Estudos e Pesquisas em Psicologia
2025, Vol. 25. e85039, doi:10.12957/epp.2025.85039
ISSN 1808-4281 (online version)

 

PSICOLOGIA CLÍNICA E PSICANÁLISE

 

Impulso Amoroso Primitivo

 

Primitive Love Impulse

 

Impulso Amoroso Primitivo

 

Leopoldo Fulgencio a

a Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
Endereço para correspondência

 

RESUMO

Nesse artigo procuro analisar, teórica e descritivamente, a concepção de Winnicott sobre o que ele caracterizou como sendo o Impulso Amoroso Primitivo. Trata-se de analisar essa proposta inserida no quadro da compreensão sobre os impulsos básicos fundamentais que orientam e direcionam as relações humanas. Depois de fazer uma breve referência histórico-crítica - com o objetivo de apenas estabelecer contraponto e marcar diferenças - a como esses impulsos foram considerados por Freud e Klein (com base na vida instintual e na teoria das pulsões e da sexualidade), por Fairbairn (com a libido procurando objetos) e por Bowlby (com a teoria do apego, visando a sobrevivência da espécie), procuro mostrar que Winnicott considerou a existência de um impulso amoroso primitivo como sendo a expressão do estar vivo (com a sua consideração da necessidade de ser e continuar sendo). Esse impulso foi inicialmente associado à própria noção de motilidade e, depois, como um impulso nas ações sobre o mundo que, mesmo podendo causar dano, não tem a intencionalidade de destruí-lo. Como tema complementar da compreensão deste impulso, pode-se distinguir ações destrutivas sem intenção e com intenção, contribuindo para esclarecer as origens da agressividade no ser humano, no quadro da teoria winnicottiana do desenvolvimento emocional.

Palavras-chave: impulso, ser, dependência, ambiente, agressividade.


ABSTRACT

In this article, I seek to analyze, both theoretically and descriptively, Winnicott's conception of what he characterized as the Primitive Love Impulse. It involves analyzing this proposition within the framework of understanding the fundamental basic impulses that guide and direct human relations. After briefly referring - with the aim of simply establishing a counterpoint and marking differences - to how these impulses were considered historic and critically by Freud and Klein (based on instinctual life, the theory of drives, and sexuality), by Fairbairn (with libido seeking objects) and by Bowlby (with the theory of attachment, aiming at species survival), I aim to show that Winnicott considered the existence of a primitive loving impulse as the expression of being alive (with his consideration of the need to be and continue being). Initially, this impulse was associated with the very notion of motility and later as an impulse in actions in the world that, even though it may cause harm, does not have the intention of destroying it. As a complementary theme to understanding this impulse, one can distinguish between unintentional and intentional destructive actions, contributing to clarifying the origins of aggressiveness in humans, within the framework of Winnicott's theory of emotional development.

Keywords: impulse, being, dependence, environment, aggression.


RESUMEN

En este artículo, busco analizar, tanto teórica como descriptivamente, la concepción de Winnicott sobre lo que él caracterizó como el Impulso Amoroso Primitivo. Se trata de analizar cuáles serían los impulsos básicos fundamentales que guían y dirigen las relaciones humanas. Después de hacer una breve referencia histórico-crítica -con el objetivo de establecer simplemente un contrapunto y marcar las diferencias- a cómo estos impulsos fueron considerados por Freud y Klein (basado en la vida instintiva, la teoría de las pulsiones y la sexualidad) y por Bowlby (con la teoría del apego, con el objetivo de la supervivencia de la especie), busco mostrar que Winnicott consideró la existencia de un impulso amoroso primitivo como la expresión de estar vivo (con su consideración de la necesidad de ser y continuar siendo), inicialmente asociado a la propia noción de motilidad y, después, como un impulso en las acciones sobre el mundo que, aunque pueda causar daño al mundo, no tiene la intencionalidad de destruirlo. Como tema complementario a la comprensión de este impulso, se pueden distinguir entre acciones destructivas involuntarias e intencionadas, contribuyendo a esclarecer los orígenes de la agresividad en el ser humano, en el marco de la teoría del desarrollo emocional de Winnicott.

Palabras clave: impulso, ser, dependencia, ambiente, agresividad.


 

 

A psicologia, seja em qual vertente for, considera de maneira mais ou menos clara, mais ou menos explícita, um motor da existência humana, supondo o que é que busca e o que precisa um bebê, uma criança, um adolescente e um adulto, como um tipo de impulso, ontológico e ôntico, de todo ser humano.

As hipóteses e a compreensão sobre qual ou quais são esses motores da existência humana têm sido apresentadas em diversas áreas do saber, especialmente na filosofia e na psicologia, apresentando campos epistemológicos e semântico-teóricos amplos e multifacetados que, certamente, não podem ser abordados de uma só vez. Mais ainda, trata-se de um problema ou questão que parece não admitir que seja dada resposta universal que seja única e, até mesmo, sintetize todas as proposições já apresentadas. Procurarei, aqui, apresentar um recorte desse problema, no campo da psicanálise, mais especificamente, indicando qual a resposta dada a essa pergunta por Freud, Klein, Fairbairn, Bowlby e Winnicott. Nesse contexto, proponho mostrar qual o sentido conceitual e empírico do que Winnicott caracterizou como sendo o "impulso amoroso primitivo", enquanto um dos aspectos do impulso básico que caracteriza a natureza humana.

Para contextualizar, bem como dar foco e delimitação a minha proposta neste artigo, vou fazer alguns comentários indicando que: para Freud e Klein, o impulso básico motriz da vida da alma são as pulsões (Die Triebe), impulso que busca o prazer ou a descarga; para Fairbairn, a libido, como um impulso para objetos, mais do que para o prazer, em função da importância do outro para a sobrevivência da espécie; em Bowlby, na sua proposta de articulação da psicanálise como o darwinismo moderno, o apego, como impulso biológico mais apropriado à sobrevivência da espécie; e para Winnicott, numa perspectiva fenomenológica existencialista, a necessidade de ser e continuar a ser. É nesse contexto, marcando estas diferenças conceituais e descritivas, que me proponho a analisar o sentido e o referente do que Winnicott caracterizou como sendo o "impulso amoroso primitivo", enquanto um fenômeno associado à ontologia da natureza humana. Todo o percurso argumentativo do artigo, bem como a referência inicial a Freud, Klein, Fairbairn e Bowlby, estão em função da compreensão da proposta de Winnicott, logo, ainda que fosse interessante analisar (em todos estes autores) suas propostas sobre como entendem os impulsos básicos da vida psicoemocional do ser humano, não se trata de fazer a exegese destes supostos impulsos, para cada um destes autores, mas colocar suas propostas e diferenças em função da compreensão do que é o impulso amorosos primitivo.

A escolha desses autores e o foco deste artigo se devem ao fato de que, por um lado, em todos eles, podemos reconhecer e diferenciar o sentido e o referente desses impulsos e, por outro, especialmente destacando Bowlby e Winnicott, porque ambos tem sido utilizado como autores de referência para pesquisas atuais - por exemplo, as de Daniel Stern, Bernard Golse e Peter Fonagy -, enfatizando a importância da relação mãe-bebê como fundamento da saúde psíquica. Nesse momento, os impulsos básicos ou fundamentais estariam mais puros como determinantes, enquanto que, em momentos mais tardios do desenvolvimento, há impulsos e desejos que se sobrepõem e complexificam esses impulsos.

Ao fazer uma revisão bibliográfica específica, procurando autores que tenham comentado ou se referido ao conceito de Impulso Amoroso Primitivo em Winnicott (em diversas bases, mas especialmente no site da Psychoanalytic Electronic Publishing), encontrei a maior parte das diversas referências a este tema associadas ao problema e/ou fenômeno da origem da agressividade no ser humano (Goldman, 2012; Groarke, 2016). Algumas poucas referências à compreensão desse conceito fazem parte de uma ontologia proposta por Winnicott, a da necessidade de ser e continuar a ser, que é, por sua vez, distinta da ontologia freudiana das pulsões e distinta da ontologia bowlbiana do apego. Em nenhuma dessas referências bibliográficas mais atuais há uma análise conceitual diferenciando essa noção de Winnicott da noção de pulsão (Trieb) em Freud, e de apego, em Bowlby. No único livro dedicado a analisar comparativamente essa distinção entre o impulso amoroso primitivo e a noção de apego, Donald Winnicott and John Bowlby (Issroff, 2005), ela também não é abordada. Nas diversas publicações dedicadas à compreensão ou uso da teoria do apego, o apego é, na maioria das vezes, considerado como um impulso biológico que visa a sobrevivência da espécie, sem analisar ou discutir a diferença entre a efetiva relação de apego fenomenologicamente observável em todo bebê e em toda criança e a suposição de um impulso de natureza ontológica, impossível de ser observada ou reconhecida objetivamente, para a espécie. Esse tipo de distinção e compreensão (sobre os impulsos fundamentais da natureza humana) pode, a meu ver, fornecer um substrato conceitual e fenomenológico mais claro para a compreensão da origem da agressividade e das dinâmicas relacionais primitivas associadas às primeiras relações do bebê com a mãe e do bebê com o mundo. Também me ocuparei, ao final do artigo, da análise da participação do impulso amoroso primitivo na complexa origem da agressividade no ser humano, tema, por sua vez, mais amplo e não redutível apenas aos aspectos associados ao impulso amoroso primitivo. É esta a proposta e o foco deste artigo, que passo, então, a desenvolver.

Essa questão tem tanto um interesse teórico quanto prático (clínico), dado que indica, fundamentalmente, o que os pacientes necessitam, o que podemos oferecer-lhes e como podemos trabalhar com seus impulsos estruturais básicos, bem como com as diversas formas de expressão e realização da agressividade, para a devida compreensão do seu sentido ao longo do processo psicoterápico psicanalítico.

Freud e Klein: A Pressuposição das Pulsões como a Força Motriz Fundamental da Vida da Alma

Desde Freud a psicanálise tem procurado fundamentar qual é o motor das relações emocionais, partindo do seu princípio pós-natal até a constituição do sujeito maduro, seja em termos da saúde seja nas organizações psicopatológicas, estabelecendo, assim, tanto um fundamento ontológico quanto um telos para a existência.

Para Freud o homem é pensado como sendo um ente da natureza, como um sistema termodinâmico que, necessariamente, está regido pelas mesmas leis que governam a natureza: fundamentalmente, a lei da entropia, ou seja, a de que todo sistema procura a estabilidade no seu menor nível energético possível. Mais ainda, a compreensão do que é o homem, do que é, num sentido mais restrito, a vida da alma, faz com que Freud utilize uma analogia, um conceito auxiliar teórico (especulativo), afirmando que o homem é como se fosse um aparelho, um aparelho psíquico dividido em instâncias, relativamente independentes, que visam estabelecer o maior equilíbrio possível entre suas exigências - para uma análise detalhada das propostas metapsicológicas de Freud (Fulgencio, Simanke, Imbasciati, & Girard, 2018).

É dentro desse quadro naturalista que Freud suporá qual é o princípio fundamental, a força motriz que impulsiona esse sistema natural: a pulsão. Ela é pensada, primeiro, como uma necessidade epistemológica de uma ciência e do seu campo de fenômenos, pressupondo uma causa originária anterior à qual nenhuma outra deve ser considerada, um princípio motriz presumido em todos os processos e fenômenos. Em segundo lugar, reconhecendo, no entanto, que esse princípio é um tanto quanto vago, até mesmo um mito, Freud procura, usando analogias, dar um conteúdo empírico para essa ideia abstrata, seja quando enuncia as pulsões sexuais, nos Três Ensaios sobre a teoria da sexualidade [analogia com a biologia], seja no seu "Pulsões e seus destinos", quando, depois de reconhecer a necessidade e a obscuridade desse conceito, procura "preencher seu conteúdo de diversas maneiras"(Freud, 1915, p. 118), fazendo analogias com outras áreas do conhecimento.No entanto, Freud sempre esteve ciente da obscuridade da sua pressuposição especulativa: "A doutrina das pulsões é, mesmo para a psicanálise, um domínio obscuro" (Freud, 1926/1961, p. 266); "ela [a teoria das pulsões] é nossa mitologia" (Freud, 1933/1964, p. 95).

É nesse contexto que todas as relações inter-humanas são pensadas como impulsionadas pelas forças psíquicas (as pulsões), sejam as mais primitivas - a relação consigo mesmo, autoerótica e narcísica, e a relação com o seio ou a mãe (ou ainda, substitutos desses objetos primordiais) - sejam as que constituem a vida sociocultural, toda a vida afetiva e, dentre elas, as relações transferenciais nos processos psicoterápicos.

Com Melanie Klein, estamos no mesmo contexto epistemológico, ainda que redescrito em função das dinâmicas relacionais explicitadas na compreensão dos modos de relação esquizo-paranoide e depressivo. Tanto num como noutro, no entanto, há a suposição de que o ser humano estabelece, desde o início, relações de objeto impulsionado pelas pulsões, realizando o amor e o ódio: "O uso que faço do termo ‘relações de objeto' baseia-se na minha asserção de que o bebê, desde o início da vida pós-natal, tem com a mãe uma relação (se bem que centrada primariamente em seu seio) imbuída dos elementos fundamentais de uma relação objetal, isto é, amor, ódio, fantasias, ansiedades e defesas" (Klein, 1952, p. 72).

O amor e o ódio, os impulsos amorosos e destrutivos, sejam vividos de forma integrada (na posição depressiva) sejam de forma cindida (na posição esquizo-paranoide), nesse pensamento freudo-kleiniano, são determinados pelas pulsões, antes das quais nada é suposto e posterior às quais "uma miríade de dinâmicas relacionais" são supostas, especialmente no que se refere às relações que têm ou não o cenário edípico como referência. Seja como for, as pulsões e a vida sexual (que delas deriva) correspondem às forças motrizes que determinam e precisam ser administradas na vida emocional, tanto referida ao indivíduo quanto à sociedade.

Desenvolvimentos Críticos da Teoria das Pulsões, Apoiadas em Perspectivas Darwinistas (Fairbairn e Bowlby)

A afirmação freudiana de que são as pulsões os motores básicos da existência psíquica e que as relações de objeto visam, em última instância, atendê-las, seja na busca do prazer seja na busca do menor equilíbrio energético, compondo o princípio do prazer com o da realidade, foi questionada por Fairbairn (ao afirmar que a libido procura objetos e não o prazer). Ele supôs que é mais importante para a espécie humana assegurar-se de encontrar um outro (sem o qual ele não sobreviveria) do que encontrar o prazer. Ou seja, Fairbairn (Clarke & Scharff, 2014, para uma apreensão crítica detalhada das contribuições de Fairbairn) apoia-se, na sua pressuposição crítica, num pensamento evolucionista darwinista, para afirmar que, para o ser humano, a busca apelo outro tem um caráter mais fundamental e mais primitivo do que a busca pela descarga pulsional.

Essa perspectiva darwinista para a compreensão do impulso básico que determina a vida psicoemocional do ser humano como espécie foi aprofundada por Bowlby, com a sua teoria do apego. Bowlby, apoiado na sua experiência clínica, institucional e privada, reconhece os efeitos altamente prejudiciais da separação das crianças de seus cuidadores fundamentais (no início da existência), dando, então, aos relacionamentos iniciais uma importância estrutural fundamental para a organização psíquica do ser humano. Diz Claire Squires (2000), nesse sentido:

O trabalho de John Bowlby sobre a ligação primária entre a criança e a mãe marca um momento decisivo na história da psicologia infantil e da psiquiatria. A ideia defendida pelo autor baseia-se na qualidade do atendimento que uma criança recebe durante sua primeira infância, o que é crucial para seu desenvolvimento futuro. Parece que a criança deve experimentar uma relação calorosa, disponível e contínua com uma figura estável dos pais, com o que pode constituir uma base segura para o seu desenvolvimento. As ameaças ou interrupções dessas conexões dão origem a emoções dolorosas na criança, sendo uma fonte de distúrbios psicopatológicos. […] O mais perturbador desses estudos é a hipótese da transmissão da ideia de uma mãe de seu próprio relacionamento afetivo inicial com a criança, levando a padrões semelhantes de apego. (p. 197)

A suposição de Bowlby não advém só de sua experiência clínica e das suas observações da realidade, ele buscou, noutras contribuições da ciência da sua época, subsídios para suas propostas de compreensão, em especial, nas descobertas feitas pelos etólogos sobre os modos instintivos de relacionamento das crias com seus cuidadores. Para ele, as descobertas da psicanálise freudiana deveriam ser consideradas em conjunto com as da biologia, sem o que o desenvolvimento da psicanálise, como ciência, ficaria altamente prejudicado e interrompido. Para ele, Freud colocou-se do lado de Lamark, mas a biologia moderna está alinhada a uma perspectiva darwiniana, o que exigiria, da psicanálise, uma escolha para seu desenvolvimento como ciência. Diz Bowlby:

Como a biologia veio a apoiar-se firmemente em avançada versão de princípios darwinistas e a psicanálise continuou lamarckiana, a distância entre elas cresceu contínua e inevitavelmente. À frente abrem-se apenas três caminhos:
1. O primeiro, dificilmente imaginável, é o de a biologia abandonar a perspectiva darwiniana;
2. O segundo, que defendo, é o de a psicanálise ser reformulada nos termos da moderna teoria da evolução;
3. O terceiro é o de manter-se indefinidamente o divórcio, continuando a psicanálise, permanentemente, para além das fronteiras do mundo científico
(Bowlby, 1973/1984, p. 417).

Bowlby não fez apenas uma suposição teórica, ele buscou no campo da observação e da constatação empírica os dados que poderiam corroborar a sua hipótese.

Ao supor, então, uma teoria do apego, como estabelecendo um novo princípio motriz estrutural para o ser humano, em contraposição ao que Freud havia proposto, ele considerará as pulsões como forças secundárias: o princípio fundamental da existência humana é a procura do outro, como princípio mais útil para sua sobrevivência enquanto espécie (que nasce frágil e dependente). Ou seja, ele pressupõe um princípio ontológico que nomeia como sendo a necessidade de apego (a um outro), mais ainda, ele procura identificar modos de apego estruturais, como se fossem estruturas de apego e de organização da experiência existencial humana pessoal e relacional.

Um esclarecimento importante para a compreensão da proposta de Bowlby e de outros psicanalistas que se ocuparam ou se ocupam do estudo das relações iniciais da criança na sua primeira infância (dentre eles, Winnicott, Stern e Golse), especialmente no que se refere aos bebês e aos dois ou três primeiros anos de vida, recai na necessidade de diferenciar entre o que são evidências empíricas e o que são pressuposições especulativas ou metafísicas. Assim, em Bowlby, por exemplo, é necessário diferenciar o reconhecimento, empírico factual, de que as relações iniciais são fundamentais na organização da vida psico-emocional do ser humano, da suposição de que haveria um impulso instintivo de apego, de que haveria estruturas ontológicas, metafísicas, que orientariam e determinariam os modos de ligar-se do ser humano.

Fundamentos Motrizes da Natureza Humana para Winnicott

Winnicott descreveu com detalhes o conjunto dos acontecimentos relacionais que caracterizam as fases iniciais do processo de desenvolvimento emocional, referindo-se à imaturidade inicial do bebê e à necessidade de sustentação e adaptação ambiental. Explicitou ainda os diversos modos de relação do ser humano com a realidade (modos subjetivos, transicionais e objetivos), diferenciando o que ocorre do ponto de vista do bebê do que se pode descrever do ponto de vista do observador, destacando os processos e conquistas que ocorrem num desenvolvimento saudável, bem como quando há perturbações ou interrupções nesse processo.

Nele também devemos distinguir o que são apreensões e descrições empíricas, do que são suposições ontológicas ou metafísicas, na consideração das relações iniciais do ser humano com o mundo. Será esclarecendo esse contexto que poderei analisar o que ele denomina como sendo o impulso amoroso primitivo e a utilidade dessa noção na compreensão das raízes da agressividade e como fundamento das relações humanas.

Já foi apontado o fato de que Winnicott introduziu a noção de ser na psicanálise e como isso significa uma ruptura epistemológica que refaz o campo psicanalítico (Roussillon, 2009). Essa noção vem substituir a concepção de ser humano suposta por Freud como sendo um ente da natureza. Mais ainda, ela também está no mesmo lugar de compreensão ontológica do ser humano que o considera como mais uma espécie à procura de sobrevivência num quadro de pensamento darwinista (Bowlby), para afirmar que o ser humano tem um modo de ser no mundo específico, que o diferencia dos outros entes (sejam não animados, sejam animados, animais inclusos). Propõe um fundamento ontológico e um sentido existencial que não pode ser redutível aos determinantes dos sistemas termodinâmicos não-animados, nem à busca pela sobrevivência das espécies como princípio existencial. Em resumo, para Winnicott a natureza humana é, fundamentalmente, a expressão de um ente que visa ser e continuar a ser (a partir de si mesmo, como sustentação mais ou menos intensa do ambiente). Na expressão mais sintética desse princípio ele diz:

Gostaria de postular um estado de ser que é um fato no bebê normal, antes do nascimento e logo depois. Esse estado de ser pertence ao bebê, e não ao observador. A continuidade do ser significa saúde. Se tomarmos como analogia uma bolha, podemos dizer que quando a pressão externa está adaptada à pressão interna, a bolha pode seguir existindo. Se estivéssemos falando de um bebê humano, diríamos "sendo". Se por outro lado, a pressão no exterior da bolha for maior ou menor do que aquela em seu interior, a bolha passará a reagir à intrusão. Ela se modifica como reação a uma mudança no ambiente, e não a partir de um impulso próprio. Em termos do animal humano, isto significa uma interrupção no ser, e o lugar do ser é substituído pela reação à intrusão. Cessada a intrusão, a reação também desaparece e pode haver, então, um retorno ao ser. (Winnicott, 1988, p. 148)

Mais ainda, o sentido dado à sua existência não tem nenhuma transcendência, ou seja, não há nada antes nem depois da sua existência que o caracterize e dê sentido à sua existência, reafirmando uma máxima existencialista que afirma que, no homem, a existência precede a sua essência ou é a sua essência. Diz Winnicott, nesse sentido, sobre a natureza humana: "o ser humano é uma amostra temporal da natureza [humana]" (Winnicott, 1988, p. 29).

Associada a essa necessidade de ser, também como um suposto princípio ou determinante, temos algumas outras formulações de Winnicott, enunciadas como sendo: a tendência inata à integração (ou ao desenvolvimento, ou amadurecimento) e a elaboração imaginativa do que ocorre na existência (que nada mais é do que os diversos modos de dar sentido ao que ocorre na existência, desde os acontecimentos corporais do início até formas mais elaboradas, tais como criar, desejar, amar, odiar, fantasiar, devanear, sonhar etc.).

É nesse contexto, considerando a imaturidade radical do bebê, que nada sabe sobre si mesmo, sobre seus sentimentos, suas afecções, sobre o outro como externo a ele, que Winnicott considerará que existe um Impulso Amoroso Primitivo 1. Este impulso é, inicialmente, sinônimo de motilidade e vivacidade, evidentemente num ser humano que tem as condições de possibilidade para dar sentido aos seus acontecimentos existenciais. Ele leva o ser humano (ainda não integrado numa unidade psicológica) a afirmar-se sendo e isso o coloca em relação com a realidade que não é ele mesmo (seja esta reconhecida ou não como tal). Mais ainda, ele também dirige o ser humano para o encontro com um outro - ou seja, o impulso amoroso primitivo exige relações -, antes mesmo que o ser humano tenha maturidade para apreender algo fora de si mesmo e sem que isso exija algum outro metafísico dentro do ser humano (um arquétipo, um esquema relacional, uma determinação biológica instintual tal como alguns etólogos descreveram existir nalguns animais).

No início, quando não há, para o bebê, uma realidade não-self, esse Impulso Amoroso Primitivo o leva a agir sobre o mundo (chutar, morder, chorar, dormir, acariciar, bater etc.) em função tanto de afirmar sua própria essência de ser e continuar sendo, quanto de ir ao encontro daquilo que satisfaz suas necessidades (sejam estas instintuais sejam egoicas, ou simplesmente de ser). Ao fazer isso, ela age e modifica o mundo, os objetos (poderíamos dizer num jargão psicanalítico), mais ainda, ela pode destruir aquilo com o que se relaciona (e atende às suas necessidades), pelo simples fato de que, ao atender essas necessidades, aquilo que atende é digerido e incorporado. Nas fases mais iniciais, retomando como Winnicott se refere a esse modo de relação, podemos dizer que o bebê se relaciona como os objetos subjetivos [cf. o verbete "Objeto Subjetivo", em Fulgencio (2020), para encontrar as principais referências de Winnicott a esse conceito na sua obra], objetos que advém, para ela, magicamente de suas necessidades (mas que, sabe o observador, são ali colocados pelo ambiente). O objeto é destruído pela satisfação da necessidade, tal como o fogo destrói a madeira que o sustenta. Findada a necessidade, o objeto também está destruído, mas, não há, no bebê, nenhuma intenção destrutiva. Enquanto experiência, diz Winnicott, o bebê faz buracos no corpo cheio de qualidades da mãe e, mais ainda, quando precisa dela (seja de que modo for) a recria novinha, totalmente de acordo com suas necessidades. Só bem mais tarde é que a criança poderá perceber ou aperceber-se como sendo causadora dos danos aos objetos que ama, tendo chegado às conquistas integrativas que caracterizam a fase do concernimento (ou ainda, noutros termos, a posição depressiva).

O Impulso Amoroso Primitivo é, pois, isento de intenção destrutiva em si mesmo, ainda que possa destruir:

[…] o impulso de amor primitivo opera num estágio em que o ego está apenas começando a desenvolver-se, quando a integração, por exemplo, ainda não é um fato estabelecido. Existe um amor primitivo em funcionamento num período em que ainda não há capacidade para tomar responsabilidade. Nessa etapa não há ainda nem mesmo a ausência de compaixão; trata-se de uma época pré-compaixão, e se a destruição é parte do objetivo do impulso do id, ela é meramente incidental à satisfação. A destruição só se torna responsabilidade do ego quando este já está integrado e organizado a ponto de existir raiva e, consequentemente, medo de retaliação. [...] Seria melhor dizer, então, que os impulsos do amor primitivo (id) têm uma qualidade destrutiva, embora não haja no bebê a intenção de destruir, visto que o impulso pertence a uma época anterior ao estabelecimento da compaixão. (Winnicott, 1950/2021, p. 381)

Com o desenvolvimento emocional, depois de reconhecida essa fase inicial na qual temos um comportamento incompadecido [ruthlessness] sem raiva, cabe destacar outro momento e outra dinâmica relacional, quando também deve ser considerada a presença do Impulso Amoroso Primitivo, ainda que misturado a outros aspectos mais maduros ou integrados dos indivíduos, o momento em que surgem os objetos e fenômenos transicionais. Estes são, a cada vez e sempre, criados e encontrados pela criança, tendo uma existência paradoxal em que são símbolos da mãe na presença dela e são, ao mesmo tempo, o self e aquilo que é não-self, externos e internos. Eles também podem ser ditos o verdadeiro self em ação, a expressão criativa do self, o próprio gesto criativo, ou ainda, no tipo de entendimento que proponho, uma realização do Impulso Amoroso Primitivo. Nesse modo de relação transicional com a realidade, também temos as ações do self sobre [sobre a realidade], transformando-a, destruindo-a - seja porque é constantemente recriada, seja porque a ação danifica o objeto (tal como o brinquedo é quebrado pela criança). Aqui também, na experiência com o objeto transicional, esse modo de relação não visa a sua destruição como objetivo de sua ação, mesmo que isso possa ocorrer. Mais uma vez, podemos afirmar que o gesto criativo, a afirmação de si mesmo, o criar-encontrar, a ação de brincar age sobre o mundo, necessariamente, modificando-o.

Quando o indivíduo amadurece a ponto de conquistar uma unidade (psicológica) para si mesmo, sentindo-se e apreendendo-se como uma pessoa inteira que se relaciona como os outros também como pessoas inteiras, esses fundamentos ontológicos e ônticos (necessidade de ser, tendência inata à integração, elaboração imaginativa, impulso amoroso primitivo) continuam a realizar-se, ainda que contando, agora, com a percepção e apercepção do que ocorre consigo mesmo e com o mundo, seja em termos construtivos seja em termos destrutivos. Algumas ações passam, então, a ter intencionalmente o objetivo de destruir ou agredir, ainda que o Impulso Amoroso Primitivo esteja sempre presente e não tenha esse objetivo no seu horizonte.

Em todas as situações acima descritas, cabe a afirmação básica: amar consome o outro, destrói o outro, sem que esta seja, necessariamente, a sua intenção. O que nos leva, então, necessariamente, nos processos transferenciais e na administração do que ocorre no processo de tratamento psicanalítico, a ter que distinguir os processos e a não confundir a destruição, como efeito secundário do amor, com o seu princípio e objetivo.

Caberia, agora, como análise complementar desse cenário, mostrar como Winnicott analisa as origens da agressividade no ser humano, dando uma descrição mais detalhada e mais precisa da diferença entre os impulsos que visam destruir e os que visam ser-com os objetos (mesmo que isto implique em destruição).

Considerações Sobre as Origens da Agressividade no ser Humano e o Impulso Amoroso Primitivo

Trata-se, agora, de analisar de que maneira o impulso amoroso primitivo está relacionado com o tema da origem da agressividade no ser humano, do ponto de vista de Winnicott. Cabe comentar que me ocuparei apenas de um aspecto deste problema (da origem da agressividade), e não da compreensão da diversidade de aspectos teóricos e fenomenológicos da compreensão deste tema em Winnicott, o que nos levaria tanto a abordar outros textos de Winnicott quanto de seus comentadores (especialmente Jan Abram e Thomas Ogden, com suas análises sobre a questão da destruição na fase do uso do objeto) que são fundamentais para esse objetivo, mas não estão diretamente referidos ao tema-objeto deste artigo. Abordarei alguns aspectos gerais do problema da origem da agressividade visando mostrar como o impulso amoroso primitivo participa da compreensão desse fenômeno, mas não poderia ser considerado como sendo, apenas ele, a base fenomenológica e conceitual que o explica.

É um fato reconhecido que o ser humano pode ser agressivo, inclusive em níveis de destrutividade e crueldade não existentes no mundo animal. Ela está presente tanto quando o outro é apreendido como um inimigo e, portanto, passível de ser agredido (como ação de defesa ou prevenção), quanto nas relações amistosas e amorosas, nas quais o outro é amado (com maior ou menor ambiguidade, parcialmente ou de forma mais total). Nas mais profundas e primitivas relações, tanto na vida ordinária quanto nos settings psicoterápicos, ela está presente e seria um erro (que cobraria um alto preço) não a considerar.

Surge, então, necessariamente, a pergunta sobre a sua origem: seria ela um efeito secundário de modos de ser e relacionar-se do ser humano ou haveria um impulso inato que visa a destruição e, portanto, a agressão? Trata-se de um impulso inato, na sua origem, que depois é reiterado por diversas situações históricas, pessoais e sociais, ou, por outro lado, é uma reação do indivíduo a algum tipo de ameaça (real ou imaginária)?

Freud e Klein, ante a esta pergunta e a esses fenômenos, buscaram resposta na teoria das pulsões e na hereditariedade: "Sugeri a ideia de que tanto Freud quanto Klein se desviaram de um obstáculo nesse ponto [como explicar a ambiguidade, o amor e o ódio, a fusão de impulsos amorosos e destrutivos, nas fases mais primitivas do amadurecimento] e refugiaram-se na hereditariedade" (Winnicott, 1971, p. 117). Eles apelaram para a suposição de que existiria uma pulsão de morte, causa originária, da agressividade. O que Winnicott considerou como um tipo de especulação "religiosa": "O conceito de instinto de morte poderia ser descrito como uma reafirmação do princípio do pecado original" (Winnicott, 1971, p. 117).

Para Winnicott, uma teoria verdadeira da agressividade - dado que, para ele, uma teoria da agressividade pensada em termos da pulsão de morte é falsa (Winnicott, 1988, p. 133-134) -, ou seja, de acordo com os dados empíricos e com conceitos que têm como referentes fatos empíricos, deveria considerar diversos fatores: ele está associado à dinâmica descrita por Winnicott como sendo o do uso do objeto (Winnicott, 1968b) e à consideração de um impulso monista na base do desenvolvimento (Winnicott, 1969) que não cabe aqui desenvolver, mas apenas citar; como também a diversos outros aspectos mais claramente advindos da relação do indivíduo com o seu ambiente: "aquele inerente aos impulsos do amor primitivo (no estágio anterior ao concern, independente das reações à frustração), e aquele pertencente à interrupção da continuidade do ser pela intrusão que obriga a reagir" (Winnicott, 1988, p. 155). Neste contexto, focarei este último aspecto citado acima, para considerar estas duas origens, dentre outras, da agressividade no ser humano: a derivada do Impulso Amoroso Primitivo e, outra, a derivada de uma reação à quebra da continuidade de ser e à frustração, nos mais diversos momentos do processo de desenvolvimento do ser humano.

O impulso amoroso primitivo, como vimos, diz respeito à ação que deriva do próprio fato de estar vivo, corresponde à expressão do ser associada à própria motilidade, num momento em que o bebê depende totalmente do ambiente sem ter nenhuma noção de que dependa, sem ter até mesmo o reconhecimento de que existe um ambiente separado dele, dado que não há, nesse momento, um lugar para uma realidade não self (Winnicott, 1988, p. 153).

Nas fases mais primitivas do desenvolvimento, momento em que o ser humano ainda não tem a capacidade ou a maturidade para reconhecer a alteridade, nem para apreender com clareza e distinção o que ocorre com ele mesmo, as ações do bebê não são propriamente intencionais, nem se dirigem a um objeto reconhecido como sendo não ele: não há no bebê uma intenção de destruir, ele tem uma relação de total falta de compadecimento [ruthlessness] em relação ao ambiente. Por um lado, suas ações não visam, de forma alguma destruir, trata-se de uma atividade sem raiva. A destrutividade que surge aqui é, nesse contexto, um efeito totalmente secundário.

Por outro lado, toda falha da sustentação ambiental pode ser considerada como um tipo de invasão, de modo a gerar uma reação (defesa) que visa afastar ou destruir essa falha ou o agente dessa falha. Pode-se considerar essa re-ação em relação ao ambiente (os seus agentes) como uma ação agressiva e, nesse sentido, a agressividade reativa tem sempre um objetivo de proteção do indivíduo (proteção do self e da sua continuidade de ser) e de reparação das condições anteriores à falha ambiental, anteriores à frustração. Ainda que o sentido geral da agressão seja proteger e reparar, é necessário, para sua compreensão e ação (especialmente no trabalho clínico), descer a detalhes maiores procurando especificar o que o indivíduo procura proteger ou reparar. É também necessário ter em mente que "na prática não existe a satisfação total do id" (Winnicott, 1950/2021, p. 380), ou seja, que a vida instintual (as excitações ou pressões instintuais) nunca é totalmente satisfeita e, portanto, implica frustração, logo, uma reação (agressiva) a essa frustração. Ou seja, há uma origem da agressividade, mesmo que a criança não tenha a maturidade de apreensão da realidade não-self, que é uma reação visando afastar a frustração, implicando ou não, esta última, uma quebra da continuidade de ser.

Nesse contexto e considerando essas dinâmicas, podemos considerar que a agressividade é um impulso, em maior ou menor grau, sempre presente nos modos de ser e relacionar-se do ser humano, sem que, no entanto, seja necessário supor que ela seja um impulso inato (tal como seria na consideração da existência de uma pulsão de morte). O que faz com que a pergunta sobre a origem da agressividade tenha que ser reformulada, considerando-se dois outros aspectos do fenômeno: a presença ou não de intencionalidade (seja porque não faz parte do fenômeno, seja por imaturidade daquele que faz a ação agressiva); e presença ou não da repressão à agressividade por parte do ambiente (com maior ou menor acolhimento do ambiente ou, de forma mais patológica, a repressão cega, apenas impedindo a ação por coerção).

Nessa direção, há diversos modos de a agressão (como ação reativa) ser produzida e realizada. Nunca se trata apenas de impedir, por repressão simples e cega, a agressividade, mas sempre de poder fazê-lo compreendendo o sentido dessa ação e, nesse sentido, podendo oferecer algo ao indivíduo (mesmo que esse algo seja muito pouco, às vezes apenas a compreensão do sentido de sua ação).

Podemos elencar uma série de situações, ações ou contextos, nas quais a agressividade e a destrutividade estão presentes, de forma mais ou menos significativa, procurando indicar alguns sentidos passíveis de serem creditados a elas. O objetivo é apontar que, mais importante do que reconhecer a agressão, é explicitar o que ela visa, o que o indivíduo procura resolver com suas ações agressivas e destrutivas, a saber:

1. a agressividade dirigida ao ambiente, associada à atitude antissocial, corresponde a uma tentativa de recuperar a confiabilidade ambiental;
2. o ditador, no exercício de todo o seu poder, às vezes sem nenhuma piedade ou consideração, tem na sua história e organização psico-afetiva uma luta contra a dependência (da Mulher), uma tentativa de reparar a sua própria condição de não ter vivido uma dependência confiável;
3. o suicídio (que também é uma forma de assassinato e vice-versa) também pode ser considerado como uma agressão ao mundo (ambiente), na qual o que se procura não é apenas eliminar o sofrimento e destruir o ambiente invasor, é também uma tentativa de começar tudo de novo (tal como um gesto radical de reinicialização);
4. a agressividade também será necessariamente reconhecida nas relações transferenciais no processo psicoterápico psicanalítico. Por parte do analisando, certamente, em diversos contextos e visando fins também díspares, mas, necessariamente, devem ser diferenciadas as ações em que a agressividade é um efeito secundário do Impulso Amoroso Primitivo, da criatividade e do fato de ser-com e relacionar-se-com o analista; e as ações agressivas acompanhadas de intencionalidade, para que o manejo de acontecimentos relacionais no setting analítico possa ser adequadamente interpretado (entendido). Ou seja, para que o sentido dado a esses acontecimentos (num tratamento) não seja reduzido à existência de um impulso malévolo compondo a natureza humana (que deveria ser reconhecido, tolerado e, em última instância perdoado). O fenômeno da inveja, tão importante nas relações humanas, precisa, pois, ser diferentemente entendido se há ou não intenção de destruir ou agredir. Por parte do analista, por sua vez, este também expressa tanto seu amor quanto sua agressividade em relação ao paciente, sem que isto signifique que o analista age realizando objetivamente seu amor (seja para agradar a si mesmo seja para agradar o paciente) e, no mesmo sentido, sem que isto signifique agir realizando um impulso destrutivo do analista em relação ao paciente. Winnicott diz, nesse sentido: "O analista expressaria o seu amor pelo interesse positivo assim demonstrado [em ouvir e estar disponível para a comunicação, nos momentos de encontro psicoterápico com seu paciente], e seu ódio pelo estrito cumprimento dos horários de início e fim da sessão, e também pelos honorários" (Winnicott, 1954, p. 473).
5. E, no longo capítulo, do tratamento de crianças, onde o brincar é um elemento central técnico, semântico-interpretativo, expressivo e curativo em si mesmo, cabe apenas apontar para o fato de a agressividade aí presente também necessitar, para ser entendida e interpretada, de ser considerada em termos de ações agressivas intencionais ou não intencionais, no reconhecimento do impulso amoroso primitivo como uma forma de afirmar-se e encontrar-se no mundo, na relação com o outro, alterando o mundo mas sem o desejo de destruí-lo.

Certamente, uma compreensão total de todos os fenômenos e determinantes deste fenômeno, que é a origem da agressividade no ser humano, em todos os seus matizes, sutilezas e intensidades, ultrapassa o que abordei até agora, ainda que o que foi aqui analisado seja um dos aspectos de um conjunto de determinantes mais amplo e mais complexo que poderia explicar todos os aspectos e variáveis desta origem.

 

Considerações Finais

Nesse conjunto amplo de acontecimentos citados convém, pois, para o manejo clínico, estabelecer a diferenciação entre a agressividade como efeito secundário do fato de estar vivo e agir a partir de si mesmo (no qual a presença do Impulso Amoroso Primitivo é um fato), e a agressividade que deriva de uma ação reativa, por vezes, da própria repressão brutal da agressividade.

O Impulso Amoroso Primitivo corresponde, pois, a um fenômeno com características tanto ontológicas quanto ônticas, colocando em evidência que o próprio ato de estar vivo, exercer a existência a partir de si mesmo, ser e continuar a ser, implica ações sobre o mundo, alterando-o, recriando-o, por vezes, destruindo-o, não visando a destruição, mas como efeito secundário de SER. Talvez seja esse o sentido dado por Winnicott à afirmação "O que é bom está sempre sendo destruído" (Winnicott, 1970, p. 311), não por causa de uma força destrutiva cega inata, mas porque viver e amar, consome o outro e a si mesmo.

 

Referências

Bowlby, J. (1973/1984). Separação. Angústia e Raiva. Martins Fontes.

Clarke, G. S., & Scharff, D. E. (2014). Fairbairn and the object relations tradition. Lines of Development. Evolution of Theory and Practice over the Decades. Karnac.

Freud, S. (1915/1957). Instincts and their Vicissitudes. In The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud (Vol. 14, pp. 105-140). Hogarth Press and the Institute of Psycho-Analysis.

Freud, S. (1926/1961). Psycho-Analysis. In The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud (Vol. 20, pp. 261-270). Hogarth Press and the Institute of Psycho-Analysis.

Freud, S. (1933/1964). New Introductory Lectures On Psycho-Analysis. In The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud (Vol. 22, pp. 3-182). Hogarth Press and the Institute of Psycho-Analysis.

Fulgencio, L. (2020). Psicanálise do Ser. A Teoria Winnicottiana do Desenvolvimento Emocional como uma Psicologia de Base Fenomenológica. São Paulo: EDUSP-FAPESP.

Fulgencio, L., Simanke, R., Imbasciati, A., & Girard, M. (Eds.). (2018). A bruxa metapsicologia e seus destinos. São Paulo: Blucher.

Goldman, D. (2012). Vital sparks and the form of things unknown. In Donald Winnicott Today. Routledge.

Groarke, S. (2016). ‘Though he Slay Me, Yet will I Trust in Him': A Critical Reconstruction of Winnicott's Theory of Value. International Journal of Psychoanalysis, 97, 1035-1056.

Issroff, J. (2005). Bowlby and Winnicott: differences, ideas, influences. In Donald Winnicott and John Bowlby (pp. 115-178). Karnac.

Klein, M. (1952). As origens da transferência. In Obras completas de Melanie Klein (Volume III. Inveja e gratidão e outros trabalhos 1946-1963) (pp. 70-79). Imago.

Roussillon, R. (2009). Transitionnel et réflexivité. Les Lettres de La Société de Psychanalyse Freudiene, Winnicott, un psychanalyste dans notre temps (21), 123-140.

Squires, C. (2000). Attachement et sexualité infantile. In Sexualité infantile et attachement (pp. 197-243). PUF.

Winncott, D. W. (1945a/2021). O pensar e o inconsciente. In D. W. Winncott. Tudo Começa em Casa (pp. 167-169). UBU, 2021.

Winncott, D. W. (1945b/1982). Alimentação. In D. W. Winncott. A Criança e seu Mundo (pp. 55-63). Zahar Editores, 1982.

Winncott, D. W. (1947/2021). O Ódio na Contratransferência [1947]. In D. W. Winncott. Da Pediatria à Psicanálise: Obras Escolhidas (pp. 356-370). UBU, 2021.

Winncott, D. W. (1950/2021). A agressividade em relação ao desenvolvimento emocional. In D. W. Winncott. Da Pediatria à Psicanálise (pp. 371-392). UBU, 2021.

Winncott, D. W. (1954/2021). Aspéctos clínicos e metapsicológicos da regressão no contexto psicanalítico. In D. W. Winncott. Da Pediatria à Psicanálise (pp. 462-487). UBU, 2021.

Winncott, D. W. (1956a/2021). A tendência antissocial. In D. W. Winncott. Da pediatria à psicanálise (pp. 502-516). UBU, 2021.

Winncott, D. W. (1956b/2022). Psicanálise e o sentimento de culpa. InD. W. Winncott. Processos de amadurecimento e ambiente facilitador (pp. 15-33). UBU, 2022.

Winncott, D. W. (1962a/2022). O desenvolvimento da capacidade para a consideração. In D. W. Winncott. Processos de amadurecimento e ambiente facilitador (pp. 91-103). UBU, 2022.

Winncott, D. W. 1962b/1994). Primórdios de uma Formulação de uma Apreciação e Crítica de enunciado Kleiniano da Inveja. (Parte II do cap. 53 - Melanie Klein: sobre o seu conceito de inveja). In D. W. Winncott. Explorações Psicanalíticas: D. W. Winnicott (pp. 340-347). Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

Winncott, D. W. (1968a/1994). O Jogo do Rabisco [Squiggle Game]. In D. W. Winncott. Explorações Psicanalíticas: D. W. Winnicott (pp. 230-243). Artes Médicas, 1994.

Winncott, D. W. (1968b/1994). O Uso de um Objeto e o Relacionamento através de Identificações. In D. W. Winncott. Explorações Psicanalíticas: D. W. Winnicott (pp. 171-177). Artes Médicas, 1994.

Winncott, D. W. (1969/1994). O Uso do Objeto no Contexto de Moisés e o Monoteísmo (Parte VII do cap. 34). In D. W. Winncott. Explorações Psicanalíticas: D. W. Winnicott (pp. 187-191). Artes Médicas, 1994.

Winncott, D. W. (1970/2021). O lugar da monarquia. In D. W. Winncott. Tudo Começa em Casa (pp. 309-319). UBU, 2021.

Winncott, D. W. (1971/2019). A criatividade e suas origens. In D. W. Winncott. O Brincar e a Realidade (pp. 108-140). UBU, 2019.

Winncott, D. W. (1971b/2023). Consultas Terapêuticas em Psiquiatria Infantil. UBU, 2023.

Winncott, D. W. (1971c/1990). O Gesto Espontâneo. Martins Fontes, 1990.

Winncott, D. W. (1988/2024). Natureza Humana. UBU, 2024.

 

 

Endereço para correspondência
Leopoldo Fulgencio - lfulgencio@usp.br

Recebido em: 13/06/2024
Aceito em: 30/12/2024

 

Financiamento: A pesquisa relatada foi financiada pelo CNPq (Produtividade em Pesquisa; processo número: 301542/2022-8) e pela FAPESP (auxílio Regular à Pesquisa; processo número: 2021/05257-6).

 

Notas

1 Cf. as principais referências de Winnicott a esse conceito em: O Gesto espontâneo [Carta 26 - Para Roger Money-Kyrle, de 27 de novembro de 1952, Carta 64 - Para Barbara Lantos, de 8 de novembro de 1956; Carta 64 - Para Anna M. Kulka, de 15 de janeiro de 1957] (1971c); "O Pensar e o Inconsciente" (1945a); "O Ódio na Contratransferência" (1947); "Alimentação" (1945b); "A agressividade em relação ao desenvolvimento emocional" (1950); "A tendência antissocial" (1956a); "Psicanálise e o sentimento de culpa" (1956b); "O desenvolvimento da capacidade para a consideração" (1962a); Consultas Terapêuticas em Psiquiatria Infantil (Eliza aos 7,5 anos; Milton aos 8 anos] (1971b); "O Jogo do Rabisco" (1968a); Natureza Humana [A posição depressiva; Um estado primário do ser: os estágios pré-primitivos] (1988); "Primórdios de uma Formulação de uma Apreciação e Crítica de enunciado Kleiniano da Inveja" (1962b).

 

 

Este artigo da revista Estudos e Pesquisas em Psicologia é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Não Comercial 3.0 Não Adaptada.