Estudos e Pesquisas em Psicologia
2026, Vol. 26. e83921, doi:10.12957/epp.2026.83921
ISSN 1808-4281 (online version)
PSICANÁLISE
Narrativas do Corpo: Uma Leitura Psicanalítica sobre Tatuagens, Piercings e Escarificações
Body Narratives: A Psychoanalytic Reading on Tattoos, Piercings and Scarifications
Narrativas Corporales: Una Lectura Psicoanalítica sobre Tatuajes, Piercings y Escarificaciones
Natália de Oliveira de Paula Cidade a
a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Endereço para correspondência
RESUMO
O presente artigo parte de uma perspectiva histórica das marcações corporais, destacando nessas práticas a existência de um caráter comunicativo. Se, nas origens ancestrais, havia uma universalidade de significado nestas marcas, na contemporaneidade o corpo se apresenta como potencial emissor de mensagens individualizadas, relacionadas a um tempo anterior à aquisição da linguagem verbal. A finalidade deste texto é problematizar as marcações corporais contemporâneas como práticas que conservam um potencial de endereçamento ao outro, sob a forma de inscrições no corpo. Recorremos aos estudos psicanalíticos acerca dos primórdios do psiquismo e do eu-corporal, momento no qual a sensorialidade e o corpo se destacam como via privilegiada de comunicação. Com base nas contribuições acerca de uma narratividade não verbal do início da vida, que permanece ativa ao longo de nossa existência, refletimos acerca da presença de um potencial narrativo nas inscrições corporais atuais. Para que o caráter de comunicação seja efetivamente experienciado, será necessário um encontro intersubjetivo com um destinatário possível, disposto a escutar o corpo em sua dimensão não-verbal. Nesse sentido, as marcações corporais da contemporaneidade podem ser compreendidas como dotadas de grande potencial de comunicação, mas sua capacidade em se tornar mensagem vai depender da construção de um compartilhamento subjetivo.
Palavras-chave: marcações corporais, narratividade, linguagem não-verbal.
ABSTRACT
This article begins with a historical perspective on body markings, highlighting the communicative character of these practices. While ancestral origins held universal meaning in these marks, contemporary times present the body as a potential emitter of individualized messages related to a time before the acquisition of verbal language. The purpose of this text is to problematize contemporary body markings as practices that retain a potential for addressing others, in the form of inscriptions on the body. We draw on psychoanalytic studies concerning the origins of the psyche and the bodily ego, a moment in which sensoriality and the body stand out as a privileged means of communication. Based on contributions regarding a non-verbal narrative from the beginning of life, which remains active throughout our existence, we reflect on the presence of a narrative potential in current body inscriptions. For the communicative character to be effectively experienced, an intersubjective encounter with a potential recipient, willing to listen to the body in its non-verbal dimension, will be necessary. In this sense, contemporary body markings can be understood as possessing great communicative potential, but its ability to become a message will depend on the construction of subjective sharing.
Keywords: body markings, narrativity, non-verbal language.
RESUMEN
Este artículo comienza con una perspectiva histórica sobre las marcas corporales, destacando el carácter comunicativo de estas prácticas. Si bien los orígenes ancestrales tenían un significado universal en estas marcas, la contemporaneidad presenta el cuerpo como un potencial emisor de mensajes individualizados relacionados con una época anterior a la adquisición del lenguaje verbal. El propósito de este texto es problematizar las marcas corporales contemporáneas como prácticas que conservan un potencial para dirigirse a otros, en forma de inscripciones en el cuerpo. Nos basamos en estudios psicoanalíticos sobre los orígenes de la psique y el yo corporal, un momento en el que la sensorialidad y el cuerpo se destacan como un medio privilegiado de comunicación. A partir de las contribuciones sobre una narrativa no verbal desde el inicio de la vida, que permanece activa a lo largo de nuestra existencia, reflexionamos sobre la presencia de un potencial narrativo en las inscripciones corporales actuales. Para que el carácter comunicativo se experimente efectivamente, será necesario un encuentro intersubjetivo con un receptor potencial, dispuesto a escuchar el cuerpo en su dimensión no verbal. En este sentido, el lenguaje corporal contemporáneo puede entenderse como poseedor de un gran potencial comunicativo, pero su capacidad de convertirse en mensaje dependerá de la construcción de un compartir subjetivo.
Palabras clave: marcas corporales, narratividad, lenguaje no verbal.
Quando já não havia outra tinta no mundo
o poeta usou do seu próprio sangue.
Não dispondo de papel, ele escreveu no próprio corpo.
Assim, nasceu a voz, o rio em si mesmo ancorado.
Como o sangue: sem foz nem nascente.
(Mia Couto, 2003, p. 219)
Desde tempos imemoriais, o ser humano pinta, marca e adorna seu corpo. Em diferentes terras e culturas, os sujeitos transformam seus corpos nus em obras de arte recheadas de significados. Enquanto algumas comunidades se utilizam de adereços perfurados na carne, como ossos, penas e pedaços de madeira, outras pintam e queimam desenhos complexos e intrincados na pele. Essas práticas sobrevivem e hoje ganharam o mundo, com algumas modificações. Tatuagens, pinturas e perfurações renascem numa releitura distinta, porém ainda repleta de sentidos.
Na contemporaneidade, nos deparamos com releituras destas práticas ancestrais. Há uma dimensão estética envolvida nas práticas atuais, especialmente no que diz respeito às tatuagens e aos piercings. Salta-nos aos olhos a necessidade do registro no corpo ressaltada pelos praticantes destes fenômenos. Já no caso das escarificações, a aproximação com uma vivência de sofrimento psíquico mais grave se clarifica. Na maior parte dos casos, a intenção de se infligir essas marcas não será estética ou de pertencimento a um grupo social pré-determinado, mas sim com o objetivo de aliviar parte da tensão interna, exteriorizando o sofrimento na forma de uma ferida física (Dargent & Matha, 2011). Diferentemente das tatuagens e dos piercings, a dimensão do sofrimento está em destaque nessa prática. São formas distintas de marcar o corpo, mas que seguem envolvendo uma inscrição corporal que deixa para trás um rastro visível.
Ao refletirmos acerca desses fenômenos mais antigos ao redor do mundo, é possível perceber que há uma busca por comunicar algo que varia de acordo com o tempo, a região e a cultura, seja uma posição dentro da sociedade, memória de eventos importantes - tais como guerras, casamentos, lutos - ou apenas um pertencimento estético. Atualmente, não temos esse caráter obrigatório de significação de rituais através de marcas corporais, porém elas continuam a ser utilizadas, ganhando terreno e aceitação popular. E o presente artigo nasce desse questionamento acerca das particularidades destes fenômenos hoje. Qual seria a função exercida pelos fenômenos de marcação corporal no século XXI? Seria possível lermos no corpo marcado da atualidade uma parte de sua história, como nas culturas ancestrais? Haveria, ainda, um caráter de comunicação nestas práticas?
Marcações Corporais
Ao refletirmos sobre os fenômenos das marcações corporais, diversas práticas surgem à mente. Dentre as possibilidades de inscrições no corpo, enfocaremos as práticas das tatuagens, dos piercings e das escarificações. As marcações corporais são uma das formas possíveis de aparição de um comportamento humano milenar nomeado por alguns autores de automutilações. Encontramos descrições dos fenômenos de automutilação na literatura desde o século VI a.C., com cultos e rituais de antigas civilizações. Também podemos observá-los nos ritos de passagens de povos primitivos e sociedades tribais, de forma que este não se configura como um fenômeno novo ou próprio de nossa sociedade ocidental (Favazza, 1987/2011).
A automutilação é um fenômeno que não pertence a um único campo de estudo e denomina o ato de ferir o próprio corpo em diferentes contextos e por diferentes razões. Nessa direção, os fenômenos de marcação corporal podem ser entendidos como fazendo parte de um amplo grupo das automutilações, nas quais estariam inseridas práticas ritualísticas ancestrais de laceração do corpo visando um compartilhamento social de sentidos. Se nas origens do ato de marcar o corpo encontramos, em diferentes culturas, tentativas de curar algum mal, se aproximar do mundo espiritual ou designar pertencimento social; marcar o corpo como signo de sofrimento vai trazer outro contexto (Favazza, 1987/2011). Especialmente a partir do século XIX, as automutilações foram se afastando do estatuto ritualizado e compartilhado para adentrar na esfera do sintoma e da psicopatologia. A psiquiatria começa a apresentar descrições deste fenômeno de forma bastante particular, descrevendo e buscando tratar autoagressões que fogem ao pertencimento social (Cidade, 2020).
Dessa forma, esclarecemos que, no presente trabalho, estamos apresentando duas formas distintas de tratar os fenômenos da automutilação/escarificação: 1) como marcação corporal compartilhada, designando pertencimento social e contendo significados que podem ou não ser designados a priori; 2) como sofrimento psíquico que não reenvia a nenhum sentido prévio ou significação compartilhada. Como unir em um texto dois contextos tão distintos? Apesar das diferenças já citadas, o interesse teórico surge no que há de comum entre estas práticas: elas deixam marcas, traços vivos, encarnados (em-carne viva) na pele dos sujeitos que as praticam.
Tendo deixado esclarecidas as diferenças essenciais entre os fenômenos, ressaltamos que o enfoque do presente artigo não está no que os diverge, mas naquilo que os aproxima: refletir acerca do potencial narrativo presente nestas diferentes formas de apresentação do corpo. O recorte escolhido deveu-se ao fato de que, embora se constituam como modos distintos de manifestação corporal, as diferentes práticas estão extremamente inseridas no contexto social atual e representam formas de linguagem que apontam para uma construção subjetiva em potencial.
Breve Passeio Histórico
Na história das marcações corporais, os piercings e as tatuagens ocuparam lugares bastante distintos dentro da sociedade ocidental, dependendo da época. De acordo com Le Breton (2002), no princípio de suas descrições na literatura ocidental, datando do século XVIII, tais práticas eram vistas como símbolos de exclusão e marginalidade, estando associadas a criminosos, escravizados ou prostitutas. As marcas corporais eram consideradas como signos de alerta, espécie de identificador (na carne) de que tais sujeitos seriam aqueles que se encontram à margem da sociedade.
No século XIX, as tatuagens entram nas listas de indícios daqueles que poderiam vir a cometer crimes. Grandes nomes da criminologia clássica, como Cesare Lombroso, um dos fundadores da Escola Italiana de Criminologia, e seu precursor Alexandre Lacassagne, fundador da Antropologia Criminal, veem estas marcas como possível índice de periculosidade (Wiener, 2004). A partir das décadas de 1960 e 1970, novos grupos sociais vão tendo acesso às tatuagens e piercings e esses fenômenos vão se transformando em estética e signos de pertencimento novamente. Se no princípio da história das marcações corporais, Araújo (2005) sublinha uma função de designação de sentido a ser compartilhado socialmente, uma centelha é disparada nessa direção a partir da segunda metade do século XX.
Sobre tal mudança de perspectiva, estamos de acordo com Le Breton (2002), quando o autor aponta a importância que o corpo adquire no imaginário social como objeto de mediação entre o sujeito e sua individualidade. Segundo o autor, o corpo próprio, a partir da contemporaneidade, nunca está pronto e acabado, sendo necessária uma finalização de si a partir do uso que se faz desse corpo: roupas, penteados, cirurgias e, por que não, marcas corporais? Esses diferentes usos do corpo seriam uma forma de finalizar nosso "rascunho" corporal, fornecido pela biologia, mas aprimorado pelo homem.
Nessa perspectiva, as transformações impostas ao corpo são, também, tentativas de construção identitária. Marcar o corpo, seja com práticas mais aceitas socialmente como a tatuagem e o piercing, ou com as escarificações, é fazer bordas e recortes, sejam eles corporais, sociais ou relacionais (Costa, 2003/2014). Porém, cada uma dessas aparições tem suas particularidades - assim como diferentes níveis de inscrição psíquica e corporal. Veremos adiante um pequeno recorte definindo cada uma destas práticas e suas possíveis funções relacionadas à constituição subjetiva que promovem.
Tatuagens
As tatuagens são as marcações corporais mais conhecidas e utilizadas no mundo contemporâneo. Trata-se de uma prática de desenho corporal permanente feita na pele humana através da aplicação subcutânea de pigmentos de tinta de materiais variados por pequenas agulhas. Apesar de estarem "na moda", as tatuagens remontam há alguns milênios, sendo encontradas desde o período neolítico (Rouers, 2008), passando pelo antigo Egito. O apogeu de sua aparição no mundo ocidental nasce do encontro de navegadores do século XVIII com nativos tatuados das ilhas do Pacífico, tais como o Capitão James Cook, explorador e cartógrafo britânico. Cook registrou em seu diário de bordo a palavra "tattoo", cunhando o termo em inglês. Este termo deriva de uma palavra polinésia que designava o som da agulha batendo repetidamente sobre a pele durante o processo de se tatuar (Favazza, 1987/2011).
De acordo com Le Breton (2002), é devido a este encontro que os marinheiros foram o primeiro grupo da sociedade ocidental a se apropriar da prática da tatuagem. Entre eles, esta forma de marcar o corpo se desenvolve como uma espécie de rito figurativo de integração ao grupo e de pertencimento. As tatuagens serviam como um atestado de virilidade e força, uma vez que era necessário suportar a dor para obter a marca (Rouers, 2008). Um segundo grupo que começou a aderir às tatuagens como prática identitária foram os soldados, reforçando a noção de afiliação a algum grande grupo advinda da prática de marcar o corpo. Através da tatuagem, seria possível reconhecer um colega militar e novamente reforçar o imaginário social de força e aquisição de virilidade masculina.
A partir do final do séc. XIX e início do séc. XX, com a proliferação de tratados médicos sobre criminologia, surge na literatura uma associação entre tatuagens e criminosos. Estudos sobre o meio prisional no continente europeu apontam alta prevalência de detentos com tatuagens e há uma tentativa de generalizar a prática como sinal de marginalização da população carcerária. É o princípio do período de maior discriminação a corpos tatuados no ocidente. A prática passa a ser associada com a transgressão e o proibido, o "fora da lei" (Le Breton, 2002).
No entanto, a partir da década de 1960, surge o movimento hippie, renovando o sentido das tatuagens com a valorização dos "corpos livres". Marcar a pele passa a significar liberdade e busca-se a reivindicação de corpos libertos - o oposto dos obedientes corpos dóceis enviados para a guerra do Vietnã. Neste momento, o corpo se torna um manifesto, assim como no movimento punk, datado da década de 1970. Na direção contrária ao jargão hippie "paz e amor", porém também utilizando o corpo para comunicar a insatisfação social do momento, os punks exalam no corpo o ódio pelo social e a recusa das condições atuais de existência.
Assim como no movimento hippie, seus corpos se tornam um meio de expressão política e o corpo punk se mostra através de uma violência desmedida, niilista, afrontando as autoridades. A partir dos anos 1980, a cultura punk é englobada pelo capitalismo, tendo suas premissas deturpadas e transformadas em estilo - pronto para ser comercializado e vendido pela cultura do consumo. É neste cenário que as marcas corporais mudam de status, saindo do domínio político de revolta, exclusão e reivindicações sociais para uma submissão à lógica do consumo e da estética (Le Breton, 2002).
Se as tatuagens ancestrais de comunidades e/ou sociedades tradicionais aparecem carregadas de significações prévias e circunscritas a momentos importantes como rituais de iniciação, a tatuagem do mundo ocidental contemporâneo responde a um outro lugar. Rouers (2006), etnólogo francês, destaca o papel da institucionalização e do reconhecimento social que são próprios das tatuagens antigas, assim como a importância dos ritos de passagem como operações da sociedade que devem incidir nela própria e em seus membros.
Guardadas as devidas diferenças entre as tatuagens que remontam a tempos imemoriais e os novos arranjos estéticos da contemporaneidade, há uma noção de pertencimento relacionada às práticas de escrita corporal. Apesar de não terem um significado prévio de designação que seja imediatamente compreendido pelo social, o sujeito moderno tatuado adentra um grande grupo dos que dão ao corpo um estatuto de mensagem.
Para além do pertencimento grupal, as tatuagens podem ocupar uma função de memória - relatando através do corpo uma história que não poderia ser contada de outra forma. Sobre este prisma, Wiener (2004) ressalta que, atualmente, as tatuagens excedem um lugar de gesto ritualizado e se apresentam como um arquivo de si. A pele funcionando como tecido biográfico, no qual o sujeito relata algo de sua história e de seus pertencimentos individuais. Nesse sentido, as tatuagens seriam traços de uma escrita de si mesmo, percurso autobiográfico iniciado a partir de uma narrativa bastante peculiar.
Em relação à capacidade de acessar diferentes tempos, Pailler e Pailler (2004) destacam que as tatuagens podem ser entendidas como um recorte no tempo e no espaço de um momento ímpar na vida do sujeito - espécie de "memorial" (p. 132). Ela transporta para o exterior de forma permanente algo que foi vivido fugazmente no interior, passando de uma cena psíquica a uma cena física. Tal função pode ser pensada como testemunho de um evento vivido, em sua forma pessoal, familiar ou social; e como tentativa de congelar um momento importante, que pode ser revisitado a cada olhar para este novo símbolo que pertence agora ao corpo do sujeito (Estellon, 2004).
Tais marcações corporais funcionariam como um diário, ou jornal íntimo, no qual as memórias do sujeito poderiam ser inscritas através de símbolos, desenhos - e até palavras - no lugar de narrativas mais longas em prosa (Le Breton, 2002). A pele servindo como papel. A partir da inscrição na forma de marcas corporais, a experiência será mantida e não mais deformada pelo tempo, tornando-se imutável e preservada, até mesmo na memória do sujeito. Adentramos, aqui, no terreno da temporalidade. A tatuagem como ímã atrator de diferentes tempos, conjugando passado e presente num único símbolo. Partindo desta perspectiva, a tatuagem possibilitaria a suspensão do tempo, mediada pelo desejo de eternizar um momento através de um ato irreversível gravado na pele. A tatuagem operando como marca definitiva do tempo, inscrevendo a memória na carne.
Nas culturas não ocidentalizadas e povos ancestrais, as marcações corporais têm como tradição contar uma história: cada marca equivale a uma informação. Elas contam sobre identidades, história familiar, ritos de passagem e grupos de pertencimento (Wiener, 2004). Especialmente dentre os povos que não possuem a escrita, como os indígenas, ressalta Araújo (2005), é na pele que sua história vai se apresentar: "Está tudo escrito na pele" (p. 24). Partindo de um ponto de vista antropológico, a autora ressalta o caráter de comunicação presente nestas práticas, que varia de acordo com o tempo, a região e a cultura.
Algumas funções específicas dentro da comunicabilidade imagética exercida pela tatuagem são destacadas dentro da pesquisa histórica de Araújo (2005): identidade, memória, poder e beleza. De acordo com o tipo e local da tatuagem em questão, pode-se inferir a qual comunidade aquele sujeito pertence, qual seu posicionamento dentro daquela organização e qual o seu nível de poder e ocupação social. Com Wiener (2004), podemos pensar historicamente a prática da tatuagem, que pode servir de simples adorno até a construção de uma obra de si. Da mesma forma que, tradicionalmente, no seio das culturas não ocidentalizadas, a tatuagem é utilizada para contar uma história, essa finalidade é preservada nas tatuagens dos dias de hoje. Com a diferença nas motivações encontradas para exibir as marcas em questão, como religiosidade e posicionamento social nas comunidades, por exemplo, podemos seguir refletindo acerca do caráter de mensagem presente no fenômeno da tatuagem.
Piercings
Assim como as tatuagens, os piercings têm suas origens em antigos contextos sociais e culturais, normalmente vinculados a algum ritual de iniciação ou com o intuito de tornar visível e conhecido algum período específico da vida de alguém, tais como pertencimento a uma nova organização social, casamento, lutos ou marcas de guerra. O apogeu dos rituais utilizando piercings se deu entre os impérios maias, astecas e olmecas, na América Central. Além das tatuagens, esses grupos encontravam nos piercings uma forma de purificação espiritual (Favazza, 1987/2011).
Piercing é uma palavra própria da língua inglesa e deriva do verbo to pierce, que significa "perfurar". A prática do piercing atualmente consiste em realizar perfurações na pele para que se possa introduzir uma espécie de joia em diversos locais do corpo, tais como no umbigo, sobrancelha, lábio, língua, dentre outros. O objeto a ser inserido no orifício perfurado varia de acordo com o código cultural, podendo ser um pedaço de osso, galhos e diferentes tipos de metais, tal como o aço cirúrgico, utilizado atualmente. Assim como a tatuagem, o piercing também se caracteriza como uma marca realizada no corpo que perfura a pele e causa dor - embora a joia possa ser removida, não apresentando o caráter permanente da tatuagem (Macedo, Gobbi & Waschburger, 2009).
Rouers (2008) ressalta que, apesar de encontrarmos hoje práticas visualmente similares às ancestrais, cada marcação corporal adquire um sentido que é circunscrito àquele contexto cultural e momento histórico específico. O estudo das cerimônias de perfuração dos maias, por exemplo, afirma que essas possuíam uma dimensão de sacrifício e de sangue como uma oferenda derramada para os deuses nestes antigos rituais - elementos que não encontramos nas práticas atuais de marcação corporal. No entanto, apesar dos contextos e objetivos da perfuração serem bastante distintos, o autor destaca alguns elementos convergentes nas práticas ancestrais e contemporâneas, dentre elas: a presença do sangue; a proximidade com os orifícios do corpo; e a vontade de ultrapassar os limites, físicos e individuais.
A estética contemporânea do piercing, aponta Le Breton (2002), nasce nos Estados Unidos a partir da década de 1970, inserida em um contexto de marginalização. Se, por um lado, temos como pano de fundo do surgimento desta prática o movimento punk, com toda renúncia e ódio pelo social atravessando o corpo político destes sujeitos, por outro, também surgem adeptos do piercing vinculados a oficinas de sadomasoquismo e outras práticas sexuais plurais. É somente a partir da década de 1980 que os piercings começam a sair da marginalidade social e são promovidos a adereços de estética e estilo nos Estados Unidos - e, mais adiante, no restante do mundo, como acessórios de beleza. Nas décadas subsequentes, as marcações corporais como um todo começam a ganhar as cidades e a mídia, sendo atrelados a uma ideia de juventude, rebeldia e pertencimento social de uma "nova geração". A partir dos anos 2000, marcar o corpo passa a ser um traço fundamental da experiência de juventude na contemporaneidade.
Diferentemente da marcação na pele através de um símbolo ou desenho, o piercing pode ser retirado, apagando a experiência estética mais facilmente. Sobre essa característica - o caráter de impermanência da joia -, contudo, é importante ressaltar que há um orifício que permanece. A marca deixada pela perfuração da pele não desaparece, trazendo para o contexto desta prática uma significação distinta. Sobre essa questão, poderíamos pensar nos piercings como uma neoformação de novos orifícios corporais, permitindo ao sujeito assegurar os limites entre interno e externo a partir desta prática? Afinal, temos uma joia que faz contato, o tempo todo, com o dentro e com o fora.
Sobre a questão da criação de novos orifícios, Rouers (2008) os aponta como limiares entre a matéria interna e externa - buracos através dos quais sairiam as substâncias corporais, como o sangue, e entraria a nova matéria, como o metal da joia. O autor destaca a presença da característica ancestral de troca simbólica entre o corpo e o mundo exterior. Nas sociedades tradicionais, as marcações corporais realizadas perto dos orifícios do corpo tinham como objetivo proteger aquele sujeito/aquela sociedade da desordem, uma vez que as margens do corpo seriam equivalentes simbólicos das margens da sociedade em questão.
Para Lauru (2004), o piercing se relaciona com uma tentativa de apropriação corporal do próprio sujeito. Essa prática costuma ocorrer com maior frequência na adolescência, período no qual o sujeito experimenta uma série de mudanças e perdas - inclusive corporais. Há a perda do corpo infantil, da relação com os pais enquanto criança, de menores exigências sociais. Através da efração infligida na pele, o sujeito tentaria delimitar essas perdas, tornando-se novamente dono de seu corpo, tão desgovernado nesse momento de transição.
A superfície da pele funciona como um envelope fechado, que separa o interno do externo, delimitando onde começa e acaba o sujeito corporalmente. O ato de furar essa carapaça fictícia, formando novos orifícios de comunicação, aparece como tentativa do sujeito de lidar com esses limites bagunçados pelo novo corpo adolescente que irrompe sem controle. Perfurando seus próprios locais escolhidos do corpo, o sujeito experimenta a tentativa de realizar ativamente o que vem sofrendo de forma passiva (Costa, 2003/2014); ele modifica o corpo voluntariamente com o intuito de aliviar as modificações corporais pubertárias impostas a si.
Assim como nas tatuagens, o piercing demonstra a relação existente entre construção identitária e apropriação do corpo nas culturas ocidentais contemporâneas. O corpo se torna um suporte de expressão personalizado que permite concretizar a necessidade de se diferenciar dos outros (Rouers, 2006). Mudando o seu corpo, o sujeito busca mudar algo em sua própria vida. Le Breton (2011) nomeia tais ajustes corporais de signos de identidade. Eles se caracterizam como ferramentas de metamorfose que tomam corpo como uma assinatura de si. Dessa forma, as marcações corporais podem ser consideradas pequenos degraus na escala de apropriação corporal do sujeito contemporâneo.
Escarificações
As escarificações são um subtipo das automutilações e podem ser definidas como uma ou mais incisões superficiais praticadas por objeto cortante que provoquem derramamento de sangue (Barrault, 2005). Na língua inglesa, encontramos estudos descrevendo tais comportamentos através da nomenclatura cutting. Assim como nos piercings, um dos elementos que se repetem (das práticas ancestrais para as práticas atuais) nas escarificações é a presença do sangue, elemento repleto de simbologia e significação (Rouers, 2008).
A nomenclatura "escarificação" pode levantar debates no cenário atual, uma vez que costuma designar dois fenômenos realizados em contextos bastante diferentes. O primeiro consiste em uma técnica de modificação corporal produzida através de instrumentos cortantes, deixando como resultado uma série de cicatrizes. Esta prática é ancestralmente utilizada por diversas comunidades não ocidentalizadas, podendo designar significados variados, tais como poder, beleza ou status social (Araújo, 2005).
O segundo fenômeno, que também ganha o nome de escarificação, diz respeito a práticas de laceração da pele que não possuem finalidade estética e/ou designam pertencimento social, se distanciando das práticas anteriores e adentrando no campo da psicopatologia e do sofrimento psíquico (Cidade, 2020). Estas práticas são uma das formas de aparição das automutilações no campo da saúde mental, caracterizadas pela psiquiatria como um dano autoinfligido intencionalmente a uma parte de seu próprio corpo, sem a intenção consciente de morte (Feldman, 1988). Vale ressaltar que ambas as formas descritas de escarificação serão levadas em consideração no presente artigo.
É a partir do século XIX que começa a surgir, na literatura médica, material sobre as escarificações atreladas à psicopatologia, sobretudo no campo da psiquiatria. Inicialmente generalizadas como automutilações, as escarificações começam a ganhar especificidades clínicas a partir da década de 1960, principalmente nos Estados Unidos, com o aumento considerável de publicações acadêmicas sobre o tema. Juntamente com esta forma de aparição das escarificações na psiquiatria, começa a surgir, a partir da década de 1970, e mais ainda a partir dos anos 2000, um aumento significativo destas condutas entre os adolescentes (Gicquel & Corcos, 2011). A adolescência, período no qual destacam-se as problemáticas do corpo e as patologias do ato, não à toa surge relacionada aos fenômenos de automutilação e de marcação corporal.
Mantidas as devidas diferenças entre as práticas das tatuagens e dos piercings, nos quais a dimensão estética e de pertencimento social estão inegavelmente em evidência, a segunda leitura acerca das escarificações nos direciona para outras formas de experiência: as vivências de sofrimento psíquico e solidão. No entanto, assim como as marcações corporais anteriormente referidas, as escarificações também deixam um rastro, uma marca, na forma de cicatriz. Se a tatuagem insere tinta entre as camadas da pele, deixando como traço um símbolo ou desenho, e o piercing cria um novo orifício a ser preenchido com um novo elemento corporal; a escarificação escava seu caminho na pele, através de um objeto cortante, deixando para trás uma marca em relevo.
A própria etimologia do termo escarificação traz uma contribuição interessante. Ele é derivado do grego skaripheuein (incisão) e do latim sacrificare (sacrificar) e scribere (escrever). Ao mesmo tempo em que encontramos a noção de sacrifício, trazida nos rituais ancestrais e no derramamento de sangue como etapa necessária para transpor posições sociais, surge a noção de traço e memória - a escarificação como possibilidade de escrita de si. A palavra se encontra ligada a uma ideia de abrir cortes na pele, mas também podemos compreendê-la como abrindo possibilidades de inscrição através destas marcas enigmáticas (Dargent & Matha, 2011).
Falcão (2021), em Cortes & cartas: estudos sobre automutilação,livro derivado de sua tese de doutorado, compreende as escarificações como uma experiência possível da escrita de si, escrita essa a ser produzida no formato de cartas. A autora se utiliza da relação entre a inscrição no corpo, proporcionada pelos cortes, e um possível endereçamento a um outro, uma vez que esta prática deixa um resto. Como se, à espera de um destinatário, as marcas talhadas pela escarificação ficassem aguardando serem "lidas" por um outro possível, serem descobertas, vagando pelo mundo. De acordo com a autora, as cartas são os únicos modelos de escrita que pressupõem a existência de um outro sujeito para recebê-las, de forma que propõe pensarmos nos cortes deixados pela escarificação como uma forma de escrita de si - no (e através) do corpo.
Assim como nas tatuagens e nos piercings, na escarificação há, também, um corpo que precisa se contar para existir. Similar ao raciocínio de Falcão (2021), Le Breton (2011) aponta as práticas de marcação corporal como possibilidades de uma escrita pessoal através do corpo e endereçados a um outro: relatos de si que transbordam (n)a pele. Segundo o autor, se apropriar do próprio corpo é um árduo trabalho a ser realizado na contemporaneidade, fruto da inalcançável exigência social que nos empurra a atingir o corpo perfeito: o nosso.
Tornar-se si mesmo só é possível por uma espécie de bricolagem identitária, modificando o próprio corpo para torná-lo humano, se afastando da nudez crua que nos aproximaria dos animais e, ao mesmo tempo, se aproximando de uma possível apropriação de si (Le Breton, 2002). É a partir das reflexões propostas que apostamos na hipótese de compreender o corpo, nas marcações corporais, como um instrumento de narrar a si mesmo. Nem só de comunicação verbal vive o ser humano! Corpo e ato também contam uma história.
Relatos na Carne
Até o presente momento, revisitamos diferentes práticas de marcações corporais, em diferentes tempos e contextos, e destacamos a importância do corpo como arquivo e memória de si. Se, nas sociedades tradicionais, as marcações corporais continham significado específico e socialmente pré-determinado dentro de grupos restritos; na contemporaneidade, cada signo inscrito contém um enigma a ser decifrado. As marcações corporais contemporâneas se afastam do registro universal/social e se inscrevem como parte de uma história pessoal e singular, que subjetiva e individualiza o sujeito (Le Breton, 2002). No entanto, tais marcas ainda se caracterizam como mensagens em potencial - e elas podem conter o fio da construção de uma narrativa de si.
Quando evocamos o termo narrativa¸ costumamos pensar na capacidade verbal que o ser humano tem de contar uma história: os mitos próprios de cada sociedade e cultura, as cosmogonias, relatando diferentes formas de criação do universo e do ser humano, os contos de fadas, as canções de ninar etc. Todas se configuram como relatos acerca de nossas origens (sejam elas escritas ou oralizadas). Desde o princípio deste artigo, vimos apresentando formas distintas de se contar histórias que não passam pelo verbo. O corpo aparece como mural de possibilidades de escrita e de narratividade, de forma que inscrever uma marca no corpo é também contar uma história. E se o soma passa a ser compreendido como um local passível de inscrição e de reprodução de uma narrativa corporal de si, como ficam nossas habilidades de nos contar, contar nossas próprias histórias, a partir do corpo?
Bernard Golse (2005/2011), inspirado pelas ideias do filósofo francês Paul Ricoeur, discorre acerca da identidade do ser humano como tendo uma identidade narrativa. Para o autor, narrar a si próprio é uma atividade que começa nos primórdios, com o auxílio dos adultos de seu entorno. É uma história que ganha vida através de uma coconstrução entre bebê e seus objetos primordiais, sendo uma escrita ativa e produzida a várias mãos. Dessa forma, a narratividade se apresenta como produto das interações precoces.
O corpo não pode mais ser visto apenas como repetições sem sentido. Segundo Chouvier (2008), empobrecemos a teoria psicanalítica ao pensar no somático e no agir como apenas atos de pura descarga e desperdício de sentido. Para ele, o campo do somático nos leva a pensar sobre algum tipo de signo que ficou inscrito na pele, reenviando-nos a um sentido perdido e originário que só tem como memória ele mesmo. Ele nos leva a interrogar sobre o início da vida psíquica do sujeito e suas primeiras etapas de organização, abrindo para uma nova compreensão teórica do que vem do soma. O corpo conta a história das relações interpessoais das origens, dos primeiros vínculos construídos com um outro.
Seguindo as contribuições freudianas sobre a temática em questão, lançamos mão do conceito de eu-corporal, ressaltando o fato de que o ego não está formado desde o princípio da vida, como afirma Freud (1914/1996a) em seus estudos sobre o narcisismo. Será necessário o surgimento de certa "ação psíquica", que promova o surgimento do narcisismo, para que o sujeito possa se reconhecer como ele mesmo, habitante daquele corpo e daquele psiquismo. Freud (1923/1996b) afirma que "o ego é, primeiro e acima de tudo, um ego corporal" (p. 39): a vida começa pelo corpo e pelas sensações com as quais entramos em contato. É a partir da percepção e da consciência, da maneira como sentimos e somos transformados pela nossa experiência sensorial com o mundo, que o ego se forma - e se transforma.
Daniel Stern (1992), pedopsiquiatra americano, também aponta para a importância das interações do início da vida para a construção do mundo intersubjetivo. Partindo de um estudo que leva em conta a observação de bebês, o autor afirma que a subjetivação começa com a aquisição de diferentes "sensos de eu", que vão surgindo e se entrelaçando até chegarmos ao senso de eu verbal ou narrativo. A capacidade de criar um relato autobiográfico coroa a aquisição da palavra, contudo, ela não nasce com o verbo. Haveria, já nos sensos de eu mais precoces, alguma percepção sobre si mesmo, de forma que o autor propõe a aplicação de uma perspectiva narrativa mesmo aos elementos que são da ordem do pré-verbal - como o dia a dia de um bebê.
No que diz respeito a diferentes formas possíveis de linguagem, Golse e Desjardins (2005) evocam os dois grandes registros clássicos no domínio da comunicação: a analógica e a digital. Enquanto a comunicação analógica, também chamada de infraverbal ou pré-verbal, é responsável por veicular, principalmente, emoções e afetos, transmitindo não verbalmente mensagens com conteúdos emocionais através de comportamentos não linguísticos (mímicas, olhares e gestos); a comunicação digital diz respeito a conceitos, veiculando constructos mais globais através da transmissão verbal de mensagens com conteúdos conceituais ou ideativos, através de comportamentos linguísticos (a própria fala, palavras, frases e locuções verbais).
Na mesma direção, René Roussillon (2008) apresenta como contribuição uma ideia de que os atos e movimentos que se originam do corpo não são pura tendência à descarga ou evacuação de conteúdos psíquicos, mas comportam uma dimensão de linguagem, contendo um valor mensageiro e de memória. O autor recorre a Freud e a seus escritos iniciais sobre as histéricas e suas atuações, sob a forma da conversão, assim como aos seus escritos mais próximos do final da vida, nos quais o autor evoca a "demência precoce" e os atos psicóticos como também dotados de sentido. Comportando as devidas diferenças entre uma significação mais circunscrita aos domínios da representação, presente na conversão histérica, e aos atos mais arcaicos, anteriores à aquisição de linguagem verbal, presentes nos maneirismos da psicose, o autor nos deixa clara a sua hipótese de que os atos recontam (ou tentam recontar) uma história particular do sujeito.
Roussillon (2004a) ressalta que os conteúdos presentes anteriormente ao registro da linguagem falada são guardados e expressos pelo corpo. É ele que, através de seus gestos, suas mímicas, suas posturas, sua motricidade e seus atos, nos dá notícias de uma linguagem primeva. Nessa direção, o autor destaca a importância de pensarmos em uma linguagem anterior ao tempo de aquisição da linguagem verbal, o que permite voltarmos nossa escuta clínica para discursos que englobam a totalidade do corpo e incluem ainda o afeto. Deste momento em diante, pensamos ser possível incluir as marcações corporais como fenômenos que não visam apenas uma descarga imediata de tensão, mas que possuem uma dimensão de mensagem, incluindo nestas condutas todo um campo de experiências que precedem o verbal.
Para dar conta desta afirmação, Roussillon (2004b) aposta na função mensageira da pulsão, que se somaria à redução de tensão, de forma que a pulsão carregaria também um valor subjetivo de mensagem a ser direcionada para um outro em potencial, destacando a relação existente entre ambos. Pensar a pulsão por essa via faz com que encontremos a importância presente na resposta do objeto dentro das relações intersubjetivas, assim como a possibilidade de pensarmos a pulsão (assim como o corpo e o ato) em seu papel de comunicação.
É nesse momento que duas perspectivas, presentes ao longo do texto, acerca das marcações corporais se encontram. Se, por um lado, esses fenômenos trazem um apanhado histórico que se modificou ao longo dos séculos, notamos que há, desde o início da prática, uma tentativa de comunicar algo aos seus pares, intuito que se mantém nas práticas contemporâneas, mesmo que de uma forma "atualizada". Partindo desta reflexão psicanalítica acerca de um corpo que comunica e que reconta histórias dos primórdios, colocando em jogo diferentes personagens do início da vida e uma narratividade não-verbal, as marcações corporais ganham um lugar diferenciado nesta discussão. Nem só a estética estaria em cena aqui, mas também um potencial narrativo de se contar através das marcas feitas ao/no corpo. Cada escolha de modificação corporal traz um relato diferente, único e singular - na carne. Cada marca conta uma história particular.
Em Busca de um Destinatário Possível
Retomando o caminho percorrido até aqui, fomos apresentados às diferentes práticas e movimentos existentes no mundo das marcações corporais. Vimos o surgimento de práticas ancestrais de pintura e laceração do corpo como formas vivas de entalhar mensagens. Escritas corporais que serviam como ritos de passagens, formas de embelezamento e comunicação. Estas práticas ancestrais não desaparecem, mas se multiplicam em outros formatos. Nessa direção, vimos como movimentos artísticos e políticos foram se apropriando destas práticas e modificando seus sentidos e pertencimentos. As marcações corporais se difundem pelo mundo contemporâneo ocidental ganhando visibilidade e pluralidade.
No entanto, as marcas que tinham seus significados socialmente compartilhados passam a ter uma função singular na construção contínua de si. Tornam-se mensagens em potencial, enigmas em construção, a espera de um destinatário possível. E, para que esta jornada se complete, é preciso retomarmos a compreensão de que a comunicação não se constrói apenas com palavras - conforme discutido anteriormente.
No que diz respeito à comunicação, estamos de acordo com Roussillon (2004a) na proposta de que esta deve ser considerada em diferentes graus e modalidades de organização, especialmente em um nível de linguagem pré-verbal e um nível de linguagem pós-verbal, que convivem lado a lado durante toda a vida. Em ambos estão implícitos diferentes níveis de simbolização e inscrição psíquica, necessários para que essas formas possíveis de linguagem sejam adquiridas. Enquanto a simbolização linguageira (em ação no campo da comunicação pós-verbal) já teria sofrido um processo no qual a matéria bruta se transformou em símbolo, o primeiro tempo da simbolização diz respeito a experiências mais precoces vividas pelo sujeito e que teriam sido registradas de forma diferenciada, guardadas, em especial, no corpo (Roussillon, 1999).
Na mesma direção, Golse e Desjardins (2005) consideram que esses diferentes níveis e modalidades de comunicação não devem ser compreendidos hierarquicamente, no sentido de que um passaria a substituir o outro, mas que ambos se complementam após a aquisição da linguagem verbal. A ideia seria conjugarmos ambos os níveis com o intuito de acumular elementos diferentes que auxiliariam ainda mais a mensagem passada, aumentando as chances de sua compreensão pelo interlocutor. Levando em consideração as diferenças dos elementos infraverbais e linguísticos, podemos apostar na importância da singularidade de ambos os campos para que o sucesso do alcance da mensagem possa ser ainda maior.
Quando a comunicação entre bebê e meio ambiente é "bem-sucedida" (Winnicott, 1945/ 1978), o aparelho psíquico reformula, em partes, as experiências pré-verbais, entrelaçando-as com uma narrativa que passa a conter palavras. Este é um processo longo e complicado que nos fornece uma série de habilidades linguísticas. De acordo com Roussillon (2004a), palavras começam a ser associadas com sentimentos e sensações internas, substituindo aos poucos a comunicação corporal. É importante marcar, contudo, que as dimensões do afeto e da linguagem mimo-gesto-postural não desaparecem, de forma que o discurso verbal e o pré-verbal são ambos linguagens a serem utilizadas por nós ao longo de toda a vida. E é nessa direção que nos propomos a compreender as marcações corporais como linguagem do corpo.
Em consonância com Roussillon (2004b), pensamos que a chave para acessar o corpo enquanto instrumento de comunicação está na intersubjetividade. Se há alguma história a ser rememorada e que tenta ser contada pelo corpo, é apenas a partir do encontro com o outro que toda essa dimensão vai poder ganhar valor de mensagem. Com o intuito de decifrar tais atuações, seria necessária a presença de um espectador atento a essas formas diferenciadas de comunicação. O corpo e o ato mostram no lugar de dizer. Eles recontam um momento significativo da história daquele sujeito. Porém, tais atos só se tornam uma forma de comunicação se o ambiente os recepciona e os reconhece como tal, dando sustância a eles em sua resposta.
Pensando acerca dos primórdios da vida psíquica, é apenas de acordo com a resposta da mãe/ambiente que a sensação do bebê adquire o status de mensagem. Quando esse caminho não é percorrido de forma satisfatória, as expressões somáticas do bebê não conseguem ser reconhecidas como comunicação e não ganham o valor mensageiro necessário para estabelecer uma forma de diálogo. São essas expressões primitivas não reconhecidas como tal, nos diz Roussillon (2008), que retornam tardiamente na vida do sujeito como memórias de um corpo esquecido, na forma de atos.
Dessa forma, a dimensão somática apresenta-se como dotada de um enorme potencial comunicador e narrativo. Através de um compartilhamento subjetivo da experiência - pela mensagem em potencial recebida e reconhecida pelo outro - o vivido começa a ser narrado, mesmo que a partir de um ato. Essa atuação funciona como um primeiro risco numa tela em branco, um momento a partir do qual a história pode começar a ser contada; desde que compartilhada com esse outro subjetivo (Roussillon, 2004a).
Em relação à mensagem em potencial, é importante ressaltar que não há um significado prévio e imutável a ser conduzido, mas que este será construído em parte pelo remetente e em parte pela forma como o destinatário recepcionará e responderá a essa mensagem. Caso a mensagem não seja recepcionada ou reconhecida em seu valor simbólico, seu potencial se degenera, tornando-se dessimbolizada. Ao pensarmos nos fenômenos de marcações corporais, destacamos o recurso ao corpo como a forma que o sujeito encontrou de guardar em si essa memória, ao mesmo tempo em que direciona e endereça alguma comunicação possível acerca da experiência ao outro.
Diferentemente da função exercida nos povos ancestrais, nos quais as marcações corporais têm relação direta com a transmissão de mensagens universais dentro daquela cultura e sociedade, na contemporaneidade elas surgem com um caráter distinto, no qual a mensagem não será mais codificada a priori, mas coconstruída a partir de um outro que se interesse em escutar as mensagens do corpo. Será a partir da intersubjetividade que o acesso à narrativa corporal pode ser atingido, uma vez que apostamos na ideia do corpo como um instrumento de narrar a sua própria história.
A marca não mais será universal: ela passa a ser singular, única para cada ser humano, de forma que se fabrica uma identidade de si mesmo: uma assinatura de si (Le Breton, 2002). E quem há de acessar aquilo que há de mais íntimo em nós? No entanto, diferenças à parte, há algo que permanece ao longo do tempo: ainda há uma mensagem enquanto potencial de narrativa de si a ser transmitida. Essa mensagem-enigma da contemporaneidade fica à deriva, no corpo, aguardando um outro - destinatário em construção - que se interesse em desvendar mistérios e aprender a ler relatos (en)carnados.
Referências
Araújo, L. (2005). Tatuagem, piercing e outras mensagens do corpo. Cosac Naify.
Barrault, C. (2005). L'adolescence à fleur de peau: se couper pour exister. [Tese de Doutorado, Université Henri Poincaré - Nancy I].
Cidade, N. (2020). A dimensão arcaica das automutilações: descontinuidades nos primórdios da vida. [Tese de Doutorado, PUC-Rio].
Chouvier, B. (2008). L'acte symbolique: donner un corps au fantasme. In B. Chouvier & R. Roussillon (Orgs.), Corps, acte et symbolisation (pp. 7-20). De Boeck.
Costa, A. (2014). Tatuagem e marcas corporais: atualizações do sagrado. Casa do Psicólogo. (Obra originalmente publicada em 2003).
Couto, M. (2003). Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. Companhia das Letras.
Dargent, F., & Matha, C. (2011). Blessures de l'adolescence. PUF.
Estellon, V. (2004). Tatouage sur corps ou l'envers de l'expression. Champ Psy, 4(36), 145-158. https://doi.org/10.3917/cpsy.036.0145
Falcão, J. (2021). Cortes & cartas: estudos sobre automutilação. Appris.
Favazza, A. (2011). Bodies under siege: self-mutilation, nonsuicidal self-injury, and body modification in culture and psychiatry (3a ed.). Johns Hopkins University Press. (Obra originalmente publicada em 1987).
Feldman, M. D. (1988). The challenge of self-mutilation: a review. Comprehensive Psychiatry, 29, 252-269. https://doi.org/10.1016/0010-440X(88)90048-X
Freud, S. (1996a). Sobre o narcisismo: uma introdução. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 14, pp. 77-108). Imago. (Obra originalmente publicada em 1914).
Freud, S. (1996b). O Ego e o Id. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. 19, pp. 15-80). Imago. (Obra originalmente publicada em 1923).
Gicquel, L., & Corcos, M. (2011). Les automutilations à l'adolescence. Dunod.
Golse, B. (2011). Avant-propos. In B. Golse & S. Missonier (Orgs.), Récit, attachement et psychanalyse: pour une clinique de la narrativité (pp. 7-18). Érès. (Obra originalmente publicada em 2005).
Golse, B., & Desjardins, V. (2005). Corpo, formas, movimentos e ritmo como precursores da emergência da intersubjetividade e da palavra no bebê (uma reflexão sobre os inícios da linguagem verbal). Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 8(1), 14-29. https://doi.org/10.1590/1415-47142005001003
Lauru, D. (2004). Perçons corps. Champ Psy, 4(36), 119-129. https://doi.org/10.3917/cpsy.036.0119
Le Breton, D. (2002). Signes d'identité: tatouages, piercings et autres marques corporelles. Métailié.
Le Breton, D. (2011). La peau entre signature et biffure: du tatouage et du piercing aux scarifications. Revue de psychothérapie psychanalytique de groupe, 2(57), 79-92. https://doi.org/10.3917/rppg.057.0079
Macedo, M.; Gobbi, A., & Waschburger, E. (2009). Marcas corporais na adolescência: (im)possibilidades de simbolização. Psicologia em Revista, 15(1), 90-105. https://doi.org/10.5752/P.1678-9563.2009v15n1p90
Pailler, J.-J., & Pailler, B. (2004). Tattoo? Non, il manque quelque chose. Champ Psy, 4(36), 132-143. https://doi.org/10.3917/cpsy.036.0131
Rouers, B. (2006). Les marques de l'être et du paraître: piercing, tatouages, des actes individuels et volontaires. Enfances & Psy, 3(32), 115-125. https://doi.org/10.3917/ep.032.0115
Rouers, B. (2008). Les marques corporelles des sociétés traditionnelles: un éclairage pour les pratiques contemporaines. Psychotropes, 2(14), 23-45. https://doi.org/10.3917/psyt.142.0023
Roussillon, R. (1999). Agonie, clivage et symbolisation. PUF.
Roussillon, R. (2004a). À l'écoute du bébé dans l'adulte. Exploration en psychanalyse. https://reneroussillon.com/symbolisation/48-2/
Roussillon, R. (2004b). La pulsion et l'intersubjectivité. Adolescence, 22(4), 735-753. https://doi.org/10.3917/ado.050.0735
Roussillon, R. (2008). Corps et actes messagers. In B. Chouvier & R. Roussillon (Orgs.), Corps, acte et symbolisation (pp. 23-37). De Boeck.
Stern, D. (1992). O mundo interpessoal do bebê. Artes Médicas.
Wiener, S. (2004). Le tatouage, de la parure à l'œuvre de soi. Champ Psy, 4(36), 159-170. https://doi.org/10.3917/cpsy.036.0159
Winnicott, D. (1978). Desenvolvimento emocional primitivo. In D. Winnicott, Da pediatria à psicanálise (pp. 269-286). Francisco Alves. (Obra originalmente publicada em 1945).
Endereço para correspondência
Natália de Oliveira de Paula Cidade - nataliaopcidade@gmail.com
Recebido em: 28/04/2024
Aceito em: 28/05/2025
Editor associado: Marcos Vinicius Brunhari
Conflito de interesse
A autora declara que não há conflitos de interesse.
Disponibilidade dos Dados
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.
Este artigo da revista Estudos e Pesquisas em Psicologia é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Não Comercial 3.0 Não Adaptada.