ocasionar forçosamente alguns inconvenientes (pp. 120-121).
Nessa passagem, Lacan nos mostra que, para haver fraternidade, primeiramente há segregação. Para nos identificarmos fraternos, precisamos identificar o não fraterno. O isolar junto, carece do isolar o resto, por isso Askofaré (2009) afirma que "a fraternidade é o feito do significante" (p. 347). Ou seja, com base no mito da ordem primeva, Lacan esclarece que o fraterno não se caracteriza por questões biológicas, por laços sanguíneos e hereditários. No mito, os irmãos apenas se reconhecem como tal após o assassinato do pai. Assim, a fraternidade se dá pelo significante; ela não é posta organicamente pelo biológico, mas sim por um simbólico que os torna irmãos.
Em vista disso, compreendemos a segregação como um processo primevo em relação à fraternidade e à dinâmica social. É, nesse sentido, que reconhecemos a noção de segregação como causa - a causa da fraternidade. E é a partir desta noção que tomamos a segregação estrutural. Askofaré (2009) afirma que a segregação estrutural surge "a partir de uma dupla referência ao significante-mestre, S1, e ao gozo, . . . não são senão tipos de arranjos em torno de um S1 ou de modos rígidos de tratamento do gozo que não se põe senão se opondo" (p. 348). Ou seja, a segregação estrutural diz da posição constitutiva dos sujeitos e dos discursos, na medida em que ambos se ordenam por meio do significante-mestre e de modos de gozo. Ela é fundante da ordem simbólica e do laço social, revelando como a exclusão é inerente à estruturação do sujeito e da cultura.
Na segregação como efeito, Askofaré (2009), apoiado em Lacan, descreve a divisão e a separação, demonstrando que pontos específicos, como cor da pele, questões econômicas e sociais, individualizam pessoas em grupos - o que, para ele, é notado não só na formação de territórios, mas também dentro da academia com as diversas especializações de saberes. Aqui destaca-se que a segregação não deve ser confundida com discriminação ou exclusão, embora essas ideias estejam interligadas. Neste ponto, ela deve ser vista como um efeito da organização social e do discurso científico que tende a marginalizar certos grupos ou indivíduos. Isto é: Askofaré (2009) destaca que a segregação surge enquanto um processo que vai além da mera discriminação, ultrapassando a desigualdade e a violência, configurando-se como um modo de lidar com a diferença. Esse processo reduz os sujeitos a uma identidade específica, dissolvendo sua singularidade no grupo: o 'negro', o 'pobre', o 'morador de rua'.
Gayatri Spivak (2010), no livro Pode o Subalterno Falar?, critica essa visão homogeneizante que reduz a diversidade dos sujeitos a uma identidade geral. Para ela, ao reduzirmos os sujeitos à esfera da identidade grupal, desconsideramos questões ideológicas que impactam tanto a história econômica quanto a intelectual, além de fortalecermos e de produzirmos mais violências epistêmicas sobre esses sujeitos. Por isso, Spivak (2010) nos alerta para o risco de, ao criarmos determinados conceitos, acabarmos por explorar ideologicamente os sujeitos por meio do discurso, colocando-os em uma macroestrutura enquanto "os subalternos", sem considerar sua microestrutura enquanto sujeitos singulares, com sua própria subjetividade e percepções.
Há, então, um conflito. De um lado, um sujeito único e independente do local onde nasceu, da sociedade em que vive, do tempo histórico a que pertence; do outro, o sujeito dividido, marcado pela sua localidade, pela sociabilidade e pela temporalidade. A autora destaca o sujeito dividido tentando nos mostrar que, da mesma forma que não há uma história única e verdadeira (pois dizer que só existe uma versão dos acontecimentos é uma violência epistêmica), não há um indivíduo único e verdadeiro, na medida em que não existe um sujeito puro e livre de interferências externas e internas. Ainda no livro, Spivak (2010) tenta evidenciar que o subalterno não é uma identidade, e sim uma posição, mostrando que os sujeitos subalternos não são uma classe monolítica, mas sim heterogêneos e diversos, por isso unificá-los em uma única representação reforça sua opressão, seu silenciamento e seu apagamento.
Sobre esta questão, Lacan (2003a) em "Alocução sobre as Psicoses da Criança", apresenta como um discurso científico universal produz uma "criança generalizada", produz sujeitos universais. Lacan mostra que essa criação de sujeitos universais em grupos estimula a segregação, ou seja, é uma generalização que segrega. Em suas palavras, essa criança generalizada "assinala a entrada de um mundo inteiro no caminho da segregação" (p. 367). Nesse sentido, à medida que idealizamos discursos como "somos todos iguais" procurando uma generalização, nós nos movemos rumo à segregação do singular - uma generalização que segrega o singular. Lacan argumenta que a segregação é uma consequência da universalização promovida pela ciência moderna, que cria um sujeito "puro", isolado em sua busca por conhecimento. Esse sujeito é, paradoxalmente, uma construção que ignora a complexidade da experiência humana e suas dimensões fantasmáticas. A segregação se torna, assim, um mecanismo que responde à necessidade de controle social e à manutenção da ordem (Darriba, Brunhari, & Pereira, 2021). Assim, o que Lacan (2003a) observa e o que Askofaré (2009) elucida é o gozo como ordenação social que surge na relação entre o discurso da ciência, com a ideia de um sujeito universal, e o discurso do capitalismo, com a globalização neoliberal.
Colette Soler (1998), no texto "Sobre a Segregação", escreve que
a universalização é uma universalização que não passa pelo significante mestre; é uma universalização que passa pelo que denominamos, um pouco apressadamente de, o mercado. Ou seja, que passa por um dever que não o da proliferação dos valores dos ideais, mas um dever real do manejo dos meios econômicos (p. 45).
Dessa forma, essa universalização produz sujeitos que aspiram ao gozar semelhante. Portanto, quando algum sujeito sai dessa organização com um gozo que resiste ao universal, há consequências. Askofaré (2009) apresenta três consequências referentes à generalização: 1) "a multiplicação, o desordenamento, o ‘erratismo' dos objetos a" (p. 351); 2) "o advento de um ‘novo' mal-estar na civilização universal" (p. 351); 3) "a emergência de uma prática nova, a prática segregativa" (p. 351). É a terceira que nos interessa neste artigo: a segregação como efeito da ciência moderna. É com essa ideia que o autor aborda a prática segregativa.
Para pensarmos a prática segregativa, fazemos inicialmente uma referência a um pensamento de Arendt (2012) sobre os campos de concentração. Para ela, os campos de concentração "destinam-se não apenas a exterminar pessoas e degradar seres humanos, mas também servem à chocante experiência da eliminação, em condições cientificamente controladas, da própria espontaneidade como expressão da conduta humana, e da transformação da personalidade humana numa simples coisa" (p. 582). O exemplo dos campos de concentração nos leva a refletir sobre a segregação para além do simples afastamento. Aqui, a segregação vai ainda mais longe: ela opera como um processo de esvaziamento do sujeito, em que há uma negação absoluta da condição humana reduzindo a vida do sujeito a um número marcado no corpo.
Lacan (2003c) reflete sobre os campos de concentração e sua relação com a segregação na "Proposição de 9 de Outubro de 1967 sobre o Psicanalista da Escola", apontando tratar-se de uma "consequência do remanejamento dos grupos sociais pela ciência, e, nominalmente, da universalização que ela ali introduz" (p. 263). Em outras palavras, os campos de concentração emergem como um efeito desse remanejamento social impulsionado pela universalização científica. Sendo assim, os campos de concentração revelam a lógica social moderna. Do mesmo modo, em uma nota de rodapé, no texto "Prefácio a uma Tese", encontrado no Outros Escritos, ele afirma que "a recusa da segregação está naturalmente no princípio do campo de concentração" (2003b, p. 392). Esta é uma proposição crítica pois, a tentativa de eliminar totalmente a segregação pode gerar uma violência ainda maior. Lacan também alerta para o fato de que nossa sociedade mercadológica, baseada em tal universalização de uma ciência sem reflexão política e ética, pode acabar por expandir práticas de segregação em novos modos de campos de concentração. Assim, em Lacan, a segregação aparece como causa da fraternidade, sendo a sua recusa o princípio que fundamenta práticas segregativas como "campos de concentração".
Desta maneira, as práticas segregativas de que Askofaré (2009) trata no último eixo como efeito de um "tratamento do real pelo simbólico" feito pelo "discurso da ciência e o sujeito moderno" (p. 351) podem ser entendidas como processos, pelos quais tomamos a diferença que nos causa angústia, e que não conseguimos assimilar, por isso segregamos. É uma prática de isolamento do Real, como afirma Colette Soler (1998), "a segregação se apresenta como uma via de tratar o insuportável, o impossível de suportar" (p. 46). A questão da População em Situação de Rua elucida esse ponto. Como apresenta Martins (2016), a PSR "coloca no corpo dos seus representantes uma marca do limite, de um estado limite do qual não queremos, não desejamos, não podemos nos aproximar, que assegura um lugar para nós, mantendo distante um lugar para eles" (p. 14). A segregação seria um modo de lidarmos com o real inominável que se apresenta a nós como estranho.
Em vista disso, atualmente encontramos práticas segregativas que se tornaram processos insuportáveis, tão insuportáveis quanto visíveis. A segregação não aparece como mera discriminação; é mais do que isso, é a colocação do outro em uma posição de subalternidade, é uma ideia e uma convicção que trata o conflito entre as diferenças, produzindo uma não identidade reduzida a uma mesma massa uniforme, homogênea e, a partir daí, segregada. Ali, diante dessa aproximação, onde encontramos o insuportável que causa nossa angústia, que não cabe nas nossas fantasias e nas nossas estruturas de ficção e de gozo, respondemos isolando o real, segregando-o.
Contudo, nisso há sempre um problema, porque, à medida que tentamos sufocar esse Real, ele retorna em repetição, em forma traumática. Com esse retorno, contudo, há possibilidades de tratamento do traumático: o ciclo pode prosseguir, retornando a ser segregado; o ciclo pode se cessar de forma eliminatória, extinguindo o traumático; ou o ciclo pode se cessar de forma resolutiva, lidando com o traumático. Nesse ponto, nos questionamos, em nossa sociedade qual é a resposta que damos ao que repete da segregação?
Resposta à Segregação: A Rejeição e Eliminação de Vidas Precárias
A filósofa Judith Butler (2019; 2018), no decorrer de suas obras, teoriza seu pensamento a respeito do conceito de vida, questionando o que faz uma determinada existência humana ser considerada como vida válida e outra não. Em seus trabalhos, encontramos conceitos significativos que fundamentam e circundam a ideia de vidas precárias, sendo um dos mais importantes a concepção do reconhecimento. Para Butler (2019; 2018), o sujeito só existe por meio do reconhecimento. Ela argumenta que o sujeito se constitui como tal no momento em que estabelece uma relação com o outro, sendo reconhecido por este como um sujeito, em uma premissa de alteridade. Ou seja, para a autora, o sujeito é produzido na ação da relação, e o movimento dessa ação implica em suporte ao outro, reconhecendo a alteridade. Ao considerar o outro, o sujeito se afirma como tal. Para Butler, somente nos entendemos como sujeitos quando somos reconhecidos como 'outros'. Assim, é na relação com o outro, através de uma cena de reconhecimento que supõe uma alteridade, que haverá a identificação de alguém como sujeito e, consequentemente, o reconhecimento de sua existência. É importante destacar que, aqui, esse reconhecimento do outro para a existência do sujeito diz da relação de fraternidade, e não da constituição de sujeito.
Butler (2019; 2018) reflete sobre como, na cena de reconhecimento, somos capazes, em certos momentos, de reconhecer alguns sujeitos como outros aos quais devemos responsabilidade ética, enquanto, ao mesmo tempo, deixamos de considerar outros, desumanizando-os. Se não o reconhecemos como outro, não o reconhecemos como sujeito, portanto não reconhecemos sua existência. Destacamos aqui a relação do reconhecimento com o surgimento da fraternidade, trazido por Lacan (1992). O não reconhecimento seria a causa da fraternidade, como dito anteriormente. Para nos identificarmos fraternos, precisamos identificar o não fraterno, o isolar junto carece do isolar o resto. Assim, é essa desumanização que rege a ética da violência, que irá justificar políticas de extermínio desse outro que não é reconhecido como sujeito, como humano. Butler (2018) diz que "ser radicalmente privado de reconhecimento ameaça a própria possibilidade de existir e persistir" (p. 47). Ou seja, a proximidade traz um reconhecimento por uma ética da responsabilidade, um reconhecimento do vínculo ético-moral com o outro, já a distância traz um reconhecimento por uma ética da violência, uma justificativa para sua eliminação.
No livro Quadros de Guerra: Quando a Vida é Passível de Luto?, Butler (2017) chama a atenção para "não recorremos simplesmente a normas de reconhecimento únicas e distintas, mas também a condições mais gerais, historicamente articuladas e reforçadas ‘condições de ser reconhecido'" (p. 18). No mesmo livro, a autora reflete mais a fundo sobre o que são vidas precárias e como isso perpassa a cena de reconhecimento.
Para a autora, a condição precária diz de uma situação, quando a precariedade é produzida politicamente. Butler (2017) afirma que "a condição precária designa a condição politicamente induzida na qual certas populações sofrem com redes sociais e econômicas de apoio deficientes e ficam expostas de forma diferenciada às violações, à violência e à morte" (p. 46). Por isso, para Butler, vidas precárias se relacionam diretamente com a ideia de que seres humanos são substituíveis e de que a perda daquele ser não é inestimável, há uma finitude e uma finitude que facilmente é substituída.
Relacionamos aqui o efeito da segregação apontado por Lacan (2003a) e trazido anteriormente no texto. É a universalização que segrega o singular. Butler (2017) fala de um esvaziamento da singularidade do sujeito por uma finitude relacionada ao universal, de ser "só mais um". Ela afirma que a desigualdade na distribuição da condição de precariedade dita quais vidas não são "potencialmente lamentáveis e, por conseguinte, valiosas, são obrigados a suportar a carga da fome, do subemprego, da privação de direitos legais e da exposição diferenciada à violência e à morte" (pp. 45-46).
A partir de então, consideramos que a População em Situação de Rua se encontra em certa posição espaço-tempo que condiciona uma precariedade que desumaniza essas pessoas. Logo em seguida, essa desumanização, a qual ocorre por não haver um reconhecimento, torna o sofrimento dessas pessoas invisíveis. Ou seja, em última instância, isso os transforma em vidas dispensáveis, seres cuja humanidade é negada, corpos que encarnam uma existência de menor valor na hierarquia das formas de vida, relegados ao estatuto de existências descartáveis. Como aponta Martins (2016), a PSR "continua presente, contudo, sob a forma de exclusão, o que alimenta a necessidade de negá-lo pela violência, que no limite, é a eliminação" (p. 87). Martins está alertando que não basta criticar a violência pontual: é preciso enxergar como ela é sintoma de uma exclusão estrutural que a precede e a justifica.
Em vista disso, ancorados nos estudos de Michel Foucault, notamos como estamos entrelaçados em um poder que "administra a vida ao invés de ameaçar tirá-la" (Taylor, 2018, p. 64). Hoje se deixa morrer, não se mata diretamente, mas permite que aconteça em nome da vida. A morte de alguns é legitimada em nome da saúde e da segurança de outros, em nome de um "bem maior". Assim, ocorre a segregação de vidas precárias, que aparece como consequência da ação desse poder, sendo, em última instância, tratadas por meio da eliminação. A sociedade projeta violência sobre os excluídos, como se eliminá-los fisicamente ou simbolicamente pudesse restaurar uma ilusão de harmonia.
Para além, o filósofo Achille Mbembe na obra Crítica da Razão Negra, nos mostra que, nos séculos XVI e XVII, os franceses possuíam uma característica dominante no modo como encaravam a escravidão nesse período, "a recusa em ver - e, portanto, a prática da ocultação e da negação" (Mbembe, 2018, p. 124). Em suas palavras, "a França indicava sua vontade de nada querer saber a respeito das vítimas (. . .) pelo fato de que no escravo negro não haveria nada para ver, a não ser um ‘nada em si'" (Mbembe, 2018, p. 125). O racismo à francesa nos exemplifica a negação, a não preocupação com o outro porque esse outro não se vê. A ideia de "não querer saber de nada" sugere uma ignorância deliberada ou recusa em reconhecer as realidades e as perspectivas complexas. É uma invisibilidade que nega a humanidade de sujeitos e os transforma em coisas, que pode acarretar posteriormente a eliminação. Mbembe argumenta que essa recusa é uma forma de violência epistêmica que reforça as hierarquias existentes e perpetua a marginalização de certos grupos. Em essência, "não querer saber de nada" reflete a evitação ou a rejeição deliberada das perspectivas, das histórias e dos conhecimentos produzidos, contribuindo para a perpetuação de estereótipos, preconceitos e sistemas de opressão.
Considerações Finais
Diante do exposto, refletimos sobre a possibilidade de se pensar o sujeito não somente na esfera singular, mas também na esfera social e pública. Lacan (2008), em O Seminário 14: A Lógica do Fantasma, afirma que "o inconsciente é a política" (p. 350), com isso ele nos mostra que o inconsciente se faz pelo laço social - laço este fundamentado na subjetividade de cada época. Por isso, Greiser (2008) coloca que "a estrutura do Outro Social muda e os sintomas variam de acordo com o discurso vigente de cada época" (p. 2). Em razão disso, Lacan (1998) argumenta que todo e qualquer analista deve "conseguir alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época. Pois, como poderia fazer de seu ser o eixo das tantas vidas quem nada soubesse da dialética que o compromete com essas vidas num movimento simbólico" (p. 322).
Em consonância com essa fala de Lacan, defendemos uma escuta do nosso tempo, da nossa época, das nossas conjunturas e subjetividades contemporâneas. Segundo Agamben (2009), o contemporâneo foca seu olhar na sua época e, dessa forma, ressalta suas obscuridades. O contemporâneo "não se deixa cegar pelas luzes do século e consegue entrever nessas a parte da sombra, a sua íntima obscuridade" (pp. 63-64), e, assim, passa a se movimentar e, consequentemente, a se transformar. É encarando o obscuro, o que incomoda, o estranho, que passamos a questionar e a transformar nossas subjetividades. Logo, ao nos depararmos com uma "estranheza" peculiar de nossa época - que buscamos demonstrar pela posição de incômodo que o crescente número de pessoas em situação de rua nos coloca - é provocado em nós um movimento de indagação sobre nossa prática nesses espaços e sobre como respondemos ao que repete da segregação.
Nessa perspectiva, evidenciamos que a psicanálise deve participar ativamente da crítica às desigualdades sociais e às estruturas que sustentam a segregação em múltiplos níveis. A psicanálise não se limita a ser uma prática clínica, mas se expõe como um campo de reflexão crítica sobre as ideologias que sustentam a segregação e a exclusão. Essa reflexão convida a uma reavaliação das identificações e dos acordos sociais, propondo um espaço onde a singularidade de cada sujeito seja reconhecida e respeitada, em vez de ser relegada ao silêncio e à invisibilidade.
Na perspectiva psicanalítica, a segregação tem implicações profundas para a formação da identidade e para as relações interpessoais. Ao segregar indivíduos ou grupos, a sociedade não apenas os exclui do convívio social, mas também os desumaniza, tornando-os figuras de segregação. Isso gera um mal-estar coletivo que reflete a crise da civilização moderna. Neste ponto, a psicanálise deve abordar essa questão não para eliminar o mal-estar, mas para subverter seus efeitos e entender as complexidades do desejo humano.
Os conceitos de sintoma social e segregação na psicanálise abrangem um espectro que dialoga com questões sociais, políticas e clínicas, propondo um entendimento que transcende o individual para examinar as condições de vida e as relações construídas na sociedade. Essa análise crítica é essencial para promover novas formas de laço social e de cuidado que rompam com os ciclos de exclusão e façam frente às realidades contemporâneas de segregação.
Desta maneira, pensamos na possibilidade de participação na forma resolutiva. Assim como o sintoma na perspectiva psicanalítica é algo a ser resolvido, não negado ou eliminado, o sintoma social, nesta pesquisa aprofundado na População em Situação de Rua, é algo a ser resolvido de forma plural no âmbito da saúde e nos âmbitos sociopolítico e econômico, e não negado ou eliminado como é repetidamente expressado. Para tanto, devemos nos ater às particularidades dessa população e também às singularidades de cada sujeito. Reiteramos, assim, que falar de pessoas é falar de sujeitos, de pluralidades, de subjetividades; falar de situação é falar de um momento, de algo transitório. A pessoa em situação de rua é um sujeito com sua história, suas dificuldades e particularidades que se encontra em posição de estar na rua, seja pelo motivo que for. Por isso, como afirma Pacheco et al. (2013), devemos saber que "a política da Psicanálise (. . .) implica, antes de mais nada, adotar uma posição ética contrária à segregação" (p. 20), no caso, à segregação enquanto prática, já que como causa é inevitável e necessária. Desta forma, a psicanálise pode e deve contribuir para uma compreensão mais profunda das crises modernas ao invés de simplesmente tentar erradicá-las.
Referências
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Endereço para correspondência
Vanessa Ayres Tibiriçá - vanessaatibirica@hotmail.com
Recebido em: 05/06/2025
Aceito em: 13/03/2026
Editora associada: Flavia Gaze Bonfim
Conflito de interesse
Os autores declaram que não há conflitos de interesse.
Disponibilidade dos Dados
Os dados de pesquisa estão disponíveis abertamente no repositório PSICANÁLISE ENCONTRADA: O FAZER PSICANALÍTICO NA CLÍNICA EM SITUAÇÕES DE RISCO SOCIAL, em: https://ufsj.edu.br/portal2-repositorio/File/ppgpsi/Dissertacao%20Inicial.pdf
Nota sobre autoria
Vanessa Ayres Tibiriçá - conceitualização; investigação; metodologia; validação; escrita - revisão e edição.
Maria Gláucia Pires Calzavara - conceitualização; metodologia; validação; escrita - revisão e edição.
Nota
1 Este artigo faz parte da pesquisa de mestrado, concluída em outubro de 2024, intitulada "Psicanálise Encontrada: o fazer psicanalítico na clínica em situação de risco social".
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