Estudos e Pesquisas em Psicologia
2026, Vol. 26. e85417, doi:10.12957/epp.2026.85417
ISSN 1808-4281 (online version)
PSICOLOGIA CLÍNICA
Experiências de Luto na Pandemia de Covid-19 na Perspectiva da Abordagem Centrada na Pessoa
Grief Experiences During the Covid-19 Pandemic from the Perspective of Person-Centered Therapy
Experiencias de Duelo en la Pandemia del Covid-19 desde la Perspectiva del Enfoque Centrado en la Persona
Juliana de Almeida Silva a
, Andréa Batista de Andrade Castelo Branco b
a Hospital Samur, Vitória da Conquista, Bahia, Brasil
b Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, Ceará, Brasil
Endereço para correspondência
RESUMO
Na Abordagem Centrada na Pessoa, o luto é um processo de autorregulação organísmica frente a um tensionamento organismo-ambiente gerado pela perda. Objetiva-se compreender a experiência de luto de pessoas que perderam entes queridos devido à Covid-19. Trata-se de uma pesquisa qualitativa que utilizou entrevistas semiestruturadas para a obtenção do material empírico e Análise de Conteúdo. Participaram do estudo duas mulheres enlutadas. Os resultados evidenciaram quatro categorias: 1. Contexto da morte na pandemia da Covid-19; 2. Reações emocionais e experiências oníricas frente ao luto; 3. Self-em-relacionamento com o ente falecido; e 4. Mudanças existenciais e na dinâmica familiar após a morte do ente querido e estratégias de enfrentamento. Conclui-se que as expressões emocionais, os movimentos de autorregulação e de defesa frente à morte de uma pessoa significativa são singulares e circunscritos socioculturalmente, visto que se relacionam ao autoconceito das enlutadas, ao grau de (in)congruência que experimentam, aos valores pessoais, às crenças religiosas, ao vínculo estabelecido com o ente querido, ao nível de suporte familiar, bem como às condições de valor e ao grau de abertura experiencial para a reorganização da vida e das noções de si.
Palavras-chave: luto, covid-19, terapia centrada no cliente, morte.
ABSTRACT
In the Person-Centered Theory, grief is a process of organismic self-regulation in the face of organism-environment tension generated by loss. This paper aims to understand the grief experience of people who have lost loved ones due to Covid-19. This is a qualitative research that uses semi-structured interviews to collect data and content analysis. Two bereaved women participated in the study. The results highlighted four categories: 1. Context of death in the Covid-19 pandemic; 2. Emotional reactions and dream experiences in the face of grief; 3. Self-in-relationship with the deceased person; and 4. Existential changes and family dynamics after the death of a loved one and coping strategies. It is concluded that emotional expressions, self-regulation, and defense movements in the face of a significant person's death are unique and socioculturally circumscribed, as they are related to the self-concept of the bereaved, the degree of (in)congruence they experience, personal values, religious beliefs, the bond established with the loved one, the level of family support, as well as the conditions of value and the degree of experiential openness to the reorganization of life and notions of self.
Keywords: grief, covid-19, client-centered therapy, death.
RESUMEN
En el Enfoque Centrado en la Persona, el duelo es un proceso de autorregulación organísmica ante la tensión organismo-ambiente generada por la pérdida. El objetivo es comprender la experiencia de duelo de las personas que han perdido a sus seres queridos a causa del Covid-19. Es una investigación cualitativa que utilizó entrevistas semiestructuradas para la recolección de datos y análisis de contenido. En el estudio participaron dos mujeres en duelo. Los resultados destacaron cuatro categorías: 1. Contexto de la muerte en la pandemia de Covid-19; 2. Reacciones emocionales y experiencias oníricas ante el duelo; 3. Auto-relación con el ser fallecido; y 4. Cambios existenciales y dinámica familiar tras la muerte del ser querido y estrategias de afrontamiento. Se concluye que las expresiones emocionales, los movimientos de autorregulación y defensa ante la muerte de una persona significativa son únicos y circunscritos socioculturalmente, ya que se relacionan con el autoconcepto del doliente, el grado de (in)congruencia que experiencian y los valores personales, las creencias religiosas, el vínculo establecido con el ser amado, el nivel de apoyo familiar, así como las condiciones de valor y el grado de apertura experiencial a la reorganización de la vida y las nociones de uno mismo.
Palabras clave: duelo, covid-19, terapia centrada en el cliente, muerte.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou oficialmente a instauração de uma pandemia por Covid-19 em março de 2020 e o fim dessa Emergência de Saúde Pública Internacional em maio de 2023 (OMS, 2023). A saúde pública se defrontou com os impactos relacionados às medidas sanitárias de contenção da disseminação do vírus e suas reverberações econômicas, políticas e sociais. Além dos efeitos biológicos, vivenciou-se um significativo prejuízo à saúde mental e ao bem-estar psicossocial da população (Schmidt et al., 2020).
Ressalta-se que a pandemia de Covid-19 revelou e aprofundou as desigualdades sociais históricas do Brasil, afetando de maneira desproporcional diversos grupos vulneráveis, como indígenas, populações periféricas, negros e pessoas em situação de pobreza. As dificuldades no acesso à saúde pública, o alto índice de violência urbana e a falta de políticas públicas adequadas aumentaram a exposição ao risco e a mortalidade dessas populações (Moreno & Matta, 2021).
A pandemia instaurou uma sensação repentina de perda de controle e a percepção de um processo abrupto de ruptura de vida, ocasionando sentimentos de ansiedade, medo, insegurança e isolamento na população (Teixeira, 2020). Foi vivenciado um luto coletivo diante de perdas concretas e simbólicas relacionadas às inúmeras mortes pela Covid-19, à interrupção de planos e projetos pessoais, bem como às mudanças nas condições de trabalho e de estudo, na rotina e no modo de se relacionar mediado pela tecnologia (Crepaldi et al., 2020).
Na ótica da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), compreende-se o luto como a vivência de pensamentos, sentimentos e sensações físicas relacionada a mudanças no campo fenomenológico do enlutado. Concebe-se o luto enquanto um processo de autorregulação frente a um tensionamento organismo-ambiente gerado pela morte do outro, cuja perda desencadeia possível experiência ameaçadora ao self. O psicólogo acepista considera incondicionalmente e compreende empaticamente a experiência afetiva, cognitiva e física do enlutado, a partir do seu referencial interno, facilitando uma simbolização consciente (Haugh, 2011).
O processo de luto, na perspectiva da tendência à autorrealização, possibilita que a pessoa enlutada apresente diferentes movimentos autorregulatórios, conforme suas necessidades organísmicas e de self do momento, a saber: mudanças no comportamento para adaptar-se à nova rotina e dinâmica familiar, reorganização da personalidade frente aos novos papeis, distorção ou negação da experiência (negação da morte, culpabilização pela morte), afastamento do ambiente relacionado à pessoa falecida, busca por recursos externos, aceitação da perda, realização de rituais de despedida, dentre outros (Castelo Branco, 2019).
Nesse sentido, as autorregulações constituem formas de lidar com perda ou de reduzir a tensão entre organismo-ambiente provocada pela morte. Trata-se de buscar a homeostase, de se automodificar para adaptação ao ambiente, de tentar mudar o ambiente/pessoas para adequá-los à experiência ou sair do ambiente (Castelo Branco, 2019). São nesses diferentes movimentos de autorregulação que a ACP possui um entendimento dinâmico e fluido do processo de luto, como um sistema multifacetado e aberto, no qual passado, presente e futuro se interconectam, diferenciando-se de teorias psicodinâmicas ou baseadas em estágios (Haugh, 2011).
Tomando por base uma concepção geral sobre luto, entende-se que a maneira como se reage a uma perda e se vivencia o luto está relacionada a fatores como a natureza e as circunstâncias da morte, o vínculo estabelecido entre o enlutado e a pessoa falecida, as percepções acerca da morte, o acesso a rede de apoio social, as características de personalidade do enlutado, a concretização de rituais de despedida, entre outros aspectos (Dantas et al., 2020).
Na pandemia, determinados elementos influenciaram a elaboração do luto, a exemplo da natureza repentina da morte e a circunstância de isolamento de contato no hospital, a estigmatização e a discriminação associadas à doença, a limitação no suporte social, a modificação dos rituais de despedida, o tensionamento das relações familiares, a vivência de outras perdas concomitantes à morte, a experiência de morte com sofrimento e desconforto físico, e a ocorrência de múltiplas perdas por Covid-19 na mesma família (Cardoso et al., 2020).
Segundo Dantas et al. (2020), os enlutados devido à Covid-19 experimentaram sentimentos de incredulidade e irrealidade diante da morte, fantasias de que o corpo do seu ente querido foi trocado por outro e a sensação de incompletude de um ciclo em decorrência das restrições dos rituais fúnebres. Os enlutados também apresentaram culpa e raiva, bem como a percepção de uma morte injusta, pouco digna, desumana e que poderia ter sido evitada. Assim, as experiências de luto não dizem respeito a um fenômeno puramente individual. A morte afeta a dinâmica familiar, exigindo a elaboração de afetos mobilizados pela perda e a reorganização do seu funcionamento e dos papéis ocupados pelos seus membros (Lopes et al., 2021).
Não se sabe exatamente quais as consequências psicológicas a longo prazo para a sociedade diante das múltiplas perdas ocasionadas pela Covid-19. Portanto, é fundamental que se possa aprofundar a compreensão das especificidades e repercussões do processo de luto em um cenário pandêmico. Diante disso, surgiu a seguinte pergunta-problema: Como se dá a elaboração do luto no contexto da pandemia de Covid-19? Assim, o objetivo deste estudo consistiu em compreender as experiências de luto vivenciadas por pessoas que perderam entes queridos devido à Covid-19, refletindo sobre esse fenômeno na perspectiva da ACP.
Método
Este estudo é resultado da pesquisa de mestrado intitulada "Intervenção psicológica centrada em pessoas enlutadas por Covid-19", vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Saúde da Universidade Federal da Bahia (UFBA). O estudo tem um delineamento qualitativo.
A seleção dos participantes ocorreu por demanda espontânea através da divulgação de informações sobre o estudo em uma página do Instagram por cinco meses, desenvolvida especificamente para os fins da pesquisa. Os critérios de inclusão consistiram em: a) ter 18 anos ou mais de idade; b) ter vivenciado a perda de um ente querido devido à Covid-19; c) assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. A amostra geral da pesquisa foi composta por duas mulheres (uma de 23 anos e outra de 44 anos) enlutadas pela morte dos pais em consequência do adoecimento por Covid-19, as quais foram selecionadas de forma intencional, diante da especificidade do tema e dos objetivos da pesquisa. Apenas essas participantes atenderam aos critérios de inclusão amostral.
Foram realizadas entrevistas semiestruturadas na modalidade remota com as participantes da pesquisa. As entrevistas foram vídeo e audiogravadas, cujos roteiros foram compostos por questões referentes à vivência da perda, aos fatores protetivos e de risco do luto, aos determinantes do luto, aos modos de enfrentamento da perda, ao vínculo do enlutado com o falecido, aos sentimentos envolvidos e significados atribuídos às experiências.
O material empírico foi analisado, seguindo as etapas da Análise de Conteúdo de Bardin (1977/2016). Na etapa de pré-análise, realizou-se a leitura dinâmica do material e a seleção do material produzido, seguindo os princípios de exaustividade, representatividade, homogeneidade e pertinência. Posteriormente, explanou-se o material com a codificação em unidades de registro (UR) e a categorização dos dados. As categorias finais foram elaboradas mediante a identificação das UR que apresentavam proximidade semântica entre seus conteúdos. Na terceira etapa, realizou-se o tratamento, a inferência e a interpretação dos resultados, articulando com o referencial da ACP. Utilizou-se textos do Carl Rogers e de autores que desenvolveram pesquisas especificamente sobre o luto nessa perspectiva, incluindo capítulos de livro e artigos científicos escritos em português ou em inglês.
A partir dos procedimentos analíticos, foram identificadas quatro categorias: 1) Contexto da morte na pandemia da Covid-19; 2) Reações emocionais e experiências oníricas frente ao luto; 3) Self-em-relacionamento com o ente falecido; 4) Mudanças existenciais e na dinâmica familiar após a morte do ente querido e estratégias de enfrentamento. Este estudo respeitou os preceitos éticos estabelecidos pela Resolução n° 466/2012. Todos os participantes celebraram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). O estudo foi apreciado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (nº CAAE: 60491322.5.0000.5556).
Resultados e Discussão
Contexto da Morte na Pandemia da Covid-19
Durante a pandemia da Covid-19, principalmente no período pré-vacinação, o luto foi vivenciado de forma coletiva e privada, tendo em vista o quantitativo de mortes no mundo e as mudanças e adequações sanitárias, comportamentais e de vida exigidas. Nesse cenário, o fenômeno do luto se destacou não só pelo número de mortes, mas por obter características contextuais específicas diante de um processo singular de morte e morrer (Franco, 2021).
Um elemento relevante no processo de elaboração do luto por Covid-19 diz respeito ao modo como a morte da pessoa ocorria de forma repentina. Em muitos casos, todo o processo, desde o início dos sintomas, o diagnóstico, até o óbito, poderia levar poucos dias. O agravamento do quadro clínico e da piora respiratória poderia acontecer de forma rápida, levando à urgente necessidade de hospitalização. O relato da Participante 1 (P1) exemplifica o desfecho de morte abrupta do pai, logo após o diagnóstico de Covid-19: "Ele deu positivo pra Covid (riu com incredulidade), a saturação estava extremamente baixa. (…) Foi de um dia pro outro (…) Foi tão rápido, muito rápido. Não foi nem 12h que ele se internou e faleceu".
O relato denota que a morte abrupta do ente querido possivelmente dificultou a assimilação da perda. As diferentes respostas emocionais frente à morte dependem de aspectos sociais, culturais, relacionais, de gênero, de personalidade, perdas anteriores e, inclusive, as circunstâncias da morte podem influenciar a maneira como o indivíduo elabora o luto (McLaren, 1998). Quando o familiar perde o ente querido devido à doença crônica, depara-se com o luto antecipatório, porém, no caso da Covid-19, os enlutados tiveram pouco tempo para assimilar a notícia da morte. O luto antecipatório refere-se às perdas que ocorrem antes da morte de um ente querido e envolve o contato gradual com emoções intensas, o ajuste da percepção à realidade e a preparação emocional para a morte iminente (Seger & Nascimento, 2022).
O relato da Participante 2 (P2) também aponta para uma impossibilidade de preparação para a perda do ente querido: "Da maneira que ele foi, é o que mais me dói. Trabalhou até o último segundo. Não conseguia dizer pra ele que tinha orgulho dele. Turrão, autoritário, mas eu tinha orgulho. Não deu tempo de dizer, foi tudo rápido". A participante afirmou que não teve a oportunidade de expressar seus sentimentos como gostaria para o pai diante da rápida piora das condições clínicas. Esses aspectos podem intensificar o sofrimento da enlutada, inviabilizar o processo de luto antecipatório e contribuir para uma percepção de morte precoce.
A participante acrescenta que não teve tempo suficiente para expressar seu sentimento de orgulho pelo ente falecido, considerando a evolução rápida da doença. Ao afirmar que não conseguia dizer o que sentia, a enlutada revela possível dificuldade na comunicação e na manifestação das emoções. Esse bloqueio de contato e expressão das emoções pode ser compreendido como um comportamento defensivo do organismo aos aspectos da experiência que são percebidos como ameaçadores à estrutura do eu (Rogers & Kinget, 1962/1977).
O indivíduo se sente ameaçado quando certos elementos da sua experiência estão em desacordo com a imagem que tem de si. Visando a manutenção da imagem do eu, o organismo apresenta uma reação de defesa por meio da interceptação ou da negação da experiência (Rogers & Kinget, 1962/1977). A participante apresenta percepções e sentimentos ambíguos em relação ao pai, visto que o descreve como alguém autoritário, mas também que inspira orgulho. É possível que a dificuldade em expressar as emoções tenha relação com essa imagem, de certa forma, ambígua da figura paterna. A pouca abertura experiencial para entrar em contato com os sentimentos imediatos, nesse caso, parece ser dificultador da elaboração do luto.
Ressalta-se que o luto pode ser impactado pela vivência de situações adversas ainda no contexto de internamento. Antes do rompimento causado pela morte, as participantes relataram ter vivenciado a separação do paciente diante da privação da presença no internamento. As enlutadas enfatizaram o desejo de estar presente no hospital: "Eu queria tá perto dele, queria ter ido no hospital, mas não tinha como ir na época" (P1). A P2 também narra sobre esse contexto: "A gente não podia tá com ele. A última vez que eu vi, meu pai estava entrando no hospital. Eu não pude estar com ele. Eu daria qualquer coisa pra estar lá".
As narrativas apontam que estar presente no período de adoecimento e internação de um ente querido é algo significativo. Pode-se afirmar que ambas as participantes compreendem que a noção de uma boa filha está relacionada ao cuidado e ao suporte familiar em momentos de vulnerabilidade. Ou seja, o autoconceito referente ao papel desempenhado como filha inclui o comportamento de fazer-se presente no adoecimento e morte do pai. Embora P1 compreenda as restrições impostas pela pandemia, manifesta o desejo de estar ao lado do ente querido. P2 barganha a presença junto ao pai, reafirmando a importância de acompanhá-lo na internação.
A interdição das visitas hospitalares também gerou em P1 o sentimento de insegurança e questionamentos quanto à assistência prestada: "Nunca vou conseguir saber o que realmente fizeram com ele. (choro) Muita gente morreu por negligência. A gente nunca vai saber se realmente fizeram de tudo pra salvar o meu pai ou deixaram ele". O distanciamento da família, tanto na realização de visitas quanto no contato direto com a equipe multiprofissional, pode suprimir alguns elementos facilitadores do luto antecipatório e da aceitação da perda como, por exemplo, a comunicação clara e o estabelecimento de vínculo com a equipe, a possibilidade de presenciar a piora clínica, a interação com o ente querido, bem como o senso de participação no cuidado (Singer et al., 2020). No caso em tela, a participante denota desconfiança em relação à conduta da equipe, visto que não teve a oportunidade de participar ativamente do cuidado.
O luto na pandemia também foi impactado pela mudança na realização de rituais fúnebres e de despedida. No Brasil, sobretudo nos picos da pandemia, os velórios não eram permitidos ou só poderiam ocorrer com a presença de poucas pessoas, durante tempo reduzido e com o caixão fechado. Alguns enlutados realizaram velórios, missas e participação em grupos de suporte no formato online (Cardoso et al., 2020). Apesar disso, P1 pareceu frustrada ao descrever os rituais do pai: "O velório de 30 minutos, 30 minutos. (…) Se o enterro dele fosse hoje, não ia caber tanta gente, porque na época da Covid foram 10 pessoas apenas, e ele era muito querido por muita gente". O relato sugere que houve um anseio de ter uma presença maior de pessoas nos rituais do seu pai, pois seria uma forma de demonstrar estima por ele.
Para P2, a impossibilidade de realizar os rituais de despedida, como é feito tradicionalmente, está relacionada à sensação de incompletude, já que as cerimônias não foram plenamente experimentadas: "Pra mim, é uma das piores partes, porque eu não pude me despedir, não pude fazer nada (emocionada). A gente fez velório, mas com caixão fechado. Todo mundo afastado. A gente não conseguiu fazer missa. Estava todo mundo muito triste". P2 relata que ela e os familiares presentes tentaram se despedir, mas houve muitas limitações devido às medidas de contingenciamento. Nesse caso, a impossibilidade de se despedir e homenagear o falecido, através de rituais significativos potencializou o sofrimento.
Os ritos fúnebres são importantes para a elaboração do luto e cumprem a função de auxiliar na organização psíquica frente a ausência do ente falecido (Giamattey et al., 2022). A sociedade e a cultura são mediadoras dos significados atribuídos à morte e às cerimônias fúnebres. A maneira como se vivencia e expressa o luto é singular em cada pessoa, mas está circunscrita pela cultura e religião. Os códigos culturais para a realização de rituais pós-morte variam em cada sociedade e, quando estão alinhados às necessidades e aos valores pessoais dos indivíduos, favorecem a manifestação do pesar e facilitam a expressão do luto (Franco, 2021).
Em relação ao suporte familiar recebido após o falecimento do ente querido, a percepção do nível de apoio experimentado também se relacionou ao contexto pandêmico. A perda da P2 aconteceu no primeiro semestre da pandemia, quando as medidas sanitárias para contenção do vírus eram muito rígidas e não existiam vacinas: "Ele faleceu e eu precisando segurar as pontas, porque minha mãe e meu irmão pegaram Covid. Cenário de guerra. Fiz tudo sozinha. Tinha que ir no mercado, preparar a alimentação. Praticamente, foi um hospital em casa". O relato indica que P2 precisou ocupar diversos papéis de cuidado na dinâmica familiar. O contexto de vida logo após o falecimento é descrito como um cenário de guerra. Ademais, a narrativa de P2 também sugere que a dor da perda não tenha sido plenamente experimentada e que suas necessidades organísmicas podem não ter sido atendidas frente à alta demanda externa de apoio.
Em contrapartida, a morte do pai da P1 aconteceu em 2022, período em que as medidas de contingenciamento eram um pouco mais flexíveis devido à vacinação e à diminuição do número de infectados e mortos pela Covid-19. As narrativas das participantes descrevem experiências distintas nesse aspecto. P1 relatou: "Tivemos uma rede de apoio muito boa. Passamos um mês na casa da minha tia, porque a gente não conseguia ficar aqui em casa. Meu namorado me ajudou muito, conversava, me acalmava. A gente podia receber visita, fazer orações". A narrativa da P1 evidencia que o suporte familiar sem limitações de contato, foi importante para sua elaboração de luto. A proximidade física e afetiva da família parece ter promovido o acolhimento e favorecido a exteriorização dos sentimentos e o reconhecimento das significações pessoais dela. Além disso, P1 indica que a presença familiar possibilitou o enfrentamento da perda através da religiosidade no âmbito coletivo por meio das orações.
Reações Emocionais e Experiências Oníricas Frente ao Luto
As participantes relataram reações emocionais diversas frente à perda do ente querido por Covid-19, sendo as mais predominantes: vulnerabilidade, culpa, arrependimento, medo, angústia, abandono, dificuldade de expressar as emoções, tristeza e injustiça. Ressalta-se que as reações apresentadas se aproximam em alguns aspectos, mas distanciam-se em outros.
A morte de uma pessoa significativa pode ser ameaçadora ao self pelo distanciamento físico definitivo do ente amado, bem como pela experiência de perda de certos elementos que constituíam o autoconceito do enlutado. Perder um ente querido representa também a morte de uma parte de si e demanda a reorganização da estrutura do eu. O papel de filha, por exemplo, se expressa a partir da relação com os pais. Isso significa que uma parte constitutiva do self da enlutada se perde após a morte dos pais. P1 menciona a sensação de que uma parte de si também morreu após falecimento do pai: "É como se uma parte sua tivesse ido embora". Quando a pessoa experiencia uma perda, as configurações de si mesmo que eram experimentadas anteriormente de modo relativamente coerente podem se tornar confusas (Haugh, 2011).
As participantes também mencionaram um bloqueio de contato das emoções que se manifestou na dificuldade em compartilhar aspectos da experiência de luto com pessoas próximas. As narrativas sugerem uma vivência de enlutamento de forma bastante solitária. P1 afirma que: "Nem perto da minha família, eu não choro mais perto, eu não falo. Já chegou num ponto do luto que a gente não consegue mais falar, porque, pelo que me parece, elas já aceitaram". O trecho da fala de P1 denota a percepção de que os seus familiares já aceitaram a morte do ente querido, mas ela não. Ela se percebe em um momento de luto diferente dos outros membros da família, o que a inibe de compartilhar os seus sentimentos e experiências.
No caso de P2, identificou-se também uma dificuldade de expressar as emoções: "Com pessoas que eu conheço, que convivo, acho muito difícil. É como se eu travasse. Se eu fosse chorar, é só eu chorando sozinha. É só quando eu não aguento mais que eu choro, peço colo". Observa-se que há uma necessidade de acolhimento e de validação emocional, porém, a participante apenas compartilha suas emoções quando atinge um nível de tensão elevado e não consegue mais se conter. O bloqueio das emoções apresentado pelas participantes pode ser compreendido como um mecanismo de autorregulação que cumpre a função de tentar reduzir a tensão entre organismo e ambiente (Castelo Branco, 2019), porém pode desencadear em somatização, perda de suporte social ou dificuldade de simbolizar acuradamente a perda.
Outrossim, é possível que a resistência em compartilhar a dor da perda também esteja interligada à busca pela preservação de um autoconceito constituído pelas noções de que ser uma pessoa que vivencia o luto considerado normal ou de ser uma pessoa forte significa aceitar a morte de modo passivo e resignado, evitando falar com frequência sobre o falecido.
Para Rogers (1951/1992), as emoções acompanham e, em geral, facilitam um comportamento que está direcionado a uma meta, de modo que o tipo de emoção diz respeito aos aspectos de busca ou de satisfação do comportamento. As emoções são classificadas em dois grupos: as desagradáveis e/ou excitadas que se associam ao empenho e busca do organismo para uma meta; e as calmas e/ou satisfeitas que se relacionam à experiência de satisfação das necessidades. Assim, as experiências de luto são acompanhadas por diversas emoções relacionadas à simbolização consciente, à distorção ou à negação da perda/morte.
A tristeza é apontada por P2 como uma emoção predominante em sua experiência de luto, sendo experimentada de forma intensa: "Mas assim, eu não consigo falar sem chorar essas coisas. E eu me sinto triste, muitas vezes, muita parte do meu dia". Rogers (1951/1992) afirma que a intensidade da emoção depende da percepção do indivíduo acerca da importância da experiência para a proteção e o desenvolvimento organísmico. Nesse sentido, a tristeza relacionada à perda pode indicar o nível de implicação do organismo e do self em atender determinadas necessidades atuais frente à ausência do ente querido.
O sentimento de injustiça também emerge na experiência de luto da P2: "Às vezes, eu acho injusto. Pode ser egoísmo da minha parte, mas, às vezes, eu penso que tinha tanta gente ruim pra ir primeiro". A narrativa de P2 sugere que a morte do seu pai é percebida como algo que ele não merecia, comparado a outras pessoas consideradas ruins por ela. Além disso, é possível que a significação pessoal atribuída à morte do pai seja percebida de modo inadequado pela participante, visto que ela se autoavalia como alguém egoísta por pensar dessa forma.
A seguir, o relato da P1 indica que ela compreende o luto como um sofrimento que apenas quem vivencia a morte de uma pessoa significativa pode dimensionar: "Só sente essa dor realmente quem passa por ela. Cê fala: ‘Ah, perdeu o pai.. ah tá, beleza'. Mas se você não sentiu essa dor, é uma dor horrível". A participante sugere que o luto nem sempre é validado socialmente e destaca a dor emocional que atravessa a experiência dela como enlutada.
A culpa e o arrependimento também emergem no luto de P1: "Fiquei com uma culpa muito grande de não ter sido uma filha mais amiga, mais presente. De não ter dado mais atenção pra ele. A culpa hoje que eu carrego é essa, a sensação de não ter feito mais". Nesse caso, parece existir uma angústia relacionada ao desacordo entre a noção que a participante tem sobre o que seria uma boa filha e a sua experiência vivida. É possível dizer que há uma noção de filha-ideal enquanto alguém mais atenciosa, amiga e prestativa. No entanto, a percepção que P1 tem sobre a filha-real e sobre o seu comportamento no relacionamento com o pai difere dessa noção de boa filha, o que pode estar vinculado a tais sentimentos que emergem na simbolização da perda. A culpa está relacionada ao paradoxo de não ser o que gostaria de ser, e o arrependimento refere-se às atitudes que deveria ter tomado em relação ao pai.
No luto das participantes, também emergiu um sentimento de angústia e vulnerabilidade frente à percepção da dificuldade de lidar com a dor da perda e de seguir adiante após a morte do ente querido. P1 demonstra angústia, relatando a sensação de uma dor infindável e/ou insuperável: "Em questão de sentimento, é como se a gente tivesse entrado num buraco. Parece que não vai sair nunca. A sensação que eu tenho é essa". P2 sinaliza uma experiência temporal subjetiva própria no processo de luto, ao ressaltar uma sensação aguda de perda mesmo após dois anos do falecimento do pai: "Depois da perda do meu pai, eu fiquei muito mais, (suspira) eu fiquei muito mais sensível, e com dificuldade, realmente de caminhar, de ter que seguir (…) E assim, tem dois anos (soluça) e parece que foi ontem." Esses aspectos da experiência podem estar relacionados aos impactos das especificidades da morte no contexto pandêmico. No entanto, também sugerem um processo de avaliação condicional realizado pelas participantes sobre as suas reações emocionais, tendo como referencial a noção introjetada do que é considerado um luto saudável ou adequado dentro da sociedade em que está inserida.
Não há um modo brasileiro único de elaborar o luto devido à diversidade étnica, geográfica, religiosa e cultural no país, pois existem variadas tradições no modo de expressar a perda. Todavia, pode-se compreender o luto no Brasil a partir de uma sociedade ocidental moderna e individualista, onde a morte é um tabu, e falar sobre falecidos pode ser considerado algo mórbido, patológico ou uma recusa em seguir adiante. A visão sobre a morte ancorada na noção do progresso e do consumo é comum nas áreas urbanas do Brasil, portanto, há uma expectativa social de que os enlutados retomem sua rotina o mais breve possível (Franco, 2021).
É possível interligar uma abordagem culturalmente sensível sobre o luto com concepções teóricas da ACP. O conceito de avaliação condicional é descrito por Rogers (1959/1977) como a avaliação que o indivíduo faz sobre suas experiências a partir dos valores de outras pessoas, desconsiderando o nível de autorrealização que experimenta. A P2 parece atribuir um valor negativo a alguns elementos da sua experiência de luto, como, por exemplo, não conseguir "seguir em frente" e se sentir mais vulnerável. É válido sugerir que essa consideração seletiva pode estar implicada na maneira como determinados comportamentos e reações emocionais frente à morte são ou não aceitos e validados socialmente.
Em contraposição às teorias sobre o luto que entendem o rompimento do vínculo com a pessoa falecida, necessariamente, como indicativo de luto saudável, a ACP compreende o processo de elaboração de luto com fluidez, dinamismo e busca por homeostase organísmica. Segundo Haugh (2011), a partir de uma perspectiva centrada na pessoa, a reação apresentada pelo indivíduo frente à perda é a maneira mais saudável de estar no presente. É preciso que exista confiança na tendência à autorrealização, na medida em que não há como precisar quais são as partes da estrutura do eu que estão sendo protegidas pelo enlutado.
Self-em-Relacionamento com o Ente Falecido
A relação estabelecida ao longo da vida entre as participantes da pesquisa e o pai é um elemento que atravessa as suas experiências de enlutamento. Os desafios, potências e conflitos existentes nesse vínculo entre pai e filha repercutem no processo de integração e de simbolização da morte desse familiar. A percepção que as participantes têm sobre o relacionamento, sobre o pai e sobre o papel que exercem como filhas relacionam-se aos sentimentos e emoções que emergem no luto, aos sentidos atribuídos à morte, às atitudes defensivas e mecanismos de autorregulação utilizados para lidar com o sofrimento causado tanto pela perda do ente querido quanto pelas perdas simbólicas vivenciadas.
A P2 descreve um relacionamento conflituoso com o pai, a percepção de ausência da figura paterna e uma relação ambígua. Parece existir um sofrimento frente à necessidade de suporte não atendida pelo genitor, por outro lado, percebe-se como uma mulher independente e forte como consequência dessa referência paterna: "Relacionamento conturbado, difícil, porque eu queria ter apoio de pai. Essa ausência deixou traumas. Ao mesmo tempo, dava força pra continuar, por eu ser parecida com ele, tinha que pegar o modelo dele de independência e sair pro mundo". A noção de independência parece ser um valor integrado como parte da estrutura de self de P2, sendo também uma característica valorizada no pai. Segundo Rogers (1959/1977), a consideração positiva condicional realizada por pessoas significativas leva ao aprendizado, em um nível subceptivo, de quais são os elementos da experiência do indivíduo considerados aceitáveis ou não. O autor acrescenta que toda pessoa possui uma necessidade de consideração positiva que está implicada no desenvolvimento e manifestação da noção do eu.
No caso da P2, é possível dizer que o seu pai se configurava como uma pessoa-critério e que existia a necessidade de ser amada e aceita pela figura paterna, como é indicado em sua narrativa: "Ele não me aceitava. No fundo, no fundo, não me aceitava".Pode-se dizer que, em certa medida, há uma distorção da experiência com relação à ausência do pai, uma vez que perceber uma necessidade interna de afeto não atendida como algo que trouxe fortalecimento pode ser uma atitude defensiva do self contra a ideia ameaçadora de não ser amada e aceita. Nesse caso, possivelmente, a distorção relaciona-se ao desejo e à necessidade de aceitação do pai. Destarte, mostrar-se uma pessoa independente e forte seria uma maneira de buscar por consideração positiva do pai e ter as suas necessidades de self atendidas.
A negação de alguns elementos relacionados ao pai também aparece como atitude defensiva na experiência de P2: "O relacionamento dele com a minha mãe me afetou muitas vezes. Só que depois da perda (emociona-se), esse lado dele não podia aparecer tanto mais pra mim". O relato denota que, após a morte do pai, houve uma tentativa de bloquear as percepções negativas relacionadas às características dele. É possível que a idealização da pessoa falecida como alguém que não cometeu erros funcione como mecanismo de autorregulação diante dos sentimentos de culpa e remorso que podem emergir ao fazer uma avaliação negativa das atitudes do ente falecido. Outrossim, uma postura crítica ao pai após a sua morte pode ser incongruente à noção que P2 tem sobre como uma boa filha supostamente deveria reagir à perda.
Assim como no vínculo estabelecido entre a P2 e o ente falecido, a relação entre P1 e o pai também tem contornos singulares e reverbera em seu luto. P1 afirma que existiam conflitos no relacionamento, mas eram vistos como algo intrínseco de uma relação entre pai e filha, como é descrito no trecho: "Ter conflitos, tem, que é normal, mas, nada assim ao extremo". O relato de P1 revela que os conflitos não são percebidos de modo negativo e nem parecem estar acompanhados de emoções intensas. Ela acrescenta: "Meu pai (pausa longa, limpando as lágrimas), basicamente, vivia pra gente. Não sei de nada assim que a gente quisesse, pedisse pra ele, que ele não dava um jeito. Ele vivia pra gente, foi extremamente presente".
A narrativa de P1 ressalta o papel de cuidado ocupado pela figura paterna. A participante descreve grande preocupação e esforço do pai em atender às necessidades dela e da família, em detrimento das próprias. A fala de P1 sugere a existência de uma relação com importante proximidade afetiva que sofreu ruptura física e existencial imposta pela morte. Possivelmente, a morte é uma experiência ameaçadora ao self de P1 por significar não só a perda de uma pessoa amada, mas também de alguém que representa proteção, cuidado e provisão. P1 retrata a história de vida do pai com admiração e orgulho de suas conquistas, ressaltando como a infância dele foi marcada por dificuldades, pobreza e abandono. A importância dada à família e o empenho em atender às necessidades da esposa e das filhas pode estar interligado à história dele: "A vida dele foi muito difícil, cresceu sem nada, sem apoio familiar, sem casa, foi muito pobre e construiu uma vida muito boa, tudo mérito dele". P1 acrescenta: "O sonho dele era ver nós três formadas e só conseguiu ver uma (voz embargada). Ele nunca teve acesso a estudo, tinha que trabalhar pra ter o que comer. Era o sonho da vida dele, e nunca realizou (choro)".
O relato da P1 denota que a graduação das filhas era um desejo do pai diante da projeção de um sonho pessoal não concretizado. Nessa perspectiva, a experiência de luto de P1 também é perpassada pelo sofrimento frente à impossibilidade de atender as necessidades internas e expectativas do ente querido. É possível que seja experimentado um luto simbólico diante da mudança dos planos familiares e da ausência do pai em momentos significativos futuros que foram idealizados por ele, a exemplo da formatura das outras filhas. Assim, observa-se que a figura paterna se constitui enquanto uma pessoa-critério para ambas as participantes.
A experiência de luto de P2 também é atravessada por perdas simbólicas. A participante revela um sentimento de abandono que constitui o vínculo com o pai antes do seu falecimento, mas que é experimentado de forma ainda mais intensa diante da percepção de que a sua ausência agora se torna irreversível: "Eu fui abandonada por ele, em certos pontos, mas esse abandono agora de saber que eu não tenho mais pai é muito maior do que o outro abandono". Ela acrescenta: "Vem uma espécie de perda, entende? Você perdoa, porque ele foi assim. Se tivesse uma chance, eu faria diferente. Mas esse tipo de situação, não existe chance". Apesar do desejo de fazer uma escolha diferente no relacionamento com o ente querido, P2 compreende que isso não é mais viável diante da morte dele. A narrativa sugere que é experienciado um luto pela impossibilidade de ressignificar o laço com a figura paterna de acordo àquilo que é considerado mais congruente à estrutura de self atual da participante.
Mudanças Após a Morte do Ente Querido e Estratégias de Enfrentamento
A experiência de perda das participantes indica que, além das repercussões emocionais, a morte de uma pessoa significativa pode impactar no cotidiano, na dinâmica familiar e em aspectos existenciais. À vista disso, são adotadas estratégias para o enfrentamento da ausência do ente querido, para a reorganização da estrutura do self e do modo de funcionamento familiar, bem como para a reestruturação da rotina e dos papéis ocupados pelas enlutadas.
As narrativas das participantes evidenciam que o pai falecido ocupa um lugar central para a organização do funcionamento familiar. Pode-se dizer que a morte do ente querido deixa lacunas nessa dinâmica que implicam rearranjos existenciais e de elementos da vida cotidiana prática. É possível que os familiares experimentem angústia e tensão frente à demanda de integração de novos papéis e de ressignificação da noção de si e das relações interpessoais. O trecho de fala de P1 indica a percepção de que todas as áreas da vida foram impactadas pela morte do ente querido e a ausência desse membro da família torna tudo diferente de antes: "Mudou basicamente tudo, porque meu pai, na verdade, era o maior provedor da minha casa. A gente tinha uma rotina, um estilo de vida. A gente vive bem, mas não é mesma coisa". P1, por sua vez, identifica o papel de provedor desempenhado pelo pai e destaca as mudanças percebidas após a morte dele, evidenciando o impacto financeiro no estilo de vida da família.
No caso da P2, o relato apresenta uma experiência emocional ambígua com relação a como ela se percebe enquanto filha na relação estabelecida com a mãe após a morte do pai: "Minha mãe pretende vir pra morarmos juntas. Não é fácil, porque tenho rotina diferente. Não posso assumir um papel que não seja meu. Ao mesmo tempo, sinto que tenho que assumir, porque sou filha. Não posso abandonar minha mãe". De acordo com a narrativa, parece existir uma necessidade interna por uma vida privada, ao passo em que existe também um senso de responsabilidade para assumir o cuidado da mãe, a partir do valor introjetado de que uma boa filha não deve abandonar a mãe. Ela questiona-se sobre os limites do seu papel enquanto filha. Além disso, a participante demonstra pouca abertura experiencial na ressignificação do vínculo materno ao afirmar que não consegue abrir mão da sua rotina anterior para morar com a mãe. P2 também parece preocupar-se com uma possível necessidade de adequação pessoal aos hábitos e costumes ao conviverem na mesma casa.
A P2 narra também que a vivência da dor pela morte do pai impulsionou um movimento de revisão de valores pessoais, de lidar com a perda de planos não concretizados, de reflexão sobre as próprias atitudes no relacionamento com os familiares, assim como de compreensão sobre a importância de nutrir e expressar afeto em suas relações interpessoais ainda em vida: "Você enxerga a vida de outra forma. Eu via meu pai velhinho, me via cuidando dele, mas a gente não tem controle. A vida é realmente um sopro. Se quiser dizer que ama, fale hoje. E relevar muitas coisas". A experiência de perda parece ter levado P2 a uma tomada de consciência sobre a finitude e a impossibilidade de controle sobre a vida.
A tendência à autorrealização orienta e propulsiona o fluxo de vida dos enlutados no sentido da preservação e do desenvolvimento para atender às necessidades organísmicas e de self (Rogers, 1951/1992). A perda de um ente significativo pode causar sofrimento intenso diante das mudanças e rupturas concretas e simbólicas experimentadas pelo enlutado. Contudo, também é possível que a perda se configure como um ponto de tensionamento que promova ampliação da consciência e da percepção do indivíduo sobre si mesmo e sobre as suas relações com os outros e com o mundo. Admitir à consciência o caráter imprevisível e finito da vida pode impulsionar a busca por autenticidade e congruência nas relações consigo e com o outro.
A compreensão do processo de luto sob o prisma da tendência à autorrealização concebe as estratégias de enfrentamento no luto como movimentos de autorregulação apresentados pelo indivíduo com o objetivo de reduzir a tensão entre o organismo e o ambiente causada pela morte. A busca por homeostase pode acontecer pelas vias da: modificação de si mesmo ou adaptação ao ambiente, pela mudança do ambiente para melhor adequá-lo às necessidades organísmicas e de self ou pela evitação do ambiente (Castelo Branco, 2019).
A partir da fala de P1, pode-se observar que o trabalho e o esforço da participante em se envolver em muitas tarefas são formas de autorregulação diante da perda: "Comecei a trabalhar também pra ocupar minha mente, porque eu tinha acabado de me formar". P1 acrescenta que busca evitar entrar em contato com os sentimentos imediatos e as lembranças relacionadas ao pai: Além disso, a participante não foi à cerimônia de colação de grau para se afastar de um contexto que poderia causar mobilização emocional pelo fato de ser um momento significativo para o ente falecido. "Minha formatura era um sonho dele. Não tive, não quis ir (pausa prolongada, respiração difícil, tenta conter o choro). Aí eu comecei a trabalhar, e eu tento ficar ocupada o máximo possível pra não ficar pensando (voz embargada)".
No processo de simbolização da perda, a espiritualidade também aparece como elemento mediador tanto para lidar com a perda quanto para a atribuição de sentido à morte. Na experiência de luto da P2, a religiosidade se manifesta como um recurso interno utilizado para o enfrentamento da perda e para a construção de significados sobre a morte: "Só peço a Deus que acalme meu coração. Se você não tiver fé, realmente você não tem mais vontade de viver. É o que me segura. Quando tô desistindo das coisas, lembro que Deus existe. E não posso desistir". A narrativa de P2 denota a busca por conforto emocional e fortalecimento através da fé. Em alguns momentos, o sofrimento pela perda do pai é tão intenso que a enlutada pensava na morte como solução lidar com a dor da perda. Nesse caso, as crenças religiosas parecem funcionar como fator protetivo frente à ideação suicida apresentada pela P2 no seu luto.
Na experiência de luto da P1, as crenças religiosas possuem outro significado: "Fiquei muito tempo sem entender porque Deus fez isso, porque eu pedi tanto, tanto (choro), pra ele não falecer, porque meu pai… (fala interrompida pelo choro). Ele já vinha de outros cânceres, de outras doenças. Deus sempre esteve com ele". O trecho de fala sugere que a participante pode ter se sentido abandonada por Deus diante da morte do pai, visto que mesmo após pedir pela recuperação do ente querido, as suas preces não foram atendidas. Além disso, a partir da fé, parecia existir uma confiança de que o desfecho seria diferente, considerando as experiências de recuperação anteriores do pai diante de outros processos de adoecimento.
Outro elemento que se destaca no luto de P2 diz respeito à compreensão da terapia como possibilidade de recurso externo para o enfrentamento da perda: "Têm questões que realmente não dá pra seguir sozinho. Uma dor tem que ser compartilhada pra ter força pra continuar. Procuro não falar muito das minhas coisas. Só consigo falar na terapia, porque numa terapia você consegue ser você." O relato indica que a enlutada vivencia a morte do pai como uma experiência tão dolorosa e difícil que não seria possível de ser suportada sem ter algum tipo de suporte emocional. P2 acrescenta que o luto deve ser compartilhado e que consegue se expressar melhor no contexto da terapia. Infere-se que esse fato se relacione a um possível sentimento de segurança experimentado anteriormente nesse setting terapêuticodevido à uma experiência de acolhimento e de não julgamento que favoreceu a manifestação de si mesma de forma autêntica.
Segundo McLaren (1998), no atendimento às pessoas enlutadas, o psicólogo pode ser percebido como uma figura neutra por estar desvinculado do impacto da morte. Assim, os clientes podem se sentir mais impulsionados a expressar suas emoções, narrando sobre sua experiência de perda sem se sentirem ameaçados. As atitudes facilitadoras de compreensão empática, consideração positiva incondicional e de congruência facilitam a integração da perda da forma que pareça adequada para o enlutado e no sentido da autorrealização.
Considerações Finais
O processo de luto e a simbolização da perda de pessoas que perderam um ente querido pela Covid-19 ocorrem de forma singular, estão culturalmente circunscritos e sofrem o atravessamento de diversos fatores relacionados à pandemia. Pode-se afirmar que este contexto constitui o campo fenomenológico e as experiências dos enlutados. No decorrer deste estudo, observou-se que a natureza repentina da morte, as medidas sanitárias de contingenciamento e as mudanças nos rituais fúnebres e de despedida repercutiram na assimilação da perda, nas reações emocionais e nos sentidos atribuídos à morte pelas participantes. Assim, esta pesquisa pode contribuir para subsidiar intervenções centradas na pessoa em contextos pandêmicos, ao considerar as especificidades das experiências de perda no processo de elaboração do luto.
É importante ressaltar que as expressões emocionais, os movimentos de autorregulação e de defesa frente à morte de uma pessoa significativa são particulares, visto que se relacionam ao autoconceito do enlutado, ao grau de (in)congruência que experimentam, aos valores pessoais, às crenças religiosas, ao vínculo estabelecido com o ente querido, ao nível de suporte sociofamiliar recebido, bem como às condições de valor e ao grau de abertura experiencial para a reorganização da vida e das noções de si após a perda. Destaca-se, ainda, que o luto vivenciado em um contexto marcado pela falta de apoio psicossocial e de recursos de saúde pública adequados enseja maior vulnerabilidade social e sofrimento psíquico.
Conclui-se que este estudo possibilita uma compreensão sobre o luto, fundamentada na ACP, a partir do entendimento desse fenômeno como dinâmico e fluido. Nessa perspectiva, o luto pode ser apreendido como uma busca por homeostase que, não necessariamente envolve uma quebra de vínculo com o ente falecido, mas pode significar a continuidade de uma relação com novas configurações e significados. Outrossim, entende-se que o luto também abrange perdas simbólicas diante das mudanças de vida e da dinâmica familiar, da reestruturação de papéis, além da reorganização do self. Destarte, o luto pela morte de uma pessoa significativa representa, em um nível simbólico, o luto pela morte de uma versão de si mesmo.
Por fim, a pesquisa traz como limitação a amostra reduzida de participantes devido à dificuldade enfrentada de adesão ao estudo. Ressalta-se a importância de novas pesquisas empíricas sobre o luto a partir de uma ótica acepista, considerando que perdas concretas e simbólicas são demandas comuns em diversos espaços de atuação do psicólogo. Espera-se que esta pesquisa fomente novos estudos teóricos ou empíricas sobre o tema, considerando as potencialidades e especificidades da compreensão baseada na ACP acerca desse fenômeno.
Referências
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Endereço para correspondência
Juliana de Almeida Silva - julianapsicoalmeida@gmail.com
Recebido em: 26/06/2024
Aceito em: 20/01/2025
Editora associada: Kamilly Souza do Vale
Conflito de interesse
Os autores declaram que não há conflitos de interesse.
Disponibilidade dos Dados
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.
Nota sobre autoria
Juliana de Almeida Silva - conceituação; investigação; metodologia; administração de projetos; visualização; escrita - rascunho original.
Andréa Batista de Andrade Castelo Branco - conceituação; metodologia; supervisão; administração de projetos; visualização e rascunho original.
Nota de agradecimento
Aos membros do Laboratório Centrado na Pessoa (LACP) da Universidade Federal do Ceará (UFC) pelo apoio na coleta de dados.
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