Estudos e Pesquisas em Psicologia
2026, Vol. 26. e84793, doi:10.12957/epp.2026.84793
ISSN 1808-4281 (online version)

 

PSICANÁLISE

 

Crianças nas Guerras Urbanas Brasileiras: Respostas ao Troumatisme

 

Children in Brazil's Urban Wars: Responses to Troumatisme

 

Niños en las Guerras Urbanas Brasileñas: Respuestas al Troumatisme

 

Tharso Peixoto Santos e Souza a, Cristina Moreira Marcos a

a Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil
Endereço para correspondência

 

RESUMO

A violência se apresenta no cotidiano de muitas crianças no Brasil, seja quando testemunham crimes, confrontos policiais, mortes violentas, seja quando a violência se presentifica em casa e se dirige a elas, ocasionando-lhes, como numa zona de guerra, todo tipo de sofrimento. O que fazem essas crianças, em sua grande maioria negras e oriundas das periferias das cidades, para lidarem com esta realidade cotidiana tão brutal? Diante disso, o presente artigo busca apresentar um estudo feito a partir das narrativas de algumas destas crianças, encontradas em diversos materiais escritos ou fílmicos, sobre o modo como lidam com o real da violência ao inventarem suas próprias respostas ao "troumatisme" das cenas violentas, uma vez que estas evocam a dimensão do real, provocando inúmeras instabilidades no sujeito. Tendo a psicanálise como fundamento teórico e método de investigação, analisamos as narrativas a partir da relação do sujeito com um Outro evocado pela violência, ocasionando respostas subjetivas - fantasia, medo, inibição, sintomas e, por vezes, violência. Essas respostas evidenciam tanto a capacidade inventiva do sujeito infantil quanto os efeitos profundos da violência estrutural sobre a infância, indicando a necessidade de escuta clínica, intervenção social e políticas públicas sensíveis a essa realidade.

Palavras-chave: criança, violência urbana, respostas subjetivas.


ABSTRACT

Violence permeates the daily lives of many children in Brazil, whether when they witness crimes, police confrontations, and violent deaths, or when violence manifests itself at home and is directed toward them, causing them, as in a war zone, every kind of suffering. What do these children, the vast majority of whom are Black and come from the peripheries of cities, do to cope with such a brutal everyday reality? In light of this, the present article seeks to present a study based on the narratives of some of these children, found in written and audiovisual sources, concerning the way they deal with the real of violence by inventing their own responses to the "troumatisme" of violent scenes, since these evoke the dimension of the real, producing numerous instabilities in the subject. Grounded in psychoanalysis as both theoretical framework and method of investigation, we analyze these narratives from the perspective of the subject's relation to an Other evoked by violence, which gives rise to subjective responses — fantasy, fear, inhibition, symptoms, and, at times, violence. These responses reveal both the inventive capacity of the child subject and the profound effects of structural violence on childhood, indicating the need for clinical listening, social intervention, and public policies sensitive to this reality.

Keywords: child, urban violence, subjective responses.


RESUMEN

La violencia se presenta en la vida cotidiana de muchos niños en Brasil, ya sea cuando presencian crímenes, enfrentamientos policiales y muertes violentas, o cuando la violencia se manifiesta en el hogar y se dirige hacia ellos, ocasionándoles, como en una zona de guerra, todo tipo de sufrimiento. ¿Qué hacen estos niños, en su gran mayoría negros y provenientes de las periferias de las ciudades, para lidiar con esta realidad cotidiana tan brutal? Ante ello, el presente artículo busca presentar un estudio realizado a partir de las narrativas de algunos de estos niños, encontradas en diversos materiales escritos o fílmicos, acerca del modo en que lidian con lo real de la violencia al inventar sus propias respuestas al "troumatisme" de las escenas violentas, puesto que estas evocan la dimensión de lo real, provocando numerosas inestabilidades en el sujeto. Tomando el psicoanálisis como fundamento teórico y método de investigación, analizamos estas narrativas a partir de la relación del sujeto con un Otro evocado por la violencia, lo que da lugar a respuestas subjetivas — fantasía, miedo, inhibición, síntomas y, en ocasiones, violencia. Estas respuestas evidencian tanto la capacidad inventiva del sujeto infantil como los profundos efectos de la violencia estructural sobre la infancia, indicando la necesidad de escucha clínica, intervención social y políticas públicas sensibles a esta realidad.

Palabras clave: niño, violencia urbana, respuestas subjetivas.


 

 

Este artigo tem como objetivo refletir sobre as respostas que as crianças, sobretudo as negras e oriundas das periferias das cidades, inventam, ditas por elas mesmas, no enfrentamento da violência cotidiana que vivenciam no ambiente urbano brasileiro. Para isso, utilizaremos a psicanálise de orientação lacaniana como nosso método de investigação e pesquisa, uma vez que objetivamos dar destaque aos aspectos subjetivos presentes nessas respostas. Contudo, dada a complexidade do tema, torna-se indispensável apresentar algumas contribuições de outros campos do saber, tendo a certeza de que o debate em torno do tema não se esgota com as articulações que aqui apresentaremos.

Destacamos que este trabalho é um desdobramento da pesquisa de mestrado realizada pelos autores e financiada pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) durante os dois primeiros anos pandêmicos. Dadas as restrições quanto ao contato pessoal naquela ocasião, foi necessário que repensássemos nossa metodologia, sendo essencial mantermos nossa intenção de ouvir o que dizem estas crianças acerca de suas invenções frente à violência urbana. Após discutirmos sobre a situação, optamos, enfim, por encontrar materiais escritos ou midiáticos que nos oferecessem a voz de crianças relatando sobre suas próprias experiências. Assim chegamos a algumas entrevistas, a dois documentários - "Morri na Maré 1" (Naudascher & Vanier, 2014) e "Ônibus 174 2" (Padilha, 2002) - bem como à edição intitulada "Vozes" de 2009 da fundação humanitária Terre des Hommes Brasil (Fundação Terre des Hommes, 2009) 3.

Sendo assim, ao longo do texto a seguir, serão apresentados trechos dos relatos de crianças, bem como de adultos que rememoram acerca de suas experiências infantis com a violência nas periferias brasileiras, mas sobretudo na comunidade da Maré no Rio de Janeiro, território marcado por inúmeros eventos violentos, que envolvem vários atores. Todos os relatos foram retirados dos materiais mencionados, os quais serão analisados a partir do que se nomeia como método psicanalítico, o qual busca aceder àquilo que se encontra referenciado ao simbólico, isto é, a dimensão do discurso do Outro, discurso do inconsciente, que se presentifica nas ficções do sujeito, a interpretação de sua própria história. Obviamente, ao apresentarmos estas narrativas, deparamo-nos com o limite do enquadre que já está posto pelos produtores dos materiais, fazendo-nos ouvir através do que eles mesmos ouviram e decidiram tornar público. Ademais, não intencionamos fazer dos relatos uma expressão de natureza universal, mas, tão somente, algo que nos permita conjecturar acerca do modo de enfrentamento da violência urbana por estas crianças brasileiras. A partir disso, é possível nos questionar se tais respostas surgem em outros lugares igualmente marcados pela violência e se há especificidades em contextos culturais diversos. Porém, reservaremos tais questões para trabalhos futuros, mantendo nosso olhar sobre a proposta que ora apresentamos.

Pelas ruas das periferias, comunidades ou das cidades brasileiras, parece ser inevitável que crianças, em sua grande maioria negras, testemunhem cenas violentas com frequência, já que as taxas de mortalidade violenta se concentram nestas áreas (Lima, 2024). Não tem sido incomum encontrar esta criança envolta em situações de tiroteios, ações e mortes violentas, diante das quais precisa tecer suas invenções, saídas. Contudo, há uma especificidade nestas experiências infantis: além de se deparar com o excesso que a violência evoca, trata-se de uma violência que desagrega o laço social e suspende certezas. É em meio a esta atmosfera de medo e desamparo que as crianças são convocadas a lidarem com os restos que a cena violenta lhes deixou e que põe à prova seus próprios saberes; saber inconsciente e singular que situa cada criança na cena diante desse Outro feroz. Nesta prova do saber do sujeito, no encontro com a violência, qual seria a natureza da resposta apresentada pelas crianças?

Compreendemos que as crianças tentarão utilizar os recursos que têm para dar algum tratamento aos restos do real 4 que despontam no rastro deixado pelas cenas violentas. Isso já indica que haverá uma variedade de possibilidades, que, no um a um de cada sujeito, vai se revelando modos de enfrentamento da violência e diz do modo como cada criança se fixa ou se separa da cena violenta, pondo seu saber em ação.

A Fantasia Infantil: Metáforas Como Enfrentamento

O cotidiano de muitas crianças no Brasil é marcado por cenas violentas de toda natureza - tiroteios, mortes brutais, conflitos, abandono - o que nos permite nomear estes espaços por onde elas circulam como zonas urbanas de guerra. Trata-se de crianças, em sua expressiva maioria, pretas e pobres, que vivenciam diariamente a incidência de um tipo de violência que figura para além dos acontecimentos violentos e que, por ser de natureza difusa, parece pouco visível: a violência estrutural. A situação que encontramos em comunidades pobres, vulneráveis e periféricas, onde os conflitos violentos costumam ocorrer, retrata na atualidade o resultado de uma sucessão histórica de fatos que indicam a operação da violência estrutural desde as bases da formação de nosso povo. Referimo-nos à política que vigorou em desfavor do negro e do pobre ao longo da história brasileira, ocasionando, em muitos momentos - e hoje, sobretudo - a segregação, a espoliação e o abandono destas populações, as quais foram sendo concentradas nas periferias de nossas grandes cidades, onde figuram os atrozes conflitos armados.

Achille Mbembe (2018, p. 28) nos indica que a problemática da violência e da segregação do povo preto tem sua raiz na experiência colonial, como é o caso brasileiro, na qual a "violência (…) torna-se um componente da etiqueta, como dar chicotadas ou tirar a vida do escravo: um capricho ou um ato de pura destruição visando incutir o terror". Assim, o filósofo africano nos assegura que a política colonial se torna uma necropolítica que se estende até os dias atuais, ao se fundamentar no direito de matar ou deixar vivo. Obviamente, esta necropolítica se presentifica em processos políticos e jurídicos, não tendo que ser instalada a partir de um ato nomeado, mas podendo existir como um "estado de exceção", ainda que sem assumir esta nomeação. Segundo Agamben (2004), a exceção abre espaços de recrutamento da vida humana, que, como um campo, legitimam a própria exceção: a suspensão dos direitos, quando a exceção se torna a regra.

Diante disso, faz-se necessário compreender que os eventos violentos presentes nas periferias das cidades, tais como encontramos no contexto territorial dos sujeitos deste estudo, a comunidade Maré no Rio de Janeiro, configuram-se como a mais fiel expressão de uma violência operada por um sistema político e social que toma estas populações - pretos e pobres, sobretudo - como um inimigo comum, seguindo hoje uma lógica neoliberal, cuja perversão no social surge com a segregação como forma de controle (Mbembe, 2018; Agamben, 2004; Zizek, 2014). Em outras palavras, considerando o neoliberalismo como um sistema político e econômico que vigora em nosso país, tornou-se necessário estabelecer um modo de regulação da vida social que possibilitasse o alcance dos interesses deste sistema, interesses que figuram desde os tempos coloniais, ainda que não no modelo atual neoliberal. Mas que, desde o início da colônia, impõe os limites e os lugares sociais para esta parcela da população, a saber, o povo preto que aqui chegou como escravizados e que hoje, vivencia ainda e diretamente os efeitos da violência sobre os corpos demonstrada nos conflitos armados em nossas zonas de guerra, a exemplo aquelas testemunhadas pelas crianças que vivem na comunidade da Maré.

Por esta razão, não devemos tomar as cenas violentas como algo isolado, seja no campo da sociopolítica, já que são derivações da violência sistêmica, seja no campo subjetivo, já que, como nos ensina a psicanálise, essas cenas comportam a dimensão do trauma como acontecimento. É preciso articular ambas as dimensões.

O conceito de trauma é algo central na psicanálise, porém, para fins de nossa compreensão acerca da natureza traumática das cenas violentas que as crianças testemunham, utilizamos da distinção, proposta por Belaga (2004) entre o que denominou trauma-processo e trauma-acontecimento. O primeiro faz referência ao elemento constituinte do sujeito e que diz do furo do Outro em sua impossibilidade de a tudo significar. Já o segundo termo refere-se ao o evento que evoca a dimensão do primeiro - em nosso estudo, a cena violenta. Em outras palavras, é possível que certos acontecimentos cotidianos evoquem a dimensão do trauma constituinte do sujeito, tornando-os traumáticos. Por isso, a cena violenta, cena traumática, coloca o sujeito diante do real do trauma, como envolto numa sombra escura, como nos diz Lacan (1966/2018 5), paralisado de frente ao desamparo da ausência de palavras.

Contudo, ainda que a violência possa ocasionar o encontro com o traumático de cada sujeito, é a partir deste encontro que ele, o sujeito, poderá operar suas invenções, suas respostas ao real que, na cena violenta testemunhada, emerge. As respostas são múltiplas e revelam de onde o sujeito está operando frente ao Outro: se na dimensão da lógica fálica do princípio do prazer ou para além do falo, no campo do gozo 6.

Além disso, tal como Freud (1908a/1996) nos indicou, a criança não é um ser inerte e alheio aos acontecimentos em sua volta. A criança, segundo Freud, é um ser vívido, movido pela vida pulsional e inventiva em suas respostas perante o enigma do sexual. Ela cria suas teorias e soluções para tratar, pela via da fantasia, aquilo que se apresenta como sem sentido, não simbolizável, o real.

No documentário "Morri na Maré" (Naudascher & Vanier, 2014), encontramos um menino preto, que aparenta ter 6 anos, brincando em sua casa, como se estivesse lutando com policiais e diz, repetidamente: "...esses moto vai vir (sic), esses monstro vai vir... esses monstro vem pra tomar soco na cara" (Naudascher & Vanier, 2014, 15'42"). A brincadeira reproduz a cena violenta por meio de uma fantasia, na qual a criança não permanece inerte ou passiva diante de sua realidade, fazendo-nos cogitar que o brincar - e o que se encontra implicado nesta atividade da criança - poderá ser uma forma de tratamento da violência. Diante de uma situação considerada enigmática pela criança, quando ela se depara com o vazio de palavras, o brincar - "spiel", "jogo", "jogo de palavras" - poderá ser a estratégia escolhida para tentar colocar seu próprio discurso em movimento, dando algum tratamento àquilo que não se nomeia: jogo que retira a criança da passividade, tornando-a ativa em sua ação prazerosa.

Nas elaborações freudianas sobre o jogo, o brincar aparece pela primeira vez no texto de 1908 "Escritores criativos e devaneio", no qual destaca a natureza irrealista dos jogos infantis e a continuidade desses símbolos nos devaneios adultos. Freud já se apoiava na ideia de uma realidade psíquica constituída nos fundamentos inconscientes do desejo e da fantasia e que se manifesta desde cedo nos jogos da infância (Santa Roza, 1993; Freud, 1908b/1996). Contudo, aprendemos com Freud que a manifestação observável do brincar, regulada pelo sistema pré-consciente/ consciente, mantém-se debaixo da égide do processo secundário, garantindo coerência e ordenação de seu conteúdo manifesto. Sendo assim, o desejo inconsciente subjacente à apresentação do brincar é, portanto, "reordenado e recomposto para constituir um novo material, que mantém as reminiscências do passado" (Santa Roza, 1993, p. 82).

Como ocorre no brincar infantil e nas ficções ali envolvidas, o mundo é reajustado, segundo a estética da fantasia. Notamos que a palavra "moto", a cada nova repetição, vai se tornando a palavra "monstro", possivelmente numa referência aos policiais de moto que, como os monstros das histórias infantis, são inimigos e devem ser combatidos, uma vez que, na compreensão daquela criança, são eles - os policiais - que agem com violência contra os moradores. Vemos, neste exemplo, como a fantasia reúne as três dimensões do tempo: o passado da experiência violenta, o presente da brincadeira, quando dá o "soco na cara" do policial e o futuro sem "monstros". Mais adiante, prolongando-se na fantasia, o menino é aquele que elimina os policiais: "Eu já matei (…) três [policiais]. Ele queria me bater e eu dei um soco na cara dele, morreu. É tudo verdade". (Naudascher & Vanier, 2014, 12'43", grifo nosso).

Temas dolorosos, histórias cruéis de violência e abandono podem ganhar, por meio da fantasia, um tratamento, veiculando emoções aliciadas por estes eventos, ao mesmo tempo em que há uma tentativa de ordenação da própria realidade: a criança fantasia não mais ser a vítima da violência do outro, mas dotada de um poder de eliminar o sofrimento decorrente.

Segregação, Medo e Inibição nas Ruas da Comunidade: "É ruim ser Criança no Brasil"

Muito cedo e de forma recorrente, as crianças já vão tomando consciência das contradições sociais em que se encontram. Elas fazem muitas referências à violência das ruas, à omissão do Estado, à ausência de justiça para aquela população e à ação da polícia. Parece haver desesperança em relação ao país em alguns relatos. Em outros, há um desejo por mudanças no sistema, particularmente no que se refere à violência: "O Brasil não é tão bom assim, falam que é cidade maravilhosa, mas nem parece, a gente não pode nem andar na rua". Lucas, 12 anos (Fundação Terre des Hommes, 2009, p. 31). "É ruim ser criança no Brasil porque não pode (sic) fazer nada, não posso sair porque tem tiroteios". Lucas, 12 anos. (Fundação Terre des Hommes, 2009, p. 65).

O medo é uma resposta bastante comum nos relatos dessas crianças quando em referência à violência das ruas, causando inibição de ordens diversas, particularmente a dificuldade de aprendizado, conforme relatado por professores (Naudascher & Vanier, 2014). "Eu tenho medo quando fica dando tiro, aí não tem pra onde correr". Menino na escola. (Naudascher & Vanier, 2014, 5'48"). "Eu tenho medo que aconteça alguma coisa com as criança (sic) que tá na rua…dando tiro. Só isso". Menina na escola. (Naudascher & Vanier, 2014, 5'54"). "Eu tenho medo quando começa a dar tiro de madrugada, aí meu pai, ele chega de madrugada, aí tenho medo". Menino na escola. (Naudascher & Vanier, 2014, 6'04").

Zizek (2014) assinala que esta ambientação de medo mantém uma estreita relação com o predomínio daquilo que denomina de biopolítica pós-política. O autor se refere a uma sobreposição de duas dimensões: a pós-política, como abandono dos antigos debates ideológicos e a ênfase nas questões relacionadas à gestão, e a biopolítica, como "regulação da segurança e do bem-estar das vidas humanas" (Zizek, 2014, p.45). Nisso, é introduzida uma política do medo como meio de controlar e mobilizar as pessoas, garantindo que os alvos do sistema neoliberal sejam alcançados.

Dada a banalidade das circunstâncias em que a violência aparece veiculada nestas cenas, como algo que pode ocorrer num instante imprevisível, algumas crianças se sentem inseguras ao saírem de casa; outras mantêm essa insegurança mesmo em casa: "Onde você se sente seguro? No céu. Com Deus". Luís Antônio, 8 anos. (Fundação Terre des Hommes, 2009, p. 133).

"A gente não é feliz em nenhum lugar, a gente não é seguro porque nem na própria casa da gente é seguro (sic) porque a gente tá na porta da casa vem um e mata a gente". Mariana, 13 anos. (Fundação Terre des Hommes, 2009, p. 127).

As narrativas, segundo depreendemos, indicam a compreensão que as crianças têm de ser um alvo direto de algo que a violenta, ameaça e segrega juntamente com aquela comunidade. Ao mesmo tempo, compreendemos que é o medo diante da violência que desencadeia inúmeras respostas nas crianças, tais como inibições e sintomas, além de aliciar a angústia, já que se encontra na incerteza de estar viva ou morta no instante seguinte.

Considerando as inibições, compreendemos com Freud que se tratam da diminuição de funções do eu e que não poderiam ser caracterizadas como sintomáticas, ainda que essa distinção - entre inibição e sintoma - não seja muito significativa no texto do Freud (1926/1996, p.91), já que nos alerta: "Uma inibição pode ser também um sintoma. O uso linguístico, portanto, emprega a palavra inibição quando há uma simples redução de função, e sintoma quando uma função passou por alguma modificação inusitada ou quando uma nova manifestação surgiu desta".

Notavelmente, encontramos na atuação dos voluntários e dos professores do projeto Uerê, no complexo da Maré, no Rio de Janeiro, o testemunho de o quanto a violência interfere nos processos de aprendizagem. Na homepage da organização, encontramos: "a nossa metodologia foi desenhada diretamente para crianças e jovens de escolas públicas da comunidade, que possuem bloqueios cognitivos e emocionais devido à exposição constante a traumas e violência" (Projeto Uerê, 2019, sp).

Segundo Santiago (2005, p.119), "na inibição, a defesa suspende o desprazer, bloqueando, ao mesmo tempo, a cadeia de pensamento ou lembrança. Na medida em que um pensamento se torna um estorvo, o sujeito para de pensar, ou seja, tem seu pensamento inibido". Neste ponto, podemos conjecturar que um certo pensamento se torna insuportável, não somente em sua relação ao evento violento - estar em meio a um tiroteio, presenciar o assassinato de alguém, viver na iminência de um ataque violento - mas também àquilo que o evento indica a respeito do sujeito e da proximidade a este Outro, que se mostra cruel e caprichoso.

Sintoma e Gozo na Lógica da Violência

Ainda que encontremos a inibição como resposta frequente no tratamento dado pelas crianças à violência urbana, os sintomas parecem ganhar destaque, já que costumam apresentar-se com nuances da desordem típica das crises de ansiedade, das doenças psicossomáticas e dos comportamentos intensos, colocando em questão a ordem social e comunitária.

Para a psicanálise (Miller, 2017), o sintoma é o substituto de uma satisfação pulsional, que resulta do processo de recalcamento. Um aspecto importante acerca do sintoma é que ele consiste numa formação de compromisso entre a pulsão e a realidade. No entanto, após 1920, Freud nos indica que todo sintoma envolve uma satisfação pulsional (Freud, 1926/1996). Sendo assim, seguindo com Lacan, todo sintoma comporta algo da dimensão do gozo, daquilo que não se encontra no campo da simbolização, mas que está circunscrito na resposta sintomática (Miller, 2017). Diferente disso, encontramos o gozo ilimitado (Lacan, 2008; Zizek, 2014), mortífero, que é evocado no encontro com o traumático das cenas violentas. Por esta razão, a resposta sintomática se torna importante neste contexto, já que livra as crianças de serem capturadas pelo ilimitado deste gozo real.

Miller (2017), conjecturando acerca do conceito de sintoma, afirma que o sintoma é o signo e o substituto de uma satisfação pulsional não advinda que não aconteceu, isto é, o sintoma é a substituição de um gozo recusado no real, mediante a castração, a fim de obtê-lo no simbólico. Tendo a lei do desejo como operadora, no nível da palavra, essa admissão ao simbólico resulta no sintoma, ao que Miller (2017, p. 25) afirma: "o ser humano como ser falante está condenado a ser sintomático".

Uma vez que o sintoma envolve uma recusa ao gozo no real, uma substituição, refletimos sobre qual seria o estatuto da violência de crianças quando respondem com violência. Esta resposta seria sintomática ou gozo? Vejamos: "Ué, sabe como eu me defendo? Usando violência. Se te batem, você bate. Se te derem um soco, você dá outro. Se te derem um empurrão, você dá outro. Se te derem um tiro, você dá outro. Se a justiça não resolver, a gente resolve". (Fundação Terre des Hommes, 2009, p. 85). "Quem faz esquece, mas quem apanha nunca esquece. O meu pai usava drogas e chegava em casa chapado e ia bater na mãe. Um dia eu fui lá e dei um tiro nele". (Fundação Terre des Hommes, 2009, p. 97).

Considerando os ditos acima, o excesso que a violência comporta já não a caracterizaria como a ausência de uma substituição pulsional, isto é, não a coloca plenamente no campo de gozo? Miller (2017) nos apresenta seu posicionamento quanto a essa questão no texto "Crianças violentas". Para o autor, a violência é gozo, visto que não ocorreu a substituição da satisfação pulsional, não houve recusa. Contudo, o autor nos esclarece que a violência pode assumir o estatuto de uma demanda, isto é, ainda que seja gozo, poderá se constituir como uma demanda ao Outro, "uma demanda de uma falta a ser" também marcada por uma causa, sendo assim considerada como sintoma (Miller, 2017, p. 29).

Notamos, nas narrativas acima, que o ato violento, por mais frívolo que possa parecer, evidencia o modo como o laço social, entremeado com a violência, é estabelecido. A situação sociopolítica que envolve essas crianças em suas comunidades, nas quais o desamparo se presentifica como negligência ou ausência do Estado, repercute na questão da preservação dos direitos e se sustenta numa seriação de eventos traumáticos, tornando a violência consideravelmente potente para abrir alguma possibilidade de existência. Isso, por sua vez, põe em relevo a demanda de uma falta a ser, o direito de ex-istir - como sujeito - num sistema que o captura e o apaga por meio de seu discurso capitalista. Miller (2017, p. 29) nos auxilia com sua argumentação: "(…) a violência na criança é o substituto da satisfação não advinda da demanda de amor", isto é, a violência se dá como um apelo ao Outro por aquilo que não tem - uma tentativa de furar o Outro. Nisso reside a dimensão sintomática da violência.

Por conseguinte, faz-se necessário distinguir a violência como sintoma e a violência como gozo. Uma vez que o sintoma consiste num "retorno, por via de substituição significante do que se encontra na ponta da pulsão como seu alvo" (Lacan, 1959-60/2008, p. 135), isto é, a satisfação, é nessa demanda endereçada ao Outro que o desejo irá circular em torno do objeto em questão.

Nesse ponto, podemos conjecturar a respeito do real implicado no sintoma, a saber, que o sintoma não é aquilo que o Outro vê, mas em sua "natureza é gozo, (…) gozo encoberto sem dúvida" (Lacan, 1962-63/2005, p.140). Junto a isso, destacamos que o real desvelado na cena violenta mobiliza o sujeito como numa espécie de fascínio, que o faz voltar seu olhar para o ponto do trauma:

Meu tio também foi assassinado. Ele tava (sic) bebendo com outro homem, a minha tia chamou ele pra casa, mas ele não veio. Quando ele vinha pra casa, o homem que tava (sic) no bar deu uns tiros nele. A minha mãe viu, a minha tia, a gente tava (sic) brincando e corremos pra ver. Silvan, 13 anos (Fundação Terre des Hommes, 2009, p. 85, grifo nosso).

Portanto, no encontro das crianças com o Outro da violência, a angústia que emerge da cena traumática é capaz de acionar o recalcamento para que uma resposta sintomática ocorra, ou seja, uma resposta simbólica, sustentada por uma fantasia e que implica na recusa do gozo no real. Assim, o gozo que irrompe do real poderá ser configurado pela via do simbólico, isto é, o recurso simbólico da fantasia ou mesmo do sintoma delimita o gozo que a cena violenta suscita, possibilitando que as crianças não permaneçam capturadas pela cena da violência. Porém, quando o simbólico é tensionado além de suas possibilidades, na impossibilidade da articulação da palavra, advém a angústia.

De Repente, Silêncio, Solidão e Escuridão

A psicanálise compreende (Freud, 1926/1996; Lacan 1949/1998) que a angústia é uma resposta do sujeito quando da proximidade do trauma, daquilo que é da dimensão do desamparo original, quando a criança esteve mergulhada no gozo autoerótico do corpo despedaçado. A angústia carrega a marca do infantil, como nos diz Freud (1919/2019), no texto "O Infamiliar", em que o desamparo humano é apresentado como um estado de silêncio, de solidão e de escuridão. Nas zonas de guerra, a angústia se apresenta quando o sujeito se encontra só, declinado de suas referências imaginárias, pressionado pela ausência de garantias que possam viabilizar seu próprio desejo e, ao mesmo tempo, posicionando-se diante de um Outro que se mostra como ameaça. "Nós se preocupa (sic) todo dia…à noite. É muito estranha [a noite], as policia (sic) vem bater na gente do nada". Menino em situação de rua (Naudascher & Vanier, 2014, 15'00"). "Eu tenho medo, quando eu tô (sic) saindo, às vezes eu não sei se tá (sic) acontecendo alguma coisa …eu tomar um tiro". Menino na escola (Naudascher & Vanier, 2014, 5'40").

Algumas crianças se veem à mercê de um Outro que tudo pode, cuja presença ameaçadora poderá surgir de qualquer lugar: "vem bater na gente do nada". Ao mesmo tempo em que destacamos que o Outro da angústia surge como indeterminação - "eu não sei se tá acontecendo alguma coisa" - e suas demandas se apresentam como puro capricho, conforme nos diz Vieira (2008, p.32): "estar fora da falta é estar no angustiante regime do tudo ou nada, da equivalência entre todas as demandas". Vemos nisso que a indeterminação aponta para a falta da falta, já que o Outro se mostra total e absoluto, ocasionando a angústia, muitas vezes. Ademais, parece-nos que a indeterminação do desejo do Outro produz um efeito no sujeito, posto que sua posição frente a este Outro se mantém igualmente indeterminada.

Ao retomar a este tema numa conferência realizada em 1932, intitulada "Angústia e vida pulsional", Freud (1933/1996) demonstra que a angústia se apresenta de modo distinto em diferentes momentos da vida, sempre marcada pela insuficiência de condições de elaboração psíquica, quando do encontro com o traumático. Por isso, a angústia se caracterizaria como a expectativa de um perigo não identificado. Ademais, ao considerar as relações de objeto como fator envolvido na manifestação da angústia, Freud retoma sua argumentação a respeito do desamparo humano, evocando a experiência do bebê em sua prematuridade e sua incapacidade de dominar seus estados de excitação, bem como a ausência do outro materno.

Em "Inibição, sintoma e angústia", Freud (1926/1996, p. 105) evidencia o desamparo como algo próprio do trauma, articulando-o à angústia. Numa situação em que o sujeito se encontra diante de um excesso pulsional, sendo incapaz de liberá-lo, o eu estará em desamparo e a angústia será a resposta a este estado, já que "sua vinculação com a expectativa pertence à situação de perigo, ao passo que sua indefinição e falta de objeto pertencem à situação traumática de desamparo - a situação que é prevista na situação de perigo".

Parece-nos que Freud está fazendo referência ao estado primitivo do ser humano, no qual, segundo Lacan (1975-76/2007), a criança, antes mesmo de se constituir sujeito, encontra-se tomada pelo excesso do gozo, o troumatisme: tempo da ausência da palavra, da falta e do desejo. Por isso, quando envolvida num evento que desvele a dimensão do trauma, a criança, de frente para o real, será invadida pelo não-sentido e pela angústia. Numa infamiliar rememoração reminiscente, a angústia no presente aponta para o furo (trou) deixado pela linguagem no encontro com o corpo da criança ao separá-la do seu gozo e do Outro. O furo é o lugar endereçado àquilo que resta desta separação: o objeto perdido, o objeto a.

Apoiamo-nos em uma interessante síntese apresentada por Vieira (2008) sobre o processo que envolve o desprendimento da dimensão do desejo por parte do sujeito e a irrupção da angústia. Seguindo a álgebra lacaniana, os objetos de desejo, representados como i(a), muitas vezes referenciado a algo ou alguém, se constituem como o revestimento imaginário do objeto a. Uma vez retiradas as bordas "( )" deste revestimento, o objeto desponta em sua natureza de êxtase e horror, provocando o esvaziamento do sujeito. Um exemplo disso se encontra no dito de uma mulher em situação de rua no documentário "Ônibus 174". Encontramos neste dito, o vazio do desejo que se configura na ruptura dos laços sociais, quando os revestimentos imaginários desaparecem: "acho que não tem mais jeito de eu ser feliz mais não. Não tenho mais ninguém…" (Padilha, 2002, 2'43").

Enquanto Freud (1926/1996) compreendia que a angústia irrompe ante a ameaça da perda do objeto, Lacan (1962-63/2005) defendia que não se trata da perda do objeto, mas da falta da falta. Em outras palavras, é quando algo - o objeto a - se põe no lugar da falta do objeto que a angústia advém, já que a emergência do objeto a indica o desaparecimento do objeto amado investido imaginariamente, pondo em risco toda estrutura imaginária, bem como declinando a dimensão de desejo.

Chama-nos atenção a repetição cotidiana das cenas violentas não apenas nas ruas durante as operações policiais, mas também nas famílias e na escola. Segundo nos parece, a presença insistente deste real dita a proximidade de um estado subjetivo no qual o desejo se esvai já que seu objeto é declinado, restando à criança o endereçamento a um lugar abjeto, fazendo irromper a angústia. Dentre as inúmeras narrativas que nos apresentam esse endereçamento, destacamos duas: "Voltar pra minha família? Só se for no caixão. De lá mesmo, vou pro Bom Jardim [cemitério], minha cova já ta (sic) encomendada". José, 16 anos. (Fundação Terre des Hommes, 2009, p. 97, grifo nosso). "A professora bate na mesa, grita com os outros, como purê de batata na escola". Rosa, 7 anos (Fundação Terre des Hommes, 2009, p. 103).

Vemos aqui o endereçamento que esse Outro dá ao sujeito: o caixão, o solapamento. Sua indeterminação faz de seu desejo um capricho pronto a surpreender a criança na incerteza do que poderá vir: caixão ou ser esmagado como "purê de batata".  Contudo, levantes poderão ocorrer, isto é, atentados a esse Outro, como vemos nos atos violentos, os quais procuram abrir algum espaço para a falta no Outro, um buraco, mesmo que seja feito à bala: "O meu pai usava drogas e chegava em casa chapado e ia bater na mãe. Um dia eu fui lá e dei um tiro nele". (Fundação Terre des Hommes, 2009, p. 97).

Muitas vezes, o tratamento dado pelo sujeito à angústia da presença deste Outro poderá ser a violência, como mencionamos anteriormente. Concordamos com Vieira (2008, p. 43) quando afirma: "com o Outro da angústia, sem corpo, a bala sempre fracassará", isto é, a ilusão que o ato violento comporta é de poder fazer falhar o Outro, não obstante alimenta o ciclo de indeterminações, uma vez que se trata de um ato sem lei, que instaura o caos e a ruptura no tecido social.

Como vimos, para Lacan, a angústia irrompe no momento em que o objeto a surge diante do sujeito, fazendo com que sua imagem se desmorone, sua própria condição de sujeito se encontre ameaçada. Por isso, Lacan (1962-63/2005, p.191) afirma que, na angústia, o sujeito é "premido, afetado, implicado no mais íntimo de seu ser" - é feito como "purê de batatas", segundo a criança. Compreendemos, a partir disto, que o estado em que estas crianças se encontram nas zonas da guerra urbana é de ruptura com o desejo. Encontramos nesses ditos, um sujeito que sofreu uma pressão, estando comprimido em sua dimensão de ser desejante: "Pô, posso falar a minha vantagem, a minha felicidade, legal? Minha felicidade? Acho que não tem mais jeito de eu ser feliz mais não. Não tenho mais ninguém…" (Padilha, 2002, 2'43").

"Não ter mais jeito" nos denota a condição de esvaziamento que algumas dessas crianças se encontram: a desesperança como o estranho vazio que surge no caminho, a falta da falta. Assim, essa desesperança se apresenta como a destituição do querer alguma coisa, afinal querer algo já implica numa falta. Conforme nos parece, este vazio de desejo também se apresenta naqueles ditos em que uma certa realidade de abandono se mostra estabelecida, fixa e imutável, na qual nenhuma mudança parece ser possível, como nestes enunciados a respeito da escola e da educação: "Eu estudo na escola …Perdigão…entra burro e sai ladrão…" (Fundação Terre des Hommes, 2009, p. 59). "Se for uma escola boa, o máximo que ela vai te preparar é o que? Para ir pro vestibular. Quando acabar o vestibular, acabou. Você esquece tudo". (Fundação Terre des Hommes, 2009, p. 59)

Caso algumas crianças consigam operar, por meio de algum recurso simbólico, a angústia poderá produzir um sintoma, circunscrevendo o gozo na dor e no sofrimento que o sintoma comporta. Mas nem sempre é assim: algumas crianças poderão ser capturadas pelo excesso de gozo, ficando como um sujeito à deriva.

 

Considerações Finais: Que Saída?

"Você acha que a gente tem outra saída?" (Fundação Terre des Hommes, 2009, p.79). A pergunta desta criança sugere, metaforicamente, que a zona de guerra é como um labirinto de medo e horror, onde cada um vive por conta de seus próprios recursos, à procura da saída - que supostamente existe, mas não é encontrada. Tal circunstância subjetiva se torna essencialmente importante quando consideramos as possibilidades que uma criança que vive nas zonas da guerra urbana tem hoje para encontrar alguma saída desse circuito de violência, medo e vulnerabilidade. Zizek (2014, p.73) assinala que o modus operandi do capitalismo, ao fixar lugares no social, nega "à grande maioria das pessoas qualquer cartografia cognitiva dotada de significado". Com isso, reiteramos que saber fazer algo com esses restos de real produzidos nas tramas do social e da política será o fundamento necessário para sustentar uma fantasia individual que possibilite encontrar alguma saída diante do traumático (Vieira, 2008; Chemama & Hoffmann, 2020).

Essa fantasia individual coloca o sujeito em um movimento que dá corpo ao próprio desejo, criando alternativas que não eclipsam a falta, mas a partir dela tornam a vida possível. Mas como isso pode ser possível em meio a uma realidade tão adversa? Vejamos os relatos de dois jovens brasileiros, ambos negros, Jhonatas Santos de Castro e Vitória Bezerra dos Santos, respectivamente:

Eu não me vitimizo. Eu não aprendi no Uerê a me vitimizar, e… "ah, eu nasci pobre, tive esse problema, eu vou morrer". Não. Entendeu? (…) por mais que dificuldade aconteça e outras crianças assim como eu passaram por lá [pelo projeto Uerê] com alguns problemas, a gente consegue enxergar no Uerê, na metodologia, no projeto e nas oportunidades que nós temos um caminho diferente e vamos trilhar nossa história e redesenhar se precisar. (GloboPlay, 2018a, 5'10", grifo nosso).

Eu sempre quis, eu sempre me interessei muito pela ciência, pelas galáxias, universo, estudar um pouco o universo e as estrelas, eu queria (sic) sempre ser astrônoma. (…) uma das leituras que mais me estimula é quando a dona Yvonne faz [ensina] filosofia, tipo sobre a gente, o que você quer ser, quem você é, se descobrir, tipo isso, é isso que eu quero pra mim (GloboPlay, 2018b, 1'25", grifo nosso).

Ambos viveram suas infâncias no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, testemunhando em seus cotidianos os eventos violentos que marcam as periferias brasileiras. Não apenas testemunharam, mas estiveram bem próximos a situações envolvendo crimes, morte violenta e abandono, além das dificuldades socioeconômicas que são comuns a todos ali. Ao mesmo tempo, chama-nos a atenção o modo como o desejo aparece veiculado nestas narrativas ao falarem de suas vidas, sobremodo nas expressões "vamos trilhar nossa história e redesenhar, se precisar" e "é isso que eu quero pra mim". Palavras que indicam a apropriação de suas próprias trajetórias de vida, a despeito do que viveram, isto é, algo figurou em seus percursos, dando-lhes a possibilidade de construírem uma saída.

Outra situação que destacamos é a que envolve a jovem de 22 anos, entrevistada em 2014, que tem a comunidade da Maré como um refúgio: "Aqui é um refúgio, quando está tudo de cabeça para baixo, aqui, neste calor, eu me sinto segura. Aqui sou eu" (Naudascher, 2014). A reportagem feita pela jornalista francesa Marie Naudascher descreve a sensação reconfortante que essa jovem sempre tem ao retornar à comunidade para visitar a avó. Mesmo tendo lembranças de uma infância marcada pela surpresa dos tiroteios, ali na comunidade ela se sente segura, "aqui sou eu", diz-nos.

O que torna essas respostas possíveis, principalmente quando consideramos que a violência sistêmica é implacável com essas populações? Como é possível superar o trauma da violência, quando a cena se repete em todo lugar? Talvez a palavra superação não seja adequada aqui, uma vez que sugere o sentido de triunfar sobre algo, remover dificuldades. Parece-nos que o fundamento dessas respostas não se encontra na ideia de triunfo, embora possamos admirá-las como uma espécie de vitória sobre algo. Por esta razão, compreendemos que se trata mesmo de uma invenção do sujeito.

Seguimos Éric Laurent (2014) quando afirma que o tratamento dos eventos traumáticos, como a violência, envolve a articulação de duas dimensões do trauma: a recuperação do sentido recalcado pela via da fantasia e a aceitação do não-sentido como possibilidade de novos arranjos do laço social. Ademais, a violência convoca um Outro que poderá ser reinventado pela criança, conforme nos diz Laurent (2014, p. 26): "depois de um trauma, é preciso reinventar um Outro que não existe mais (…) um Outro que foi perdido". Trata-se de um Outro faltoso, que propicie a circulação do desejo como modo de tratamento daquilo que é traumático. É certo que esta reinvenção do Outro pela criança, como encontramos nas narrativas mencionadas acima, não se deu na solidão de contar apenas consigo mesmo.

Nessas situações, encontramos um Outro que viabilizou o desejo, um outro ao lado, tomando o conceito freudiano de "nebenmensh", aquele que é essencial como apoio ao sujeito. Freud (1895/1996) estabelece desde seu "Projeto para uma psicologia científica" que a dimensão do desejo não se dá sem um outro, já que a criança busca reproduzir sua primeira experiência de satisfação veiculada por alguém. É a atração pela imagem do objeto promovedor desta experiência que tornará possível a constituição do desejo. Sabemos que esta ideia se presentifica em todo ensino freudiano.

As instituições, nesses casos, apresentam-se como provedoras do suporte simbólico que indica para onde o desejo se faz possível, por exemplo, no caso do já mencionado Projeto Uerê. Notamos que foi o trabalho dessa instituição que promoveu a construção de uma fantasia de si mesmo, de uma ficção do próprio sujeito a respeito da vida, como vemos na narrativa da Vitória: "Eu sempre quis, eu sempre me interessei muito pela ciência, pelas galáxias, universo, estudar um pouco o universo e as estrelas, eu queria (sic) sempre ser astrônoma. (…) (GloboPlay, 2018b, 1'25"). Esse Outro institucional, incorporado num outro semelhante (uma professora, um funcionário), evoca o sujeito mediante a pressuposição de que ele esteja ali, assim como ocorre com a mãe em relação ao bebê. Operando com a pulsão invocante, esses projetos sociais convocam o sujeito à existência, pela via do que falta, do que se perde para que o desejo advenha.

É fato que não apenas as instituições que prestam assistência a essas crianças se encontram nessa condição de pressupor a existência do sujeito. Podemos mencionar familiares ou pessoas próximas da criança, como talvez tenha ocorrido com a jovem que sempre retorna a seu abrigo - a casa da avó - na comunidade da Maré. Em todo caso, na construção do laço social, algumas crianças puderam fazer um arranjo com um Outro que possibilitou o espaço da falta, da incompletude, do enigma: "(…) o que você quer ser, quem você é, se descobrir, tipo isso, é isso que eu quero pra mim (GloboPlay, 2018b, 1'25"). Encontramos, assim, a confirmação do argumento de Freud desde o Projeto, quando defende que não há desejo sem o Outro.

Ao mesmo tempo, destacamos que esse arranjo com o Outro envolve uma identificação imaginária à comunidade, isto é, o sujeito se reconhece a partir das referências coletivas, estabelecendo uma relação própria com o lugar, conferindo-lhe seus significantes de filiação: "Aqui é um refúgio, quando está tudo de cabeça para baixo, aqui, neste calor, eu me sinto segura. Aqui sou eu" (Naudascher, 2014). É essa identificação imaginária que se constitui como defesa à angústia e ao traumático.

Concordamos com Ferenczi (1933/2011, p.115) quando, em seu texto "Confusão de língua entre adultos e a criança", elucida que a criança enfrenta algo poderoso no encontro com o traumático, sendo de fato insuportável manter-se sem um outro ao lado que a escute: "… a criança vê-se sozinha e abandonada na mais profunda aflição, isto é, justamente na mesma situação insuportável". Para o psicanalista húngaro, o traumático reside no não acolhimento da criança, quando o adulto, por exemplo, não reconhece seu sofrimento. Em outras palavras, é o acolhimento vindo de um outro que pode dar algum tratamento ao desamparo ocasionado pelo trauma. Por isso, há de se criar um campo entre o Outro e o sujeito, no qual o insuportável da cena traumática encontre a possibilidade de ser suportado por um outro semelhante. Pensamos na importância dos espaços de escuta e acolhimento de crianças que, particularmente, vivem em contextos violentos, mas que também possibilitem a cada uma a apropriação de um desejo.

Assim, mesmo em meio a um cenário de segregação, pobreza, espoliação e violência, torna-se possível ao sujeito apropriar-se de seu desejo e de sua história, reinventando-se a partir do impacto causado pela cena violenta. Não apagando-a, mas sendo possível fazer algo novo com ela.

 

Referências

Agamben, G. (2004). Estado de Exceção. 2. ed. Boitempo.

Belaga, G. (org.) (2004). La urgência generalizada: la práctica en el hospital. Grama Ediciones.

Chemama, R., & Hoffmann, C. (2020). Trauma na civilização. Instituto Langage.

Ferenczi, S. (2011). Confusão de língua entre adultos e a criança. In S. Ferenczi, Obras completas Psicanálise IV (p. 111-121). Editora Martins Fontes. (Obra publicada originalmente em 1933).

Freud, S. (1996). Projeto para uma psicologia científica. In S. Freud. Obras psicológicas completas edição standard brasileira (v. I, p.335-454). Imago. (Obra publicada originalmente em 1895).

Freud, S. (1996). Sobre as teorias sexuais das crianças. In S. Freud. Obras psicológicas completas edição standard brasileira (v. IX, p.188-206). Imago. (Obra publicada originalmente em 1908a).

Freud, S. (1996). Escritores criativos e devaneios. In S. Freud. Obras psicológicas completas edição standard brasileira (v. IX, p.133-143). Imago. (Obra publicada originalmente em 1908b).

Freud, S. (1996). Inibições, sintomas e angústia. In S. Freud. Obras psicológicas completas edição standard brasileira (v. XX, p.81-174). Imago. (Obra publicada originalmente em 1926).

Freud, S. (1996). Novas conferências introdutórias sobre psicanálise. In S. Freud. Obras psicológicas completas edição standard brasileira (v. XXII, p.85-112). Imago. (Obra publicada originalmente em 1933).

Freud, S. (2019). O infamiliar. In G. Iannini, (ed.). Obras incompletas de Sigmund Freud: O infamiliar (p.27-126). Autêntica (Obra publicada originalmente em 1919).

Fundação Terre des Hommes. (2009). Vozes: crianças e adolescentes no monitoramento da Convenção Internacional dos Direitos da Criança: edição 2009.

GloboPlay. (2018a, Setembro 18). Yvonne Bezerra de Mello fala sobre as crianças que passaram pelo Projeto Uerê [Vídeo]. Youtube. https://globoplay.globo.com/v/7028123/?s=0s

GloboPlay. (2018b, Setembro 18). Jhonathas e Vitória falam sobre seus projetos para o futuro [Vídeo]. Youtube. https://globoplay.globo.com/v/7028124/?s=0s

Lacan, J. (1998). O estádio do espelho como formador da função do eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica. In J. Lacan, Escritos (pp. 96-103). Jorge Zahar. (Texto comunicado em 1949).

Lacan, J. (2018, 7 Janeiro). Communication et discussions au symposium international du Johns Hopkings Center a Baltimore. M.21-bal. https://m.21-bal.com/doc/16180/index.html. (Comunicação feita originalmente em 1966).

Lacan, J. (2008). O Seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Jorge Zahar Editora. (Seminário proferido em 1959-60).

Lacan, J. (2005). O Seminário, livro 10: a angústia. Jorge Zahar Editora. (Seminário proferido em 1962-63).

Lacan, J. (2007). O seminário, livro 23: o sinthoma. Jorge Zahar Editora. (Seminário proferido em 1975-76).

Laurent, E. (2014). O trauma ao avesso. Papéis de psicanálise, 1(1), 21-28.

Lima, R. S. et al. (2024). Atlas da violência 2024. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Fórum Brasileiro de Segurança Pública. https://www.forumseguranca.org.br

Mbembe, A. (2018). Necropolítica. N-1 edições.

Miller, J. A. (2017). Crianças violentas. Opção Lacaniana, (77), 23-31.

Naudascher, M., & Vanier, P. (Diretores). (2014). Morri na Maré [Filme]. Agência Pública. https://www.youtube.com/watch?v=ndnPvr2dUJM

Naudascher, M. (2014, Março 11). "Morri na Maré": assista ao minidoc. APublica. https://apublica.org/2014/03/morri-na-mare-assista-ao-minidoc/

Padilha, J. (Diretor). (2002). Ônibus 174 [Filme]. Zazen Produções. Disponível em: https://vimeo.com/240313562

Projeto Uerê. (2019). Nós acreditamos que todos são capazes de aprender [Homepage]. https://www.projetouere.org.br/

Santa Roza, E. (1993). Quando o brincar é dizer: a experiência psicanalítica na infância. Relume-Dumará.

Santiago, A. L. (2005). A Inibição intelectual na psicanálise. Jorge Zahar Editora.

Vieira, M. A. (2008). Restos: uma introdução lacaniana ao objeto da psicanálise. Contracapa.

Zizek, S. (2014). Violência: seis reflexões laterais. Boitempo.

 

 

Endereço para correspondência
Tharso Peixoto Santos e Souza - tharsopeixoto.tp@gmail.com

Recebido em: 02/06/2024
Aceito em: 17/06/2025
Editor associado: Marcos Vinicius Brunhari

 

Conflito de interesse
Os autores declaram que não há conflitos de interesse.

Disponibilidade dos Dados
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.

Nota sobre autoria
Tharso Peixoto Santos e Souza - conceituação; curadoria de dados; investigação; metodologia; visualização; escrita (rascunho original); escrita (revisão e edição).
Cristina Moreira Marcos - Conceituação; metodologia; supervisão; escrita (revisão e edição).

 

Notas

1 Documentário produzido por jornalistas franceses radicados no Brasil, Marie Naudascher e Patrick Vanier, em 2014, por meio da Agência Pública, e que aborda a questão dos efeitos da violência sobre as crianças residentes na comunidade Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, após uma ação policial sangrenta e confusa em 25 de junho de 2013.
2 Documentário dirigido por José Padilha em 2002, alcançando grande sucesso internacional por apresentar as muitas nuances dos eventos ocorridos em 12 de junho de 2000, também na cidade do Rio de Janeiro. O episódio em questão envolveu o sequestro de um ônibus do transporte público por um ex-presidiário e sobrevivente da conhecida chacina da Candelária, retratando ainda a ação controversa da polícia, cujo resultado foi a morte violenta de uma das reféns e do próprio sequestrador, Sandro Barbosa do Nascimento, após 4 horas de terror.
3 Instituição não-governamental que atua desde 1984 no Brasil no campo da preservação e defesa dos direitos de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social.
4 O conceito de real foi sendo apresentado por Lacan ao longo de sua obra, assumindo pouco a pouco maior consistência. Aqui é apresentado como aquilo que escapa à simbolização, tal como o autor nos apresenta em "Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise" (1953/1998, p. 259, grifo nosso) a afirmar: "Seus meios [da psicanálise] são os da fala, na medida em que ela confere um sentido às funções do indivíduo; seu campo é o do discurso concreto, como campo da realidade transindividual do sujeito; suas operações são as da história, no que ela constitui a emergência da verdade no real.". Tal verdade é o elemento que assinala a impossibilidade de tudo ser capturado pelo sentido presente na linguagem e, consequentemente, nos processos de simbolização.
5 A primeira data indica o ano de publicação original da obra (obras do Freud) ou o ano da apresentação do seminário (obras de Lacan) e a segunda data indica a edição consultada pelos autores.
6 "O gozo é o que está além do princípio do prazer. […] É o campo de uma experiência da transgressão, da ultrapassagem de um limite." (Lacan, 2008, p. 189). Trata-se, portanto, de um conceito que ultrapassa a noção de prazer, aproximando-se sobretudo da ideia de excesso pulsional.

 

 

Este artigo da revista Estudos e Pesquisas em Psicologia é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Não Comercial 3.0 Não Adaptada.