Estudos e Pesquisas em Psicologia
2026, Vol. 26. e86670, doi:10.12957/epp.2026.86670
ISSN 1808-4281 (online version)
PSICOLOGIA SOCIAL
Saúde Mental e Trabalho na Pandemia de COVID-19: Estudo Comparativo entre Professores e Professoras Brasileiras
Mental Health and Work during the COVID-19 Pandemic: A Comparative Study of Brazilian Male and Female Educators
Salud Mental y Trabajo en la Pandemia de COVID-19: Estudio Comparativo entre Profesores y Profesoras Brasileñas
Carmem Regina Giongo a
, Marcus Levi Lopes Barbosa a
, Karine Vanessa Perez b
, Bruno Chapadeiro Ribeiro c
a Universidade Feevale, Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul, Brasil
b Universidade de Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil
c Universidade Federal Fluminense, Niterói, Rio de Janeiro, Brasil
Endereço para correspondência
RESUMO
Esta pesquisa teve como objetivo comparar as condições de trabalho e os níveis de depressão, ansiedade e estresse apresentados por professoras e professores no contexto da pandemia por COVID-19. Trata-se de um estudo quantitativo, com delineamento transversal e comparativo, que teve a participação de 2.421 docentes, sendo 1.776 mulheres e 645 homens, com idade média de 42,64 anos. Os participantes atuavam em diferentes níveis de ensino no Brasil. Os instrumentos utilizados foram um questionário semiestruturado acerca das condições de trabalho e a Depression Anxiety Stress Scale-21 para avaliação de indicadores de depressão, estresse e ansiedade. A coleta de dados foi realizada por meio da plataforma Google Forms, entre junho e outubro de 2021. Os resultados apontaram que as professoras apresentaram uma média superior àquela observada nos professores no que se refere ao estresse e à ansiedade. Além disso, os relatos de cansaço, tristeza e medo foram também significativamente mais frequentes entre as professoras. Concluiu-se que as condições de trabalho eram precárias para ambos os sexos, mas que os efeitos na saúde mental se mostraram mais graves para as mulheres.
Palavras-chave: condições de trabalho, trabalho docente, COVID-19, saúde mental, ensino.
ABSTRACT
This research aimed to analyze the differences between male and female educators regarding mental health indicators and working conditions in the context of the COVID-19 pandemic. The study had a quantitative approach, with a cross-sectional and comparative method, and involved 2,421 educators, 1,776 of them being women and 645 men, from several educational levels in Brazil. The instruments used were a semi-structured questionnaire about working conditions and the Depression Anxiety Stress Scale-21 to evaluate indicators of depression, stress, and anxiety. Data collection was carried out through the Google Forms platform between June and October 2021. The results suggested that female educators had a statistically significantly higher average (p < 0.05) in terms of stress and anxiety compared to male professionals. Additionally, reports of fatigue, sadness, and fear were significantly more frequent (p < 0.01) among female educators.It was concluded that working conditions were precarious for both male and female educators, but mental health effects were more severe for women.
Keywords: working conditions, teaching work, COVID-19, mental health, teaching.
RESUMEN
Esta investigación tuvo como propósito comparar las características de condiciones de trabajo y los niveles de depresión, ansiedad y estrés presentados por profesores y profesoras en el contexto de la pandemia de COVID-19. El estudio fue desarrollado mediante un abordaje cuantitativo, de método transversal y comparativo, que contó con la participación de 2.421 profesores y profesoras, vinculadas a diferentes niveles de enseñanza en Brasil, de los cuales 1776 mujeres y 645 hombres, con edad media de 42,64 años. Los instrumentos utilizados fueron un cuestionario semiestructurado acerca de las condiciones de trabajo y el Depression Anxiety Stress Scale-21 para evaluación de indicadores de depresión, estrés y ansiedad. La recolección de datos fue realizada a través de la plataforma Google Forms, entre junio y octubre de 2021. Los resultados mostraron que las profesoras presentaron una media estadísticamente (p < 0,05) superior a la observada en los profesores en lo que se refiere al estrés y a la ansiedad. Además, los relatos de cansancio, tristeza y miedo también fueron significativamente (p < 0,01) más frecuentes entre las profesoras. Se concluye que las condiciones de trabajo eran precarias para ambos sexos, pero los efectos a la salud mental se mostraron más graves para las mujeres.
Palabras clave: condiciones de trabajo, trabajo docente, COVID-19, salud mental, enseñanza.
Impulsionada por uma doença causada pelo coronavírus SARS-CoV-2, a pandemia de COVID-19 foi declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em onze de março de 2020 (World Health Organization [WHO], 2020). Em poucos meses, a situação rapidamente tomou proporções extremas e se transformou em uma das maiores crises sanitárias já vivenciadas no Brasil e no mundo. Entre as diversas medidas tomadas para conter a disseminação do vírus estava o distanciamento social, o que levou o Ministério da Educação a autorizar que as instituições de ensino utilizassem meios tecnológicos para viabilizar a continuidade das aulas. A autorização se deu por meio das Portarias n. 343 e 345, de 17 e 19 de março de 2021 (Ministério da Educação, 2020). A partir disso, alunos e professores foram inseridos no modelo de ensino remoto de forma compulsória, vivenciando um processo complexo, marcado pela falta de suporte e de capacitações, pela necessidade de adaptações dos planos de ensino e por situações de sofrimento e vulnerabilidade dos alunos (Monteiro, 2020; J. B. A. Oliveira et al., 2020).
No contexto pandêmico, o ensino emergencial remoto foi marcado por aspectos como a elevação da carga horária de trabalho involuntária, a redução da remuneração e a ausência de reconhecimento pelas atividades extraclasse realizadas (Santos et al., 2021), que agravaram a precarização no sistema educacional brasileiro. Importante destacar que a educação no Brasil tem sofrido importantes reformas que buscam atender às necessidades do mercado globalizado, o que acaba intensificando o trabalho docente e expandindo as responsabilidades dos professores sem que se ofereça o suporte necessário. Isso resulta em maior desgaste e insatisfação entre os professores, que se veem obrigados a cumprir metas muitas vezes desvinculadas das realidades educacionais e sociais locais (D. A. Oliveira, 2004).
D. A. Oliveira (2004) apontou que, embora as políticas visem à flexibilização e à eficiência, elas frequentemente conduzem à precarização do trabalho docente, com professores enfrentando condições laborais deterioradas e perda de autonomia profissional. A autora se utilizou de conceitos como desprofissionalização e proletarização para descrever esse fenômeno, no qual docentes perdem o controle sobre o seu trabalho e são submetidos a diretrizes rígidas que limitam sua autonomia pedagógica e criativa. Tal quadro reflete uma tendência mais ampla de deterioração das condições de trabalho em contextos neoliberais, em que a eficiência econômica muitas vezes supera as considerações sobre a qualidade da educação e o bem-estar dos educadores (D. A. Oliveira, 2004).
Diversas evidências científicas apresentaram os inúmeros impactos da pandemia por COVID-19 na saúde mental da população em geral (Brooks et al., 2020). Nesse contexto, foram produzidos dados globais e nacionais apontando os agravos dos indicadores de estresse, ansiedade e depressão. Entre professores e professoras, esses fatores já estavam listados entre os principais motivos de adoecimento e afastamento do trabalho, sendo eles frequentemente associados pela literatura a aspectos de condições e organização do trabalho como sobrecarga laboral, falta de reconhecimento, dificuldades para manejar problemas comportamentais dos alunos, pouco acompanhamento familiar e precárias condições físicas de trabalho (Diehl & Marin, 2016).
As condições de trabalho no labor docente incluem não apenas o ambiente físico das escolas, no que tange à qualidade das instalações e à adequação dos equipamentos e dos materiais didáticos, mas também fatores ambientais, como a qualidade do ar, a iluminação e o ruído, que podem afetar diretamente o bem-estar dos indivíduos (Dejours & Abdoucheli, 1990). A organização do trabalho versa sobre a estrutura e o processo de como o trabalho docente é administrado e implementado nas organizações escolares. Isso inclui a carga horária de trabalho, a quantidade de trabalho esperada dos professores, a distribuição das turmas, a clareza das funções e responsabilidades, bem como o apoio administrativo e pedagógico que eles recebem (Pereira Junior, 2017). J. P. Silva e Reimberg (2022) reforçaram que uma organização do trabalho mal planejada pode resultar em sobrecarga de trabalho, falta de autonomia e estresse crônico, que contribuem significativamente para problemas de saúde mental entre professores, como ansiedade e depressão.
Salienta-se que a depressão, a ansiedade e o estresse são associados pela literatura a aspectos como baixo desempenho no trabalho, redução da produtividade e prejuízos na qualidade de vida e na saúde dos trabalhadores e trabalhadoras, causando impactos importantes nas esferas individual, familiar e social (Freitas et al., 2021). Ao avaliar a saúde mental de docentes especificamente no período pandêmico, Freitas et al. (2021) apontaram a alta prevalência de sintomas de ansiedade, depressão e estresse. Os pesquisadores associaram os maiores índices de ansiedade à faixa etária igual ou inferior a 40 anos e às pessoas sem companheiro fixo. Já as maiores taxas de estresse foram vinculadas aos participantes sem companheiro fixo. Além disso, a pesquisa mostrou que o fato de os profissionais trabalharem em mais de um local estava vinculado a maiores índices de ansiedade, depressão e estresse. Uma pesquisa similar realizada por N. R. Silva et al. (2023) identificou também níveis elevados de ansiedade, depressão e estresse em professores universitários que realizavam suas atividades remotamente no período pandêmico.
Apesar da aparente uniformidade desses indicadores, há uma grande demanda para analisar indicadores de saúde e de adoecimento no trabalho considerando diferentes marcadores sociais, em especial o de gênero. Pesquisas diversas mostraram que as mulheres estavam mais vulneráveis aos efeitos da pandemia por COVID-19 (Flores et al., 2021; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE], 2022; Organização Internacional do Trabalho [OIT], 2024). Apesar disso, no contexto da educação, raros foram os estudos que compararam indicadores de saúde e de condições de trabalho entre professores e professoras.
Sabe-se que o acesso às políticas públicas de saúde e proteção social não são igualitárias e que adentrar nessas nuances representa uma importante ferramenta de garantia de direitos. Um relatório lançado pela Pan American Health Organization (PAHO), em 2021, alertou que "sem dados e evidências quantitativas e qualitativas, os esforços em equidade de gênero e outros aspectos da saúde fica significativamente comprometidos" (s.p.). O documento ressaltou, ainda, a importância da inclusão de uma abordagem de gênero nas respostas às crises sanitárias, sinalizando que a ausência de análises comparativas das consequências da COVID-19 entre homens e mulheres dificultava o reconhecimento e o desenvolvimento de políticas públicas (PAHO, 2021).
Diante disso, esta pesquisa teve como objetivo comparar as características das condições de trabalho e os níveis de depressão, ansiedade e estresse apresentados por professoras e professores no contexto da pandemia por COVID-19. Estudos como este podem contribuir para o desenvolvimento de programas institucionais e políticas públicas mais sensíveis às desigualdades de gênero.
Método
Participantes
Participaram deste estudo 2.421 profissionais, sendo 1.776 indivíduos do sexo feminino e 645 indivíduos do sexo masculino. Os respondentes possuíam níveis de instrução distintos, abrangendo desde o ensino médio até o doutorado. Além disso, atuavam em diversos níveis educacionais, como educação infantil, ensino médio, ensino técnico, graduação e pós-graduação. As idades variaram de 18 a 80 anos (M = 42,64 anos; DP = 10,53), sendo de 18 a 80 anos entre as mulheres (M = 42,91 anos; DP = 10,61) e de 19 a 71 anos entre os homens (M = 41,91 anos; DP = 10,26). Quanto à abrangência geográfica, participaram professores dos 26 estados brasileiros e do Distrito Federal, sendo 56,5% do Rio Grande do Sul, 18,8% de São Paulo, 5,5% de Minas Gerais, 4,0% do Rio de Janeiro, 2,3% de Santa Catarina e 2,2% do Paraná. Os 10,7% restantes são oriundos das demais unidades da Federação, cada uma com menos de 2% de participação. A Tabela 1 apresenta a caracterização detalhada da amostra, com os dados organizados por sexo.
Tabela 1
Descrição dos Dados Sociodemográficos da Amostra
Variáveis |
Feminino |
Masculino |
Sig. |
||
F |
(%) |
F |
(%) |
|
|
Grau de instrução a |
|||||
Ensino Médio Completo |
10 |
0,6% |
0 |
0,00% |
>0,05 |
Ensino Superior Incompleto |
55 |
3,1% |
17 |
2,60% |
<0,01 |
Ensino Superior Completo |
349 |
19,7% |
114 |
17,70% |
>0,05 |
Especialização |
717 |
40,4% |
162 |
25,10% |
<0,01 |
Mestrado |
332 |
18,7% |
191 |
29,60% |
<0,01 |
Doutorado |
313 |
17,6% |
161 |
25,00% |
<0,01 |
|
|||||
Nível de atuação b * |
|||||
Educação Infantil |
303 |
17,1% |
27 |
4,2% |
<0,01 |
Ensino Fundamental Anos Iniciais |
498 |
28,0% |
76 |
11,8% |
<0,01 |
Ensino Fundamental Anos Finais |
566 |
31,9% |
214 |
33,2% |
>0,05 |
Ensino Médio |
561 |
31,6% |
266 |
41,2% |
<0,01 |
Ensino Técnico |
165 |
5,2% |
123 |
9,8% |
<0,01 |
Cursos Livres |
93 |
6,6% |
63 |
11,8% |
<0,01 |
Ensino Superior |
423 |
23,8% |
278 |
43,1% |
<0,01 |
Especialização |
118 |
4,7% |
76 |
7,6% |
<0,01 |
Mestrado |
84 |
3,0% |
49 |
5,9% |
<0,01 |
Doutorado |
54 |
9,3% |
38 |
19,1% |
<0,01 |
|
|
|
|
|
|
Trabalha em mais de uma escola/instituição c |
|
|
|
||
Não |
1242 |
69,9% |
393 |
60,9% |
<0,01 |
Sim |
534 |
30,1% |
252 |
39,1% |
<0,01 |
|
|||||
Tempo de trabalho como professor(a) d |
|||||
Menos de 1 ano |
45 |
2,5% |
21 |
3,3% |
>0,05 |
Entre 1 e 5 anos |
270 |
15,2% |
121 |
18,8% |
<0,01 |
Entre 5 e 10 anos |
325 |
18,3% |
137 |
21,2% |
>0,05 |
Entre 10 e 20 anos |
562 |
31,6% |
213 |
33,0% |
>0,05 |
Acima de 20 anos |
574 |
32,3% |
153 |
23,7% |
<0,01 |
|
|||||
Raça / Cor / Etnia (de acordo com IBGE) e |
|||||
Amarelo |
16 |
0,9% |
10 |
1,6% |
>0,05 |
Branca |
1477 |
83,2% |
500 |
77,5% |
<0,05 |
Indígena |
2 |
0,1% |
1 |
0,2% |
>0,05 |
Parda |
200 |
11,3% |
96 |
14,9% |
<0,05 |
Preta |
81 |
4,6% |
38 |
5,9% |
>0,05 |
Nota: * as porcentagens desta variável somam mais de 100% porque parte dos professores(as) atua em mais de um nível de ensino; valores das estatísticas de comparação qui-quadrado (a significância está na tabela): a χ2 = 74,39; b χ2 = 203,03; c χ2 = 17,48; d χ2 = 18,68; e χ2 = 10,56.
Por meio do teste do qui-quadrado, comparações entre os sexos indicaram que as professoras e os professores avaliados não eram proporcionalmente homogêneos (p < 0,05) em relação ao grau de instrução, nível de atuação, vínculo com mais de uma instituição, tempo de trabalho docente e raça/cor/etnia. Entre outras diferenças, destacam-se uma porcentagem significativamente maior (p < 0,01) de professores homens que possuíam formação em nível de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) e uma porcentagem significativamente maior (p < 0,01) de professoras que possuíam formação em pós-graduação lato sensu (especialização). Referentemente ao nível de atuação, as professoras atuavam significativamente mais (p < 0,01) nos ensinos infantil e fundamental, e os professores atuavam mais nos ensinos médio, técnico, superior e nos diferentes níveis de pós-graduação.
Procedimentos Éticos e de Coleta de Dados
O estudo foi conduzido com base em uma abordagem quantitativa, com delineamento transversal e comparativo. Para a coleta de dados foram utilizados dois instrumentos. O primeiro foi um questionário fechado contendo 40 questões que abordaram temas como: idade, sexo, escolaridade, número de dependentes, regime de trabalho durante a pandemia, alterações contratuais e salariais, tipo de instituição de ensino, tempo de experiência na profissão, acesso a equipamentos de proteção individual, caracterização das condições de trabalho e sintomas relacionados à saúde mental. O segundo instrumento aplicado foi a Depression Anxiety Stress Scale-21 (DASS-21), um inventário autoaplicável composto por 21 itens, que representa a versão simplificada da DASS-42 (Fauzi et al., 2021). Os 21 itens são distribuídos igualmente entre três subescalas (depressão, ansiedade e estresse), e a escala utiliza formato Likert de quatro pontos, variando de zero ("não se aplicou a mim de forma alguma") a três ("aplicou-se a mim muito ou na maioria do tempo"), com referência à última semana.
Utilizou-se um formulário eletrônico, criado na plataforma Google Forms, para a coleta dos dados. Os participantes foram convidados a participar da pesquisa por meio de um endereço eletrônico (link) que foi divulgado em redes sociais e páginas de universidades parceiras, sindicatos representantes da categoria, grupos de professores e entidades vinculadas à área da educação. A coleta de dados foi realizada entre junho e outubro de 2021, sendo necessário cerca de dez minutos para o preenchimento do formulário pelos participantes.
Como procedimento ético, quem respondeu à pesquisa pôde expressar seu aceite eletronicamente ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, ciente de seu anonimato, em procedimento que seguiu as Resoluções n. 466/2012 e n. 510/2016, do Conselho Nacional de Saúde (CNS). As providências éticas foram tomadas por completo, tendo o Comitê de Ética em Pesquisa da universidade aprovado o projeto de pesquisa (CAAE - 50012421.4.0000.5348). Ao término do estudo, foi produzida uma cartilha com os principais resultados, posteriormente compartilhada nos mesmos canais de divulgação utilizados na pesquisa e enviada aos sindicatos envolvidos.
Análise dos Dados
Os dados foram analisados com o uso do software IBM SPSS Statistics 27.0 e submetidos a análises estatísticas descritivas e comparativas. As análises descritivas incluíram a média e o desvio-padrão para variáveis contínuas e frequência e a porcentagem para variáveis categóricas. Visto que os professores e professoras não eram homogeneamente distribuídos no que tange a grau de instrução, nível de atuação, trabalho em mais de uma instituição, tempo de trabalho como professor e raça/cor/etnia e que a aderência dos dados à normalidade não foi assumida (p do Shapiro-Wilk < 0,001), as análises de comparação foram implementadas com base no procedimento de bootstrap (1.000 reamostragens; intervalo de confiança = 95% BCa) para obtenção de maior confiabilidade dos resultados e para correção de desvios da normalidade da distribuição da amostra e de diferenças entre os tamanhos dos grupos (Haukoos & Lewis, 2005). As análises comparativas foram realizadas com o Teste t de Student e o Teste qui-quadrado de Pearson. A homogeneidade da variância foi verificada com o Teste de Levene (a homogeneidade da variância foi assumida nos casos em que o p ≥ 0,05), e o tamanho do efeito foi avaliado com o d de Cohen (Pestana & Gageiro, 2014).
Resultados
Antes da realização das comparações de médias entre os sexos, a homogeneidade das variâncias foi verificada. A homogeneidade da variância dos escores da depressão e do estresse foi assumida (p > 0,05), e a homogeneidade da variância dos escores da ansiedade entre os sexos não pôde ser assumida (p < 0,05). As análises comparativas apresentadas a seguir foram realizadas com base nesses pressupostos.
Os resultados obtidos com a DASS-21 (Tabela 2), que mede sintomas de depressão, ansiedade e estresse, foram comparados a fim de verificar se havia diferenças entre as médias obtidas baseadas do sexo dos participantes. Para a variável depressão, não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre professores e professoras (p = 0,572). As médias para mulheres e homens apresentaram valores estatisticamente semelhantes, com um tamanho do efeito muito pequeno (d = 0,026), indicando um efeito prático trivial.
De modo distinto, na variável ansiedade observou-se uma diferença estatisticamente significativa entre os gêneros (p < 0,001), com as professoras apresentando uma média estatisticamente superior àquela dos professores, o que indica que, na prática, essa diferença entre as médias da ansiedade tem efeito de tamanho moderado (d = 0,247). Quanto ao estresse, os resultados também indicaram uma diferença significativa entre homens e mulheres (p < 0,001). Novamente, as professoras apresentaram uma média estatisticamente superior àquela dos professores, com um tamanho de efeito (d) de 0,251, que também pode ser considerado de magnitude moderada.
Tabela 2
Estatísticas Descritivas e Comparativas para os Escores da DASS-21
Média (DP) |
Siga |
t |
Gl |
Sig.b |
d |
||
Depressão |
Mulher |
11,42 (11,45) |
0,051 |
0,571 |
2419 |
0,572 |
0,026 |
Homem |
15,11 (11,99) |
||||||
Ansiedade |
Mulher |
11,11 (9,63) |
0,033 |
5,521 |
1203,9 |
<0,001 |
0,247 |
Homem |
8,76 (9,09) |
||||||
Estresse |
Mulher |
22,20 (12,46) |
0,256 |
5,450 |
2429 |
<0,001 |
0,251 |
Homem |
19,04 (12,95) |
Nota. Procedimentos de bootstrap são baseados em 1.000 amostras bootstrap; a Significância do Teste de Levene para igualdade de variâncias; b Significância do bootstrap para teste com amostras independentes.
Quanto a possíveis mudanças na percepção sobre a escolha profissional (Tabela 3), 58% dos participantes, incluindo homens e mulheres, permaneceram convictos de sua escolha, apesar das dificuldades enfrentadas durante a pandemia. No entanto, uma parcela considerável refletiu sobre sua escolha profissional, com 28,8% das mulheres e 25,7% dos homens indicando que a pandemia alterou um pouco sua percepção, enquanto 13,5% das mulheres e 15,7% dos homens pensaram em abandonar a profissão.
Tabela 3
Percepção sobre a Carreira e Condições de Trabalho
Variável |
Mulher |
Homem |
Sig.* |
Total |
|
ƒ (%) |
ƒ (%) |
ƒ (%) |
|||
As mudanças decorrentes da pandemia alteraram sua percepção acerca de sua escolha profissional?a |
Não, apesar dessas dificuldades, eu continuo convicto(a) da minha escolha. |
705 (39,7%) |
236 (36,6%) |
>0,05 |
941 (38,9%) |
Não, eu vejo estas mudanças como desafios e aprendizagens. |
321 (18,1%) |
142 (22,0%) |
<0,05 |
463 (19,1%) |
|
Sim alterou um pouco, tenho refletido sobre minha escolha profissional. |
511 (28,7%) |
166 (25,7%) |
>0,05 |
677 (28,0%) |
|
Sim alterou muito, tenho pensado em abandonar a profissão. |
239 (13,5%) |
101 (15,7%) |
>0,05 |
340 (14%) |
|
Condições de trabalho: possui equipamento de proteção adequadob |
Não |
331 (23,4%) |
106 (22,5%) |
>0,05 |
437 (23,2%) |
Sim |
1083 (76,6%) |
365 (77,5%) |
>0,05 |
1448 (76,8%) |
|
Condições de trabalho: sua carga horária de trabalho foi reduzidac |
Não |
1529 (87,9%) |
526 (83,2%) |
<0,01 |
2055 (86,7%) |
Sim |
210 (12,1%) |
106 (16,8%) |
<0,01 |
316 (13,3%) |
|
Nota. Procedimentos de bootstrap são baseados em 1.000 amostras bootstrap; *Significância do bootstrap para teste do teste qui-quadrado de Pearson. a χ2 = 8,211; gl = 3 (casos missing: mulher = 0; homem = 0); b χ2 = 8,211; gl = 1 (casos missing: mulher = 362; homem = 174); c χ2 = 8,850; gl =1 (casos missing: mulher = 37; homem = 13).
Apenas uma diferença significativa entre os gêneros foi observada. Essa diferença ocorreu na percepção de que as mudanças foram vistas como desafios e aprendizagens, sendo que os professores concordaram com essa afirmação com uma frequência significativamente maior do que as professoras avaliadas (p < 0,05).
Referentemente às condições de trabalho (Tabela 3), a maioria dos participantes (professores e professoras) relatou possuir equipamento de proteção adequado. A carga horária de trabalho foi reduzida para 12,1% das professoras e para 16,8% dos professores (o que significa que 87,9% das professoras e 83,2% dos professores não tiveram redução na carga de trabalho). Essas foram as únicas diferenças significativas (p < 0,01) observadas nesse conjunto de variáveis. Quanto às demais variáveis relacionadas às condições de trabalho (Tabela 4) os professores e professoras relataram ter tido as atividades alteradas, mas sem redução da remuneração para a grande maioria dos profissionais. Ademais, uma proporção importante relatou redução de benefícios e falta de apoio sindical.
Tabela 4
Aspectos das Condições de Trabalho e Apoio Psicossocial
Variável |
Mulher |
Homem |
Sig.* |
Total |
|
ƒ (%) |
ƒ (%) |
ƒ (%) |
|||
Sua remuneração foi reduzidaa |
Não |
1284 (73,6%) |
468 (74,1%) |
>0,05 |
1752 (73,7%) |
Sim |
461 (26,4%) |
164 (25,9%) |
>0,05 |
625 (26,3%) |
|
Suas atividades foram alteradasb |
Não |
362 (20,7%) |
142 (22,3%) |
>0,05 |
504 (21,1%) |
Sim |
1391 (79,3%) |
494 (77,7%) |
>0,05 |
1885 (78,9%) |
|
Seus benefícios foram reduzidosc |
Não |
890 (55,7%) |
327 (57,4%) |
>0,05 |
1217 (56,1%) |
Sim |
709 (44,3%) |
243 (42,6%) |
>0,05 |
952 (43,9%) |
|
Recebeu apoio sindicald |
Não |
845 (56,3%) |
322 (59,2%) |
>0,05 |
1167 (57,1%) |
Sim |
655 (43,7%) |
222 (40,8%) |
>0,05 |
877 (42,9%) |
|
Possui canal de comunicação ou apoio da instituiçãoe |
Não |
762 (47,2%) |
266 (45,2%) |
>0,05 |
1028 (46,7%) |
Sim |
853 (52,8%) |
322 (54,8%) |
>0,05 |
1175 (53,3%) |
|
Nota. Procedimentos de bootstrap são baseados em 1.000 amostras bootstrap; *Significância do bootstrap para teste do teste qui-quadrado de Pearson. a χ2 = 0,053; gl = 1 (casos missing: mulher = 31; homem = 13); bχ2 = 0,788; gl = 1 (casos missing: mulher = 23; homem = 9); c χ2 = 0,498; gl = 1 (casos missing: mulher = 177; homem = 75); d χ2 = 1,702; gl = 1 (casos missing: mulher = 276; homem = 101); e χ2 = 0,655; gl = 1 (casos missing: mulher = 161; homem = 57).
Em relação à posse de dependentes e ao bem-estar (Tabela 5), a maioria dos participantes, tanto mulheres (63,9%) quanto homens (60,8%), possuía dependentes, sem diferenças significativas entre os gêneros (p > 0,05). Quanto ao bem-estar pessoal, a maioria relatou aumento dos sentimentos de cansaço, ansiedade, tristeza, medo e preocupação, além de maior dificuldade para planejar o futuro, menos tempo de sono e ingestão maior de alimentos. Entretanto, os relatos de maior cansaço, ansiedade, tristeza e medo foram significativamente mais frequentes (p < 0,01) entre as mulheres. As professoras relataram também, com frequência significativamente maior (p < 0,05) do que os professores, dificuldades para planejar o futuro e diminuição nas novas ideias e projetos. Sobre suporte social, os homens ofereceram significativamente menos apoio (p < 0,01) quando comparados às mulheres.
Tabela 5
Posse de Dependentes, Bem-Estar Pessoal e Apoio Social
Variável |
Mulher |
Homem |
Sig.* |
Total |
||||||||
ƒ (%) |
ƒ (%) |
ƒ (%) |
||||||||||
Possui dependentesa |
Não possui |
641 (36,1%) |
253 (39,2%) |
>0,05 |
894 (36,9%) |
|||||||
Possui |
1135 (63,9%) |
392 (60,8%) |
>0,05 |
1527 (63,1%) |
||||||||
Durante a pandemia você está dormindob |
Igual |
459 (26,0%) |
221 (34,4%) |
<0,01 |
680 (28,2%) |
|||||||
Mais |
202 (11,4%) |
91 (14,1%) |
>0,05 |
293 (12,2%) |
||||||||
Menos |
1107 (62,6%) |
331 (51,5%) |
<0,01 |
1438 (59,6%) |
||||||||
Durante a pandemia você está comendoc |
Igual |
469 (26,5%) |
211 (32,8%) |
<0,01 |
680 (28,2%) |
|||||||
Mais |
1092 (61,7%) |
347 (53,9%) |
<0,01 |
1439 (59,6%) |
||||||||
Menos |
209 (11,8%) |
86 (13,3%) |
<0,01 |
295 (12,2%) |
||||||||
Durante a pandemia você está cansadod |
Igual |
152 (8,6%) |
92 (14,4%) |
<0,01 |
244 (10,2%) |
|||||||
Mais |
1562 (88,6%) |
509 (79,8%) |
<0,01 |
2071 (86,2%) |
||||||||
Menos |
50 (2,8%) |
37 (5,8%) |
<0,01 |
87 (3,6%) |
||||||||
Durante a pandemia você está recebendo suporte sociale |
Igual |
733 (42,8%) |
266 (43,0%) |
>0,05 |
999 (42,8%) |
|||||||
Mais |
155 (9,0%) |
34 (5,5%) |
<0,05 |
189 (8,1%) |
||||||||
Menos |
826 (48,2%) |
318 (51,5%) |
>0,05 |
1144 (49,1%) |
||||||||
Durante a pandemia você está consumindo álcool e outras drogasf |
Igual |
446 (40,2%) |
197 (41,7%) |
>0,05 |
643 (40,7%) |
|||||||
Mais |
336 (30,3%) |
151 (32,0%) |
>0,05 |
487 (30,8%) |
||||||||
Menos |
327 (29,5%) |
124 (26,3%) |
>0,05 |
451 (28,5%) |
||||||||
Durante a pandemia você está oferecendo suporte socialg |
Igual |
506 (29,4%) |
221 (35,2%) |
<0,01 |
727 (30,9%) |
|||||||
Mais |
911 (52,8%) |
268 (42,7%) |
<0,01 |
1179 (50,1%) |
||||||||
Menos |
307 (17,8%) |
139 (22,1%) |
<0,01 |
446 (19,0%) |
||||||||
Durante a pandemia você está se sentindo tristeh |
Igual |
355 (21,7%) |
153 (26,4%) |
<0,01 |
508 (22,9%) |
|||||||
Mais |
1193 (72,8%) |
397 (68.4%) |
<0,01 |
1590 (71,7%) |
||||||||
Menos |
91 (5,5%) |
30 (5,2%) |
>0,05 |
121 (5,4%) |
||||||||
Durante a pandemia você está sentindo dificuldade para planejar o futuroi |
Igual |
329 (20,0%) |
156 (25,9%) |
<0,01 |
485 (21,6%) |
|||||||
Mais |
1194 (72,5%) |
399 (66,2%) |
<0,01 |
1593 (70,8%) |
||||||||
Menos |
124 (7,5%) |
48 (7,9%) |
>0,05 |
172 (7,6%) |
||||||||
Durante a pandemia você está com novas ideias e projetosj |
Igual |
487 (28,0%) |
176 (27,7%) |
>0,05 |
663 (27,9%) |
|||||||
Mais |
384 (22,1%) |
196 (30,8%) |
<0,01 |
580 (24,4%) |
||||||||
Menos |
866 (49,9%) |
264 (41,5%) |
<0,01 |
1130 (47,7%) |
||||||||
Durante a pandemia você está sentindo-se preocupado(a)k |
Igual |
195 (11,1%) |
82 (13,0%) |
>0,05 |
277 (11,6%) |
|||||||
Mais |
1501 (85,6%) |
528 (83,4%) |
>0,05 |
2029 (85,0%) |
||||||||
Menos |
57 (3,3%) |
23 (3,6%) |
>0,05 |
80 (3,4%) |
||||||||
Durante a pandemia você está sentindo-se com medol |
Igual |
301 (17,9%) |
155 (25,9%) |
<0,01 |
456 (20,0%) |
|||||||
Mais |
1309 (77,9%) |
410 (68,4%) |
<0,01 |
1719 (75,4%) |
||||||||
Menos |
70 (4,2%) |
34 (5,7%) |
>0,05 |
104 (4,6%) |
||||||||
Durante a pandemia você está sentindo-se ansiosom |
Igual |
190 (10,9%) |
111 (17,8%) |
<0,01 |
301 (12,8%) |
|||||||
Mais |
1486 (85,5%) |
485 (77,8%) |
<0,01 |
1971 (83,5%) |
||||||||
Menos |
61 (3,6%) |
27 (4,4%) |
>0,05 |
88 (3,7%) |
||||||||
Nota. Procedimentos de bootstrap são baseados em 1.000 amostras bootstrap; *Significância do bootstrap para teste do teste qui-quadrado de Pearson. . a χ2 = 1,993; gl = 1 (casos missing: mulher = 0; homem = 0); b χ2 = 24,509; gl = 2 (casos missing: mulher = 8; homem = 2); c χ2 = 12,342; gl = 2 (casos missing: mulher = 6; homem = 1); d χ2 = 31,083; gl = 2 (casos missing: mulher = 12; homem = 7); e χ2 = 8,025; gl = 2 (casos missing: mulher = 62; homem = 27); f χ2 = 1,696; gl = 2 (casos missing: mulher = 667; homem = 173); g χ2 = 19,116; gl = 2 (casos missing: mulher = 52; homem = 17); h χ2 = 5,408; gl = 2 (casos missing: mulher = 137; homem = 65); i χ2 = 9,718; gl = 2 (casos missing: mulher = 129; homem = 42); j χ2 = 21,285; gl = 2 (casos missing: mulher = 39; homem = 9); k χ2 = 1,812; gl = 2 (casos missing: mulher = 23; homem = 12); l χ2 = 21,436; gl = 2 (casos missing: mulher = 96; homem = 46); m χ2 = 21,098; gl = 2 (casos missing: mulher = 39; homem = 22).
Discussão
No que se refere ao estresse e à variável ansiedade, as professoras apresentaram uma média significativamente superior àquela dos professores. Não foram encontradas diferenças para a variável depressão. Esses resultados podem ser problematizados a partir dos efeitos gerados pela desigualdade de gênero no trabalho e pela sobrecarga laboral vivenciada pelas mulheres. Diversos estudos discutem o fenômeno da hierarquização estabelecida pela divisão sexual do trabalho no campo da educação e os danos psicossociais decorrentes (Hirata & Kergoat, 2007; Monteiro & Altmann, 2021; Oliveira, 2025). Uma pesquisa desenvolvida por Oliveira (2025) apontou importantes disparidades entre professores e professoras especialmente nos campos da pesquisa e da distribuição da carga horária laboral; as mulheres tinham menos acesso a contratos de dedicação exclusiva, por exemplo. Monteiro e Altmann (2021) identificaram resultados similares ao concluírem que os homens possuíam mais vantagens na carreira docente quando comparados às mulheres. Essas vantagens estavam relacionadas aos incentivos recebidos e a maior ocupação de cargos de gestão. Conforme as autoras, "a docência, embora seja uma área profissional considerada feminina, permanece uma carreira com privilégios masculinos" (Monteiro & Altmann, 2021, p. 20).
No que tange à sobrecarga de trabalho, estudos mostram que as mulheres são mais frequentemente expostas a demandas de cuidados não remunerados, seja com pessoas idosas, doentes ou crianças. Estima-se que, globalmente, 76,2% das horas direcionadas para cuidados não remunerados sejam realizadas por mulheres, correspondendo ao triplo das horas dedicadas pelos homens para a mesma atividade (OIT, 2024). O trabalho doméstico recai também sobre elas, tanto que dados do IBGE (2022) mostraram que, no Brasil, em 2022, as mulheres dedicavam 21,3 horas semanais ao trabalho doméstico, enquanto os homens dedicavam apenas 11,7 horas semanais.
Em relação à posse de dependentes, a maioria dos professores, tanto mulheres (63,9%) quanto homens (60,8%), possuía dependentes, sem diferenças significativas entre os gêneros (p > 0,05). Salienta-se que, nessa questão, foi avaliada apenas a posse de dependente e não o trabalho de cuidado ou a responsabilidade diante desse dependente. Todavia, considerando os dados anteriormente apresentados, infere-se que, possivelmente, as mulheres ficaram mais responsáveis pelo cuidado de dependentes do que os homens durante o período pandêmico.
Quanto ao bem-estar pessoal, tanto professoras quanto professores relataram sentir-se mais cansados, ansiosos, tristes, com medo e preocupados. Além disso, indicaram mais dificuldades para planejar o futuro, redução no tempo de sono e aumento na ingestão de alimentos. Nessa questão, foi solicitado a todos os respondentes que analisassem os itens considerando a realidade vivida antes da pandemia em comparação com a experiência durante a pandemia. Importante destacar que os relatos de maior cansaço, ansiedade, tristeza e medo foram significativamente mais frequentes (p < 0,01) entre as mulheres. As professoras sinalizaram também, com frequência significativamente maior (p < 0,05), dificuldades para planejar o futuro e diminuição nas novas ideias e projetos.
Outros estudos realizados no Brasil que investigaram as diferenças entre sexos no que tange aos indicadores de saúde mental no período pandêmico apresentaram dados similares, evidenciando que as mulheres sofreram maiores impactos psíquicos do que os homens (Dal'Bosco et al., 2020; Sousa et al., 2021). Uma pesquisa realizada por Malta et al. (2020) concluiu que indivíduos de ambos os sexos haviam aumentado o consumo de processados, frituras, congelados e doces durante a pandemia. No entanto, as mulheres estavam ingerindo mais doces e aumentando o uso de tabaco, enquanto os homens haviam elevado o consumo de bebidas alcoólicas.
As professoras afirmaram também que estavam recebendo e oferecendo suporte social com mais frequência, comparativamente aos professores. Os professores, por sua vez, estavam oferecendo significativamente (p < 0,01) menos suporte social. Uma pesquisa realizada no contexto da pandemia, com o intuito de investigar as diferenças entre homens e mulheres diante dos impactos psicossociais vivenciados, obteve resultados similares. O estudo identificou que as mulheres demonstraram maior preocupação com as pessoas que não estavam isoladas e que precisavam expor-se à possível contaminação e, também, com o número de casos e mortes decorrentes da contaminação por COVID-19. Por outro lado, os homens demonstraram maior preocupação com as consequências econômicas provocadas pela pandemia (Flores et al., 2021).
Diante do exposto, pode-se inferir que, se por um lado a maior preocupação das mulheres com os outros e a maior oferta de suporte social tendem a gerar uma sobrecarga emocional, por outro, essas atitudes também favorecem as interações sociais, aumentando os espaços de fala e de escuta, assim como o acesso à rede de apoio social. No caso dos homens, a menor tendência ao compartilhamento de emoções pode contribuir para um sentimento ampliado de isolamento. Esse aspecto já foi discutido na pesquisa de Botton et al. (2017), que mostrou que os homens possuem mais dificuldade para procurar serviços de saúde em função da cultura da virilidade, da independência e da força. Há, ainda, uma construção social que coloca os homens em um lugar de invulnerabilidade, o que acarreta importantes riscos à saúde.
Sobre as condições de trabalho, a carga horária laboral foi reduzida para 12,1% das professoras e para 16,8% dos professores, sendo essa a única diferença significativa (p < 0,01) observada nesse conjunto de variáveis avaliadas. Essa diferença pode estar relacionada aos dados anteriormente apresentados, que apontaram a maior responsabilização das mulheres pelo cuidado familiar e pelas atividades domésticas. Com a sobrecarga vivenciada no contexto doméstico e junto aos dependentes, as professoras precisaram mais frequentemente reduzir a carga horária de trabalho do que os professores. Quanto às demais variáveis relacionadas às condições de trabalho, as atividades foram alteradas para a grande maioria dos professores e professoras. A maioria também relatou possuir equipamentos de proteção adequados, e uma proporção importante relatou redução de benefícios e falta de apoio sindical. Resultados similares foram identificados em outras categorias profissionais e sugerem a intensificação da precarização das condições de trabalho, bem como o enfraquecimento das entidades de apoio aos trabalhadores e trabalhadoras (Giongo et al., 2021).
Salienta-se que a pandemia agravou o processo de precarização das condições de trabalho no campo da educação que já estavam em curso no Brasil. Estudos anteriores apontavam o subinvestimento público em políticas educacionais, o enfraquecimento do movimento sindical e graves indicadores de sofrimento e adoecimento da classe docente (Oliveira, 2004; Pereira Junior, 2017). O que os dados da presente pesquisa mostram é que os efeitos da precarização da educação são percebidos e vivenciados de maneiras diferentes por professores e professoras. Exemplo disso é que houve uma diferença significativa entre homens e mulheres no que se refere à percepção de que as mudanças provocadas pela pandemia na área da educação representaram desafios e aprendizagens. A proporção de professores homens que concordaram com essa afirmação foi significativamente maior (p < 0,05), em comparação às professoras avaliadas.
Outro dado importante é que as mulheres se mostraram mais reflexivas quanto à carreira, enquanto os homens pensaram mais vezes em trocar de profissão, embora sem significância estatística. Um estudo realizado por Flores et al. (2021) com trabalhadores em geral identificou que, no contexto da pandemia, as mulheres sentiram mais medo de perder o emprego do que os homens. Esse cenário pode ter contribuído para que as professoras se mantivessem mais reflexivas acerca das condições de trabalho, enquanto os homens se permitiram pensar em abandonar a profissão de fato.
Considerações Finais
Concluiu-se que as condições de trabalho se mostraram precárias para ambos os sexos, mas os efeitos à saúde mental foram mais graves para as mulheres. Apoiando-se na literatura produzida no período pandêmico e pré-pandêmico, infere-se que essas diferenças estavam associadas à desigualdade de gênero e ao impacto desse fenômeno na sobrecarga laboral das mulheres, abrangendo o trabalho doméstico e de cuidado com os e as dependentes. Apesar disso, evidenciou-se a falta de apoio e a necessidade imposta de que os professores virtualizassem o ensino "independentemente de suas dificuldades, incertezas, medo, ansiedade, depressão e sobrecarga de trabalho" (Santos et al., 2021, p. 250).
Dentre as limitações do estudo, podem ser citados aspectos como: a utilização de um delineamento transversal em um momento de crise pode ter agravado os indicadores de saúde mental; a realização da coleta de dados via formulário online gerou uma amostragem por conveniência, o que pode ter comprometido a representatividade da amostra, especialmente em regiões com menor acesso digital; a pandemia de COVID-19 foi um evento multifacetado que impactou de maneira diferente a população conforme fatores como local de residência, rede de ensino, políticas públicas regionais e histórico de saúde prévia, variáveis que não foram controladas ou detalhadas na análise. Sugere-se a realização de estudos que avaliem as diferenças entre sexos no que se refere a outros indicadores de saúde mental no trabalho, possibilitando o delineamento de diferentes estratégias de cuidado e de proteção laboral. Além disso, são necessárias pesquisas que descrevam as condições de trabalho e de saúde mental nos diferentes níveis de ensino, instituições e regiões do Brasil.
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Endereço para correspondência
Carmem Regina Giongo - ca.aiesec@gmail.com
Recebido em: 19/08/2024
Aceito em: 05/09/2025
Editora associada: Patricia Lorena Quiterio
Conflito de interesse
Os autores declaram que não há conflitos de interesse.
Disponibilidade dos Dados
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.
Nota sobre autoria
Carmem Regina Giongo - conceituação; curadoria dos dados; metodologia; aquisição de financiamento; administração do projeto; investigação e supervisão.
Marcus Levi Lopes Barbosa - análise formal; metodologia; recursos; escrita - revisão e edição.
Karine Vanessa Perez - investigação; visualização; escrita - rascunho original; escrita - revisão e edição.
Bruno Chapadeiro Ribeiro - investigação; escrita - revisão e edição.
Nota de agradecimento
Agradecemos os professores doutores Paulo Roberto Wünsch e Gregório Durlo Grisa que atuaram ativamente na coleta de dados e compuseram a equipe do projeto.
Financiamento: A pesquisa relatada no manuscrito foi financiada pela bolsa de produtividade em pesquisa da primeira autora (CNPq No. Processo 303658/2022-3)
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